Químicos proibidos há mais de 50 anos continuam a ser detetados em toda a Europa

A análise abrangeu estudos realizados em 25 países europeus e identificou concentrações destes compostos tanto em zonas afetadas pela atividade humana como em ambientes remotos.

Redação

Uma nova revisão científica revela que substâncias químicas proibidas há mais de meio século continuam presentes em diferentes ambientes na Europa, incluindo no ar, água, sedimentos, solos, neve e lamas. Os investigadores alertam que estes contaminantes persistentes continuam a circular nos ecossistemas, apesar das restrições regulamentares introduzidas há décadas.

O estudo, liderado pelo professor Khaled Abass, da College of Health Sciences da University of Sharjah, analisou a presença de éteres difenílicos polibromados (PBDE), substâncias utilizadas durante décadas como retardadores de chama em equipamentos eletrónicos, têxteis, plásticos, veículos, mobiliário e materiais de construção. A análise abrangeu estudos realizados em 25 países europeus e identificou concentrações destes compostos tanto em zonas afetadas pela atividade humana como em ambientes remotos.

“Uma das conclusões mais importantes é o predomínio do BDE-209 em matrizes ricas em partículas, incluindo sedimentos, lamas, sistemas relacionados com águas residuais e deposição. Isto é importante porque os sedimentos e as lamas não são locais de armazenamento passivos”, explica Khaled Abass.

Segundo os investigadores, os sedimentos podem funcionar como reservatórios ambientais de longa duração, libertando gradualmente contaminantes para cursos de água, solos, sistemas de gestão de resíduos e cadeias alimentares. Já compostos com menor grau de bromação, como o BDE-47 e o BDE-99, foram encontrados com maior frequência em amostras de ar e solo, demonstrando que o comportamento e a distribuição dos PBDE variam consoante o compartimento ambiental.

Os resultados foram publicados na revista científica Environmental Research e resultam de uma revisão sistemática que reuniu investigadores da University of Sharjah, da University of Oulu, na Finlândia, da Technical University of Ostrava, na República Checa, e da University of Belgrade, na Sérvia.

A equipa analisou 181 estudos que cumpriam os critérios definidos, abrangendo diferentes matrizes ambientais, entre as quais ar, água, sedimentos, solos, neve e neve compactada (firn), e lamas. A revisão seguiu as orientações PRISMA para revisões sistemáticas e avaliou também a qualidade dos estudos e o risco de viés.

“Os PBDE foram amplamente detetados em toda a Europa, tanto em ambientes afetados como em locais remotos, com distribuições fortemente dependentes do tipo de matriz”, referem os autores. “A água apresentou, de um modo geral, concentrações mais baixas e transitórias, enquanto os sedimentos, as lamas e alguns solos funcionaram como importantes reservatórios.”

Poluentes do passado que continuam presentes

A investigação mostra que a presença destes compostos não está limitada a antigas zonas industriais ou áreas urbanas. Os PBDE foram também identificados em locais alpinos, no Ártico e noutras zonas consideradas de referência, o que evidencia a sua persistência ambiental e capacidade de transporte a longa distância.

Os investigadores apontam que estes contaminantes continuam a ser detetados devido à sua permanência em produtos de consumo antigos, materiais reciclados, fluxos de resíduos, reservatórios contaminados, sedimentos, solos e ambientes interiores.

As conclusões colocam em causa a ideia de que uma substância perigosa desaparece progressivamente depois de ser proibida. Na realidade, os chamados poluentes legados podem continuar a circular entre diferentes compartimentos ambientais durante décadas após o fim da sua produção e utilização.

“A evidência europeia evidencia também uma difícil tensão ao nível das políticas públicas. A Europa está a avançar para modelos de economia circular mais ambiciosos, mas a circularidade sem segurança química pode, involuntariamente, voltar a colocar em circulação poluentes legados”, alerta Khaled Abass.

O investigador acrescenta que materiais originalmente produzidos para aumentar a segurança contra incêndios podem voltar a integrar novas cadeias de produtos através da reciclagem, caso os contaminantes presentes nos materiais antigos não sejam devidamente monitorizados.

Monitorização terá de ser reforçada

Perante estes resultados, os autores defendem estratégias de monitorização mais abrangentes e coordenadas, com acompanhamento de diferentes matrizes ambientais e maior atenção ao BDE-209, aos seus produtos de transformação e aos retardadores de chama utilizados como substitutos.

“Monitorizar apenas uma matriz, um país ou um grupo de congéneres já não é suficiente”, sublinha Abass. “Os PBDE circulam entre sistemas interligados: dos produtos para o pó, do pó para as águas residuais, das águas residuais para as lamas, das lamas para os solos e dos sedimentos para as cadeias alimentares aquáticas.”

A investigação chama ainda a atenção para a exposição no interior dos edifícios. O ar interior e o pó doméstico continuam a constituir importantes vias de exposição, sobretudo em espaços com elevada concentração de equipamentos eletrónicos.

Os investigadores defendem, por isso, que governos e entidades reguladoras devem prestar maior atenção à presença destes poluentes em habitações, escritórios, escolas e locais de trabalho, tendo em conta o tempo que as populações passam em ambientes interiores.

“A Europa fez progressos significativos no controlo dos PBDE. No entanto, o historial de contaminação demonstra que decisões tomadas no passado continuam a influenciar a exposição presente e futura. Os PBDE não são, por isso, apenas poluentes do passado. São substâncias químicas legadas que continuam ativamente presentes no ambiente”, conclui Khaled Abass.

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