Setor energético enfrenta riscos crescentes, mas renováveis estão sob maior pressão

Custos de financiamento, limitações das redes e necessidade de armazenamento estão a pressionar a rentabilidade de novos projetos renováveis, enquanto petróleo e gás mantêm uma posição financeira mais sólida.

Redação

O setor energético atravessa uma fase marcada por fortes diferenças entre os vários segmentos. Enquanto as empresas de petróleo e gás continuam a beneficiar de fluxos de caixa robustos e balanços sólidos, os novos projetos de energias renováveis enfrentam uma maior pressão financeira. O aumento dos custos de capital, as dificuldades de ligação à rede, o risco associado aos preços de mercado e as necessidades de investimento estão entre os principais fatores identificados no Sector Atlas 2026, da Allianz Trade, que classifica a energia como um setor de risco sensível para as empresas.

O estudo avalia o risco empresarial em 17 setores, tendo em conta quatro dimensões: procura, rentabilidade, liquidez e ambiente de negócio. A classificação utilizada pela Allianz Trade divide os setores em quatro níveis, de baixo risco a risco elevado, passando por risco médio e risco sensível.

No segmento tradicional da energia, as empresas de petróleo e gás continuam a apresentar níveis elevados de liquidez aos atuais preços de mercado, apoiadas por uma produção disciplinada e posições consolidadas. O gás natural deverá também manter um papel relevante na transição energética, com produtores dos Estados Unidos, Qatar e Austrália a expandirem as suas infraestruturas de exportação de gás natural liquefeito (LNG) para responder à procura europeia e asiática.

Renováveis enfrentam maior pressão financeira

O cenário é diferente para os novos projetos solares e eólicos. Embora estas tecnologias continuem a apresentar uma trajetória de redução de custos no longo prazo, a rentabilidade dos projetos está a ser condicionada pelo aumento dos custos de financiamento, pelos constrangimentos nas ligações à rede e pela exposição aos preços de mercado.

A necessidade de investimento em armazenamento e capacidade de produção de reserva acrescenta pressão. Para a Allianz Trade, a transição energética não está em causa, mas o seu ritmo dependerá cada vez mais da capacidade de financiar não apenas nova geração renovável, mas também redes, armazenamento e capacidade de produção fiável.

A inteligência artificial acrescenta uma nova variável a esta equação. A expansão dos centros de dados está a gerar uma procura adicional de eletricidade que não estava contemplada em muitos cenários energéticos há poucos anos.

Esta procura reforça o interesse por diferentes fontes de produção — das renováveis ao gás, nuclear e baterias — mas aumenta também a pressão sobre as redes elétricas e sobre a capacidade de financiamento de novos investimentos.

Redes e armazenamento ganham importância

Segundo o estudo, os próximos anos serão marcados pela necessidade de conciliar o investimento em energias renováveis com o reforço das redes, a expansão do armazenamento e a manutenção de capacidade de produção capaz de garantir a segurança do abastecimento.

Neste contexto, as empresas mais bem posicionadas serão as que disponham de balanços sólidos, acesso a financiamento, capacidade de execução e exposição a ativos considerados estratégicos para a segurança energética.

O Sector Atlas 2026 aponta ainda para um crescimento da economia mundial de 2,5% em 2026, com uma recuperação para 2,9% em 2027. A inteligência artificial deverá representar cerca de um terço do crescimento dos Estados Unidos, enquanto o investimento em infraestruturas dos grandes operadores de centros de dados deverá atingir 725 mil milhões de dólares em 2026 e ultrapassar um bilião de dólares em 2027.

Os semicondutores surgem como um dos principais beneficiários do ciclo de investimento associado à IA. Já setores mais cíclicos, como o automóvel, construção, retalho, têxteis, transportes e indústria química, continuam a enfrentar pressão sobre custos, financiamento e margens.

Na Europa, a atividade empresarial permanece mais concentrada nos setores da energia, defesa e semicondutores, enquanto o automóvel, os transportes, o retalho discricionário e os metais continuam sob maior pressão.

A análise da Allianz Trade identifica, assim, uma economia a três velocidades, com diferenças significativas no nível de risco entre setores e ao longo das respetivas cadeias de valor.

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