Desde a década de 1980 que não havia registos científicos do peixe Microphis spinachioides, membro da família dos cavalos-marinhos (Singnatídeos), nativo da Papua-Nova Guiné e encontrado apenas no Rio Sepik.
Em junho, uma equipa de investigadores do New Guinea Binatang Research Centre lançou-se em busca do misterioso animal, sobre o qual muito pouco ainda se conhece, ao longo do curso de água com mais de mil quilómetros que atravessa o norte desse país do Pacífico sudoeste.
Durante duas semanas, os cientistas Jerrica Agebigo e Roger Maikei percorreram o rio em canoas motorizadas, viajando entre as comunidades que vivem nas margens do Sepik e de alguns dos seus afluentes, como os rios Porapora, Keram e Yuat. Falaram com as comunidades locais, exploraram os rios e visitaram mercados locais para examinar os peixes capturados.

Os investigadores mostraram imagens do críptico peixe a anciãos, pescadores e vendedores, tanto a homens como a mulheres, na esperança de obter informações de quem mais intimamente conhece o território. Algumas pessoas reconheceram o animal e tinham até nomes próprios para ele, como “Karuweng”, “Inap”, “Karuwena” e “Sako”.
A grande descoberta (ou redescoberta) aconteceu quando a equipa visitou a aldeia de Imbando e conheceu Helen Asu, uma pescadora de crustáceo no Rio Sepik. Ao ver as imagens que lhe foram mostradas, Asu reconhece o peixe e concordou em manter-se atenta a ele da próxima vez que fosse pescar.
Logo na manhã seguinte, Asu chamou os investigadores e apresentou-lhes dois peixes esguios que apanhara na sua “umben”, uma rede tradicional de mão usada para apanhar camarões e outros pequenos animais aquáticos no rio.
Os cientistas fotografaram os exemplares capturados e enviaram as imagens para Gerald Allen, especialista australiano em peixes, que confirmou que se tratava realmente o misterioso animal que se pensava extinto há mais de 40 anos.

“Sem o seu conhecimento, iniciativa e disponibilidade para ajudar, a redescoberta poderia não ter sido possível”, diz Agebigo, referindo-se a Helen Asu.
O peixe Microphis spinachioides, ao contrário de outros membros da sua família, que vivem em águas marinhas tropicais e temperadas, habitam ambientes de água doce. Contudo, como os cavalos-marinhos e os dragões-marinhos, também são os machos que carregam e incubam os ovos transferidos para os seus corpos pelas fêmeas.
Por ser difícil de encontrar, não há dados suficientes atualmente sobre o Microphis spinachioides que permitam avaliar o estado de conservação da espécie, sendo, por isso, desconhecido se está ou não em risco de extinção.
Para os investigadores, este trabalho deixa clara a importância do envolvimento das comunidades locais e o seu conhecimento em projetos de investigação científica.
A Microphis spinachioides era uma das espécies mais procuradas da iniciativa “Em busca dos peixes perdidos” (“Search for the Lost Fishes”, no inglês original), lançada em 2021 pelas organizações SHOAL e Re:wild. O objetivo é redescobrir espécies “perdidas” de peixes, ou seja, que não tenha registos científicos formais há mais de 10 anos, mas que não foram ainda declaradas como extintas.

Agora, a Microphis spinachioides tornou-se a terceira da lista dos 10 peixes mais procurados a ser redescoberta.
“Cada redescoberta recorda-nos que ainda há esperança, mas também salienta o quanto ainda não sabemos sobre a biodiversidade de espécies de água doce do mundo e o quão urgentemente estes ecossistemas necessitam de maior proteção”, sublinha Mike Baltzer, diretor-executivo da SHOAL, que apoiou esta investigação.
“Este sucesso mostra o que se consegue alcançar quando o conhecimento local, a expertise científica e as organizações de conservação trabalham em conjunto em prol de um objetivo comum”, destaca.
Os investigadores querem agora recolher mais dados sobre a espécie, como a sua área de distribuição no Rio Sepik, a dimensão da população e quais as condições que mais lhe são favoráveis.









