“Ouvir é ver o que acontece debaixo de água”: start up portuguesa leva à Ericeira tecnologia para monitorizar o oceano em tempo real

“Nunca quisemos criar uma tecnologia para Portugal, quisemos criar uma tecnologia portuguesa para o mundo”, esclarece Guilherme Beleza Vaz, CEO da blueOASIS, em entrevista à Green Savers.

Ana Filipa Rego

Os sons do oceano podem dizer muito sobre o estado dos ecossistemas marinhos. A partir deles é possível identificar a presença de mamíferos marinhos, detetar embarcações ou perceber alterações no ambiente subaquático. Foi precisamente essa capacidade que a start up portuguesa blueOASIS mostrou esta quarta-feira, no Porto de Pesca da Ericeira, através de uma demonstração da plataforma Hydrotwin, um sistema de monitorização oceânica baseado em inteligência artificial.

A iniciativa contou com a presença do Secretário de Estado das Pescas e do Mar, Salvador Malheiro, e do presidente da Câmara Municipal de Mafra, Hugo Moreira Luís, além de representantes da Junta de Freguesia da Ericeira, da Autoridade Marítima e de outras entidades ligadas ao mar.

Durante a sessão, a apresentação de uma estação acústica permitiu aos participantes ouvir, em tempo real, a paisagem sonora submarina ao largo da costa da Ericeira. A experiência procurou mostrar como a monitorização acústica pode fornecer informação contínua sobre o oceano sem interferir com a fauna marinha.

Foram também apresentados vários equipamentos da plataforma Hydrotwin, incluindo sistemas instalados em boias, estruturas fixas e veículos autónomos. Esta tecnologia combina sensores acústicos, dados meteo-oceanográficos e inteligência artificial para interpretar o que acontece debaixo de água e disponibilizar essa informação em tempo real.

Segundo a blueOASIS este tipo de monitorização pode ser aplicado em áreas como a conservação da biodiversidade, a gestão de áreas marinhas protegidas, o acompanhamento de infraestruturas offshore, a deteção de embarcações não identificadas e o apoio à segurança e vigilância marítimas.

Criada nos Açores, a empresa tecnológica portuguesa que venceu esta semana o prémio Heróis PME na categoria Start up, já testou e instalou centenas de sensores em ambientes costeiros, portuários e offshore, tanto em Portugal como em mercados internacionais, entre os quais Espanha, Itália, Grécia, Malta, Islândia, Caraíbas, Havai e Sudeste Asiático. O objetivo passa por tornar a monitorização contínua do oceano uma ferramenta acessível para entidades públicas, empresas e instituições científicas.

À margem da demonstração, a Green Savers conversou com Guilherme Beleza Vaz, CEO da blueOASIS, sobre o potencial da monitorização acústica para compreender melhor os oceanos, a evolução desta tecnologia desenvolvida em Portugal e os desafios de transformar os dados recolhidos no mar em informação útil para a conservação da biodiversidade, a investigação científica e a economia azul.

 

Quando dizemos que já é possível ouvir o oceano em tempo real, o que é que efetivamente se consegue escutar através desta tecnologia?

O oceano está permanentemente a comunicar connosco e: ouvir é ver o que acontece debaixo de água. Enquanto a visualização debaixo de água tem um alcance máximo aproximado de 4 m de distância, ouvir possibilita uma extensão por vários quilómetros. O Hydrotwin permite interpretar essa informação em tempo real. Na prática, conseguimos identificar a presença de diferentes espécies marinhas através da sua assinatura acústica, como golfinhos e diferentes espécies de baleias, detetar embarcações e cruzar essa informação com dados AIS (Automatic Identification System), possibilitando a identificação de embarcações ilegais ou de comportamentos potencialmente irregulares.

O oceano está permanentemente a comunicar connosco e: ouvir é ver o que acontece debaixo de água. Enquanto a visualização debaixo de água tem um alcance máximo aproximado de 4 m de distância, ouvir possibilita uma extensão por vários quilómetros. O Hydrotwin permite interpretar essa informação em tempo real

Mas o verdadeiro valor da tecnologia vai muito além da acústica. O Hydrotwin integra esta informação com dados metoceanográficos, modelos numéricos, sensores ambientais e outras fontes de informação para criar um verdadeiro gémeo digital do oceano. Dessa forma, deixamos de apenas ouvir o oceano para o compreender em tempo real e apoiar decisões mais rápidas, mais seguras e mais sustentáveis.

