Reprodução seletiva e treino afetam a forma como os cães compreendem os humanos

Uma nova investigação revela que os cães, ao longo da sua evolução do lado os humanos, desenvolveram “capacidades comunicacionais excecionais”, tanto através de adaptações promovidas pela pressão da reprodução seletiva que exercemos sobre eles, como pela sua capacidade individual de aprendizagem.

Redação

Com uma evolução conjunta com dezenas de milhares de anos, as relações entre cães e humanos são consideradas das mais marcantes da história da nossa espécie.

Os cães, enquanto protetores de rebanhos e manadas, contribuíram para a transição para sociedades sedentárias e para a promoção da agricultura e da pecuária. Mais recentemente, transformaram-se, em muitos casos, em verdadeiros membros da família humana.

O sucesso dessa relação assenta, de certa forma, tal como em qualquer outra relação, na capacidade de comunicação e na capacidade de o recetor entender, ainda que possa ser em traços gerais, a mensagem do emissor.

Uma nova investigação revela que os cães, ao longo da sua evolução do lado os humanos, desenvolveram “capacidades comunicacionais excecionais”, tanto através de adaptações promovidas pela pressão da reprodução seletiva que exercemos sobre eles, como pela sua capacidade individual de aprendizagem.

Na revista ‘The Journal of Neuroscience’, três investigadoras da Universidade de Harvard (Estados Unidos da América) estudaram o funcionamento dos cérebros de 108 cães para tentarem descobrir como é que essa co-evolução alterou a capacidade e atividade neuronais dos canídeos. Para isso, usaram técnicas não invasivas de imagiologia em 3D.

A equipa descobriu que a reprodução seletiva para uma melhor integração dos cães nas vidas de trabalho e familiares dos humanos alterou as vias neuronais relacionadas com a comunicação, comparativamente com as de linhagens mais antigas de cães. As investigadoras dizem que essas alterações são bem visíveis em vias neuronais associadas ao processamento vocal e da linguagem.

Ao compararem os cérebros de cães treinados para desempenharem funções específicas com os de canídeos com passado reprodutivo semelhante, mas sem esse treino, descobriu-se que o treino altera a força das vias neuronais relacionadas com a capacidade para interpretar pistas ou sinais e para executar respostas.

Os cães treinados apresentavam também ligações mais fortes entre áreas do cérebro associadas à capacidade de resposta à comunicação dos outros.

As investigadoras consideram que este trabalho sugere que a seleção genética através da reprodução e a experiência individual de cada animal moldaram a capacidade de comunicação dos cães.

“Penso que esta investigação pode ajudar-nos a compreender melhor não só os cães, mas também a relação humano-cão”, diz Mélina Cordeau, primeira autora do estudo.

“Ao identificar como os cães processam a comunicação humana e como a reprodução e o treino moldam essas capacidades, podemos, talvez, vir a conseguir melhorar a forma como interagimos com os cães, afinar abordagens de treino e fazer com que o treino de cães de assistência seja mais eficaz e esteja mais bem adaptado a cada cão individual”, detalha.

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