Os anfíbios são o grupo de vertebrados que mais é afetado pela crise planetária da extinção de espécies animais, com 41% delas em risco de desaparecer a nível global.
O continente africano é um dos grandes centros de diversidade de anfíbios, albergando cerca de 1.170 espécies, perto de 15% do total mundial. Dessas, 99% são endémicas, ou seja, não existem em qualquer outra parte do planeta (pelo menos não em estado selvagem), e uma média de 37% está ameaçada de extinção, um número que pode chegar aos 55% em algumas regiões.
Apesar disso, os anfíbios estão a ser amplamente ignorados nos planos de conservação da biodiversidade do continente africano, alertam investigadores. Numa carta publicada recentemente na revista ‘Science’, com o título “Uma sentinela ignorada está em risco em África” (tradução livre para português), um grupo de cientistas da República Democrática do Congo, do Congo, da China e da Suíça lamenta que, apesar de África ter uma extensa rede de áreas protegidas, os anfíbios continuam a não estar devidamente integrados nas ferramentas de planeamento e de gestão da biodiversidade.
No texto, que inclui um membro do grupo de especialistas em anfíbios da União Internacional para a Conservação da Natureza, é dito que só existem 12 planos de ação especificamente direcionados para esse grupo de animais, o que contrasta fortemente com o número de espécies endémicas africanas.
Os cientistas dizem que integrar os anfíbios no planeamento de áreas protegidas é “fundamental” para promover a resiliência dos ecossistemas num contexto de “mudanças ambientais aceleradas”. Isso, porque, como escrevem, “as áreas protegidas funcionam como refúgios climáticos cruciais para os anfíbios”.
“A sua elevada sensibilidade ecológica e dependência de microhabitats faz dos anfíbios detetores precoces de poluição, alterações hidrológicas, stress térmico e patógenos”, esclarecem os autores, daí serem considerados sentinelas ecológicas. Por tudo isso, consideram que “excluí-los das estruturas de conservação e de planeamento limita gravemente a nossa capacidade para antecipar perturbações nos ecossistemas e para avaliar a eficácia de estratégias de gestão de ecossistemas, enfraquecendo diretamente as metas do Acordo de Kunming-Montreal”.
O Acordo de Kunming-Montreal foi aprovado na 15.ª cimeira da diversidade biológica (COP15) em 2022 e tem como grande objetivo travar e reverter a perda de biodiversidade até 2030. Os investigadores afirmam que tanto esse instrumento como o Plano de Ação para a Biodiversidade 2023-2030 da União Africana apelam a políticas mais coerentes de conservação dos anfíbios, “mas estes apelos ainda não foram atendidos de forma eficaz”.
Para ultrapassar “limitações estruturais”, é preciso mais investimento para a produção de conhecimento sobre os anfíbios em África, para implementar programas de monitorização continuada e para dotar os investigadores de mais meios que lhes permitam conhecer com certeza o estado de conservação dos anfíbios e dos seus habitats, referem os autores da carta.









