Reservatórios cársicos são “esponjas de carbono” subestimadas, dizem investigadores

Num estudo publicado na revista ‘Carbon Research’, explicam que essas “esponjas de carbono” não representam apenas ecossistemas únicos que capturam grandes quantidades de carbono, mas também aprisionam-no numa forma estável e duradoura.

Redação

Reservatórios de água, como albufeiras, criados sobre paisagens cársicas formadas por rochas solúveis como o calcário, são sumidouros de carbono altamente eficazes, dizem cientistas.

Num estudo publicado na revista ‘Carbon Research’, explicam que essas “esponjas de carbono” não representam apenas ecossistemas únicos que capturam grandes quantidades de carbono, mas também aprisionam-no numa forma estável e duradoura.

A investigação, encabeçada pela Universidade de Guizhou, centrou-se no Reservatório Songbaishan, na China, um sistema com uma base cársica. Através de técnicas como a análise de isótopos estáveis, o fracionamento do carbono orgânico e a espectrometria de massa de alta-resolução, os cientistas construíram uma imagem detalhada do ciclo de carbono nesse reservatório.

Dessa forma, conseguiram saber quanto carbono era produzido no reservatório, quando lá chegava vindo de outras fontes em terra firme e, no final de contas, qual o seu destino nos sedimentos.

Uma das principais descobertas é o papel desempenhado pela “bomba de carbono biológica”, designação dada ao processo no qual minúsculos organismos fotossintéticos, o fitoplâncton, convertem carbono dissolvido na água em matéria orgânica. Dessa forma, o carbono fica “aprisionado” no fitoplâncton que, quando morrer, se depositará no leito do reservatório e aí ficará retido, ou se for consumido o carbono será transferido para o predador, mantendo-se cativo na forma de carbono orgânico.

Além disso, a formação geológica cársica faz com que, durante a época de maior calor, a água fique dividida em camadas com temperaturas diferentes, e que reduzem com a profundidade. Dessa forma, na camada mais superficial, a mais quente na coluna de água, o fitoplâncton prolifera, absorvendo e retendo ainda mais carbono.

Os cientistas dizem que a taxa de deposição de carbono orgânico nesse reservatório chinês é “significativamente superior” à de muitos reservatórios com formações geológicas não cársicas.

Mas não se trata apenas da quantidade, mas também da qualidade, pois percebeu-se que cerca de 60% do carbono “sepultado” no leito do reservatório é uma forma de carbono orgânico com uma grande resistência à decomposição por parte de microrganismos. Quer isso dizer que depois de depositado dificilmente volta a ser libertado, pelo menos não pela ação dos microrganismos.

Por isso, a “bomba de carbono biológica” produz grandes quantidades de carbono orgânico e uma grande porção é convertida numa forma mais estável e acaba por ficar preservada, a longo prazo, nos sedimentos no fundo do reservatório, que funciona, assim, como um sumidouro estável de carbono. Diz a equipa por trás deste trabalho que este é o principal mecanismo que confere aos reservatórios cársicos uma eficácia superior no sequestro de carbono do que reservatórios criados sobre outros tipos de rocha.

Embora este estudo tenha tido por base um único reservatório na China, os investigadores asseguram que as descobertas têm implicações globais, e que, como tal, tudo aponta para que a capacidade de sequestro de carbono de reservatórios em vastas regiões cársicas por todo o mundo poderá estar a ser subestimada.

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