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	<title>Portugal &#8211; Green Savers</title>
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	<description>Notícias sobre sustentabilidade, ambiente, alterações climáticas, biodiversidade, florestas, finanças verdes, empresas, economia, ODS</description>
	<lastBuildDate>Mon, 24 Aug 2026 15:27:28 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Portugal &#8211; Green Savers</title>
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		<title>Entre o saber e o fazer: Portugueses reconhecem riscos das alterações climáticas mas nem sempre adotam comportamentos alimentares sustentáveis</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Filipe Pimentel Rações]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Aug 2026 13:02:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alterações Climáticas]]></category>
		<category><![CDATA[Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Ciência]]></category>
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		<category><![CDATA[sustentabilidade]]></category>
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					<description><![CDATA[Estudo liderado por investigadores portugueses mostra que, em Portugal, estamos cientes dos riscos das alterações climáticas e que mudar a nossa alimentação é um passo importante para ajudar a combatê-las. Contudo, essa perceção nem sempre corresponde a ações concretas.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Combater as alterações climáticas causadas pelos humanos ao longo de séculos de emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera é considerado uma das grandes lutas civilizacionais do nosso tempo.</p>
<p>Os impactos dessa crise planetária são já amplamente conhecidos: as emissões aquecem o planeta, perturbando os sistemas e mecanismos dos quais a estabilidade da Terra depende. E dessa estabilidade dependem também as sociedades humanas, e os efeitos da perturbação são sentidos cada vez com maior força: secas, cheias, incêndios e tempestades tendem a ser fenómenos mais frequentes, intensos e duradouros, afetando as sociedades como um todo.</p>
<p>Em 2015, cientes de que a situação pioraria se nada fosse feito, os países do mundo adotaram a Agenda 2030 do Desenvolvimento Sustentável. A mudança dos hábitos alimentares é um dos grandes eixos dessa estratégia global, atravessando vários dos 17 objetivos.</p>
<p>Entre as principais mudanças estão a redução da produção e consumo de produtos de origem animal (como carne e laticínios), associados geralmente a pegadas carbónicas elevadas, substituindo-os por produtos de origem vegetal, tipicamente conotados com menores impactos ambientais.</p>
<p>Além disso, a preferência por produtos mais locais e provenientes de produções orientadas por práticas sustentáveis, evitar as embalagens e optar pela compra a granel e a redução do desperdício são tudo mudanças tidas como fundamentais para alinhar a alimentação com a urgência das crises planetárias.</p>
<p>Muitos dizem hoje estar preocupados com as alterações climáticas e outros tantos já têm dietas mais sustentáveis, seja por razões de saúde ou por preocupações com o planeta, ou ambas. Mas haverá uma ligação direta entre a noção que temos do problema e o que, na prática, mudamos para resolvê-lo?</p>
<p>Um estudo sobre “Práticas alimentares sustentáveis na era das alterações climáticas”, promovido pelo Observatório Social da Fundação “la Caixa” e desenvolvido por investigadores do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) e da Universidade Europeia, mostra que os portugueses (uma amostra de 3.132 adultos) estão cada vez mais conscientes dos benefícios de uma alimentação saudável. Contudo, revela que entre o saber e o fazer pode haver uma grande distância.</p>
<p>Em entrevista à ‘Green Savers’, Filipa Pimenta e Marta Uva, investigadoras do William James Center for Research (que junta ISPA e Universidade de Aveiro) ajudam a compreender os principais resultados do estudo e a perceber o que podem significar para os esforços de sustentabilidade que são precisos para proteger o planeta, os ecossistemas e as pessoas.</p>
<p><strong>Temos uma população portuguesa consciente da urgência de combater as alterações climáticas e também preocupada com os efeitos na sua própria saúde e segurança. Contudo, o vosso estudo revela que essa consciência e preocupação não têm necessariamente correspondência direta com comportamento concretos, de mudança de hábitos de alimentação, por exemplo. A que se deve, na vossa perspetiva, e tendo em conta os resultados deste estudo, essa discrepância entre o que se sabe e o que se faz?</strong></p>
<p>Filipa Pimenta (FP): O nosso estudo, que envolveu uma amostra representativa de adultos portugueses, mostra que 39% desta amostra estava a ter efetivamente comportamentos de alimentação sustentável no momento do estudo. Os nossos resultados são muito claros num ponto: a perceção de risco associada às alterações climáticas não previu a adoção de comportamentos alimentares sustentáveis.</p>
<figure id="attachment_303349" aria-describedby="caption-attachment-303349" style="width: 600px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-303349 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/08/Filipa-Fernandes-Pimenta-e1787584600231.png" alt="" width="600" height="600" /><figcaption id="caption-attachment-303349" class="wp-caption-text">Filipa Pimenta, investigadora do ISPA e do William James Center for Research, é a primeira autora do estudo.</figcaption></figure>
<p>O que se relacionou com uma maior frequência de alimentação sustentável foi o reconhecimento das vantagens (e também das desvantagens) de comer de forma mais sustentável. Ou seja, quem perceciona a ameaça climática avalia melhor os prós e os contras da mudança, mas essa avaliação não se traduz automaticamente em comportamento. Esta discrepância é bem conhecida na ciência comportamental: perceber um risco é diferente de estar disposto a agir.</p>
<p>Entre a consciência e a ação interpõem-se fatores como a confiança na própria capacidade de mudar (autoeficácia), os custos percebidos da mudança (preço, acessibilidade, conveniência) e o contexto social. No nosso estudo, foram precisamente a autoeficácia e as normas sociais descritivas (i.e., ver pessoas significativas a adotar estas práticas) que melhor explicaram o comportamento.</p>
<p>A mensagem para as políticas públicas é, por isso, direta: alarmar não chega; é preciso capacitar e facilitar.</p>
<p><strong>De acordo com o que descobriram, os portugueses que mais adotam práticas alimentares mais sustentáveis são aqueles que têm já uma forte consciência ambiental e climática. Que barreiras é que estão a impedir que os outros se juntem a esse grupo e como é que se pode ultrapassá-las?</strong></p>
<p>Marta Uva (MU): Existem barreiras a vários níveis que impedem que mais pessoas se juntem a esse grupo. A perceção de risco das alterações climáticas é um dos fatores que condiciona esta mudança, no sentido em que mesmo que exista a perceção deste risco e as pessoas compreendam as vantagens de adotar comportamentos alimentares sustentáveis para mitigar esse risco, esta intenção nem sempre se traduz em mudança de comportamento, porque o custo associado a essa mudança influencia significativamente a decisão de mudar.</p>
<figure id="attachment_303350" aria-describedby="caption-attachment-303350" style="width: 600px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="wp-image-303350 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/08/Marta_Uva_fotografia-e1787584678517.jpg" alt="" width="600" height="800" /><figcaption id="caption-attachment-303350" class="wp-caption-text">Marta Uva também é investigadora do ISPA e do William James Center for Research.</figcaption></figure>
<p>Além disso, fatores como a alimentação emocional e a cultura também condicionam esta mudança. Isto acontece porque, quando os hábitos alimentares são guiados principalmente pelas emoções, a perceção de desvantagens de adotar padrões alimentares sustentáveis aumenta, o que poderá ser explicado pelo facto de a alimentação emocional se associar a padrões alimentares pouco saudáveis (ou seja, ao consumo de alimentos hiperpalatáveis, ricos em açúcar, sal e gordura).</p>
<p>Relativamente à cultura alimentar, este é também um aspeto determinante, no sentido em que adultos que passam mais tempo com a família ou amigos em convívios gastronómicos também identificam mais barreiras à adoção de uma alimentação sustentável. Ou seja, existe uma tendência por parte das pessoas para manter os seus hábitos alimentares ao longo da vida e fazer escolhas alimentares que se enquadram na sua cultura e como tal, optam por comprar produtos semelhantes aos que consumiram toda a vida, o que pode aumentar a perceção de custos associados à mudança.</p>
<p>Para ultrapassar estas barreiras, será necessário intervir a vários níveis. O apoio social demonstrou ser um aspeto importante no sentido pessoas que consideraram mais importante contar com o apoio de pessoas próximas para com as suas dietas, apresentaram uma maior adoção de padrões alimentares sustentáveis, bem como mais vantagens de os adotar. No entanto, para que a mudança ocorra esta deverá ser promovida a larga escala. Isto implicaria o desenvolvimento de iniciativas nacionais no âmbito das quais se poderiam realizar ações psicoeducativas sobre os benefícios da alimentação sustentável, sobre como superar as barreiras à adoção destes comportamentos e promover a partilha de receitas sustentáveis. Além disso, poderiam ser implementados projetos nas escolas para educar a população mais jovem acerca da importância de proteger o ambiente através do consumo sustentável (por exemplo, promovendo dietas plant-based nas cantinas).</p>
<p><strong>Os vossos resultados sugerem que a “pressão”, seja autoimposta ou vinda de fora, também tem um papel importante na adoção de hábitos alimentares sustentáveis. Mas, curiosamente, descobriram que uma pressão excessiva pode ter precisamente o efeito contrário. Porquê?</strong></p>
<p>FP: Este foi um dos resultados mais interessantes do estudo. As chamadas normas prescritivas (ou seja, a perceção de que os outros esperam que adotemos determinado comportamento ou nos pressionam nesse sentido) associaram-se a um maior reconhecimento das vantagens da alimentação sustentável e a uma menor valorização das suas desvantagens. Mas, paradoxalmente, associaram-se a menos comportamento efetivo. Por outras palavras: a pressão social convence a cabeça, mas não move o garfo.</p>
<p>A psicologia oferece uma explicação plausível: fazer algo apenas porque os outros acham que devemos fazê-lo compromete a autonomia, um dos motores fundamentais da motivação humana. Quando a mudança é sentida como imposta e não como escolhida, pode gerar resistência, mesmo em pessoas que reconhecem plenamente os benefícios dessa mudança. Há aqui uma lição importante para a comunicação em sustentabilidade: campanhas moralizadoras ou culpabilizantes, que dizem às pessoas o que devem fazer, correm o risco de produzir o efeito inverso ao pretendido. A motivação sustentada nasce da escolha informada, não da obrigação percebida.</p>
<p><strong>Mas, ainda assim, a influência social é importante para promover a disseminação de práticas alimentares mais sustentáveis, certo? Se for feita na “medida certa”.</strong></p>
<p>MU: Sem dúvida, a influência social é essencial para promover a adoção de práticas alimentares sustentáveis.</p>
<p>Neste estudo, pudemos observar que quando os adultos portugueses percebem que as pessoas importantes para si estão efetivamente a tomar mais medidas para combater as alterações climáticas, a frequência com que têm comportamentos típicos de uma alimentação sustentável aumenta. Neste sentido, a modelagem (ou seja, ver o exemplo de outras pessoas cujos ideais e comportamentos consideramos e valorizamos, a adotar estes comportamentos sustentáveis), conduz a um aumento desses comportamentos em nós próprios, exercendo neste caso uma influência positiva rumo à sustentabilidade.</p>
<p>Esta modelagem aumenta a motivação da pessoa no sentido deste padrão alimentar, facilitando a concretização da mudança comportamental. Além disso e tal como já foi referido, a pressão para adotar uma alimentação sustentável poderá não ter o mesmo efeito. Como tal, parece ser mais importante e facilitador da mudança comportamental se esta transição para um padrão alimentar sustentável for feita em conjunto, do que se existir apenas uma pressão para a mesma, sem que haja qualquer exemplo visível da mesma.</p>
<p><strong>No estudo sugerem que poderia ser uma “iniciativa nacional relevante” o reforço da “perceção da capacidade pessoal para adotar práticas alimentares sustentáveis”. Significa isso que é importante mostrar que cada um pode adotar essas práticas, que está ao alcance de todos? Que mesmo gestos pequenos, individuais, podem fazer a diferença?</strong></p>
<p>FP: Exatamente. A autoeficácia para a ação (que é a confiança de cada pessoa na sua capacidade de adotar e manter comportamentos alimentares sustentáveis) foi um dos preditores mais consistentes no nosso estudo: previu mais comportamento sustentável, maior valorização das vantagens e menor perceção de desvantagens. E há aqui uma boa notícia: ao contrário de outros determinantes, a autoeficácia é treinável. Ela constrói-se através de experiências de sucesso, e é por isso que os pequenos gestos importam tanto.</p>
<p>Começar por substituir uma refeição de carne por semana, experimentar uma receita vegetariana, preferir produtos locais numa ida às compras &#8211; cada pequeno passo bem-sucedido reforça a confiança para o passo seguinte. Pelo contrário, mensagens que exigem transformações radicais e imediatas tendem a diminuir a perceção de capacidade e a paralisar.</p>
<p>Uma iniciativa nacional neste domínio deveria, por isso, comunicar exequibilidade: mostrar que a alimentação sustentável não exige perfeição nem sacrifícios heroicos, mas sim mudanças graduais, concretas e ao alcance de qualquer pessoa, independentemente do seu rendimento ou literacia.</p>
<p><strong>Falam também da importância da literacia alimentar. Em Portugal é algo que ainda está pouco desenvolvido? Poder-se-ia impulsioná-la nas escolas, por exemplo?</strong></p>
<p>FP: A literacia alimentar revelou-se, de facto, um fator importante. No nosso estudo, os contextos de aprendizagem (e.g., saber onde encontrar informação fiável sobre alimentação) previram mais comportamento sustentável, maior valorização das vantagens e menor perceção de barreiras. O mesmo se verificou com a atenção às necessidades nutricionais: quem considera a dimensão nutricional da sua alimentação adota mais práticas sustentáveis.</p>
<p>Isto confirma que saúde e sustentabilidade caminham juntas, e que a informação de qualidade é uma alavanca para ambas. Portugal tem, aliás, contributos científicos relevantes nesta área, incluindo instrumentos de avaliação da literacia alimentar desenvolvidos e validados para a população portuguesa pela nossa equipa.</p>
<p>Quanto ao “como”: sim, a escola é o contexto privilegiado. Educar desde cedo (incluindo através das próprias cantinas escolares, que podem promover refeições de base vegetal) cria hábitos e conhecimentos que perduram. Mas a literacia alimentar não se esgota na infância: importa também garantir fontes de informação fiáveis e acessíveis para adultos, combater a desinformação nutricional e envolver os profissionais de saúde na comunicação sobre alimentação sustentável.</p>
