Também as traças têm um “lado dominante”

A lateralidade normalmente está associada à existência de mais do que um apêndice, como braços, pernas ou antenas, mas será que pode também acontecer quando se trata de um só apêndice, como a língua ou uma probóscide (como a tromba de um elefante ou o aparelho bocal alongado de uma borboleta)? Uma investigação científica revela que sim, pois até as traças podem ter uma preferência pelo lado esquerdo ou pelo direito.

Filipe Pimentel Rações

A maior parte dos humanos tem preferência por uma das mãos para realizar uma variedade de tarefas, como escrever ou segurar num copo, e também de pés, por exemplo, para chutar uma bola de futebol.

A isso chama-se lateralidade, a preferência de um lado em vez do outro, e foi também já encontrada noutros animais, incluindo primatas não-humanos e em aves como os alcatrazes.

A lateralidade normalmente está associada à existência de mais do que um apêndice, como braços, pernas ou antenas, mas será que pode também acontecer quando se trata de um só apêndice, como a língua ou uma probóscide (como a tromba de um elefante ou o aparelho bocal alongado de uma borboleta)? Uma investigação científica revela que sim, pois até as traças podem ter uma preferência pelo lado esquerdo ou pelo direito.

Liderado por cientistas da Universidade de Konstanz (Alemanha), o trabalho teve como protagonista a traça da espécie Macroglossum stellatarum, que apesar de pertencer ao grupo das borboletas noturnas está ativa sobretudo durante o dia. O formato do corpo e a forma como bate as suas asas assemelha-a a um colibri ou a um abelhão.

Alimenta-se de néctar, estendendo a sua longa probóscide e inserindo-a na flor, da qual suga o líquido açucarado. E é aqui que surge a lateralidade, pois os investigadores dizem que estas traças, e possivelmente outras borboletas, parecem desenrolar e estender as suas probóscides preferencialmente para o lado direito ou para o esquerdo para inspecionar flores em busca de néctar.

Para conseguirem perceber a lateralidade nestas borboletas, os cientistas, em laboratório, apresentaram aos insetos flores artificiais, para as quais foram apontadas câmaras de alta velocidade. Com essas imagens, conseguiram perceber os movimentos das probóscides em relação ao resto do corpo do animal.

Assim, percebeu-se que alguns tendiam a posicionar a ponta da probóscide predominantemente para o lado esquerdo da linha que marca o meio dos seus corpos quando inspecionavam as flores, enquanto outros mostravam preferência pelo lado direito. Anna Lisa Stöckl, coautora do artigo, considera que essa preferência é um traço “inato” e que “desempenha um papel importante na orientação do comportamento de inspeção de flores da traça”.

Além disso, a equipa percebeu também que as Macroglossum stellatarum têm um olho dominante para verem a parte da flor na qual estão a tocar. As experiências revelaram que o lado do olho dominante correspondia “consistentemente” ao lado para o qual a probóscide era preferencialmente orientada. Assim, olho dominante e probóscide funcionam como uma unidade coordenada.

“Os insetos têm cérebros muito pequenos. Alinhar a probóscide com o campo visual do olho dominante pode poupar uma capacidade de processamento valiosa no controlo do comportamento”, explica Lochlan Walsh, primeiro autor do estudo.

“Em vez de estar constantemente a recalcular um movimento para todos os ângulos possíveis, o animal pode contar com um lado familiar do seu corpo para orientar as suas ações”, acrescenta.

A equipa considera que os resultados deste trabalho mostram que não é preciso ter um cérebro grande para se conseguir desempenhar comportamentos precisos, como alinhar a visão com uma longa probóscide que se quer inserir no centro de uma flor. “Os animais podem usar atalhos eficientes criados pelas relações entre corpo, sentidos e movimento”, aponta Stöckl.

“Cada traça resolve o desafio da inspeção das flores através das preferências laterais do seu próprio corpo. Por isso, o nosso estudo sugere que a lateralidade pode ser uma das formas da natureza simplificar tarefas difíceis, quer essa tarefa seja alcançar uma chávena de café ou usar uma probóscide para procurar néctar enquanto se plana em frente a uma flor.”

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