Há quem diga que é nos momentos de maior adversidade que os heróis se revelam. Outros preferem arregaçar as mangas e ajudar a mudar o rumo da história. Foi com esse propósito que nasceu Rita das Batatinhas Fritas, uma pequena heroína de um conto infantil criado pela Hardlevel – Energias Renováveis para levar às escolas uma mensagem simples: o óleo alimentar usado não deve acabar no ralo.
A empresa portuguesa, um dos principais operadores ibéricos na gestão e pré-tratamento de óleos alimentares usados (OAU), criou a personagem para integrar o projeto “Educar para Reciclar – Heróis do Ambiente”. A iniciativa já chegou a várias escolas do país e procura transformar crianças e famílias em agentes de mudança, começando por um gesto tão simples quanto separar o óleo usado depois de cozinhar, foi divulgado em comunicado.
Segundo a mesma fonte, a fábula da “Ritinha” faz parte de um programa mais abrangente de educação ambiental, a Escola Ambiental Hardlevel, que acompanha alunos do 1.º ao 8.º ano através de histórias, jogos, atividades e outros conteúdos pedagógicos.
Depois de uma primeira fase nos concelhos de Guimarães, Ovar, Murtosa, Sever do Vouga, Albergaria-a-Velha, Oliveira do Bairro e Almada, bem como no território servido pela empresa intermunicipal Resialentejo, o projeto prepara-se agora para chegar a mais escolas e municípios.
Segundo Karim Karmali, fundador e CEO da Hardlevel, o objetivo é expandir, a breve prazo, a Escola Ambiental Hardlevel a 25 municípios, 120 escolas e mais de 35 mil alunos. Face à primeira fase, isso representará um crescimento de mais de 213% no número de municípios abrangidos, 167% nos estabelecimentos de ensino e 192% nos alunos.
O vilão que desaparece pelo ralo
Na história da Rita das Batatinhas Fritas, o vilão é precisamente o óleo alimentar usado. Um resíduo que continua, em muitos casos, a escapar pelos ralos, sifões e redes de saneamento, em vez de ser encaminhado para os sistemas de recolha e valorização.
O problema tem consequências ambientais, mas também representa uma oportunidade perdida para a economia circular. Quando corretamente recolhidos, os OAU podem ser transformados em matéria-prima para a produção de biocombustíveis, destinados a setores como o transporte rodoviário, marítimo e aéreo.
A questão ganha ainda maior relevância num país onde a recolha de óleo alimentar usado proveniente das famílias continua muito aquém do seu potencial.
Apesar das metas estabelecidas pelo Decreto-Lei n.º 102-D/2020, apenas uma pequena parte dos OAU domésticos chega atualmente aos circuitos de valorização económica. Portugal é, neste domínio, “amplamente deficitário”, considera Karim Karmali.
E, no entanto, a mudança pode começar com uma quantidade pequena.
Se cada pessoa separar anualmente entre 2,5 e três litros de óleo alimentar usado, Portugal poderia produzir entre 25 e 30 milhões de litros de biocombustível, multiplicando por 25 a 30 vezes a produção atual.
É aqui que a educação ambiental assume um papel determinante. A ideia é que uma criança aprenda na escola o que fazer com o óleo usado e leve esse conhecimento para casa, envolvendo pais e outros familiares num processo de mudança de hábitos.
A separação de um resíduo que começa na cozinha transforma-se, assim, numa questão de responsabilidade coletiva.
Um resíduo com valor estratégico
A história da Rita não termina na reciclagem do óleo. A valorização dos OAU está também ligada a uma cadeia económica e energética que ultrapassa as fronteiras nacionais.
A procura europeia por óleos alimentares usados enquanto matéria-prima para biocombustíveis avançados, nomeadamente para a produção de Sustainable Aviation Fuel (SAF) e de biodiesel HVO (Hydrotreated Vegetable Oil), tem aumentado nos últimos anos, num contexto marcado pela necessidade de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis e cumprir os objetivos europeus de descarbonização.
A instabilidade geopolítica e a necessidade de reforçar a segurança energética vieram acentuar esta importância estratégica.
“O OAU é hoje considerado uma das matérias-primas mais valiosas da economia circular energética, com prioridade máxima nas diretivas europeias de energias renováveis, através do quadro regulamentar da União Europeia para a promoção das energias renováveis, o RED III”, sublinha Karim Karmali.
É neste ponto da cadeia de valor que a atividade da Hardlevel ganha outra dimensão: da recolha dos óleos usados, tanto no circuito doméstico como no canal Horeca, à sua gestão e pré-tratamento para posterior valorização.
No canal Horeca, a recolha e o reaproveitamento apresentam taxas significativamente superiores às registadas no segmento doméstico. O desafio passa, por isso, por aproximar os comportamentos das famílias dos níveis de recolha já alcançados no setor profissional.
A empresa aposta também na tecnologia para melhorar a eficiência da recolha. Através da utilização de soluções de Internet of Things (IoT), os oleões podem ser monitorizados e sensorizados, permitindo otimizar as operações e evitar deslocações desnecessárias.
Todo este processo culmina na valorização dos OAU como matéria-prima para biocombustíveis certificados segundo o padrão ISCC, que assegura critérios de sustentabilidade e rastreabilidade.
Da cozinha para a transição energética
A história da Rita das Batatinhas Fritas é, no fundo, uma história sobre escala.
Começa numa cozinha, com uma pequena quantidade de óleo usado. Passa pela escola, onde uma criança aprende que aquele resíduo tem valor e não deve ser despejado no esgoto. Continua em casa, quando esse conhecimento influencia os hábitos de uma família. E termina numa cadeia de valorização capaz de transformar um resíduo em matéria-prima para combustíveis com aplicação nos transportes.
É também uma história sobre a forma como a educação ambiental pode deixar de ser apenas uma mensagem e transformar-se em comportamento.
A Rita pode ser uma personagem de um conto infantil. Mas o problema que enfrenta é bem real. E, neste caso, o final da história depende de milhões de pequenos gestos.
Porque, quando se fala de economia circular, de transição energética ou de proteção dos oceanos, a mudança pode começar muito mais perto do que parece: na cozinha de cada casa, com um gesto tão simples como não deixar o óleo alimentar usado escapar pelo ralo.