<p><strong>Os resultados do estudo indicam que os portugueses, regra geral, adotam, realmente, práticas alimentares sustentáveis, mas de forma ocasional, ainda que entendam que há mais vantagens do que desvantagens nessa adoção. Há, portanto, espaço e viabilidade para melhorias?</strong></p>
<p>MU: Sem dúvida. Os resultados deste estudo permitiram compreender que a perceção de vantagens que os portugueses têm acerca da adoção de práticas alimentares sustentáveis é alta, contudo não se traduz na frequência que seria desejável da prática deste tipo de padrões alimentares.</p>
<p>Esta ausência da concretização do comportamento é explicada na psicologia pelo conceito da lacuna intenção-comportamento, ou seja, mesmo que as pessoas tenham a intenção e consigam compreender os benefícios de adotar um determinado comportamento, nem sempre conseguem passar da teoria à prática. Isto pode acontecer por diversos motivos, sendo que um deles é a perceção de barreiras que mantêm acerca do processo de adoção desse novo comportamento. Ou seja, os custos percebidos associados à mudança (por exemplo neste caso, a procura de produtos sazonais e biológicos e também os preços associados a estes produtos) poderão condicionar a concretização da mudança.</p>
<p>Ainda assim, este estudo permitiu concluir que existe espaço e viabilidade para melhorias ao nível da promoção de práticas alimentares sustentáveis na população portuguesa, uma vez que já existe a perceção de vantagens desse comportamento e o mesmo é praticado ocasionalmente e como tal, para ajudar a população no sentido de atingir esta mudança e aumentar a frequência de consumo de produtos sustentáveis, é importante procurar expandir a perceção de vantagens e simultaneamente diminuir a perceção de barreiras, fornecendo dicas para as ultrapassar e mobilizando os recursos necessários para minimizar os custos associados a estas práticas alimentares.</p>
<p><strong>Como é que mudar hábitos de alimentação ajuda a proteger as pessoas e o planeta e também a contribuir para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável?</strong></p>
<p>FP: O sistema alimentar (da produção ao desperdício) é responsável por cerca de um terço das emissões globais de gases com efeito de estufa, além de contribuir para a degradação dos solos e a perda de biodiversidade. Simultaneamente, os padrões alimentares inadequados estão entre as principais ameaças à saúde humana.</p>
<p>É esta dupla face que torna a alimentação um ponto de alavancagem único: a mesma mudança que reduz a pegada climática (mais alimentos de origem vegetal, mais produtos locais e sazonais, menos desperdício) melhora também a saúde de quem a adota.</p>
<p>A Comissão EAT-Lancet demonstrou precisamente que é possível alimentar de forma saudável uma população mundial em crescimento dentro dos limites do planeta. Nesta perspetiva, mudar hábitos alimentares contribui diretamente para vários Objetivos do Desenvolvimento Sustentável: a saúde e o bem-estar (ODS 3), o consumo e a produção responsáveis (ODS 12), a ação climática (ODS 13), e ainda a erradicação da fome através de sistemas alimentares mais equitativos e resilientes (ODS 2). Poucas escolhas quotidianas têm um alcance tão transversal.</p>
<p><strong>Consideram que o papel da alimentação (das escolhas que todos nós fazemos no dia-a-dia) no combate às crises planetárias está a receber a atenção necessária? Em Portugal, especificamente, é um tema que está a ter a prioridade que devia nos esforços de proteção ambiental e climática?</strong></p>
<p>FP: Honestamente, não. O debate climático continua muito centrado na energia e nos transportes, setores evidentemente cruciais; mas a alimentação, apesar de representar cerca de um terço das emissões globais, raramente ocupa lugar central nas políticas climáticas ou na comunicação pública.</p>
<p>O nosso estudo foi, aliás, motivado por esta lacuna: tanto quanto sabemos, foi a primeira investigação a procurar explicar, numa amostra representativa da população portuguesa, o que leva os adultos a adotar (ou não) comportamentos alimentares sustentáveis.</p>
<p>Em Portugal, o tema tem ganho alguma visibilidade, mas de forma fragmentada, e sem a articulação necessária entre políticas de saúde, de ambiente e agroalimentares. É uma oportunidade perdida, porque temos condições particularmente favoráveis: uma tradição alimentar mediterrânica (reconhecidamente saudável e sustentável) que importa preservar e reativar, produção local de qualidade e uma população que, como os nossos dados mostram, já reconhece as vantagens da mudança. Falta transformar este potencial em prioridade política, com metas concretas, envolvendo o Estado, a indústria, as escolas e o sector da saúde.</p>
<p><strong>Mudar para hábitos alimentares mais sustentáveis deve ser também encarado como uma forma de mitigação das alterações climáticas e de adaptação do país aos seus efeitos? Está a ser entendido enquanto tal nas políticas climáticas, e também alimentares e agrícolas, em Portugal?</strong></p>
<p>FP: Deve ser encarado como ambas as coisas, sem dúvida. Como mitigação, porque reduzir o consumo de produtos de elevada pegada carbónica e privilegiar alimentos de origem vegetal, locais e sazonais diminui diretamente as emissões associadas ao sistema alimentar. Como adaptação, porque sistemas alimentares mais diversificados, mais locais e menos dependentes de cadeias longas de abastecimento tornam o país mais resiliente aos efeitos das alterações climáticas (que incluem secas, fenómenos extremos, perturbações no comércio internacional) que já afetam a produção agrícola.</p>
<p>Quanto à segunda parte da pergunta: parece-nos que esta dupla função ainda não está plenamente refletida nas políticas portuguesas, onde as dimensões climática, alimentar e agrícola parecem ser tratadas separadamente.</p>
<p>No nosso estudo, propomos medidas que fazem essa ponte: benefícios fiscais para empresas que comercializem produtos sustentáveis, taxação de produtos não sustentáveis para reduzir a diferença de preço, incentivos à agricultura biológica e sustentável, e programas de educação alimentar nas escolas.</p>
<p>A alimentação é dos raros domínios em que a política climática, a política de saúde e a política agrícola podem convergir, e ganhar todas.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Tam e Belo: Os saguins resgatados que encontraram uma segunda oportunidade em Portugal</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/tam-e-belo-os-saguins-resgatados-que-encontraram-uma-segunda-oportunidade-em-portugal/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Filipe Pimentel Rações]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Aug 2026 14:02:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Animais]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[animais]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<category><![CDATA[primatas]]></category>
		<category><![CDATA[tráfico]]></category>
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					<description><![CDATA[Dois saguins resgatados em Espanha e na Bélgica estão agora a viver no Krazy World, um zoo no Algarve, depois de inícios de vida conturbados e traumáticos que revelam o flagelo do tráfico de espécies selvagens.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>No primeiro dia de outubro de 2024, a polícia foi chamada à localidade de El Zabal, na cidade de La Línea de la Concepción, no sul de Espanha. Respondiam à queixa de que uma pessoa tinha sido mordida por um macaco.</p>
<p>Chegado ao local, o Serviço de Proteção da Natureza da Guarda Civil (SEPRONA) recolheu o animal. Tratava-se de um saguim-cabeça-de-algodão (<em>Oedipomidas Oedipus</em>), que deambulava sozinho pelas ruas.</p>
<figure id="attachment_303318" aria-describedby="caption-attachment-303318" style="width: 600px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="wp-image-303318 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/08/20241003-Tam-PAtricia-Gonzalez-AAP-e1787570750609.jpeg" alt="" width="600" height="777" /><figcaption id="caption-attachment-303318" class="wp-caption-text">Tam no centro de resgate da AAP, em Espanha. O saguim estava muito magro e o seu pêlo apresentava sinais de cuidados desadequados. Foto: Patricia González / AAP.</figcaption></figure>
<p>Uma semana depois, o pequeno primata foi recolhido pela organização europeia de resgate animal AAP e levado para o seu centro de recuperação espanhol. Aí, os especialistas verificaram que se tratava de uma jovem fêmea, com um a dois anos de idade, e batizaram-na com o nome Tam.</p>
<p>Estava extremamente magra. Numa escala de um a nove, sendo cinco o ideal, a condição corporal de Tam estava no nível três.</p>
<p>O estado de saúde refletia-se também no seu pêlo, sem brilho e em mau estado, traços indicativos de uma má alimentação e de que ao animal não estavam a ser prestados os cuidados devidos. Além disso, as equipas da AAP perceberam que Tam tinha deformações nos ossos dos braços, que os veterinários atribuíram a doença óssea metabólica causada pela carência de vitamina D (associada a uma dieta desadequada) e pela falta de exposição à luz solar.</p>
<p><iframe loading="lazy" title="YouTube video player" src="https://www.youtube.com/embed/QAsnspKsYz0?si=cOAx35WtMYh5_n4n" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p>Explica a AAP à ‘Green Savers’ que Tam, chegada ao centro de recuperação espanhol, mostrava sinais de ansiedade e algum medo, mas também curiosidade sobre o novo espaço e sobre o que se passava à sua volta. Como é protocolo, Tam ficou em quarentena durante 12 semanas, período durante o qual recebeu os tratamentos necessários, incluindo para uma infeção bacteriana que foi detetada, e uma dieta própria para os saguins, para aumentar de peso e melhorar a sua condição física de forma geral.</p>
<p>Tam ficou mais de um ano nas instalações espanholas da AAP antes de viajar até Portugal para se juntar a um outro saguim, o Belo, e começar um novo capítulo da sua vida.</p>
<p><strong>Uma espécie rara</strong></p>
<p>Tam pertence a uma espécie classificada como “criticamente em perigo” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Os saguins-cabeça-de-algodão são nativos da Colômbia, encontrados apenas nas florestas do noroeste desse país da América Latina. Estima-se que não existam mais de seis mil desses animais na Natureza, fazendo deles dos primatas mais ameaçados do mundo.</p>
<figure id="attachment_303319" aria-describedby="caption-attachment-303319" style="width: 600px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-303319 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/08/20250722-Tam-Pedro-Gutierrez-AAP-2-e1787570982508.jpg" alt="" width="600" height="800" /><figcaption id="caption-attachment-303319" class="wp-caption-text">Os saguins-cabeça-de-algodão são nativos da Colômbia e uma espécie classificada como “criticamente em perigo” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. Foto: Pedro Gutiérrez / AAP.</figcaption></figure>
<p>Entre as principais ameaças contam-se a contínua e intensa destruição das florestas onde esse macaco vivo e a captura para o mercado dos animais de estimação exóticos.</p>
<p>De acordo com as informações mais recentes, não foi possível descobrir a origem de Tam, pelo que a sua história antes de ser encontrada a vaguear sozinha pelas ruas de La Línea de la Concepción continua a ser um mistério, provavelmente um de contornos trágicos. No entanto, tudo indica que Tam tenha sido mais uma vítima do comércio ilegal para o mercado dos animais de estimação exóticos.</p>
<p><strong>Belo volta a ter companhia</strong></p>
<p>Outra personagem desta história é Belo, um macho de saguim-de-mãos-douradas (<em>Saguinus midas</em>). Belo foi resgatado em novembro de 2018 na Bélgica, quando tinha cerca de seis meses de idade. Fora confiscado pelas autoridades belgas juntamente com outros dois: Manani, um saguim-comum (<em>Callithrix jacchus</em>), e Goiani, um saguim-de-cara-branca (<em>Callithrix geoffroyi</em>).</p>
<p>Segundo as informações partilhadas pela AAP com a ‘Green Savers’, os animais foram apreendidos a uma pessoa que os tinha comprado na Polónia, e que não estaria ciente de que a sua posse era ilegal na Bélgica. Os três saguins era muitos jovens, ainda dependentes de leite, e eram mantidos numa gaiola para hámsteres, como animais de estimação.</p>
<p>Depois de confiscados, os três foram levados para as instalações da AAP em Almere, nos Países Baixos, sede da organização e também centro de resgate nesse país. Todos apresentavam pesos abaixo do ideal, considerando espécie e idade. Além disso, Belo tinha dificuldade em mover-se e os seus membros pareciam rígidos.</p>
<figure id="attachment_303320" aria-describedby="caption-attachment-303320" style="width: 600px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-303320 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/08/Belo-centro-resgate-AAP-e1787571116207.jpg" alt="" width="600" height="800" /><figcaption id="caption-attachment-303320" class="wp-caption-text">Belo, o saguim-de-mãos-douradas, no centro de resgate da AAP em Almere, nos Países Baixos. Foto: AAP.</figcaption></figure>
<p>Testes revelaram que os três saguins combatiam infeções bacterianas e apresentavam deficiência de vitamina D.</p>
<p>Após um mês de cuidados, Belo recuperou a sua mobilidade e estava mais ativo, e, no final do período de 12 semanas de quarentena, todos os primatas tinham atingido o peso ideal.</p>
<p>Cerca de um ano após o resgate, Belo e Goiani foram transferidos para o Krazy World, um parque zoológico na localidade de Algoz, no município algarvio de Silves.</p>
<p>Recentemente, Goiani morreu, deixando Belo sozinho, pelo que a AAP e o Krazy World decidiram trazer Tam para fazer companhia ao saguim-de-mãos-douradas, e os dois vivem agora juntos em Portugal, cada um com a sua história traumática, mas, segundo nos dizem aqueles que com eles mais de perto lidam, com uma grande resiliência e vontade de viver.</p>
<p>Os saguins-de-mãos-douradas são nativos do Brasil e das Guianas, estando classificados como “pouco preocupante” na Lista Vermelha da UICN.</p>
<p><strong>Um novo começo em Portugal</strong></p>
<p>Depois de começos de vida conturbados e trágicos, Tam e Belo estão agora a dar os primeiros passos numa nova etapa das suas existências.</p>
<p>Tam chegou ao Krazy World este verão, onde foi integrada no mesmo recinto onde residia Belo. Apesar de serem de espécies diferentes, são animais extremamente sociais que evoluíram para viver em grupo, pelo que as instituições e os seus especialistas tinham como prioridade proporcionar-lhes a tão necessária companhia.</p>
<figure id="attachment_303321" aria-describedby="caption-attachment-303321" style="width: 600px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-303321 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/08/TAM-Krazy-World-scaled-e1787571333167.jpg" alt="" width="600" height="688" /><figcaption id="caption-attachment-303321" class="wp-caption-text">Tam na sua nova casa. Foto: Krazy World.</figcaption></figure>
<p>Diz-nos a AAP que antes da transferência de Tam para Portugal, as equipas técnicas mostraram ao saguim-cabeça-de-algodão vídeos de saguins-de-mãos-douradas para a fêmea se habituar às vocalizações daquele que viria a ser o seu novo companheiro. Essa técnica visava facilitar a integração dos dois primatas nas novas instalações portuguesas.</p>
