Redes sociais ajudam a perceber como as pessoas veem as espécies invasoras

Uma equipa de investigadores vasculhou milhares de publicações na rede social online X (antigo Twitter) para avaliar de que forma os internautas falam de espécies invasoras, consideradas uma das grandes ameaças à biodiversidade a nível global.

Filipe Pimentel Rações

As redes sociais são um manancial de informação sobre como as pessoas veem o mundo e não menos o serão para assuntos relacionados com a conservação.

Uma equipa de investigadores percebeu isso mesmo e vasculhou milhares de publicações na rede social online X (antigo Twitter) para avaliar de que forma os internautas falam de espécies invasoras, consideradas uma das grandes ameaças à biodiversidade a nível global.

Analisando mais de 500 mil tweets publicados entre 2006 e 2021 com referências a “espécies invasoras”, percebeu-se que os discursos tendem fortemente a ter os animais como protagonistas, muito mais do que as plantas. Os gatos estão no topo da lista dos animais mais mencionados em publicações sobre espécies invasoras, seguidos pelos porcos, cães, esquilos, cabras, ratos e cavalos.

Num artigo publicado na revista ‘Ecology and Society’, os cientistas salientam a escassez de referências a plantas nos discursos sobre espécies invasoras nas redes sociais. A isso chamam de “plant blindness”, ou, traduzindo livremente para português, “cegueira vegetal”.

Apesar desse viés a favor dos animais, e dos mamíferos, “algumas das espécies invasoras mais prejudiciais são plantas”, salienta Susan Canavan, da Universidade de Galway, na Irlanda, e primeira autora do estudo. “Mas não captam a imaginação do público da mesma forma que os animais”.

“Quando as plantas invasoras são invisíveis no discurso público, conseguir apoio para a sua gestão torna-se exponencialmente mais difícil”, acrescenta, recordando que as plantas atraem, em média, menos de 4% do financiamento geral para a conservação, uma disparidade que estes investigadores dizem estar bem refletida nas redes sociais e que é reforçada por elas.

A investigação revelou também que cerca de 60% de todos os conteúdos partilhados, ou retweetados, sobre espécies invasoras foram gerados por apenas 1% dos utilizadores. Dessa minoria constam fontes confiáveis, como The New York Times, CNN, agências governamentais e biólogos, mas também pessoas sem a menor especialização em conservação, mas com um grande alcance, como influenciadores e celebridades digitais.

Assim, Canavan salienta que “um reduzido número de vozes molda a forma como milhões de pessoas entendem as espécies invasoras”.

Esta equipa diz que a aquisição do Twitter (agora X) pelo magnata Elon Musk em 2022 veio tornar mais complicado o acesso de académicos e cientistas a dados que permitem, de alguma forma, perceber como as pessoas pensam e falam sobre determinados temas, incluindo tópicos relevantes para a conservação da biodiversidade.

O acesso aos dados da rede social é agora mais caro, dizem os autores do artigo, ficando além das capacidades de muitos investigadores, pelo que estudos futuros sobre perceções públicas podem ter ficado sem uma importante fonte de informação.

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