Um estudo conduzido por investigadores da Universidade de Adelaide e da Estação de Investigação de Kangaroo Island revela que queimadas controladas podem, afinal, favorecer a proliferação de espécies invasoras, contrariando a prática comum de gestão ambiental.
A investigação analisou os efeitos de uma queimada prescrita realizada no outono de 2023 no Parque de Conservação de Morialta, na região das Adelaide Hills, na Austrália, avaliando o impacto sobre a planta invasora da espécie Chrysanthemoides monilifera e sobre orquídeas nativas. Dezasseis meses após o fogo, os resultados mostraram um aumento significativo da densidade de Chrysanthemoides monilifera nas áreas queimadas, em comparação com zonas não intervencionadas.
Classificada como uma erva daninha de importância nacional na Austrália, esta espécie tem vindo a expandir-se na cordilheira de Mount Lofty, embora ainda não tenha atingido Kangaroo Island.
A autora principal do estudo, Jess Klatt, destacou o crescimento expressivo da planta após o incêndio controlado. “Observámos uma densidade substancialmente maior de Chrysanthemoides monilifera na área queimada, com um aumento acentuado de plântulas após o fogo”, afirmou. Segundo a investigadora, estes dados sugerem que o fogo cria condições ideais para o estabelecimento e expansão da espécie invasora.
O impacto não se limita à flora invasora. O estudo indica que a maioria das orquídeas nativas apresentou menor abundância nas áreas queimadas. Mesmo a chamada orquídea-do-fogo (Pyrorchis nigricans), frequentemente associada a ambientes pós-incêndio, registou maior densidade em zonas não queimadas e não apresentou floração no pico da época.
Os investigadores alertam ainda para os custos acrescidos associados à gestão destas áreas. A remoção de infestantes em terrenos sujeitos a queimadas poderá ser até 17 vezes mais dispendiosa do que em áreas não queimadas.
Para o coautor Topa Petit, as práticas de gestão devem assentar em evidência científica. “A gestão não pode basear-se em crenças ou ideias feitas. Tal como a maioria das plantas, a orquídea-do-fogo não ‘necessita’ de queimadas prescritas”, sublinhou.
O estudo recomenda a suspensão temporária de queimadas controladas no parque até que a infestação seja controlada, defendendo uma reavaliação destas práticas à luz do conhecimento científico. Os autores salientam ainda que outras espécies invasoras sensíveis ao fogo presentes na área podem agravar a degradação dos habitats naturais.
Os resultados reforçam a necessidade de monitorização rigorosa dos efeitos ecológicos das queimadas controladas, uma ferramenta amplamente utilizada na prevenção de incêndios, mas cujo impacto pode ser mais complexo do que se pensava.









