Os orangotangos-de-tapanuli (Pongo tapanuliensis) são considerados os mais raros dos grandes primatas. Com um estatuto de “criticamente em perigo”, têm uma população em declínio com não mais do que 800 indivíduos e estão confinados a uma só região, nas montanhas de Batang Toru, na província indonésia de Sumatra do Norte.
O debate em termo do futuro dessa região, e dos próprios orangotangos-de-tapanuli, tem-se focado em fatores de ameaça como grandes projetos como centrais hidroelétricas, exploração de ouro e energia geotérmica, e os seus impactos nesse habitat e nessa espécie.
Contudo, um grupo de cientistas, num artigo que publicaram na revista ‘Biological Conservation’, avisa que a realidade é mais complexa do que se pode, à primeira vista, achar.
Através de dados de satélite, entrevistas com as comunidades locais e simulações de computador para perceber os impactos dessas atividades humanas em Batang Toru, a equipa avaliou a perda de floresta desde o início do século e os processos sociais e económicos por detrás dela.
A grande conclusão deste trabalho é que os orangotangos-de-tapanuli não estão a ser ameaçados por um ou outro fator, mas sim por uma multiplicidade deles que agem em conjunto, desde as indústrias extrativas à exploração de madeira e à expansão agrícola, passando pelos impactos cada vez mais severos das alterações climáticas.
De acordo com o estudo, entre 2000 e 2023, Batang Toru perdeu 7.659 hectares de floresta, ou 5% da sua cobertura floresta total. A desflorestação acentuou-se significativamente depois de 2012, coincidindo com o início da atividade de três grandes projetos extrativos na região.
Com base nas simulações digitais que criaram, os investigadores estimam que Batang Toru perdeu mais 3.472 hectares de floresta do que perdido na ausência desses projetos.
No entanto, salienta que cerca de 70% da perda de floresta registada desde 2000 está associada à agricultura de pequena escala e à exploração madeireira. Por isso, argumentam, embora as indústrias extrativas tenham causado um aumento acentuado na desflorestação, a expansão agrícola e a extração de madeira aplicaram uma pressão contínua sobre o habitat dos orangotangos-de-tapanuli, pressão essa que até aumentou durante o período em estudo.
Fatores escondidos
As imagens por satélite e simulações de computador não permite ver a complexidade da realidade na sua plenitude, dizem os autores da investigação, pelo que as entrevistas com as comunidades locais tornaram possível descobrir fatores sociais e económicos que impulsionaram a desflorestação.
De acordo com as explicações avançadas pelos cientistas no site ‘The Conversation’, mudanças nos preços dos produtos florestais, alterações na propriedade dos terrenos, o desenvolvimento de estradas e os modos de subsistência locais são todos fatores de grande relevância.
A título de exemplo, apontam que uma queda no preço da borracha levou alguns residentes a derrubar essas plantações para instalarem culturas de banana. “Essas conversões não regulamentadas de terras podem ocorrer devido à sobreposição de reivindicações sobre terras consuetudinárias e terras do Estado, bem como à fraca supervisão das atividades de exploração florestal em pequena escala”, escrevem os investigadores.
A equipa destaca, assim, a importância de combinar perspetivas ecológicas com perspetivas sociais para ser possível ter uma imagem o mais clara e completa possível do que se passa. Especialmente numa região onde humanos e orangotangos têm vivido lado a lado ao longo de muitas gerações. Só dessa forma, sugerem, se consegue identificar os grandes problemas e agir sobre eles.
Além de tudo isso, as alterações climáticas estão a exercer também uma forte pressão sobre os orangotangos-de-tapanuli.
Um estudo anterior revelou que as chuvas torrenciais que afetaram a Indonésia em 2025 destruíram cerca de 8.300 hectares de floresta na região ocidental de Batang Toru. E estima-se que isso tenha resultado na morte de aproximadamente 58 orangotangos, perto de 7% da população global da espécie.
Porque os orangotangos-de-tapanuli estão a ser ameaçados por uma combinação de indústrias extrativas, expansão agrícola, exploração de madeira, falhas na aplicação da lei e na fiscalização, forças de mercado e alterações climáticas, os investigadores dizem que o foco apenas num ou noutro fator não ajudará a assegurar o futuro da espécie.
Como tal, acreditam que é necessária uma abordagem integrada que ajudem a proteger a paisagem de que orangotangos e também humanos dependem.