O que poderá surpreender mais quem participar na demonstração da estação acústica na Ericeira?

Acredito que o mais surpreendente será perceber que é possível instalar uma infraestrutura de inteligência oceânica em minutos e começar imediatamente a ouvir e compreender o que está a acontecer debaixo de água.

Durante décadas, este tipo de monitorização dependia de campanhas oceanográficas, navios especializados e equipamentos muito dispendiosos, que permitiam apenas obter uma fotografia do oceano num determinado momento e só possível pela Marinha ou grandes instituições públicas. O Hydrotwin altera esse paradigma. As nossas plataformas são de rápida instalação e operam autonomamente durante longos períodos, disponibilizando informação contínua em tempo real.

Outra grande diferença é a eficiência. Em vez de depender exclusivamente de meios navais que representam custos operacionais de milhões de euros por ano e uma cobertura limitada, conseguimos criar redes distribuídas de plataformas autónomas que monitorizam grandes áreas do oceano por uma fração desse investimento. No fundo, estamos a democratizar o acesso à inteligência oceânica.

Que tipo de informação conseguem retirar dos sons captados debaixo de água?

Os sons debaixo de água são uma fonte rica de informação. Conseguimos compreender quem está no oceano, o que está a acontecer e como esse ambiente está a evoluir. A partir da análise acústica conseguimos identificar a presença e atividade de diferentes espécies marinhas, detetar e classificar embarcações através da sua assinatura acústica, reconhecer diferentes fontes de ruído antropogénico e acompanhar alterações no ambiente marinho ao longo do tempo.

A nossa plataforma Hydrotwin-Intelligence disponibiliza a audição em tempo real da paisagem acústica submarina, permitindo acompanhar continuamente a atividade do oceano. Simultaneamente, a plataforma gera indicadores como o nível de som, a cronologia de deteções (que apresenta os eventos acústicos identificados ao longo do tempo), o nível global de pressão sonora e espectrogramas (que permitem visualizar graficamente a assinatura acústica de espécies marinhas, embarcações ou outros eventos sonoros). A plataforma inclui ainda mecanismos automáticos de deteção de anomalias, capazes de identificar alterações significativas na paisagem acústica e alertar clientes para eventos que merecem uma análise mais aprofundada.

É possível identificar espécies marinhas apenas através da sua assinatura acústica?

Sim. Muitas espécies marinhas possuem assinaturas acústicas únicas. O Hydrotwin utiliza inteligência artificial para analisar continuamente a paisagem acústica submarina e identificar automaticamente essas assinaturas, permitindo reconhecer espécies como golfinhos, baleias-comuns, baleias-azuis, orcas, botos, cachalotes, focas, tartarugas e outros peixes apenas através dos sons que produzem. Atualmente, já dispomos de modelos operacionais com elevados níveis de precisão e continuamos a desenvolver novos modelos para alargar esta capacidade a outras espécies e eventos acústicos.

Muitas espécies marinhas possuem assinaturas acústicas únicas. O Hydrotwin utiliza inteligência artificial para analisar continuamente a paisagem acústica submarina e identificar automaticamente essas assinaturas, permitindo reconhecer espécies como golfinhos, baleias-comuns, baleias-azuis, orcas, botos, cachalotes, focas, tartarugas e outros peixes apenas através dos sons que produzem

A grande vantagem desta abordagem é permitir monitorizar a biodiversidade de forma contínua, em tempo real e sem qualquer interferência com os animais. Ao integrar esta informação com dados metoceanográficos e modelos numéricos, conseguimos compreender não apenas que uma espécie está presente, mas também o contexto em que ocorre e a evolução do ecossistema ao longo do tempo.

Que alterações no ambiente marinho podem ser detetadas mais rapidamente através desta monitorização contínua?

A monitorização contínua permite detetar muito mais rapidamente alterações na biodiversidade, no comportamento das espécies marinhas, nos níveis de ruído subaquático e nas condições ambientais do oceano. Um ecossistema saudável tem uma assinatura acústica muito própria. Quando essa assinatura muda, significa que alguma coisa também mudou no oceano. Ao integrar informação acústica com dados metoceanográficos, modelos numéricos e inteligência artificial, conseguimos compreender não apenas que ocorreu uma alteração, mas também as suas possíveis causas e o impacto que poderá ter no ecossistema.

