Tam e Belo: Os saguins resgatados que encontraram uma segunda oportunidade em Portugal

Dois saguins resgatados em Espanha e na Bélgica estão agora a viver no Krazy World, um zoo no Algarve, depois de inícios de vida conturbados e traumáticos que revelam o flagelo do tráfico de espécies selvagens.

Filipe Pimentel Rações

No primeiro dia de outubro de 2024, a polícia foi chamada à localidade de El Zabal, na cidade de La Línea de la Concepción, no sul de Espanha. Respondiam à queixa de que uma pessoa tinha sido mordida por um macaco.

Chegado ao local, o Serviço de Proteção da Natureza da Guarda Civil (SEPRONA) recolheu o animal. Tratava-se de um saguim-cabeça-de-algodão (Oedipomidas Oedipus), que deambulava sozinho pelas ruas.

Tam no centro de resgate da AAP, em Espanha. O saguim estava muito magro e o seu pêlo apresentava sinais de cuidados desadequados. Foto: Patricia González / AAP.

Uma semana depois, o pequeno primata foi recolhido pela organização europeia de resgate animal AAP e levado para o seu centro de recuperação espanhol. Aí, os especialistas verificaram que se tratava de uma jovem fêmea, com um a dois anos de idade, e batizaram-na com o nome Tam.

Estava extremamente magra. Numa escala de um a nove, sendo cinco o ideal, a condição corporal de Tam estava no nível três.

O estado de saúde refletia-se também no seu pêlo, sem brilho e em mau estado, traços indicativos de uma má alimentação e de que ao animal não estavam a ser prestados os cuidados devidos. Além disso, as equipas da AAP perceberam que Tam tinha deformações nos ossos dos braços, que os veterinários atribuíram a doença óssea metabólica causada pela carência de vitamina D (associada a uma dieta desadequada) e pela falta de exposição à luz solar.

Explica a AAP à ‘Green Savers’ que Tam, chegada ao centro de recuperação espanhol, mostrava sinais de ansiedade e algum medo, mas também curiosidade sobre o novo espaço e sobre o que se passava à sua volta. Como é protocolo, Tam ficou em quarentena durante 12 semanas, período durante o qual recebeu os tratamentos necessários, incluindo para uma infeção bacteriana que foi detetada, e uma dieta própria para os saguins, para aumentar de peso e melhorar a sua condição física de forma geral.

Tam ficou mais de um ano nas instalações espanholas da AAP antes de viajar até Portugal para se juntar a um outro saguim, o Belo, e começar um novo capítulo da sua vida.

Uma espécie rara

Tam pertence a uma espécie classificada como “criticamente em perigo” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Os saguins-cabeça-de-algodão são nativos da Colômbia, encontrados apenas nas florestas do noroeste desse país da América Latina. Estima-se que não existam mais de seis mil desses animais na Natureza, fazendo deles dos primatas mais ameaçados do mundo.

Os saguins-cabeça-de-algodão são nativos da Colômbia e uma espécie classificada como “criticamente em perigo” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. Foto: Pedro Gutiérrez / AAP.

Entre as principais ameaças contam-se a contínua e intensa destruição das florestas onde esse macaco vivo e a captura para o mercado dos animais de estimação exóticos.

De acordo com as informações mais recentes, não foi possível descobrir a origem de Tam, pelo que a sua história antes de ser encontrada a vaguear sozinha pelas ruas de La Línea de la Concepción continua a ser um mistério, provavelmente um de contornos trágicos. No entanto, tudo indica que Tam tenha sido mais uma vítima do comércio ilegal para o mercado dos animais de estimação exóticos.

Belo volta a ter companhia

Outra personagem desta história é Belo, um macho de saguim-de-mãos-douradas (Saguinus midas). Belo foi resgatado em novembro de 2018 na Bélgica, quando tinha cerca de seis meses de idade. Fora confiscado pelas autoridades belgas juntamente com outros dois: Manani, um saguim-comum (Callithrix jacchus), e Goiani, um saguim-de-cara-branca (Callithrix geoffroyi).

Segundo as informações partilhadas pela AAP com a ‘Green Savers’, os animais foram apreendidos a uma pessoa que os tinha comprado na Polónia, e que não estaria ciente de que a sua posse era ilegal na Bélgica. Os três saguins era muitos jovens, ainda dependentes de leite, e eram mantidos numa gaiola para hámsteres, como animais de estimação.

Depois de confiscados, os três foram levados para as instalações da AAP em Almere, nos Países Baixos, sede da organização e também centro de resgate nesse país. Todos apresentavam pesos abaixo do ideal, considerando espécie e idade. Além disso, Belo tinha dificuldade em mover-se e os seus membros pareciam rígidos.

Belo, o saguim-de-mãos-douradas, no centro de resgate da AAP em Almere, nos Países Baixos. Foto: AAP.

Testes revelaram que os três saguins combatiam infeções bacterianas e apresentavam deficiência de vitamina D.

Após um mês de cuidados, Belo recuperou a sua mobilidade e estava mais ativo, e, no final do período de 12 semanas de quarentena, todos os primatas tinham atingido o peso ideal.

Cerca de um ano após o resgate, Belo e Goiani foram transferidos para o Krazy World, um parque zoológico na localidade de Algoz, no município algarvio de Silves.

Recentemente, Goiani morreu, deixando Belo sozinho, pelo que a AAP e o Krazy World decidiram trazer Tam para fazer companhia ao saguim-de-mãos-douradas, e os dois vivem agora juntos em Portugal, cada um com a sua história traumática, mas, segundo nos dizem aqueles que com eles mais de perto lidam, com uma grande resiliência e vontade de viver.