<p>A AAP explica que a escolha do Krazy World para receber esses primatas se deveu ao facto de esse ser um zoo essencialmente orientado para o acolhimento de animais resgatados.</p>
<p>“Muitos zoos não estão ainda preparados para receber animais resgatados, uma vez que, mesmo depois da recuperação, chegam com vários traumas, o que pode dificultar os seus cuidados”, detalha fonte da AAP.</p>
<p>A maioria dos animais ao cuidado do Krazy World provieram de confiscações ou de centros de resgate.</p>
<figure id="attachment_303322" aria-describedby="caption-attachment-303322" style="width: 600px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-303322 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/08/BELO-Krazy-World-scaled-e1787571466406.jpg" alt="" width="600" height="338" /><figcaption id="caption-attachment-303322" class="wp-caption-text">Belo chegou ao Krazy World em 2018, juntamente com outro saguim, Goiani, com o qual fora resgatado. Goiani morreu e Belo ficou sozinho, pelo que as instituições decidiram trazer Tam, para poderem fazer companhia um ao outro. Foto: Krazy World.</figcaption></figure>
<p>De acordo com Tiago Nabiço, responsável da área animal desse zoológico, a integração de Tam, depois de uma quarentena de 30 dias, com Belo foi “bem-sucedida”, permitindo a formação do que descreve como um “grupo social estável”.</p>
<p>“Essa convivência proporciona-lhes interações sociais naturais consideradas fundamentais para o seu equilíbrio físico e comportamental”, explica o responsável, o que tornou possível aos dois saguins ultrapassar uma situação de isolamento e retomarem vidas, ainda que muito diferentes, o mais parecidas possível às que teriam em meio selvagem.</p>
<p>Para Tiago Nabiço, esta é “uma segunda oportunidade de vida” e um exemplo de recuperação de animais vítimas de tráfico, posse irresponsável de animais exóticos ou de abandono.</p>
<div style="width: 640px;" class="wp-video"><video class="wp-video-shortcode" id="video-303317-1" width="640" height="360" preload="metadata" controls="controls"><source type="video/mp4" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/08/VIDEO-TAM-E-BELO-1.mp4?_=1" /><a href="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/08/VIDEO-TAM-E-BELO-1.mp4">https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/08/VIDEO-TAM-E-BELO-1.mp4</a></video></div>
<h6>Tam e Belo partilham agora o mesmo recinto no zoo Krazy World, no Algarve, onde fazem companhia um ao outro, pois a socialização é uma importante dimensão da vida dos saguins. Fonte: Krazy World.</h6>
<p>&nbsp;</p>
<p>Tam recebeu um implante contracetivo, pois embora ela e Belo pertençam a espécies diferentes, a sua proximidade genética e evolutiva não exclui totalmente a possibilidade, ainda que remota, de reprodução. Mas o responsável da área animal do Krazy World assegura que “neste caso, não é, de todo, o objetivo a reprodução”, mas, isso sim, permitir que ambos os saguins possam, simplesmente, viver em paz as suas vidas.</p>
<p><strong>O flagelo do tráfico</strong></p>
<p>O comércio ilegal, destacadamente para o mercado dos animais de estimação exóticos, é considerado uma das grandes ameaças a várias espécies pelo mundo fora, e os primatas são um dos grupos mais fortemente afetados.</p>
<p>A Europa é considerada uma das regiões mais importantes no tráfico global de vida selvagem, como destino, ponto de passagem ou origem. Para a AAP, “a lei europeia não protege adequadamente as espécies de animais selvagens do comércio legal ou ilegal”.</p>
<p>E isso em muito se deve ao que a organização descreve como “um conjunto heterogéneo de regulamentos” que, apesar de abrangerem certas dimensões do comércio, pecam pela desarticulação e pela consequente ineficiência. Por isso, a AAP defende a existência de um “quadro regulatório único e abrangente” comum a todos os Estados-membros e a criação de uma Lista Positiva para toda a União Europeia.</p>
<p>Essa lista, explica a organização, deve definir claramente quais os animais que podem ser mantidos como animais de estimação, excluindo, por defeito, todos os outros que dela não constem. “Esta lista deve basear-se em critérios científicos verificáveis com o bem-estar dos animais no centro dos processos de tomada de decisão”, declara a AAP.</p>
<p>A internet e as redes sociais online vieram amplificar o tráfico de vida selvagem e tornar muito mais complicados os esforços para combatê-lo. Por isso, o lado da procura, tal como o da oferta, é uma dimensão crucial do problema e deve, por isso, ser também alvo de medidas, como estratégias direcionadas de redução da procura.</p>
<p>“Não é nada correto ter um animai selvagem como animal de estimação, e precisamos que isso se torne a narrativa dominante nas nossas comunidades”, sublinha a AAP.</p>
<p>Tiago Nabiço destaca o papel que as instituições zoológicas, como o Krazy World, podem ter no combate ao tráfico de animais selvagens, designadamente na sensibilização do público para os riscos da posse ilegal ou irresponsável de espécies exóticas, bem como na receção, recuperação, reabilitação e integração de animais resgatados.</p>
<p>“Os saguins não são animais de companhia e as suas necessidades sociais, nutricionais e comportamentais são extremamente específicas, sendo dificilmente satisfeitas num ambiente doméstico”, avisa o responsável.</p>
<p>“Quando deixam de poder ser mantidos pelos seus detentores, podem acabar abandonados ou apreendidos pelas autoridades e necessitam de centros especializados”, diz, destacando que “o caso da Tam e do Belo é apresentado precisamente como um exemplo da importância da cooperação entre instituições especializadas”.</p>
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		<item>
		<title>Infeções sucessivas têm adiado vinda do elefante Kariba para o santuário no Alentejo</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/infecoes-sucessivas-tem-adiado-vinda-do-elefante-kariba-para-o-santuario-no-alentejo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Filipe Pimentel Rações]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Aug 2026 15:02:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Animais]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[elefante]]></category>
		<category><![CDATA[Kariba]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<category><![CDATA[santuário]]></category>
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					<description><![CDATA[Recentemente, o animal perdeu parte de uma das suas orelhas por causa de uma infeção, adiando novamente a sua transferência da Bélgica para Portugal. A viajem já tinha sido adiada em junho, por causa de um abcesso numa das suas patas.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://greensavers.sapo.pt/kariba-um-dos-elefantes-de-cativeiro-que-encontrara-nova-casa-no-santuario-em-portugal/" target="_blank" rel="noopener">Kariba</a>, um elefante-africano fêmea com pouco mais de 40 anos de idade, era suposto ser o primeiro da sua espécie a chegar ao santuário de elefantes que foi construído no Alentejo.</p>
<p>No entanto, segundo informações avançadas pela Pangea, a organização responsável pelo santuário, infeções sucessivas têm adiado a vinda do animal para Portugal.</p>
<p>A transferência de Kariba do zoológico belga Pakawi Park para o santuário estava <a href="https://greensavers.sapo.pt/elefante-de-zoo-na-belgica-sera-o-primeiro-a-chegar-a-santuario-no-alentejo/" target="_blank" rel="noopener">planeada para o início deste ano</a>, tendo o elefante sido treinado para a viagem para Portugal. Mas em junho foi adiada porque tinha desenvolvido um abcesso numa das suas patas.</p>
<p>De acordo com a informação partilhada esta sexta-feira pela Pangea, desde então foi afetada por duas outras infeções: uma no peito e outra mais séria que resultou na perda de parte da sua orelha esquerda.</p>
<figure id="attachment_303291" aria-describedby="caption-attachment-303291" style="width: 1638px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-303291 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/08/782345017_942631028870767_2224441656828539519_n-e1787319864930.jpg" alt="" width="1638" height="1485" srcset="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/08/782345017_942631028870767_2224441656828539519_n-e1787319864930.jpg 1638w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/08/782345017_942631028870767_2224441656828539519_n-e1787319864930-300x272.jpg 300w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/08/782345017_942631028870767_2224441656828539519_n-e1787319864930-1024x928.jpg 1024w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/08/782345017_942631028870767_2224441656828539519_n-e1787319864930-768x696.jpg 768w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/08/782345017_942631028870767_2224441656828539519_n-e1787319864930-1536x1393.jpg 1536w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/08/782345017_942631028870767_2224441656828539519_n-e1787319864930-600x544.jpg 600w" sizes="auto, (max-width: 1638px) 100vw, 1638px" /><figcaption id="caption-attachment-303291" class="wp-caption-text">Uma infeção levou a perda de parte da orelha esquerda de Kariba, mas médicos dizem que as feridas estão a sarar bem. Foto: Pangea Elephant Sanctuary / Facebook.</figcaption></figure>
<p>A organização diz que há várias razões para o facto de Kariba ter desenvolvido múltiplas infeções. “Uma infeção que não é totalmente curada nem sempre fica no mesmo local”, é explicado numa publicação das redes sociais online.</p>
<p>“As bactérias podem viajar pela corrente sanguínea para novas áreas do corpo, uma razão pela qual um único abcesso persistente pode fazer com que outros apareçam noutros sítios”, refere a Pangea. E acrescenta que os abcessos nas patas podem inclusivamente ser sinal de problemas de saúde mais graves, “especialmente em elefantes mais velhos que viveram em cativeiro, como a Kariba, que têm menos oportunidades para se movimentarem”.</p>
<p>Segundo as informações partilhadas, o Pakawi Park chamou um veterinário especializado em elefantes para tratar e acompanhar a evolução do estado de saúde de Kariba.</p>
<p>As boas notícias é que duas das três infeções já estão praticamente curadas e que as feridas na sua orelha estão a sarar bem. Mas o caminho pela frente ainda é longo, e a Pangea diz que, por isso, não é possível, para já, saber quando o elefante estará apto a viajar para o santuário no Alentejo.</p>
<p>“Os últimos meses têm sido difíceis para ela”, diz a organização.</p>
<p>Kariba, como muitos outros elefantes, teve uma vida marcada por tragédia, sofrimento e solidão. Foi capturada em 1984, ainda bebé, no Zimbabué, onde vivia em liberdade. Retirada da sua família, foi transportada ao longo de milhares de quilómetros até um parque zoológico na Alemanha.</p>
<p>Em 2012, o grande mamífero foi transferido para um outro zoo, na Bélgica, o Pakawi Park, onde passou a partilhar um espaço com outro elefante-africano, Jenny. Contudo, em 2021, Jenny faleceu e Kariba ficou sozinha, um duro golpe para um animal altamente social.</p>
<p>No santuário, Kariba juntar-se-ia a <a href="https://greensavers.sapo.pt/julie-o-ultimo-elefante-de-circo-em-portugal-sera-dos-primeiros-a-comecar-nova-vida-no-santuario-do-alentejo/" target="_blank" rel="noopener">Julie</a>, o último elefante de circo em Portugal, que <a href="https://greensavers.sapo.pt/ultimo-elefante-de-circo-em-portugal-ja-mora-em-santuario-no-alentejo/" target="_blank" rel="noopener">chegou à sua nova casa no passado mês de julho</a>, depois de quase 40 anos como parte do Circo Victor Hugo Cardinali.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Muitos anfíbios e répteis europeus de hoje surgiram há 16 milhões de anos, revela estudo</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/muitos-anfibios-e-repteis-europeus-de-hoje-surgiram-ha-16-milhoes-de-anos-revela-estudo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Aug 2026 14:04:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Animais]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
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		<category><![CDATA[animais]]></category>
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		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<category><![CDATA[répteis]]></category>
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					<description><![CDATA[Para Vicente D. Crespo, investigador português que participou neste trabalho, o objetivo era “ajudar a preencher um dos maiores vazios de conhecimento sobre a evolução dos anfíbios e répteis na Península Ibérica, sendo mais um passo na reconstrução dos ecossistemas do Miocénico Ibérico”.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Um estudo publicado recentemente na revista ‘<a href="https://preprints.arphahub.com/article/189735/" target="_blank" rel="noopener">Fossil Record</a>’, que contou com a participação de um investigador português, revela a evolução dos anfíbios e répteis da Península Ibérica há 16 milhões de anos.</p>
<p>Vicente D. Crespo, investigador de paleontologia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCT) e do Museu da Lourinhã, é o principal coautor, e Rafael Marquina Blasco, da Universidade de Valencia, é o primeiro autor.</p>
<p>O estudo apresenta o que a NOVA FCT diz ser “a análise mais abrangente realizada até ao momento sobre os répteis e anfíbios [grupo também conhecido como herpetofauna] da época geológica Miocénico Inferior na região de Ribesalbes-Alcora, em Espanha”.</p>
<p>Para Vicente D. Crespo, este trabalho pretende “ajudar a preencher um dos maiores vazios de conhecimento sobre a evolução dos anfíbios e répteis na Península Ibérica, sendo mais um passo na reconstrução dos ecossistemas do Miocénico Ibérico, integrando agora estas espécies com os numerosos estudos anteriormente desenvolvidos sobre mamíferos fósseis da Bacia de Ribesalbes-Alcora”.</p>
<p>A investigação tem por base a análise de 4.690 restos fósseis recolhidos em 42 jazidas, que permitiram reconstruir os ecossistemas que existiam há cerca de 16 milhões de anos, fornecendo novas pistas sobre a origem das atuais comunidades europeias de répteis e anfíbios.</p>
<p>Foram identificados 21 táxones de anfíbios e répteis, incluindo salamandras, sapos, crocodilos, tartarugas, lagartos e serpentes. Os resultados mostram que muitas das linhagens que atualmente fazem parte da fauna europeia já estavam estabelecidas durante o Miocénico Inferior, “um período crucial para a formação dos ecossistemas modernos”, explica a instituição.</p>
<p>Considerado um dos resultados mais relevantes desta investigação é a possível identificação do género <em>Pyrenasaurus</em>, anteriormente conhecido apenas em depósitos do Eocénico. Caso esta identificação seja confirmada, explicam os investigadores, o registo prolongará significativamente a história evolutiva deste grupo, sugerindo uma maior estabilidade ecológica em determinadas regiões da Península Ibérica do que se pensava anteriormente.</p>
