Salamandras-de-pintas-amarelas são biofluorescentes, descobrem cientistas

Apesar de ser um animal conhecido de muitos e relativamente bem estudado, uma nova investigação vem revelar uma capacidade até agora desconhecida: esta salamandra é capaz de absorver luz invisível ao olho humano e emiti-la de forma visível, um fenómeno conhecido como biofluorescência.

Filipe Pimentel Rações

A salamandra-de-pintas-amarelas (Salamandra salamandra) é um anfíbio inconfundível pelo seu corpo preto salpicado de pintas amarelas. É uma espécie que ocorre em vários países europeus, incluindo Portugal continental.

Apesar de ser um animal conhecido de muitos e relativamente bem estudado, uma nova investigação vem revelar uma capacidade até agora desconhecida: esta salamandra é capaz de absorver luz invisível ao olho humano e emiti-la de forma visível, um fenómeno conhecido como biofluorescência.

Liderado pelo Instituto de Biologia Evolutiva de Barcelona e pelo Instituto Max Planck para Ecologia Química, o trabalho, publicado na revista ‘Royal Society Open Science’, explica que a biofluorescência da salamandra-de-pintas-amarelas está sobretudo concentrada na região ventral e nos lados do corpo.

Secreções biofluorescentes na vegetação por onde passou a salamandra. Foto: Burriel-Carranza et al., ‘Royal Society Open Science’, 2026.

Segundo detalham os investigadores, é gerada por células da pele e pelas secreções que elas produzem, e essas secreções podem manter a fluorescência mais de 24 horas após terem sido libertadas.

Essa capacidade foi descoberta depois de os cientistas terem lançada luz ultravioleta sobre salamandras nas florestas de Espanha e da Alemanha. Quando absorvem esse tipo de radiação, que é invisível ao olho humano, as substâncias químicas na pele da salamandra transformam-na e emitem-na já no espectro captável pela nossa visão. A biofluorescência da salamandra-de-pintas-amarelas exibe tons esverdeados e azulados.

“É fascinante que uma espécie tão bem estudada ainda esconde fenómenos como este”, diz Bernat Burriel Carranza, primeiro autor do estudo. O investigador do Instituto de Biologia Evolutiva de Barcelona salienta que a descoberta mostra que “mesmo os organismos que nos são mais familiares podem esconder segredos que só são revelados quando são observados com novas ferramentas”.

A biofluorescência é diferente da bioluminescência, porque depende de uma fonte externa de luz, absorvendo-a e emitindo-a noutro comprimento de onda. Os organismos bioluminescentes, como os pirilampos, por seu lado, emitem a sua própria luz através de reações químicas que ocorrem nos seus corpos.

Secreções fluorescentes da salamandra-de-pintas-amarelas a brilhar sob luz ultravioleta. Foto: Burriel-Carranza et al., ‘Royal Society Open Science’, 2026.

Embora não se saiba ainda ao certo para que fins exatos as salamandras usam a biofluorescência, os investigadores acreditam que tem uma importante função ecológica e têm algumas teorias: pode servir para comunicar com outros indivíduos da espécie, pode servir para atrair parceiros ou pode ser mais uma forma, além das marcas amarelas, de avisar os predadores de que se trata de um animal tóxico que não convém comer.

“Pode ajudar as salamandras a detetarem-se umas às outras em ambientes noturnos ou particularmente densos, ou funcionar como um sinal de defesa adicional”, refere Martin Kaltenpoth, do Instituto Max Planck e que também assina o estudo.

Também não se sabe ainda que moléculas são responsáveis por conferir fluorescência às secreções da pele das salamandras-de-pintas-amarelas, mas a equipa acredita que se poderá tratar de uma molécula que até agora não tinha sido encontrada no animal, apesar de a química das suas secreções serem estudadas há muito.

“Identificá-la será fundamental para compreender a sua origem e função”, diz Salvador Carranza, principal coautor do artigo.

A salamandra-de-pintas-amarelas é uma espécie em risco de extinção, classificada como “vulnerável” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, com uma tendência populacional em declínio, e ameaçada pela destruição dos seus habitats húmidos, por doenças causadas por fungos e pela pressão de espécies invasoras, como o lagostim-vermelho-da-Louisiana.

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