O projeto europeu Turning Blue, cofinanciado pelo Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos, das Pescas e da Aquicultura (EMFAF) e gerido pela Agência de Execução Europeia para o Clima, as Infraestruturas e o Ambiente (CINEA), em nome da Comissão Europeia, terminou após três anos de atividade, com uma conferência final realizada em Oeiras.
A iniciativa teve como principal objetivo criar oportunidades de carreira na economia azul para jovens em situação de vulnerabilidade, com idades entre os 16 e os 30 anos, incluindo jovens em contexto prisional.
Ao longo de 36 meses, o consórcio, composto por nove entidades de Portugal, Países Baixos, Roménia, Chipre e Itália, chegou a mais de 80 jovens privados de liberdade através de ações de formação ligadas à economia azul. Paralelamente, mais de 80 profissionais das áreas prisional, da orientação profissional e dos setores marítimos receberam capacitação especializada.
No total, o projeto envolveu mais de 500 participantes através de cinco seminários nacionais, um curso de formação de formadores e dois eventos europeus realizados online.
A génese da iniciativa esteve ligada à identificação do potencial dos setores marítimos como espaço de inclusão profissional. “Enquanto criminóloga, atravessava todos os dias a Ponte 25 de Abril a caminho do trabalho e não parava de pensar: porque é que não exploramos estes setores? O oceano, os portos… há ali uma oportunidade”, recorda Rita Lourenço, diretora-adjunta e responsável pela Unidade do Sistema de Justiça Criminal da Aproximar. “O que podemos fazer para juntar tudo isto e arranjar emprego para jovens vulneráveis neste setor?”, acrescenta.
Preparar a integração antes da libertação
Uma das principais apostas do Turning Blue passou por iniciar o processo de orientação e preparação profissional ainda durante o período de reclusão.
“A nossa experiência com o programa Incorpora ensinou-nos que é muito difícil trabalhar a empregabilidade quando as pessoas já estão cá fora. Temos de começar antes da libertação — com um acompanhamento de grande intensidade, normalmente entre seis a vinte meses antes da saída”, sublinha Bruno Coutinho, da Fundação “la Caixa” (Programas Incorpora y Reincorpora).
O responsável destaca ainda que “em contextos de fragilidade e vulnerabilidade, as pessoas desenvolvem competências como a criatividade e a resiliência. O nosso papel é reorientar essas competências para o mercado de trabalho”.
A metodologia desenvolvida pelo projeto combinou análise de diferentes segmentos da economia azul — incluindo pescas e aquicultura, trabalho portuário, transporte marítimo, serviços marítimos e turismo — com ações de formação prática.
“Deixamos sempre que sejam eles a decidir o que querem explorar a seguir”, explica Max ter Beek, gestor de projeto na Click F1.
Empresas chamadas a assumir compromisso
A conferência final dedicou também uma parte significativa da discussão ao papel dos empregadores na promoção da reinserção profissional de pessoas em situação de vulnerabilidade.
“As empresas e organizações têm uma responsabilidade social nesta matéria. Há tantas oportunidades espalhadas pelo território português, só precisamos de acreditar que é possível”, afirmou Márcia Passos, da DocaPesca.
Na mesma linha, Kenny Baas, da Bek & Verburg, defendeu que “é preciso um verdadeiro compromisso por parte do empregador, e o apoio de mentores e organizações é igualmente importante”.
Entre os resultados alcançados pelo consórcio destacam-se o desenvolvimento de um curso de sensibilização para a economia azul, a criação de um modelo de transição que articula serviços prisionais, orientadores profissionais, empregadores e organizações da sociedade civil, bem como uma plataforma digital de correspondência de emprego e um programa de mentoria.
Embora a conferência em Oeiras assinale o encerramento formal do projeto, os promotores garantem que o trabalho desenvolvido continuará a gerar novos desenvolvimentos nos próximos meses.








