Quase 40 mil icebergs encalhados mapeados pela primeira vez em toda a costa da Antártida

O estudo identificou 39.619 icebergs encalhados em 2025. Em conjunto, estas estruturas ocupam uma área de cerca de 13.430 quilómetros quadrados e distribuem-se por 57% da costa antártica. No entanto, a sua presença é bastante desigual: apenas 14% da costa concentra 80% de todos os icebergs identificados.

Redação

Quase 40 mil icebergs encalhados no fundo do mar foram identificados em toda a costa da Antártida, num primeiro mapa de alta resolução que revela a distribuição destas estruturas e o seu papel na estabilidade do gelo marinho costeiro.

O levantamento, desenvolvido por investigadores do Australian Antarctic Program Partnership, da Institute for Marine and Antarctic Studies, da Australian Antarctic Division e da Geoscience Australia, recorreu a imagens de radar do satélite Sentinel-1 e a uma ferramenta de inteligência artificial treinada para identificar automaticamente os icebergs que permanecem fixos no fundo do mar.

O estudo, publicado na revista Earth System Science Data, identificou 39.619 icebergs encalhados em 2025. Em conjunto, estas estruturas ocupam uma área de cerca de 13.430 quilómetros quadrados e distribuem-se por 57% da costa antártica. No entanto, a sua presença é bastante desigual: apenas 14% da costa concentra 80% de todos os icebergs identificados.

Uma das principais conclusões diz respeito à dimensão destas estruturas. Ao contrário do que poderia sugerir a atenção habitualmente dada aos grandes icebergs, são os de menor dimensão que dominam o conjunto. Os icebergs com menos de um quilómetro quadrado representam 93% do total e correspondem a 54% da área ocupada pelos icebergs encalhados.

A utilização de imagens do Sentinel-1 e de um sistema automatizado permitiu identificar estruturas com apenas 1,6 hectares, reduzindo significativamente a dimensão mínima que podia ser detetada através de métodos anteriores.

Um efeito de “cerca”

Os investigadores consideram que a elevada concentração destes pequenos icebergs em águas pouco profundas contribui para o chamado “efeito de cerca” (picket fence effect). Tal como os postes de uma vedação, os icebergs encalhados funcionam como pontos de ancoragem que ajudam a manter no lugar o gelo marinho costeiro, conhecido como landfast ice.

Este gelo desempenha, por sua vez, um papel importante na proteção das plataformas de gelo antárticas, ao contribuir para reduzir a sua exposição à ação do oceano Austral. Os icebergs encalhados proporcionam também habitat e nutrientes para os ecossistemas marinhos.

A distribuição agora identificada poderá ajudar a compreender melhor a forma como estas zonas costeiras respondem às alterações climáticas. Os investigadores alertam que os icebergs de menor dimensão podem ser particularmente vulneráveis ao aquecimento do oceano, derretendo mais rapidamente e deixando de estar presos ao fundo do mar.

Essa perda de pontos de ancoragem poderá provocar alterações relativamente rápidas na estabilidade do gelo marinho costeiro e, consequentemente, na dinâmica das zonas costeiras da Antártida.

O novo conjunto de dados pretende servir de referência para futuros modelos sobre a estabilidade do gelo costeiro e para acompanhar alterações ambientais no continente antártico.

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