“Químicos eternos” encontrados em renas no remoto arquipélago ártico de Svalbard

No frio arquipélago de Svalbard, no Círculo Polar Ártico a cerca de mil quilómetros da costa da Noruega, um grupo de renas evoluiu tão remotamente e durante tanto tempo que se tornou uma subespécie de direito próprio, a Rangifer tarandus platyrhynchus. Mas nem todo esse isolamento é suficiente para proteger o maior herbívoro terrestre de Svalbard do flagelo dos “químicos eternos”.

Redação

Os “químicos eternos” são considerados dos poluentes em maior expansão a nível global, representando perigos para o ambiente e para a saúde. Conhecidas como substâncias per- e polifluoroalquiladas, ou PFAS, podem demorar séculos a degradar-se e estão associadas a problemas de fertilidade e de desenvolvimento, a cancros e a perturbações hormonais.

O facto de estarem a ser encontrados em locais onde não se esperaria encontrá-los é sinal de que o mundo industrializado tem um alcance maior do que se poderia pensar. Nem mesmo os lugares mais remotos do planeta estão a salvo da poluição causada pelos humanos.

No frio arquipélago de Svalbard, no Círculo Polar Ártico a cerca de mil quilómetros da costa da Noruega, um grupo de renas evoluiu tão remotamente e durante tanto tempo que se tornou uma subespécie de direito próprio, a Rangifer tarandus platyrhynchus.

Um grupo de cientistas descobriu agora que nem todo esse isolamento é suficiente para proteger o maior herbívoro terrestre de Svalbard do flagelo dos “químicos eternos”.

Poluentes persistentes, como DDT, já foram encontrados no Ártico em predadores de topo como os ursos-polares (Ursus maritimus), que se alimentam de outros animais contaminados com essas substâncias, que podem tê-las trazido consigo de outras partes do mundo ou que podem ter-se alimentado de presas que as tenham transportado desde águas mais poluídas.

Assim, os predadores de topo, o cimo da cadeia alimentar, acabam por concentrar nos seus corpos toda a contaminação que não se degrada e que se vai acumulando nos tecidos das suas presas, bem como nos das presas das suas presas. Mas como estarão as renas de Svalbard, que se alimentam de plantas?

Num artigo publicado na revista ‘Environmental Science & Technology’, uma equipa de cientistas, liderada pelo Centro Universitário de Svalbard e pela Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, descobriu que os níveis de “químicos eternos” nas renas de Svalbard estão a aumentar vertiginosamente.

Malin Andersson Stavridis, primeira autora do estudo, esteve quatro anos nesse arquipélago e chegou mesmo a pensar que as medições que fazia dos níveis de “químicos eternos” nas renas estavam erradas. As amostras foram recolhidas de pêlos e fezes dos animais, recolhidas sem perturbação das renas, bem como de músculos e de fígados de alguns indivíduos que, com a autorização do governador de Svalbard e no âmbito de um projeto internacional, foram abatidos para fins científicos.

Os níveis de PFAS nessas renas eram dos mais elevados de todas as subespécies de renas no Ártico e aumentaram drasticamente na última década, mais de 900%, de uma média de 0,6 nanogramas por grama para 5,48 nanogramas por grama.

Stavridis diz que não sabe ainda o que poderá estar por detrás dessa subida acentuada dos níveis de “químicos eternos” nos organismos das renas em Svalbard. Poderia ter algo a ver com uma eventual mudança nos hábitos alimentares desses grandes herbívoros? Talvez, responde a investigadora, mas isso não explicaria completamente a grande mudança que se observou em 10 anos. Assim, o mistério continua ainda por resolver, mas os cientistas acreditam que este trabalho poderá abrir vias para novas investigações.

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