<p>Os autores do trabalho utilizaram métodos paleoecológicos baseados na ecologia dos anfíbios e répteis para estimar as condições climáticas da época. As análises indicam que a região onde hoje se situa o leste de Espanha era, em muitos períodos, muito mais húmida do que é hoje, com níveis de precipitação geralmente superiores aos atuais, alternando entre fases mais húmidas e períodos relativamente mais secos. Essa constatação está em linha com estudos anteriores realizados sobre os mamíferos fósseis da mesma bacia.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Portugal tem mais rolieiros, mas a ave ameaçada de extinção continua a perder território</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/portugal-tem-mais-rolieiros-mas-a-ave-ameacada-de-extincao-continua-a-perder-territorio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jul 2026 14:03:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Animais]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[aves]]></category>
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		<category><![CDATA[rolieiro]]></category>
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					<description><![CDATA[Desde 2009 a população nacional dessa espécie "Criticamente em perigo" aumentou cerca de 26%, mas a sua área de reprodução foi reduzida em aproximadamente 67% no mesmo período, revela novo estudo de investigadores portugueses.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O rolieiro (<em>Coracias garrulus</em>) está a recuperar em número em Portugal, mas a perder território, revela investigação científica portuguesa.</p>
<p>Desde 2009 a população nacional dessa espécie ameaçada aumentou cerca de 26%, mas a sua área de reprodução foi reduzida em aproximadamente 67% no mesmo período.</p>
<p>As estimativas são apresentadas num artigo publicado este mês na revista ‘<a href="https://bioone.org/journals/ardeola/volume-73/issue-2/arla.73.2.2026.SI-ra4/Twenty-Years-of-Monitoring-the-European-Roller-Coracias-garrulus-in/10.13157/arla.73.2.2026.SI-ra4.short?tab=ArticleLink" target="_blank" rel="noopener">Ardeloa’</a>, que é assinado por investigadores da Estação Biológica de Mértola, do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) e do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO).</p>
<figure id="attachment_302369" aria-describedby="caption-attachment-302369" style="width: 917px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-302369 " src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/2.png" alt="" width="917" height="517" srcset="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/2.png 1920w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/2-300x169.png 300w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/2-1024x576.png 1024w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/2-768x432.png 768w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/2-1536x864.png 1536w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/2-600x338.png 600w" sizes="auto, (max-width: 917px) 100vw, 917px" /><figcaption id="caption-attachment-302369" class="wp-caption-text">A espécie está hoje “fortemente concentrada” no Baixo Alentejo. Segundo o estudo, 96% da população nacional reproduz-se na Zona de Proteção Especial de Castro Verde. Foto: FCUL.</figcaption></figure>
<p>A investigação reúne mais de duas décadas de monitorização da espécie em Portugal e constitui o mais longo conjunto de dados alguma vez compilado sobre o rolieiro no país. Os investigadores analisaram cerca de 650 tentativas de nidificação, dados de captura e recaptura de mais de 1.500 aves anilhadas e censos nacionais da espécie, permitindo avaliar a evolução da população, o sucesso reprodutor e os fatores associados à sua recuperação.</p>
<p>Associado às paisagens agrícolas abertas do Alentejo, o rolieiro é uma ave estepária migradora que depende de habitat adequado para se alimentar e de cavidades para nidificar. Em Portugal, está classificado como “Criticamente em Perigo” e a sua população está atualmente estimada entre 72 e 82 casais reprodutores.</p>
<p>Revelam os investigadores que a espécie está hoje “fortemente concentrada” no Baixo Alentejo. Segundo o estudo, 96% da população nacional reproduz-se na Zona de Proteção Especial de Castro Verde, enquanto fora desta região foram registados apenas três casais, nas Zonas de Proteção Especial de São Vicente e Vila Fernando.</p>
<p>Atualmente, 81% dos casais em Castro Verde utilizam ninhos artificiais, instalados para compensar a falta de cavidades naturais adequadas à reprodução.</p>
<p>Para Teresa Catry, coautora, “este estudo mostra que medidas de conservação consistentes e mantidas ao longo do tempo podem ter um impacto muito positivo na recuperação de espécies ameaçadas”.</p>
<p>Citada em comunicado, a investigadora do CE3C diz que, no caso particular do rolieiro, “a instalação de ninhos artificiais e a gestão do habitat contribuíram para o aumento da população em Castro Verde”.</p>
<figure id="attachment_302370" aria-describedby="caption-attachment-302370" style="width: 700px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-302370 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/3-scaled-e1785419579527.jpg" alt="" width="700" height="933" /><figcaption id="caption-attachment-302370" class="wp-caption-text">Atualmente, 81% dos casais em Castro Verde utilizam ninhos artificiais, instalados para compensar a falta de cavidades naturais adequadas à reprodução. Foto: FCUL.</figcaption></figure>
<p>Ainda assim, salienta que “os resultados também mostram que esta recuperação continua vulnerável, porque a espécie permanece muito concentrada numa única região e depende da continuidade destas ações”.</p>
<p>A vulnerabilidade desta ave à extinção é intensificada pela “forte concentração geográfica da população”, o que aumenta a exposição a fatores de risco alterações locais do seu habitat. A isso acresce também a capacidade reduzida da espécie para recolonizar áreas de onde desapareceu.</p>
<p>A baixa capacidade de dispersão ajuda a explicar esta dificuldade, sugerem os cientistas portugueses. Com este trabalho percebeu-se que as aves jovens estabelecem-se, em média, a apenas 9,7 quilómetros do local onde nasceram, enquanto os adultos que mudam de local de reprodução o fazem numa distância média de apenas 2,5 quilómetros.</p>
<p>“Apesar de as medidas de conservação terem tido um impacto positivo, a espécie continua vulnerável por estar muito concentrada geograficamente e altamente dependente da disponibilização de ninhos artificiais”, alerta Teresa Catry.</p>
<p>“O desafio passa agora por manter o sucesso alcançado em Castro Verde e, ao mesmo tempo, criar condições para que o rolieiro possa voltar a ocupar outras áreas do país. A monitorização a longo prazo é essencial para perceber se as medidas estão a funcionar e para ajustar as estratégias de conservação sempre que necessário.”</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Dia Internacional das Áreas Marinhas Protegidas: Primeira celebração em Portugal acontece no Algarve no dia 1 de agosto</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/dia-internacional-das-areas-marinhas-protegidas-primeira-celebracao-em-portugal-acontece-no-algarve-no-dia-1-de-agosto/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jul 2026 13:03:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoas]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[áreas marinhas protegidas]]></category>
		<category><![CDATA[conservação]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<category><![CDATA[natureza]]></category>
		<category><![CDATA[oceanos]]></category>
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					<description><![CDATA[Criada em 2021 por organizações da África do Sul, desde então transformou-se num movimento global, apoiado pela Década do Oceano das Nações Unidas. O grande objetivo é sensibilizar para a importância das áreas marinhas protegidas na conservação dos oceanos, no desenvolvimento sustentável e no bem-estar das comunidades humanas.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>No próximo sábado, dia 1 de agosto, assinala-se mais um <a href="https://mpaday.org/" target="_blank" rel="noopener">Dia Internacional das Áreas Marinhas Protegidas</a>, e Portugal junta-se à celebração pela primeira vez.</p>
<p>Criada em 2021 por organizações da África do Sul, desde então transformou-se num movimento global, apoiado pela Década do Oceano das Nações Unidas. O grande objetivo é sensibilizar para a importância das áreas marinhas protegidas na conservação dos oceanos, no desenvolvimento sustentável e no bem-estar das comunidades humanas.</p>
<p>Em Portugal, as celebrações serão realizadas de forma descentralizada em Albufeira, Lagoa e Silves, os três municípios abrangidos pelo <a href="https://www.icnf.pt/conservacao/rnapareasprotegidas/parquesnaturais/parquenaturalmarinhodorecifedoalgarvepedradovalado" target="_blank" rel="noopener">Parque Natural Marinho do Recife do Algarve &#8211; Pedra do Valado</a>, a primeira área marinha protegida a ser criada em Portugal no século XXI e também a primeira de interesse comunitário. Abrangendo cerca de 156 quilómetros quadrados, protege um dos mais importantes recifes rochosos costeiros do Algarve, reconhecido pela sua elevada biodiversidade e pela relevância ecológica, social e económica que representa para a região.</p>
<figure id="attachment_302329" aria-describedby="caption-attachment-302329" style="width: 2560px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-302329 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Algarve_Marine_Park_Bela_20220205104829-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1709" srcset="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Algarve_Marine_Park_Bela_20220205104829-scaled.jpg 2560w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Algarve_Marine_Park_Bela_20220205104829-300x200.jpg 300w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Algarve_Marine_Park_Bela_20220205104829-1024x683.jpg 1024w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Algarve_Marine_Park_Bela_20220205104829-768x513.jpg 768w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Algarve_Marine_Park_Bela_20220205104829-1536x1025.jpg 1536w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Algarve_Marine_Park_Bela_20220205104829-2048x1367.jpg 2048w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Algarve_Marine_Park_Bela_20220205104829-600x400.jpg 600w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /><figcaption id="caption-attachment-302329" class="wp-caption-text">O Parque Natural Marinho do Recife do Algarve &#8211; Pedra do Valado foi criado em 2024. © Fundação Oceano Azul &#8211; Emanuel Gonçalves.</figcaption></figure>
<p>A organização regional fica a cargo da AIMM &#8211; Associação para a Investigação do Meio Marinho, com o apoio da Fundação Oceano Azul. Entre os parceiros contam-se também o CCMAR – Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve, a Associação de Pescadores de Armação de Pêra, os municípios de Albufeira, Lagoa e Silves e a Marina de Albufeira. Em comunicado, a AIMM diz que a iniciativa conta ainda com a adesão de várias empresas marítimo-turísticas da região.</p>
<p>“A celebração assume especial relevância a nível nacional e internacional por assinalar a primeira participação de Portugal nesta iniciativa internacional dedicada à valorização e divulgação das áreas marinhas protegidas”, diz a organização coordenadora.</p>
<p>Ao longo do dia 1 de agosto, serão promovidas várias ações destinadas a divulgar o Parque Natural Marinho do Recife do Algarve &#8211; Pedra do Valado, a sua biodiversidade e a importância da sua conservação.</p>
<p>Em Albufeira, a AIMM, juntamente com outros parceiros, estará presente na inauguração da exposição “Parque Natural Marinho do Recife do Algarve &#8211; Pedra do Valado”, marcada para as 11h00, no Espaço Expositivo P5, na baixa de Albufeira. A inauguração contará com uma breve apresentação da AIMM sobre o Dia Internacional das Áreas Marinhas Protegidas e a importância desta área.</p>
<figure id="attachment_302331" aria-describedby="caption-attachment-302331" style="width: 2560px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-302331 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Algarve_Marine_Park_Bela_20220205105544-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1709" srcset="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Algarve_Marine_Park_Bela_20220205105544-scaled.jpg 2560w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Algarve_Marine_Park_Bela_20220205105544-300x200.jpg 300w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Algarve_Marine_Park_Bela_20220205105544-1024x683.jpg 1024w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Algarve_Marine_Park_Bela_20220205105544-768x513.jpg 768w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Algarve_Marine_Park_Bela_20220205105544-1536x1025.jpg 1536w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Algarve_Marine_Park_Bela_20220205105544-2048x1367.jpg 2048w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Algarve_Marine_Park_Bela_20220205105544-600x400.jpg 600w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /><figcaption id="caption-attachment-302331" class="wp-caption-text">Das 1294 espécies de fauna e flora reportadas na costa algarvia, 889 foram identificadas na Pedra do Valado. 703 são invertebrados, 75 são espécies de algas, e 111 são peixes, incluindo espécies com estatuto de conservação, como os cavalos-marinhos e os meros. © Fundação Oceano Azul &#8211; Emanuel Gonçalves.</figcaption></figure>
<p>Em Silves, a AIMM, em colaboração com o CCMAR e a Associação de Pescadores de Armação de Pêra, irá promover, na Praia dos Pescadores, em Armação de Pêra, um peddy-paper com jogos e dinâmicas relacionados com o Parque. Está também prevista uma demonstração, por parte dos pescadores locais, das artes de pesca tradicionalmente utilizadas na região. As atividades decorrerão entre as 9h30 e as 11h00.</p>
<p>Por fim, em Lagoa, a AIMM estará presente na Praia de Benagil, onde investigadores da organização irão colaborar, ao longo do dia, nos briefings dirigidos aos visitantes das grutas de Benagil que realizem a visita de caiaque.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
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		<title>Agricultura e Biodiversidade: Como as práticas regenerativas podem reforçar essa relação vital</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/agricultura-e-biodiversidade-como-as-praticas-regenerativas-podem-reforcar-essa-relacao-vital/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Filipe Pimentel Rações]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Jul 2026 09:03:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Agricultura]]></category>
		<category><![CDATA[Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[agricultura]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<category><![CDATA[revista]]></category>
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					<description><![CDATA[A agricultura é dos setores mais expostos às crises planetárias, como as alterações climáticas e a perda de biodiversidade, pela sua alta dependência da saúde e bom funcionamento dos ecossistemas. Para ser sustentável num planeta em mudança, tem de se adaptar e as práticas regenerativas podem ser parte da solução.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>É um grande paradoxo que o setor que mais depende da biodiversidade, a agricultura, seja também a maior ameaça aos ecossistemas mais frágeis do mundo”. Esta frase foi usada pelo Banco Mundial aquando da divulgação de um relatório em dezembro de 2025, no qual os especialistas concluem que, nesta altura, o mais premente não é apenas reduzir os impactos da agricultura na biodiversidade, mas sim colocar a biodiversidade no centro de todas as políticas e investimentos agrícolas.</p>
