O governo da República Democrática do Congo (RDC) abriu concurso público para mais de 50 novas áreas de exploração de petróleo e gás, espalhadas por mais de metade do país.
A revelação é feita pela organização não-governamental Earth Insight, em colaboração com grupos locais, que fala de “uma expansão dramática das atividades extrativas que representa graves ameaçadas às florestas e áreas protegidas que são fundamentais para a saúde das comunidades e do planeta”.
De acordo com as informações avançadas, as áreas de exploração de combustíveis fósseis sobrepõem-se a 8,3 milhões de hectares de áreas protegidas, a 8,6 milhões de hectares de zonas de grande importância para a conservação da biodiversidade e a quase 67 milhões de hectares de florestas tropicais intocadas.
Os ambientalistas alertam que o plano de expansão da exploração de combustíveis fósseis na RDC representa um “sério risco” para a maior turfeira tropical do mundo, conhecida como Cuvette Centrale, uma zona húmida de grande importância para o combate às alterações climáticas, estimando-se que tenha capacidade para armazenar 30 mil milhões de toneladas de carbono.
Segundo o relatório, a maioria de Cuvette Centrale está agora aberta à exploração petrolífera e de gás, ameaçando não apenas esse sumidouro natural de carbono, mas também espécies de animais em risco de extinção, como os gorilas-das-planícies-orientais (Gorilla beringei graueri) e os elefantes-da-floresta (Loxodonta cyclotis), classificadas como “Criticamente em perigo”, de acordo com a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza.
Além disso, 72% do corredor ecológico Kivu-Kinshasa, cuja criação o governo da RDC anunciou em janeiro deste ano no Fórum Económico Mundial em Davos, estarão abertos para exploração petrolífera.
Os impactos das novas áreas de exploração de combustíveis fósseis estendem-se também às populações locais, com a Earth Insight a estimar que 39 milhões de pessoas de cerca de 37 mil cidades, vilas e aldeias passarão a viver dentro dessas áreas.
“Isso inclui muitos Povos Indígenas e comunidades florestais que dependem de florestas intactas, rios e ecossistemas saudáveis para a sua subsistência, culturas e sobrevivência”, avisa a organização.
A decisão do governo de avançar com a expansão da exploração petrolífera no país foi recebida com críticas e protestos por parte da sociedade civil local e internacional.
“Imagine-se: 39 milhões de congoleses – quase metade da população – e 64% das nossas florestas poderão ser afetadas diretamente pela atribuição desses locos petrolíferos”, diz Pascal Mirindi, coordenador da campanha “Norte Terre Sans Pétrole” (“A Nossa Terra Sem Petróleo”, em tradução livre para português), que foi criada em reação à decisão do governo.
“E tudo isto enquanto o governo está a promover o ‘corredor ecológico Kivu-Kinshasa’. Onde está a lógica? Onde está a coerência?”, questiona.
Por sua vez, Anna Bebbington, investigadora da Earth Insight, afirma que a exploração de petróleo e gás “nestes ecossistemas frágeis poderá ter impactos devastadores na biodiversidade, nas comunidades, nos direitos à terra e na luta global contra as alterações climáticas”.
A organização ambientalista urge o governo da RDC que cancela o concurso para as novas explorações e invista, ao invés, “em modelos de desenvolvimento alternativos” que respeitem os direitos dos Povos Indígenas e das comunidades locais, que ajudem a manter os modos de subsistência locais e protejam a biodiversidade e o clima.