Um ecossistema saudável tem uma assinatura acústica muito própria. Quando essa assinatura muda, significa que alguma coisa também mudou no oceano. Ao integrar informação acústica com dados metoceanográficos, modelos numéricos e inteligência artificial, conseguimos compreender não apenas que ocorreu uma alteração, mas também as suas possíveis causas e o impacto que poderá ter no ecossistema

Esta capacidade é particularmente importante para a gestão de áreas marinhas protegidas, para a monitorização da biodiversidade, para a aquacultura e para atividades offshore, permitindo atuar preventivamente antes que pequenas alterações se transformem em problemas de maior dimensão.

Até que ponto os dados recolhidos permitem antecipar situações de risco ou apoiar decisões operacionais no mar?

Na área da defesa e da segurança marítima, a informação em tempo real faz toda a diferença. Quanto mais cedo conseguimos compreender o que está a acontecer, maior é a capacidade para antecipar riscos e apoiar decisões operacionais.

A blueOASIS participa nos exercícios REPMUS da NATO há cinco anos consecutivos, um dos maiores programas internacionais de experimentação de sistemas marítimos não tripulados, onde o Hydrotwin tem sido validado em cenários reais ao lado da Marinha Portuguesa, do Instituto Hidrográfico e de forças navais.

Ao longo destes exercícios, os sistemas Hydrotwin foram utilizados para deteção e classificação acústica em tempo real, monitorização do ambiente submarino e integração com AUVs (Autonomous Underwater Vehicles), ASVs (Autonomous Surface Vehicles) e drones. A plataforma foi igualmente integrada com sistemas de comando e controlo e frameworks de exploração de dados da NATO, demonstrando a sua interoperabilidade em ambientes operacionais complexos.

Esta experiência é complementada pela colaboração com a Marinha Portuguesa e a Força Aérea Portuguesa, bem como pela acreditação NATO SECRET, que permite à blueOASIS desenvolver soluções em conformidade com os requisitos de segurança.

Mais do que monitorizar o oceano, o Hydrotwin fornece inteligência operacional para a Segurança e Defesa, reforçando a consciência situacional marítima, apoiando a segurança de infraestruturas críticas, a vigilância de áreas sensíveis e a tomada de decisão em operações de defesa e segurança marítima.

A tecnologia foi desenvolvida em Portugal. Houve algum momento em que perceberam que a solução tinha potencial para competir à escala internacional?

A blueOASIS nasceu com a convicção de que os desafios da monitorização oceânica não são locais, são globais. Nunca quisemos criar uma tecnologia para Portugal, quisemos criar uma tecnologia portuguesa para o mundo.

A blueOASIS nasceu com a convicção de que os desafios da monitorização oceânica não são locais, são globais. Nunca quisemos criar uma tecnologia para Portugal, quisemos criar uma tecnologia portuguesa para o mundo

À medida que desenvolvemos projetos internacionais e começámos a operar em diferentes geografias, da Europa às Caraíbas e ao Sudeste Asiático, percebemos que os desafios eram comuns: a necessidade de monitorizar o oceano de forma contínua, inteligente e economicamente sustentável. Essa visão foi reforçada pela confiança de parceiros como o ARDITI, o PLOCAN, a Marinha Portuguesa e o Departamento de Pescas e Oceanos do Governo do Canadá.

Hoje estamos a expandir a presença da blueOASIS para novos mercados e a desenvolver a próxima geração de plataformas baseadas no Hydrotwin e no RAINDROP, com o objetivo de tornar a monitorização contínua do oceano uma nova norma global para a conservação marinha, as operações offshore, os portos, a defesa e a segurança marítima.

Acredito que Portugal tem todas as condições para liderar esta transformação. Desenvolvemos tecnologia de ponta a partir dos Açores e queremos demonstrar que a inovação portuguesa pode contribuir para proteger e compreender melhor o oceano à escala mundial.

Quais foram os projetos ou operações mais exigentes em que os sistemas da blueOASIS já estiveram envolvidos?

Os projetos mais exigentes são aqueles em que a tecnologia é colocada à prova em contexto operacional e onde não existe margem para falhas.