<p>A agricultura é uma das atividades mais antigas da história humana, pensando-se que terá emergido algures há 10.000 ou 12.000 anos. Foi um marco incontornável na jornada da nossa espécie na Terra, alterando profundamente a organização das sociedades e a nossa relação com o mundo natural que nos rodeia, permitindo a transição do nomadismo para modos de vida sedentários e geograficamente mais estáveis e com maior previsibilidade no que toca à obtenção de alimento.</p>
<p>Mas a agricultura não mudou só a nossa história, transformando indelevelmente também a de muitos outros seres que partilham connosco o planeta, a de inúmeras paisagens e habitats e, no final de contas, a da própria Terra. Avanços tecnológicos revolucionaram a agricultura de subsistência, a de pequena escala e a de menores impactos no ambiente. Com a ajuda de máquinas e de produtos químicos sintéticos, os humanos transformaram não só a agricultura e a produção de alimentos, mas também o mundo.</p>
<p>Atualmente, a expansão da agricultura, muito impulsionada pelas forças de um mercado global ainda fortemente assente na lógica capitalista e na abordagem extrativista, é apontada como uma das grandes ameaças à diversidade de formas de vida que distingue o nosso planeta. Várias espécies de animais e plantas têm na agricultura, no seu alargamento e na sua intensificação, o maior perigo que a sua sobrevivência enfrenta.</p>
<p>Numa altura em que a perda de biodiversidade é classificada como uma das crises planetárias, e que as previsões de aumento da população mundial deixam antever maiores necessidades de alimento, alinhar a agricultura com os objetivos de conservação e revitalização da Natureza é fundamental, para o futuro de ambas.</p>
<p><strong>Uma relação íntima e nem sempre fácil</strong></p>
<p>Pensar na agricultura sem pensar na biodiversidade é o mesmo que pensar na pesca sem pensar no mar.</p>
<p>A agricultura está altamente dependente da saúde e do funcionamento dos solos nos quais criam raízes as plantas – que dão frutos, cereais, fibras, alimento para nós e para outros animais. Sem solos saudáveis, livres de tóxicos, sustentados por comunidades diversas de microrganismos que reciclam matéria orgânica e nutrem o solo e por teias ecológicas dinâmicas, sustentáveis e resilientes, a produção agrícola ver-se-á fortemente limitada, mesmo com toda a tecnologia e químicos que possam ser usados para tentar, muitas vezes em vão, contornar a desvitalização progressiva do solo.</p>
<p>Mas a relação entre a agricultura e a biodiversidade vai mais além. Os insetos e outros invertebrados são fundamentais nessa relação, servindo como guardiões naturais das plantas (ainda que nem todos, claro) contra outros organismos que as fragilizam e destroem. Esses e outros animais levam consigo os grãos de pólen de umas plantas para as outras, as sementes de um local para o outro, ajudando a manter a diversidade genética das culturas e a aumentar a sua resiliência face a acontecimentos potencialmente devastadores, como doenças ou pragas. Estima-se que cerca de 80% das culturas em todo o mundo dependam de alguma forma da polinização feita por insetos, como as abelhas, borboletas e sirfídeos, e por outros animais.</p>
<p>A juntar a tudo isso, ecossistemas saudáveis e diversos contribuem para a formação, proteção e descontaminação dos solos e dos sedimentos e para a qualidade e quantidade de água doce disponível, um recurso precioso e a rarear.</p>
<p>Todos esses serviços de ecossistema, como são conhecidos na gíria científica e até já cada vez mais em discursos públicos, como dos políticos, são fundamentais para que a agricultura seja produtiva e possa lidar com alterações ambientais que, sem eles, poderiam ser desastrosas.</p>
<p>O Banco Mundial calcula que as paisagens com uma porção de entre 20% e 25% de habitats naturais fornecem melhores serviços de ecossistema, e que abaixo dos 10% alguns desses serviços desaparecem por completo. Atualmente, entre 18% e 33% das zonas agrícolas a nível mundial não têm áreas de habitats naturais em suficiente dimensão e com a devida estrutura e funcionamento para, por exemplo, promover a polinização selvagem e o controlo natural de pragas.</p>
<p>Os impactos da agricultura na biodiversidade são significativos. A produção de alimentos é considerada a principal causa da perda de biodiversidade a nível global, seja através da sua intensificação, seja por via da sua expansão que resulta na destruição de habitats naturais.</p>
<p>Um relatório de 2021, da Chatham House com o apoio do Programa Ambiental das Nações Unidas, com o título “Food System Impacts on Biodiversity Loss”, apontava que a agricultura é identificada como uma ameaça a 24.000 de 28.000 espécies ameaçadas de extinção. E agricultura é também apontada como o maior consumidor de água (cerca de 70% do uso global) e uma fonte de emissões de gases com efeito de estufa (através da conversão de habitats naturais em áreas agrícolas, das emissões na produção e operações), que agravam a crise climática, dessa forma afetando, indiretamente, a biodiversidade com a redução das áreas favoráveis a muitas espécies não-humanas.</p>
<p>Apesar desta relação conturbada, a agricultura é um dos principais beneficiários das diversidades biológica e ecológica e um dos principais interessados na sua proteção, conservação e recuperação, pois delas depende a sustentabilidade e rentabilidade da sua produção. Nesse sentido, e apesar de ao longo da História recente, especialmente no último par de séculos com uma explosão demográfica humana e com a revolução tecnológica e industrial, a agricultura ter mais combatido a Natureza do que trabalhado ao lado dela, hoje percebe-se que é preciso juntar forças para que ambas possam prosperar. E um novo caminho de sinergia começa a desenhar-se.</p>
<p><strong>Um alinhamento possível, mas ainda não totalmente concretizado</strong></p>
<p>A agricultura pode (e poderia argumentar-se que deve) alinhar-se com os objetivos da conservação e restauro da biodiversidade. Além de ser um dos principais beneficiários de uma Natureza saudável e funcional, o facto de ter impactos significativos e diretos sobre ela significa que é parte indispensável da solução.</p>
<p>João Roseiro, Diretor Agronómico para a Europa na SLM Partners, diz que é “inevitável” questionar se e como a agricultura pode alinhar-se com a conservação e restauro ecológico “num mundo marcado pelo crescimento populacional atual, pelas alterações climáticas e pela degradação dos ecossistemas”.</p>
<p>Para o agrónomo, esse alinhamento “é possível, mas não é automático”, pois tudo depende do modelo agrícola adotado, da escala e do contexto ecológico em que a produção é feita. Sistemas agrícolas mais diversificados, que estejam integrados na paisagem, e não separados dela, e que se articulem com as dinâmicas ecológicas dos ecossistemas onde estão inseridos, “podem desempenhar um papel relevante na conservação da natureza, sobretudo em regiões onde a agricultura já domina o território”, diz João Roseiro.</p>
<p>A ideia de que tudo depende das práticas é ecoada por Ricardo Vieira Santos. O engenheiro agrónomo, e investigador nos institutos MED e CHANGE da Universidade de Évora, diz-nos que os contributos que o setor da produção alimentar poderá dar à conservação da biodiversidade dependem da forma como se faz agricultura.</p>
<p>Para que isso seja conseguido, é preciso equilibrar a produção com a salvaguarda dos serviços de ecossistema. Se o foco incidir desproporcionadamente na produção e desvalorizar a dimensão ecológica, então voltamos a uma visão extrativista da agricultura, em que o que se quer é tirar o máximo possível da terra sem preocupação em reduzir ou remediar os danos causados.</p>
<p><strong>Um caminho que vai sendo feito</strong></p>
<p>Em Portugal, a agricultura tem procurado tornar-se mais sustentável e reduzir os seus impactos negativos nos ecossistemas dos quais depende, como usar a água e o solo de forma mais eficiente e recorrer menos a químicos tóxicos, tentando, ao mesmo tempo, que isso não resulte em quebras na produção e na rentabilidade do setor. Um equilíbrio nem sempre fácil nem isento de solavancos ou trambolhões, mas, ainda assim, possível.</p>
<p>Diz David Fangueiro, professor no Instituto Superior de Agronomia (ISA) da Universidade de Lisboa e coordenador do centro de investigação LEAF &#8211; Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food, que “o nosso setor agrícola está cada vez mais alinhado com as estratégias de conservação e restauro”.</p>
<p>Destacando o papel das associações e organizações de produtores na sensibilização dos agricultores para essas questões, o investigador afirma que “há uma vontade de melhorar os solos para os tornar mais produtivos”, a par de “uma grande preocupação em deixar para as próximas gerações solos que sejam, pelo menos, tão bons como os que receberam”.</p>
<p>Contudo, essa transição, que não é apenas de formas de fazer, mas também de formas de pensar e de relação com o ambiente envolvente, não é um movimento contínuo e fluido. Refere David Fangueiro que existem “diferentes realidades e nem todos os agricultores têm ainda essa consciência”.</p>
<p>Algo semelhante é-nos dito por João Roseiro, que detalha que a agricultura em Portugal “não segue um modelo único”. Por cá, “coexistem sistemas ainda marcadamente extrativistas”, que dependem muito de inputs externos, como adubos e químicos sintéticos, e que fazem uma grande pressão sobre os solos e a água, e “outros modelos mais integrados”, tais como os sistemas agroflorestais, explorações em transição ecológica ou “projetos que incorporam práticas de conservação do solo e promoção ativa da biodiversidade”.</p>
<p>Para o agrónomo da SLM Partners, essa “pluralidade” é reflexo de “uma transição em curso, ainda incompleta e desigual” que é impulsionada por “políticas europeias, exigências de mercado e uma crescente consciencialização ambiental”. Contudo, diz que esse caminho continua a ser limitado por “constrangimentos económicos, técnicos e institucionais”.</p>
<p>A conservação da biodiversidade já entrou nos discursos políticos e nas estratégias, tanto a nível europeu como nacional, mas continua a haver “incoerências” na articulação das políticas de vários setores que limitam a eficácia das medidas no terreno, aponta João Roseiro.</p>
<p>Reconhecendo que a agricultura em Portugal não anda toda à mesma velocidade no que toca à relação com a Natureza, Ricardo Vieira Santos diz que a importância da articulação entre a produção e a conservação deveria chegar a mais agricultores. Mas para isso é preciso dar a conhecer práticas emergentes que permitam “ultrapassar os desafios da atualidade” e que conjuguem “o interesse produtivo do agricultor” com a conservação e restauro dos ecossistemas. Nessa senda, são também importantes políticas públicas que permitam fazer essa transição e, sobretudo, que a incentivem, através de apoios públicos para mitigar potenciais quebras de rendimento resultantes dessa transformação.</p>
<p>Essas abordagens “deverão caminhar lado a lado de forma a chegarem a um maior número de agricultores, pois no fundo são eles que implementam a mudança”, salienta o investigador da Universidade de Évora.</p>
<p>Apesar da importância da aliança entre a agricultura e a conservação da Natureza, especialmente num planeta em convulsão e mais incerto, o incentivo a esse alinhamento não é ainda prioridade política em Portugal. No entanto, os agricultores não estão à espera de que o poder político se chegue à frente e vão fazendo eles o seu próprio caminho.</p>
<p>Isso acontece, a pouco e pouco, “à medida que os agricultores vão reconhecendo os benefícios de práticas consideradas mais sustentáveis ou mesmo regenerativas”, diz Ricardo Vieira Santos, destacando o papel “fundamental” da academia e das associações de agricultores na experimentação e divulgação de conhecimento.</p>
<p>David Fangueiro, do ISA, diz-nos que fazer da produção agrícola e da conservação da biodiversidade duas faces de uma mesma moeda “deveria, sem dúvida, tornar-se numa das prioridades nos próximos anos”. Ainda que os agricultores estejam já a lançar mãos à obra e a implementar a suas próprias medidas, “seria uma mais-valia se houvesse incentivos para estas novas práticas”, salienta.</p>
<p>Aliar a produção agrícola à conservação da biodiversidade implica, portanto, mudar a forma como nas últimas décadas se tem feito grande parte da agricultura (certo que não toda) e como se tem olhado para os ecossistemas e para o mundo natural, e também tentar olhar para os tempos que estão por vir para preparar e adaptar a cenários possivelmente adversos.</p>
<p><strong>Mais do que conservar, regenerar</strong></p>
<p>É neste caminho de construção de uma relação cada vez mais sustentável e próxima entre agricultura e Natureza, em que a ambas possam reforçar-se e beneficiar-se mutuamente, que surge uma série de abordagens à produção agrícola. Uma delas é a Agricultura Regenerativa (AR).</p>
<p>Embora não haja ainda uma definição científica consensual, a AR, em traços muito largos, tem como objetivo precisamente fazer com que a regeneração dos ecossistemas e a produção agrícola não estejam em lados opostos da barricada. De acordo com a Aliança Europeia de Agricultura Regenerativa, os agricultores que a praticam mostram que as colheitas mais resilientes e com maior qualidade são conseguidas através “da regeneração dos ecossistemas, com vários co-benefícios para a saúde e para a mitigação das alterações climáticas”.</p>
<p>Numa tentativa para harmonizar as várias definições, em 2020, um grupo de investigadores encabeçado por Loekie Schreefel, num artigo publicado na revista ‘Global Food Security’, propõe que a agricultura regenerativa seja entendida como “uma abordagem ao cultivo que usa a conservação do solo como ponto de partida para regenerar e contribuir para múltiplos serviços de aprovisionamento, regulação e suporte”, com o objetivo não apenas de melhorar a dimensão ambiental, “mas também as dimensões social e económica da produção sustentável de alimentos”.</p>
<p>Os proponentes da AR defendem que é a abordagem mais indicada para ajudar a combater as crises climática e de perda de biodiversidade, ao mesmo tempo que torna a produção de alimentos mais resiliente a choques ambientais e a eventos extremos e mais alinhada com a conservação da Natureza.</p>
<p>João Roseiro, da SLM Partners, explica-nos que a AR “não é um sistema fechado nem um modo de produção regulamentado”. É, isso sim, “um enquadramento conceptual” que tem por base princípios como a regeneração do solo, a promoção da biodiversidade, a melhoria do ciclo da água e o reforço da resiliência dos ecossistemas agrícolas.</p>
<p>Enquanto a agricultura biológica, por exemplo, caracteriza-se por “regras rígidas de processos, como a exclusão de determinados fertilizantes e fitofármacos de síntese”, acrescenta o agrónomo, a AR “enfatiza os resultados ecológicos mensuráveis”, tais como o aumento da matéria orgânica do solo e a melhoria da sua estrutura física e biológica, ou a maior estabilidade da produção agrícola no contexto de crise climática. Ou seja, ao passo que a biológica centra-se em processos, a regenerativa está orientada para os resultados.</p>