Os saguins-de-mãos-douradas são nativos do Brasil e das Guianas, estando classificados como “pouco preocupante” na Lista Vermelha da UICN.

Um novo começo em Portugal

Depois de começos de vida conturbados e trágicos, Tam e Belo estão agora a dar os primeiros passos numa nova etapa das suas existências.

Tam chegou ao Krazy World este verão, onde foi integrada no mesmo recinto onde residia Belo. Apesar de serem de espécies diferentes, são animais extremamente sociais que evoluíram para viver em grupo, pelo que as instituições e os seus especialistas tinham como prioridade proporcionar-lhes a tão necessária companhia.

Tam na sua nova casa. Foto: Krazy World.

Diz-nos a AAP que antes da transferência de Tam para Portugal, as equipas técnicas mostraram ao saguim-cabeça-de-algodão vídeos de saguins-de-mãos-douradas para a fêmea se habituar às vocalizações daquele que viria a ser o seu novo companheiro. Essa técnica visava facilitar a integração dos dois primatas nas novas instalações portuguesas.

A AAP explica que a escolha do Krazy World para receber esses primatas se deveu ao facto de esse ser um zoo essencialmente orientado para o acolhimento de animais resgatados.

“Muitos zoos não estão ainda preparados para receber animais resgatados, uma vez que, mesmo depois da recuperação, chegam com vários traumas, o que pode dificultar os seus cuidados”, detalha fonte da AAP.

A maioria dos animais ao cuidado do Krazy World provieram de confiscações ou de centros de resgate.

Belo chegou ao Krazy World em 2018, juntamente com outro saguim, Goiani, com o qual fora resgatado. Goiani morreu e Belo ficou sozinho, pelo que as instituições decidiram trazer Tam, para poderem fazer companhia um ao outro. Foto: Krazy World.

De acordo com Tiago Nabiço, responsável da área animal desse zoológico, a integração de Tam, depois de uma quarentena de 30 dias, com Belo foi “bem-sucedida”, permitindo a formação do que descreve como um “grupo social estável”.

“Essa convivência proporciona-lhes interações sociais naturais consideradas fundamentais para o seu equilíbrio físico e comportamental”, explica o responsável, o que tornou possível aos dois saguins ultrapassar uma situação de isolamento e retomarem vidas, ainda que muito diferentes, o mais parecidas possível às que teriam em meio selvagem.

Para Tiago Nabiço, esta é “uma segunda oportunidade de vida” e um exemplo de recuperação de animais vítimas de tráfico, posse irresponsável de animais exóticos ou de abandono.

Tam e Belo partilham agora o mesmo recinto no zoo Krazy World, no Algarve, onde fazem companhia um ao outro, pois a socialização é uma importante dimensão da vida dos saguins. Fonte: Krazy World.

 

Tam recebeu um implante contracetivo, pois embora ela e Belo pertençam a espécies diferentes, a sua proximidade genética e evolutiva não exclui totalmente a possibilidade, ainda que remota, de reprodução. Mas o responsável da área animal do Krazy World assegura que “neste caso, não é, de todo, o objetivo a reprodução”, mas, isso sim, permitir que ambos os saguins possam, simplesmente, viver em paz as suas vidas.

O flagelo do tráfico

O comércio ilegal, destacadamente para o mercado dos animais de estimação exóticos, é considerado uma das grandes ameaças a várias espécies pelo mundo fora, e os primatas são um dos grupos mais fortemente afetados.

A Europa é considerada uma das regiões mais importantes no tráfico global de vida selvagem, como destino, ponto de passagem ou origem. Para a AAP, “a lei europeia não protege adequadamente as espécies de animais selvagens do comércio legal ou ilegal”.

E isso em muito se deve ao que a organização descreve como “um conjunto heterogéneo de regulamentos” que, apesar de abrangerem certas dimensões do comércio, pecam pela desarticulação e pela consequente ineficiência. Por isso, a AAP defende a existência de um “quadro regulatório único e abrangente” comum a todos os Estados-membros e a criação de uma Lista Positiva para toda a União Europeia.

Essa lista, explica a organização, deve definir claramente quais os animais que podem ser mantidos como animais de estimação, excluindo, por defeito, todos os outros que dela não constem. “Esta lista deve basear-se em critérios científicos verificáveis com o bem-estar dos animais no centro dos processos de tomada de decisão”, declara a AAP.

A internet e as redes sociais online vieram amplificar o tráfico de vida selvagem e tornar muito mais complicados os esforços para combatê-lo. Por isso, o lado da procura, tal como o da oferta, é uma dimensão crucial do problema e deve, por isso, ser também alvo de medidas, como estratégias direcionadas de redução da procura.

“Não é nada correto ter um animai selvagem como animal de estimação, e precisamos que isso se torne a narrativa dominante nas nossas comunidades”, sublinha a AAP.

Tiago Nabiço destaca o papel que as instituições zoológicas, como o Krazy World, podem ter no combate ao tráfico de animais selvagens, designadamente na sensibilização do público para os riscos da posse ilegal ou irresponsável de espécies exóticas, bem como na receção, recuperação, reabilitação e integração de animais resgatados.

“Os saguins não são animais de companhia e as suas necessidades sociais, nutricionais e comportamentais são extremamente específicas, sendo dificilmente satisfeitas num ambiente doméstico”, avisa o responsável.

“Quando deixam de poder ser mantidos pelos seus detentores, podem acabar abandonados ou apreendidos pelas autoridades e necessitam de centros especializados”, diz, destacando que “o caso da Tam e do Belo é apresentado precisamente como um exemplo da importância da cooperação entre instituições especializadas”.

Partilhe este artigo


Nova Edição

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.