Cerca de 40% das espécies de pequenos mamíferos analisadas em todo o mundo estão associadas a uma zona climática específica, revela um novo estudo baseado em mais de 4 200 espécies. Publicado na revista Nature Communications, o trabalho conta com a participação do investigador da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), Neftalí Sillero, e do investigador Iván Rey-Rodríguez, da Universidade de Vigo, que esteve durante um ano integrado no Spatial Biology Lab da FCUP.
A ideia para esta investigação surgiu de uma observação frequente em pequenos mamíferos: são animais muito ligados às condições climáticas e ambientais e, portanto, potencialmente sensíveis às suas alterações.
“Quisemos testar esta ideia a nível global: verificar até que ponto os pequenos mamíferos são realmente especialistas climáticos e ver se essa especialização está relacionada com a sua história evolutiva e os seus padrões de diversificação”, explica Neftalí Sillero, investigador no Spatial Biology Lab especializado na modelação e distribuição das espécies.
No total, os cientistas analisaram 4231 espécies pertencentes a quatro grupos: Chiroptera (morcegos), Eulipotyphla (toupeiras, ouriços), Lagomorpha (coelhos e lebres) e Rodentia (ratos). Entre os exemplos mais comuns presentes em Portugal estão, por exemplo, a toupeira, a lebre, o coelho e o rato do campo.
Os autores do estudo verificaram que quatro em cada dez destas espécies são especialistas climáticas, ou seja, estão restritas a uma das cinco principais zonas climáticas (tropical, seco, temperado, continental e polar). Concluíram também que metade destas são superespecialistas climáticas, estando restritas a uma das 30 subzonas climáticas.
A especialização climática ocorre nos quatro grupos analisados, mas é particularmente frequente entre os roedores e está associada principalmente a climas tropicais, temperados e áridos.
Uma maior especialização climática poderá, contudo, representar uma maior vulnerabilidade perante alterações rápidas das condições ambientais, uma hipótese que a equipa, que integra mais sete investigadores da Universidade de Vigo, pretende agora testar.
“Uma espécie climaticamente especialista ocupa uma amplitude de condições climáticas mais restrita do que uma generalista e, portanto, poderá ter uma menor capacidade de resposta a alterações rápidas nessas condições”, reforça Iván Rey-Rodríguez, autor principal do trabalho.
Os resultados mostram também que a especialização climática está fortemente associada à diversificação de algumas linhagens de pequenos mamíferos. No entanto, as linhagens com maior especialização climática não são necessariamente aquelas que apresentam maior riqueza de espécies. A idade das famílias revelou-se um fator importante: as famílias mais antigas tendem a acumular mais espécies ao longo do tempo.
Como próximos passos, o objetivo dos investigadores é perceber se a vulnerabilidade às alterações climáticas nestas espécies também varia entre grupos ou regiões.
Nesta investigação, os cientistas olham não apenas para o futuro, mas também para o passado destas espécies. “Os pequenos mamíferos são utilizados há décadas para reconstruir os ambientes e climas do passado, pelo que podemos estudar como a sua especialização climática e a composição das suas comunidades responderam às grandes alterações climáticas do Quaternário”, salienta Neftalí Sillero.
Ao ligar passado, presente e futuro, o estudo contribui para compreender melhor de que forma o clima condicionou a diversidade dos pequenos mamíferos ao longo da sua história evolutiva e como as alterações das condições climáticas poderão influenciar estas espécies nas próximas décadas.