<p>Lembrando-nos de que é a base da agricultura, na melhoria da qualidade do solo a AR pode ter “um papel crucial”, acredita Ricardo Vieira Santos. O investigador da Universidade de Évora explica que, para tal, a agricultura tem se de orientar por práticas regenerativas assentes em cinco grandes princípios: a mínima perturbação do solo, a diversificação das espécies plantadas, o uso de culturas de cobertura com plantas vivas ou fragmentos delas para proteger o solo dos elementos, o máximo número possível de raízes vivas no solo e a introdução de gado para ajudar a revitalizá-lo.</p>
<p>Apesar do que se possa pensar, a AR não surge como uma alternativa a outros modos de agricultura, como a convencional ou a biológica, mas sim como completamento, uma vez que cada um dos dois modos anteriores pode incorporar, em maior ou menor grau, práticas regenerativas.</p>
<p>“A agricultura regenerativa é uma nova forma de produzir que vem oferecer aos agricultores mais uma opção para definirem as melhores estratégias para a sua realidade”, diz David Fangueiro do ISA e coordenador do centro LEAF.</p>
<p>“Não irá ‘acabar’ com os outros modos de produção, surge apenas como mais uma opção, o que é sempre positivo”, aponta, acrescentando que “penso que iremos ter no futuro os três modos de produção, convencional, regenerativo e biológico, a serem usados em contextos distintos”.</p>
<p><strong>A Regenerativa em Portugal</strong></p>
<p>Embora não existam ainda dados consolidados sobre a AR em Portugal, os especialistas dizem que, aqui e ali, vão surgindo iniciativas e explorações que aplicam práticas regenerativas, ainda que, a nível nacional, a AR na sua plenitude não seja ainda muito praticada.</p>
<p>A sementeira direita, sem se ter de perturbar o solo, o uso de culturas de cobertura e a integração de animais, por exemplo, em pomares já acontecem pelo país, e as práticas regenerativas começam também a ser usadas em culturas permanentes, em sistemas agroflorestais e na agricultura de conservação. Essa última integra várias práticas da AR, mas o foco é em manter e proteger o que existe, ao passo que o da AR é regenerar e recuperar.</p>
<p>Há também projetos, uns de ordem mais prática, outros de índole mais científica, que têm como objetivo aumentar o conhecimento sobre essa área emergente e levá-lo aos agricultores e com eles desenvolver soluções.</p>
<p>Um deles é o “SOILRES – Integração multifacetada da biodiversidade para um solo saudável e culturas resilientes”, um projeto europeu coordenado pela Universidade de Aarhus, na Dinamarca, no qual Portugal participa através da Quinta da Cholda e de uma equipa de investigadores do LEAF, incluindo David Fangueiro.</p>
<p>O grande objetivo deste projeto é melhorar a saúde do solo e fortalecer a resiliência das culturas em resposta à degradação dos solos, ao uso excessivo de pesticidas e aos impactos das alterações climáticas. A abordagem passa por promover práticas agrícolas sustentáveis que dão prioridade à biodiversidade e às interações dinâmicas entre o solo, as plantas e os microrganismos.</p>
<p>Tendo arrancado no dia 1 de junho de 2025 e estendendo-se até 31 de maio de 2029, o SOILRES contempla ensaios para validar e melhorar as intervenções inovadoras em seis casos distintos que, diz-nos David Fangueiro, representam as principais regiões agroclimáticas na Europa: a Atlântica (Dinamarca), a Boreal (Finlândia), a Continental (França), a Panónica (Hungria) e a Mediterrânica (Itália e Portugal).</p>
<p>“Ao avaliar o desempenho agronómico, os benefícios ambientais e a relação custo-benefício, o projeto identificará desafios e oportunidades, desenvolvendo, em última instância, estratégias otimizadas para ampliar e replicar práticas sustentáveis nos sistemas agrícolas europeus”, incluindo Portugal, explica o investigador do ISA e coordenador do centro LEAF.</p>
<p>Por cá, os parceiros irão desenvolver estudos sobre o uso de culturas de cobertura e de bioestimulantes na cultura do milho.</p>
<p>Apesar do interesse académico e de algumas explorações e agricultores na AR, persistem obstáculos que, por agora, travam a sua expansão. A falta de conhecimento e de formação sobre essas práticas é apontada pelos especialistas como um dos principais.</p>
<p>Ricardo Vieira Santos, da Universidade de Évora, está confiante de que, à medida que forem sendo demonstrados os benefícios da AR e divulgados os resultados obtidos, “mais agricultores tenderão a aderir a esta forma de produção”.</p>
<p>Nesse sentido, destaca como importante a formação dos agricultores nas práticas regenerativas, especialmente numa fase inicial. Mas não é tudo, pois também a transição poderá acarretar custos com a aquisição de equipamentos ou auxílio técnico, pelo que o investigador considera que apoios podem “incentivar o agricultor à mudança”.</p>
<p>A esse respeito, João Roseiro, da SLM Partners, destaca que os obstáculos à AR em Portugal “são conhecidos” e semelhantes aos que se veem a nível internacional, como “o risco económico durante a fase de transição, a falta de conhecimento técnico aplicado, ausência de incentivos claros e dificuldade em medir e valorizar os benefícios ecológicos”.</p>
<p>Por isso, as barreiras ao desenvolvimento e disseminação da AR tendem a não ser tanto tecnológicas, mas sobretudo económicas e institucionais.</p>
<p><strong>A conservação não tem de limitar a produção</strong></p>
<p>Provavelmente, para muitos a conservação e restauro da biodiversidade é sinónimo de restrições e perdas de produtividade e de rentabilidade. No entanto, a AR não tem necessariamente de ser vista como inimiga da produção.</p>
<p>De uma perspetiva económica, “a agricultura regenerativa não é incompatível com a rentabilidade financeira”, assegura-nos João Roseiro. Isso, porque, quando combinadas com uma gestão eficiente e com acesso a mercados diferenciados, as práticas regenerativas podem “reduzir custos variáveis, aumentar a estabilidade financeira e melhorar margens no médio-prazo”, acrescenta.</p>
<p>A AR pode também promover a rentabilidade agrícola, por exemplo, ao melhorar a fertilidade do solo e reduzir custos com adubos, e também por um “possível aumento de receita” devido a uma maior produtividade e qualidade dos alimentos, diz Ricardo Vieira Santos.</p>
<p>“Implica uma mudança de mentalidade, não só nas práticas agrícolas, mas também na forma como o agricultor lida com o mercado”, salienta. “É necessário continuar o desenvolvimento de soluções, enfrentar os desafios que forem surgindo, adaptar práticas e mentalidades a uma nova abordagem, mas é possível fazer diferente e para melhor.”</p>
<p>David Fangueiro, por sua vez, concorda que as práticas regenerativas ajudam a reduzir custos, mas reconhece também que pode haver quebras de produção, podendo existir situações em que a AR não seja rentável. Por isso, cada prática regenerativa deve ser adaptada ao contexto específico em que está a ser aplicada, pois cada caso é um caso e não existem medidas de “tamanho único”.</p>
<p>“A conservação deve ser feita em conjunto com o setor agrícola que é um dos principais beneficiários. Havendo este diálogo, creio que será possível, encontrar soluções de compromisso que não limitem o setor agrícola”, sentencia o investigador do ISA.</p>
<p>Como tal, a conservação da biodiversidade não tem de limitar a agricultura nem de pôr em risco a sua rentabilidade. Argumenta João Roseiro que “essa visão ignora que a degradação ecológica representa, ela própria, um risco económico significativo”, com custos crescentes para vários setores, incluindo a agricultura.</p>
<p>“A questão central não é se a conservação impõe limites, mas se esses limites são desenhados de forma inteligente, proporcional e acompanhados de incentivos adequados.”</p>
<p>Ricardo Vieira Santos destaca a importância do foco da AR nos resultados e não nos processos, pois isso dará ao agricultor maior liberdade para poder aplicar as medidas que entenda serem as mais adequadas para si e para alcançar os resultados pretendidos ao nível da conservação do ecossistema.</p>
<p>“Deve ser dada mais atenção aos resultados obtidos na conservação do ecossistema do que propriamente à limitação de práticas, até porque o agricultor conhecedor da sua exploração é a melhor pessoa para saber o que pode e deve fazer para melhorar a conservação do seu ecossistema.”</p>
<p><strong>Agricultura em crise climática</strong></p>
<p>Num planeta a mudar rapidamente, a agricultura terá também ela de mudar, de se tornar mais sustentável e mais resiliente, para zelar pela segurança alimentar de todos nós, pela sua própria rentabilidade e também pela proteção dos ecossistemas dos quais ela tanto depende.</p>
<p>No campo climático, as práticas regenerativas podem ajudar a reter durante mais tempo o carbono no solo e nas plantas, reduzindo as emissões da produção de alimentos, contribuir para a preservação e uso mais eficiente da água e ser mais um aliado nos esforços de conservação e restauro da biodiversidade. Todas essas ações contribuem para a mitigação e adaptação climáticas e para a preparação do setor para os cenários futuros, alguns dos quais bem negros, que a Ciência nos diz, repetidamente, que podem vir a acontecer se os humanos não mudarem rapidamente a forma como têm tratado a Terra.</p>
<p>A AR pode ser parte da solução, embora, como nos diz João Roseiro, “não é uma solução milagrosa”. Ainda assim, se “aplicada com rigor científico, pragmatismo económico e honestidade intelectual”, será estrategicamente relevante.</p>
<p>O “verdadeiro desafio”, assegura-nos, está em “transformar sistemas produtivos de forma consistente com os limites ecológicos do planeta e com a necessidade de garantir segurança alimentar a longo prazo”.</p>
<p>Para Ricardo Vieira Santos, a chave para o futuro da agricultura está em escolher as práticas que melhor se adequem a cada caso concreto e que permitam “maximizar a rentabilidade e os benefícios no ecossistema”, e, nesse aspeto, a AR pode proporcionar essa sinergia. A disseminação dessa abordagem pode ser fundamental para tornar a agricultura portuguesa mais resiliente e para tentar evitar possíveis quebras na produção e na rentabilidade.</p>
<p>Olhando para os tempos que se avizinham, David Fangueiro considera que a agricultura continuará a caminhar para uma maior eficiência, combinando diferentes modos de produção e “tendo sempre como objetivo principal a produção de alimentos de qualidade e a preservação do solo”.</p>
<p>Isto, porque, como declara o investigador do ISA, “sem solos saudáveis não se podem produzir alimentos saudáveis”.</p>
<p><em>*Artigo publicado originalmente na revista de março de 2026.</em></p>
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		<title>Habitações mais energeticamente eficientes protegem pessoas e planeta</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/habitacoes-mais-energeticamente-eficientes-protegem-pessoas-e-planeta/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Filipe Pimentel Rações]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Jul 2026 08:04:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Pessoas]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[energia]]></category>
		<category><![CDATA[habitação]]></category>
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		<category><![CDATA[revista]]></category>
		<category><![CDATA[sustentabilidade]]></category>
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					<description><![CDATA[O consumo de energia nas habitações contribui significativamente para o aquecimento do planeta, pelo que maior eficiência é não apenas uma face importante da ação climática, mas também do combate à pobreza energética, uma transformação que protege pessoas e a Terra que todos habitamos.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Até 2050, o mundo terá de tornar-se, pelo menos, neutro no que toca às emissões de gases com efeito de estufa. Isso, se quisermos limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius e evitar as piores consequências da crise climática.</p>
<p>Para tal, todos os quadrantes das sociedades terão de se transformar para reduzirem ao máximo a quantidade de dióxido de carbono, metano e outros gases que lançam na atmosfera e que aprisionam a radiação solar, aquecendo a Terra para lá dos seus limites.</p>
<p>Os edifícios constituem um desses quadrantes, e os esforços de descarbonização não abrangem apenas a construção, mas também, com grande relevância, o uso que fazem da energia. Num relatório publicado em 2025 pelo Programa Ambiental das Nações Unidas e pela Aliança Global para os Edifícios e Construção, estima-se que o setor dos edifícios e da construção represente 32% do consumo global de energia e 34% das emissões de dióxido de carbono. Esses valores, dizem os autores da análise, são superiores aos dos transportes e aos da agricultura.</p>
<p>Contudo, há boas notícias, asseguram. Em 2023, as emissões do setor estabilizaram, o que indica que os edifícios estão a tornar-se mais eficientes em termos energéticos, com uma redução global de cerca de 10% da quantidade de energia consumida por metro quadrado entre 2015 e 2023. Por outro lado, reflete também o aumento do uso de energia renovável nos edifícios.</p>
<p>Além dos benefícios ambientais, uma maior eficiência energética dos edifícios, estima a Agência Internacional de Energia, poderá poupar às famílias em todo o mundo algo como 201 mil milhões de dólares por ano até 2040 nas contas da eletricidade e do gás. que aconteçam ou, no mínimo, que não sejam tão devastadores.</p>
<p><strong>Edifícios mais eficientes na União Europeia</strong></p>
<p>Na União Europeia, as emissões dos edifícios associadas ao uso de energia caíram 43% entre 2005 e 2023, algo que a Agência Europeia do Ambiente atribui, em grande medida, a exigências mais elevadas no que toca à eficiência energética de edifícios novos e existentes, a medidas de descarbonização do setor elétrico e dos sistemas de climatização e às temperaturas mais elevadas.</p>
<p>“É esperado que a tendência de declínio das emissões do setor dos edifícios continue a longo-prazo”, prevê a agência.</p>
<p>De acordo com os dados, em 2023, as emissões da eletricidade e de aquecimento usados nos edifícios foram equivalentes a 401,8 milhões de toneladas de dióxido de carbono, uma queda significativa comparando com as 760,6 milhões de toneladas registadas em 2005.</p>
<p>Estimativas sobre 2024, apontam para uma “ligeira descida” das emissões diretas do uso de combustíveis fósseis nos edifícios, comparativamente com o ano anterior.</p>
<p>Apesar das melhorias, os edifícios representam ainda cerca de um terço das emissões relacionadas com a energia na UE, sobretudo resultantes do uso direto de combustíveis fósseis, por exemplo, em caldeiras a óleo ou a gás, e da eletricidade e aquecimento usados nos edifícios, como a iluminação, sistemas de arrefecimento e eletrodomésticos. Além disso, perto de 75% dos edifícios ainda não são considerados eficientes do ponto de vista energético.</p>
<p>Os números da Agência Europeia do Ambiente mostram que Portugal é dos Estados-membros da UE que conseguiram as maiores reduções das emissões de gases com efeito de estufa relativas ao uso de energia nos edifícios nas últimas duas décadas. Entre os 27, o país está em sexto lugar, com uma redução de 52%, atrás só da Finlândia, da Eslovénia, da Grécia, da Dinamarca e da Suécia.</p>
<p>Com as medidas em curso e outras que estão projetadas, Portugal pode alcançar uma redução entre 68% e 80% até 2030, comparando com os níveis de 2005.</p>