Um dos melhores exemplos é a nossa participação, pelo quinto ano consecutivo, nos exercícios REPMUS da NATO, onde o Hydrotwin tem sido utilizado em cenários reais de defesa e segurança marítima. Nestes exercícios demonstrámos a capacidade de integrar os nossos sistemas com veículos autónomos, plataformas não tripuladas, sistemas de comando e controlo e frameworks de exploração de dados da NATO, realizando deteção e classificação acústica em tempo real em ambientes operacionais complexos.

Outro projeto particularmente desafiante é o FLOATFARM, uma iniciativa europeia dedicada ao desenvolvimento da próxima geração de parques eólicos flutuantes. Neste projeto, a tecnologia da blueOASIS contribui para a monitorização do ruído das turbinas eólicas, apoiando uma operação mais sustentável das infraestruturas de energia offshore, mitigando o seu impacto ambiental.

O projeto PHAROS, em que a blueOASIS participa com a criação de um Gémeo Digital do Oceano para as Canárias e na Islândia, permite reforçar a resiliência dos ecossistemas, avaliar os impactos das alterações ambientais e facilitar abordagens de gestão adaptativa.

O projeto ISLA BONITA tem como propósito apoiar as comunidades insulares e as autoridades públicas na promoção das transições sistémicas necessárias para restaurar os oceanos e as águas em três bacias-farol: o Atlântico e o Ártico, o Mediterrâneo e o Báltico e o Mar do Norte.

O projeto Global Ocean Innovation Challenge promove projetos-piloto em áreas marinhas protegidas e pescas, com o objetivo de criar soluções escaláveis para a proteção dos ecossistemas marinhos a nível global.

Para terminar, o projeto de destaque nos Açores, a nossa região-base de operações, intitula-se DATAz, que vai permitir criar o primeiro Gémeo Digital da Zona Livre Tecnológica dos Açores.

A empresa já instalou sensores em diferentes geografias, do Atlântico ao Sudeste Asiático. Que desafios encontra ao operar em ambientes tão distintos?

Cada oceano tem uma identidade própria. Mudam a temperatura, a salinidade, a profundidade, as correntes, as condições meteorológicas, a biodiversidade e até a forma como o som se propaga debaixo de água.

O nosso maior desafio não é instalar sensores em diferentes geografias, mas garantir que a tecnologia se adapta a contextos ambientais muito distintos e continua a produzir informação fiável.

Ao longo dos últimos anos realizámos instalações em Portugal Continental, Açores, Madeira, Espanha, Itália, Grécia, Malta, Islândia, Caraíbas, Havai e Sudeste Asiático.

Ao longo dos últimos anos realizámos instalações em Portugal Continental, Açores, Madeira, Espanha, Itália, Grécia, Malta, Islândia, Caraíbas, Havai e Sudeste Asiático

Cada oceano é diferente. Conseguirmos operar em todos eles é talvez a maior validação da robustez da nossa tecnologia.

Quem procura atualmente este tipo de tecnologia: entidades públicas, empresas privadas, setor energético, defesa ou investigação científica?

Hoje trabalhamos com três grandes grupos de clientes: entidades públicas ligadas ao mar e à defesa, empresas privadas da economia azul e da energia offshore e instituições científicas e de investigação.

Ao longo dos últimos anos desenvolvemos projetos com entidades como a Marinha Portuguesa, o Instituto Hidrográfico, a Autoridade Marítima Nacional, a Polícia Judiciária, o PLOCAN, o ARDITI, o Caribbean Institute for Meteorology and Hydrology, WindFloat Atlantic, Inestec, universidades e diversos parceiros europeus.

Esta diversidade demonstra a versatilidade do Hydrotwin. A tecnologia é utilizada para monitorizar a biodiversidade e os ecossistemas marinhos, apoiar a investigação científica, acompanhar operações e infraestruturas offshore, proteger infraestruturas críticas, detetar embarcações não identificadas, reforçar a defesa e a segurança marítima e apoiar modelos de turismo sustentável.

O nosso papel é transformar dados acústicos, metoceanográficos e operacionais em inteligência oceânica para apoiar decisões mais rápidas, mais seguras e mais sustentáveis.

Partilhe este artigo


Nova Edição

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.