Repelentes podem vir a tornar-se inúteis para afastar mosquitos. E podem mesmo atraí-los

Uma investigação liderada pelo Instituto de Investigação sobre a Biologia dos Insetos, da Universidade de Tours (França), revela que se os mosquitos forem repetidamente expostos ao DEET, uma das substâncias mais usadas em repelentes a nível mundial, poderão adquirir resistência aos seus efeitos.

Redação

O verão está à porta e muitas pessoas estão a preparar as férias e a pôr nas malas de viagem repelente para mosquitos, para poderem passar serões no exterior sem serem picados. Contudo, essas defesas químicas podem vir a tornar-se ineficazes e até atrair esses insetos alados.

Uma investigação liderada pelo Instituto de Investigação sobre a Biologia dos Insetos, da Universidade de Tours (França), revela que se os mosquitos forem repetidamente expostos ao DEET, uma das substâncias mais usadas em repelentes a nível mundial, poderão adquirir resistência aos seus efeitos.

Além disso, segundo o artigo publicado na revista ‘Journal of Experimental Biology’, em certas situações, os repelentes com DEET podem mesmo servir como chamariz de mosquitos, porque esses insetos podem aprender a associar o odor do DEET a uma refeição. Assim, os mosquitos passam a saber que o DEET é sinal de que uma refeição de sangue quente está por perto, seguindo a pista odorífera até ao humano incauto que achou que colocar o repelente manteria afastados os insetos picadores.

Dessa forma, é possível que pessoas que coloquem repelentes com DEET venham a ter uma maior probabilidade de serem piscadas por mosquitos do que aquelas que não estiverem a usá-lo.

A descoberta resulta de experiências feitas com mosquitos-da-fere-amarela (Aedes aegypti), conhecidos transmissores de vírus que causam doenças como febre-amarela, dengue, zika e chikungunya.

Em laboratório, os investigadores, numa revisitação das experiências de condicionamento do famoso fisiologista russo Ivan Pavlov, quiseram perceber se seria possível os mosquitos aprenderem a associar o odor de DEET com alimento.

A equipa colocou alguns mosquitos atrás de uma rede e apresentou-lhes um saco com sangue, além do alcance dos insetos, que energicamente procuravam picar o saco com as suas probóscides. Para recompensar o esforço, os cientistas aproximaram o saco dos mosquitos, que puderam refastelar-se.

No entanto, quando lhes era oferecido sangue impregnado com o odor de DEET, os mosquitos mantinham-se bem afastados. Para perceber se também estes animais eram capazes de condicionamento, foram alimentados com sangue durante 20 segundos, sendo que nos últimos 10 o odor de DEET foi introduzido na caixa onde eram mantidos os insetos. O procedimento foi repetido três vezes, após o que os investigadores observaram a reação dos mosquitos na presença de DEET sem o saco de sangue.

Mais de 60% dos mosquitos lançou-se em busca do sangue, ainda que só tenham cheirado a substância supostamente repelente. Depois, um dos investigadores ofereceu as suas duas mãos aos mosquitos: uma repleta de DEET e outra totalmente limpa. Os insetos lançaram-se sobre a mão com o repelente.

Conclusão? “Se um mosquito picar alguém que tenha aplicado DEET na sua pele várias horas antes e a concentração do repelente foi demasiado baixa para repelir o mosquito, mas ainda suficientemente forte para o inseto cheirá-lo, poderá ser mais provável que o mosquito pique a pessoa que cheira a DEET”, explica Claudio Lazzari, primeiro autor do estudo.

Apesar de tudo, o investigador assegura que o DEET continua a ser o repelente disponível mais eficaz e que pode mesmo salvar vidas, ao proteger as pessoas das picadas de insetos transportadores de doenças.

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