<p>No fim da lista, a Lituânia, a Roménia, Malta e Luxemburgo foram os que conseguiram as menores reduções, entre os 4% e os 16%.</p>
<p>Os avanços no corte das emissões dos edifícios relacionadas com o uso da energia foram, em parte, enfraquecidos por aumentos do número e da área das habitações e do uso de eletrodomésticos em edifícios residenciais, que, no seu conjunto, impulsionaram consumos adicionais de energia. Fenómenos de ondas de calor mais frequentes e mais duradouras também contribuíram para esse aumento do consumo devido a maiores necessidades de arrefecimento.</p>
<p>Como tal, torna-se claro que a redução das emissões dos edifícios, e para que possam contribuir menos para as alterações climáticas, depende, em grande medida, de uma maior eficiência energética dos edifícios residenciais.</p>
<p><strong>A transição energética das habitações em Portugal</strong></p>
<p>Nos últimos 10 anos, o número de edifícios de habitação classificados com as certificações energética A ou A+ tem vindo a aumentar em Portugal. De acordo com dados do Sistema de Certificação Energética dos Edifícios, gerido pela agência nacional de energia ADENE, em 2025, 41,6% das habitações avaliadas receberam certificação A ou A+, num total de 97.201 edifícios.</p>
<p>Esses valores contrastam fortemente com os de 2015, ano em que apenas 4,6% dos edifícios de habitação haviam sido classificados como A ou A+, num total de 6.547.</p>
<p>Olhemos em maior detalhe. Em 2025, dos edifícios habitacionais novos concluídos, 93,7% tiveram classificação A ou A+, o que, como nos diz Ana Soares, docente da Universidade de Coimbra, especialista em gestão energética dos edifícios e investigadora do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores (INESC) de Coimbra, significa que “a nova construção é muitos mais eficiente do ponto de vista energético”. Por isso, têm menores perdas de calor durante o inverno e menores ganhos durante verão, o que reduz a necessidade de usar sistemas de aquecimento ou arrefecimento, logo menos consumo e, claro, menos emissões.</p>
<figure id="attachment_301851" aria-describedby="caption-attachment-301851" style="width: 500px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-301851" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Foto-1-Ana-Soares.jpg" alt="" width="500" height="375" /><figcaption id="caption-attachment-301851" class="wp-caption-text">Ana Soares, docente da Universidade de Coimbra, especialista em gestão energética dos edifícios e investigadora do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores (INESC) de Coimbra.</figcaption></figure>
<p>Contudo, o caso muda de figura quando se olha para as habitações renovadas. No ano passado, apenas cerca de 56% das renovações concluídas conseguiram certificações A ou A+, que nos diz que ainda há um longo caminho a percorrer na eficiência energética nesse contexto.</p>
<p>“Portugal ainda está numa fase de transição”, diz João Pedro Gouveia, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCT) e investigador dos centros CENSE e CHANGE. O caminho pela frente, acautela, é “muito exigente” para que o país possa alinhar os objetivos nacionais de descarbonização com a renovação dos edifícios de habitação.</p>
<p>Os académicos dizem que o desafio pode ser ainda maior do que sugerem as estatísticas, uma vez que muitos edifícios não estão sequer certificados. João Pedro Gouveia aponta que apenas um quarto das habitações tem certificações energéticas. Por tudo isso, Ana Soares considera “importantíssimo” que haja “mecanismos que possibilitem a aposta num edificado energeticamente eficiente, mas também a renovação do parque já existente”.</p>
<p><strong>Falta de literacia e questões financeiras no caminho de maior eficiência energética das habitações</strong></p>
<p>Embora se conheçam os benefícios – ambientais, económicos e sociais – da melhoria do desempenho energético das habitações, persistem em Portugal barreiras que, para já, dificultam, ou impedem mesmo, avanços mais significativos. As barreiras financeiras e de literacia surgem como as mais proeminentes.</p>
<p>Ana Soares recorda-nos que “desde há vários anos” que se tem apostado em mecanismos de apoio financeiro para ajudar os proprietários a renovarem as habitações e a tornarem-nas mais energeticamente eficientes. Já em 2007, lembra, a primeira edição do Plano de Promoção da Eficiência no Consumo de Energia (PPEC) previa medidas para apoiar a substituição de tecnologias menos eficientes por outras mais eficientes, como ao nível da iluminação e frigoríficos.</p>
<p>Para a docente universitária isso permitiu uma redução do consumo final de eletricidade, “contribuindo para a diminuição da fatura energética dos consumidores que beneficiaram destas medidas”. Como tecnologias mais eficientes podem ser mais caras, apoios para que as pessoas possam fazer essas trocas facilitam a transição, caso contrário tem de haver uma disponibilidade financeira à partida que muitos podem não ter.</p>
<p>Além dos equipamentos, há também custos no que toca ao que na gíria do setor se chama a envolvente dos edifícios, ou seja, e de forma muito simples, todos os elementos que separam o interior do exterior da habitação, como paredes, telhados e outras coberturas, pavimentos, janelas e portas. Todos eles contribuem para a maior ou menor eficiência energética.</p>
<p>Nos casos em que essas intervenções sejam necessárias para aumentar a eficiência, por vezes é preciso um investimento inicial elevado, “o que, associado aos baixos rendimentos da população, limita o investimento em soluções mais eficazes que reduzam as necessidades de energia e aumentam o conforto térmico”, salienta João Pedro Gouveia.</p>
<figure id="attachment_301852" aria-describedby="caption-attachment-301852" style="width: 500px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-301852 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Foto-2-Joao-Pedro-Gouveia-e1784561884220.png" alt="" width="500" height="640" /><figcaption id="caption-attachment-301852" class="wp-caption-text">João Pedro Gouveia, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCT) e investigador dos centros CENSE e CHANGE.</figcaption></figure>
<p>Outro grande obstáculo no caminho da eficiência energética das habitações em Portugal é a falta de conhecimento sobre o assunto.</p>
<p>“Se os proprietários, construtores e trabalhadores não estiverem a par dos benefícios associados ao uso de materiais construtivos mais eficientes”, da aplicação de “estratégias bioclimáticas” que tiram partido, por exemplo, do sol e do vento para criar maior conforto térmico e gastar menos energia, ou dos “impactos positivos na fatura de energia” de equipamentos com classes energéticas mais elevadas, então, explica Ana Soares, “naturalmente irão optar por opções mais baratas”.</p>
<p>E isso, avisa, a longo-prazo acabará por traduzir-se em custos mais elevados na fatura da eletricidade e em maior desconforto térmico durante os meses mais frios ou mais quentes do ano.</p>
<p>A falta de literacia está também no lado da população. Nessa área, João Pedro Gouveia diz que se tem feito “trabalho relevante”, com a criação da plataforma “Renovar Casa” pela DECO PROteste e NOVA FCT no âmbito do projeto LIFE HORIS. E destaca também o projeto Ponto de Transição, da Fundação Calouste Gulbenkian, e a Rede Espaço Energia.</p>
<p>Os esforços para uma maior eficiência energética das habitações podem também esbarrar na demora e complexidade do acesso a financiamento e na burocracia de processos de licenciamento. Além disso, como refere João Pedro Gouveia, a “fragmentação da propriedade em edifícios multifamiliares”, como prédios de apartamentos, tem também “limitado intervenções de maior impacto na componente passiva dos edifícios”.</p>
<p>O investigador considera que, apesar de “algumas melhorias nas diferentes dimensões do problema, especialmente nos apoios financeiros”, como os programas Edifícios+Sustentáveis, o Vale Eficiência e, mais recentemente, o E-Lar, “ainda estamos num progresso muito superficial para, de forma efetiva, melhorar a eficiência energética das habitações e combater a pobreza energética a larga escala”.</p>
<p><strong>Onde é preciso atuar</strong></p>
<p>Para ultrapassar algumas dessas barreiras é preciso apostar na formação dos trabalhadores, uma vez que “a renovação de edifícios, já para não referir a construção de raiz, exige competências que vão para além da execução isolada das várias partes que compõem um edifício”, afirma Ana Soares.</p>
<p>Destacando a importância da “coordenação entre especialidades”, a investigadora diz que as equipas têm de ser compostas por quem entenda de soluções para a envolvente, como isolamento e janelas, de sistemas técnicos como renováveis, ventilação e climatização, e “quando aplicável”, de monitorização e controlo, “algo ainda bastante negligenciado no setor residencial”.</p>
<p>“Daí as políticas públicas e estratégias nacionais”, como a Estratégia de Longo Prazo para a Renovação dos Edifícios (ELPRE), “virem a reconhecer cada vez mais a necessidade de capacitar o setor da construção e de promover perfis profissionais e modelos de intervenção que consigam integrar projeto, obra e verificação”, acrescenta.</p>
<p>Além disso, considera ser importante apostar nos programas de incentivo, facilitar o acesso a financiamento não apenas para melhorias em janelas e isolamentos, mas também para a substituição de equipamentos de baixa eficiência, e campanhas de sensibilização sobre as vantagens de uma maior eficiência energética das habitações, sobre o que significam as várias certificações e sobre o uso racional de energia.</p>
<p>Ainda assim, reconhece que “não há uma fórmula mágica nem disruptiva que permita, de repente, melhorar a eficiência energética do parque habitacional e também o consumo de energia elétrica”.</p>
<p>João Pedro Gouveia, por seu lado, diz-nos que é prioritário “reforçar incentivos financeiros, subsídios e benefícios fiscais à reabilitação energética, tanto para famílias vulneráveis como para os restantes cidadãos”. Isso, sabendo que a falta de conforto térmico dentro das casas é “um problema bastante significativo” em Portugal, com cerca de 30% da população portuguesa em situação de pobreza energética.</p>
<p>A “previsibilidade e continuidade dos apoios ao longo do tempo” é também central, sublinha o investigador, “para criar confiança tanto nos cidadãos quanto nos mercados”. E, ainda, a “expansão e fortalecimento de redes de proximidade para apoio técnico gratuito relacionado com energia e edifícios”, a simplificação da burocracia e a sensibilização e educação do público sobre a transição energética e sobre as soluções disponíveis para aumentar a eficiência nas habitações.</p>
<p><strong>Velhos edifícios, novos desafios</strong></p>
<p>Um estudo do Instituto Nacional de Estatística, em colaboração com o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, com o título “O Parque Habitacional: Análise e Evolução 2011-2021”, revela que, há cerca de cinco anos, apenas 17,9% das habitações tinham sido construídas no século XXI, ou seja, depois de 2001.</p>
<p>Ora, transformar esses edifícios em linha com as preocupações de uma maior eficiência energética será certamente “um grande desafio”, diz João Pedro Gouveia.</p>
<p>“Estamos perante uma grande maioria de edifícios sem isolamento térmico adequado, janelas de vidro simples, equipamentos de climatização inexistentes ou pouco eficientes e estruturas e regulamentos que podem dificultar intervenções”, afirma o investigado dos centros CENSE e CHANGE.</p>
<p>A Estratégia de Longo Prazo para a Renovação dos Edifícios (ELPRE) define como meta a reabilitação até 2050 de todos dos edifícios que existiam em 2018, com vista a reduzir o consumo de energia primária dos edifícios em 34% e as suas emissões de carbono em 77%. João Pedro Gouveia diz que o envelhecimento das habitações é uma “dificuldade prática” no que toca a uma maior eficiência energética do setor, e é reconhecida nos relatórios de acompanhamento da ELPRE “que indicam que estamos longe das metas que nos propusemos”.</p>
<p>Ana Soares lembra que ao nível da União Europeia, com a Diretiva (UE) 2024/1275, há realmente a “ambição” de tornar os edifícios no bloco “altamente eficientes” em termos energéticos e descarbonizados, com o grande objetivo de, até 2050, o máximo possível de edifícios serem de emissões nulas.</p>
<p>“O objetivo de construir de forma eficiente e incentivar os proprietários em toda da UE a renovarem os seus edifícios está lá”, reconhece, mas o facto de em Portugal a maior parte das habitações ter sido construída no século passado, quando preocupações atuais, como a eficiência energética e redução de emissões, não eram ainda assunto relevante, “torna-se obviamente bem mais desafiante a sua transição para edifícios com emissões nulas até 2050”.</p>
<p>Apesar de difícil, ambos os especialistas acreditam que, ainda assim, é possível trazer essas velhas habitações para o século XXI, desde que, avisa João Pedro Gouveia, a eficiência energética dos edifícios seja encarada como “prioridade nacional”, pois “tem impactos diretos na saúde, na economia e no ambiente”.</p>
<p>Começa-se pelas habitações com piores desempenhos energéticos e por regiões mais vulneráveis e por medidas com maior custo-benefício. “Claramente nem todas as habitações chegarão a A+, mas todas podem melhorar significativamente”, sugere.</p>
<p><strong>A eficiência energética das habitações e a pobreza energética</strong></p>
<p>Em Portugal, um “número significativo” de famílias não tem capacidade financeira para manter a casa devidamente aquecida durante os meses mais frios do ano, diz o Observatório Nacional da Pobreza Energética (ONPE).</p>
<p>De 2022 para 2023, a fração da população a viver sem capacidade para aquecer a sua casa aumentou 3,3%, para os 20,8%, o valor mais alto desde 2017. Contudo, de 2023 para 2024, registou-se uma melhoria, com uma queda para os 15,7%, o valor mais baixo desde 2015.</p>
<p>A pobreza energética é, em traços largos, a incapacidade das famílias para fazerem face às despesas relacionadas com consumos de energia essenciais, como aquecimento, água quente, arrefecimento, iluminação e energia para eletrodomésticos. Essa incapacidade pode dever-se a preços elevados da energia, a rendimentos baixos, a elevadas despesas energéticas ou a uma habitação pouco energeticamente eficiente. Pode ser um desses fatores ou uma combinação deles.</p>
<p>Como tal, e embora a pobreza energética seja um fenómeno com várias dimensões que devem ser abordadas em simultâneo e de forma integrada, facto é que a ligação entre a pobreza energética e a eficiência das habitações é clara.</p>
<p>Num relatório de maio de 2025, que caracteriza os agregados familiares em situação de pobreza energética, o ONPE sublinha que esse é um fenómeno com “implicações sociais, económicas, ambientais e de saúde, pelo que importa reabilitar as habitações e torná-las energeticamente mais eficientes”. Dessa forma, diz a mesma entidade, será possível alcançar “múltiplos objetivos”, entre eles, melhorar o conforto térmico das famílias nas suas casas, a qualidade do ar interior e, assim, salvaguardar a saúde dos habitantes, reduzir as faturas de energia e reduzir as emissões de gases com efeito de estufa.</p>
<p>É por isso que João Pedro Gouveia nos diz que melhorar a eficiência energética das habitações e dos equipamentos deve ser “solução prioritária” no combate à pobreza energética.</p>
<p>“Habitações mais eficientes resultam em potenciais menores de consumo energético, faturas mais baixas, maior conforto térmico e melhor saúde (menos humidade, melhor qualidade do ar), libertando até rendimento disponível para outros usos”, salienta o investigador dos centros CENSE e CHANGE. E declara que “o alinhamento de políticas de ação climática e de transição energética tem benefícios diretos para a mitigação da pobreza energética”.</p>
<p>O fenómeno tem também efeitos “escondidos” que tornam mais difícil identificá-lo e quantificá-lo. “Há agregados [familiares] que reduzem os seus consumos de energia drasticamente de modo a evitar custos, passando, por exemplo, frio nas suas habitações”, aponta Ana Soares, do centro de investigação INESC de Coimbra.</p>
<p>Ainda que a pobreza energética possa ser causada por fatores contextuais, como os preços da energia e a qualidade da habitação, por exemplo, e pessoais, como os rendimentos e composição do agregado, a também docente da Universidade de Coimbra diz que, se se assumir que uma família tem um rendimento estável que lhe permite fazer face às despesas, então “uma habitação com um melhor desempenho energético e, portanto, mais eficiente precisa de menos energia” para atingir níveis de conforto térmico, “contribuindo para a redução do risco de pobreza energética”.</p>
<p>Por tudo isso, Ana Soares considera que “o problema não é apenas ‘preço’, mas também a capacidade física do edifício para fornecer conforto com um consumo moderado”.</p>
<p>Os especialistas destacam que o combate à pobreza energética através de habitações mais eficientes pode passar por uma combinação de fatores: consumo de energia renovável localmente produzida, por exemplo, em comunidades de energia, mais bombas de calor para aquecer ou arrefecer as casas, melhorias nas envolventes dos edifícios e o recurso a sistemas de armazenamento de energia.</p>
<p>Além disso, salientam a importância do comportamento dos consumidores. João Pedro Gouveia diz-nos que o consumidor é “uma peça fundamental neste puzzle da transição energética”. Isso, porque, assegura, “a adoção tecnológica não resolve tudo” e “em muitos casos, a substituição de equipamentos não será possível”.</p>
<p>Como tal, reforça a ideia de que é indispensável aumentar a literacia energética da população portuguesa, promover “comportamentos de consumo de energia consciente” e combater hábitos de desperdício, como deixar luzes acesas, equipamentos em standby e usar climatização em excesso.</p>
<p>O investigador acredita que a combinação dessas três dimensões – energia renovável localmente produzida, evolventes mais eficientes e consumidores mais conscientes – tornará possível “um setor residencial mais eficiente, descarbonizado e com mais-valias para as famílias, em termos de conforto térmico e qualidade do ar interior”.</p>
<p><strong>Alguns avanços, mas ainda não é suficiente</strong></p>
<p>A Estratégia de Longo Prazo para a Renovação dos Edifícios aponta a renovação como central para reduzir consumos de energia das habitações e outros edifícios e emissões de gases com efeito de estufa relacionadas, ao mesmo tempo que se melhora o conforto térmico e se tenta erradicar a pobreza energética, sendo esse último um objetivo que se pretende alcançar até 2050, de acordo com a Estratégia Nacional de Longo Prazo de Combate à Pobreza Energética 2023-2050.</p>
<p>Como tal, têm sido conseguidos alguns avanços no campo da maior eficiência das habitações em Portugal, mas “quanto a ‘ser suficiente’, na minha opinião, nunca é”, admite Ana Soares.</p>
<p>A investigadora e docente, contudo, reconhece também que “a disponibilidade financeira não é infinita, o que torna muito difícil o papel dos nossos decisores políticos nestas matérias”. E acrescenta que embora haja “medidas relevantes no [Plano de Recuperação e Resiliência] e no Fundo Ambiental”, a sua execução é “em grande medida, feita por avisos com dotações finitas e prazos muito restritos”.</p>
<p>João Pedro Gouveia salienta também que, de facto, tem havido esforços para uma maior eficiência energética das habitações em Portugal, mas igualmente refere que há limitações, e que “a escala e o impacto desses esforços têm sido insuficientes diante da dimensão do problema”.</p>
<p>“É preciso promover programas que intervenham na componente passiva das habitações, que priorizem famílias vulneráveis, mas que considerem também a população em geral, visto que o problema do desconforto térmico é generalizado”, defende o investigador.</p>
<p>Os especialistas entendem que o foco deve recair, com prioridade, sobre intervenções nas habitações com os piores desempenhos e sobre as famílias em maior risco de pobreza energética, a agilização de processos de candidaturas a apoios públicos e que abranjam tanto a habitação própria como o arrendamento, programas de financiamento mais duradouros e com períodos de candidatura mais longos, e uma aposta mais forte na proximidade entre balcões como os Espaços Energia e as populações, especialmente as mais vulneráveis, nas diferentes regiões do país.</p>
<p>Um dos programas mais recentes no âmbito da maior eficiência energética das habitações é o E-Lar, que apoia os consumidores na substituição de eletrodomésticos a gás, como fornos, fogões e esquentadores, por outros elétricos mais eficientes e menos poluentes. Apesar de o considerarem relevante, os interlocutores reconhecem limitações.</p>
<p>Ana Soares destaca que, no caso de uma família querer trocar todos os seus eletrodomésticos, tem de fazê-lo na mesma loja e num só ato de compra. Além disso, refere que se o apoio, na forma de voucher, não for suficiente, o agregado terá de arcar com a despesa restante. “Isto quer dizer que tem de haver uma certa disponibilidade financeira que nem sempre existe e que, por isso, pode levar várias famílias a não tirarem partido deste programa”, afirma.</p>
<p>Ademais, aponta como limitação do E-Lar o facto de não se poder trocar um esquentador por uma bomba de calor para o aquecimento das águas.</p>
<p>Sobre este programa, João Pedro Gouveia entende que, apesar “de mais fácil implementação quando comparado com outros programas anteriores”, é “bastante limitado” no que se refere ao combate à pobreza energética – elencado como um dos grandes objetivos do programa –, uma vez que atua “apenas sobre uma parte muito limitada do problema”, o aquecimento das águas e a confeção de alimentos.</p>
<p>Apesar das limitações, os investigadores reconhecem que o E-Lar é importante na medida em que, através de apoios à eletrificação, ajuda a ultrapassar obstáculos financeiros das famílias para reduzir o consumo de combustíveis fósseis e as emissões de gases com efeito de estufa.</p>
<p><strong>Habitações mais eficientes para proteger o planeta</strong></p>
<p>A maior eficiência energética das habitações não tem só benefícios para as famílias, como se viu, mas também é um peça-chave dos esforços para proteger o planeta, especialmente com a redução de emissões associadas ao consumo residencial de energia.</p>
<p>Uma vez que os edifícios representam, a nível mundial, cerca de 30% do consumo energético e das emissões relacionadas com a energia, há “uma ligação direta” entre a maior eficiência e a proteção do planeta, diz João Pedro Gouveia.</p>
<p>“Apostando em eficiência energética, reduzem-se as necessidades e o consumo de energia. Essa aposta, combinada com a eletrificação dos consumos, permite reduzir o uso de combustíveis fósseis, reduzindo as emissões de gases com efeito de estufa”, aponta, declarando que “habitações mais eficientes são fundamentais para a transição energética e proteção climática, com benefícios que vão muito além do ambiente”.</p>
<p>No mesmo sentido, Ana Soares explica-nos que habitações mais energeticamente eficientes contribuem para a proteção do planeta, uma vez que, ao atuar do lado da procura, minimiza-se o consumo de eletricidade. “Reduzindo a energia final consumida, existe uma redução das emissões de gases com efeito de estufa e também um menor uso de recursos não renováveis, pelo que contribui para a proteção do planeta e de todos nós”, assegura.</p>
<p><em>*Artigo publicado originalmente na revista de março de 2026.</em></p>
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		<title>Girinos de Sintra ajudam a compreender como anfíbios lidam com o aquecimento do planeta</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/girinos-de-sintra-ajudam-a-compreender-como-anfibios-lidam-com-o-aquecimento-do-planeta/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Filipe Pimentel Rações]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jul 2026 15:01:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Animais]]></category>
		<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Ciência em Português]]></category>
		<category><![CDATA[Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[Alterações Climáticas]]></category>
		<category><![CDATA[anfíbios]]></category>
		<category><![CDATA[ciência]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<category><![CDATA[natureza]]></category>
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					<description><![CDATA[Uma investigação liderada por cientistas portugueses descobriu que os girinos desta espécie adaptam a sua dieta para compensar o aumento do gasto de energia causado pela subida da temperatura da água em que se desenvolvem.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Os anfíbios são considerados o grupo de vertebrados mais ameaçados do mundo. Estima-se que cerca de <a href="https://www.nature.com/articles/s41586-023-06578-4" target="_blank" rel="noopener">41% de todas as espécies</a> a nível global corram risco de extinção e as populações dessa classe continuam em declínio.</p>
<p>Entre 1980 e 2004, 91% do agravamento dos estatutos de conservação dos anfíbios foi causado por doenças e perda de habitat. Desde então, as alterações climáticas têm vindo a assumir uma dimensão cada vez mais destacada no rol de ameaças enfrentadas por esses animais, uma ameaça cujos efeitos são amplificados pela incessante destruição dos locais onde vivem.</p>
<p>Com aproximadamente duas em cada cinco espécies de anfíbios atualmente a serem empurradas cada vez mais para o precipício da extinção, os cientistas pedem medidas urgentes para conservar os seus habitats e aplacar as causas das grandes perdas.</p>
<p>Uma das grandes “leis” das ciências que se dedicam à conservação da Natureza dita que não se pode proteger o que não se conhece. Por isso, saber como os anfíbios, e outros organismos, lidam com os efeitos das alterações climáticas é fundamental para saber como e onde é preciso agir.</p>
<p>Um grupo de investigadores, liderado por cientistas do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, descobriu que um sapo que ocorre na Península Ibérica, sul de França e norte de África é capaz, quando ainda na forma de girino, de se adaptar ao aumento da temperatura da água onde está a desenvolver-se. Contudo, essa capacidade tem limites, que poderão ser duramente postos à prova à medida que a temperatura média da Terra sobe cada vez mais, porque os humanos continuam a lançar na atmosfera gases com efeito de estufa.</p>
<p><strong>Mudar hábitos alimentares</strong></p>
<p>Tal como os répteis e a maioria dos peixes, os anfíbios são animais ectotérmicos, ou, se quisermos, de “sangue frio”. Isso significa que a sua temperatura corporal é essencialmente regulada pela temperatura do meio envolvente. Assim, a temperatura da água em que os girinos nascem e crescem pode não só determinar se se desenvolvem de forma saudável e se poderão vir a ter problemas de saúde quando forem adultos, mas também, em última instância, a sua sobrevivência.</p>
<p>Em águas mais quentes, o metabolismo dos animais acelera, gastando mais energia e, por isso, obrigando a consumir mais calorias para manterem um bom peso corporal. Num artigo publicado na revista ‘<a href="https://www.nature.com/articles/s41598-026-55894-y" target="_blank" rel="noopener">Scientific Reports</a>’, os investigadores descobriram que os girinos do sapo-comum (<em>Bufo spinosus</em>) são capazes de alterar o que comem consoante a temperatura da água.</p>
<p>Para isso, criaram, em laboratório, girinos capturados na Serra de Sintra, com diferentes condições de temperatura de 12, 16 e 20 graus Celsius, e com regimes de alimentação distintos.</p>
<p>Ao estudarem os pequenos sapos, percebeu-se que, quando a água estava mais fria, consumiam mais alimentos de origem animal, neste caso, larvas de mosquitos. Contudo, em águas mais quentes, os girinos comiam mais matéria vegetal (espinafres, nesta experiência) e aumentavam a taxa de consumo.</p>
<p>À ‘Green Savers’, Sara Bento, investigadora do CE3C e primeira autora do estudo, diz que essa adaptação da dieta à temperatura da água permite aos girinos de sapo-comum “reduzir alguns dos efeitos negativos associados ao aumento da temperatura”. No entanto, avisa que essa capacidade tem limites, pois, a partir de determinado ponto, quando a água se torna demasiado quente, é possível que não haja mudança de dieta que permita aos pequenos anfíbios dar a volta ao problema da perda de energia.</p>
<p>“Nessa situação, mesmo uma alimentação equilibrada e considerada ótima pode deixar de ser suficiente para compensar os custos metabólicos”, salienta a cientista.</p>
<p>E os limites dessa capacidade de adaptação são especialmente pressionados quando a temperatura da água está acima da média durante muito tempo ou durante ondas de calor. Como este estudo apenas testou temperaturas até aos 20 graus, Sara Bento diz que não foi possível saber ao certo a partir de que temperatura essa capacidade é anulada, o que, para se descortinar, exigirá novas investigações com temperaturas mais elevadas.</p>
<p><strong>Desenvolvimento mais rápido, mas pior condição física</strong></p>
<p>A investigação revelou também que, em águas mais quentes, os girinos de sapo-comum desenvolvem-se mais rapidamente, mas, quando na forma final, acabam por ficar mais pequenos do que sapos que se desenvolveram em águas mais frias e apresentam pior condição física.</p>
<p>“Esta relação já é amplamente conhecida em animais ectotérmicos e é designada por regra ‘temperatura–tamanho’”, explica Sara Bento. “Em condições mais quentes, o desenvolvimento tende a acelerar mais do que o crescimento, fazendo com que os animais atinjam a maturidade com menor tamanho corporal.”</p>
<figure id="attachment_301916" aria-describedby="caption-attachment-301916" style="width: 500px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-301916" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/BrunoCarreira_SaraBento_1.jpeg" alt="" width="500" height="667" /><figcaption id="caption-attachment-301916" class="wp-caption-text">Sara Bento, é a primeira autora deste estudo, e Bruno Carreira é o principal coautor. Ambos são investigadores do CE3C. Foto: CE3C.</figcaption></figure>
<p>Assim, os girinos que passaram a sua fase larvar em águas mais quentes podem, após a metamorfose, transitar para terra firme com menos peso e também com menos reservas de energia. E isso, segundo a investigadora, “pode afetar o seu desempenho durante as fases juvenil e adulta no meio terrestre”. Ainda assim, é possível, se bem que não certo, que os sapos-comuns que saiam da água mais pequenos possam recuperar quando na porção semiaquática das suas vidas e compensar os problemas causados pelas temperaturas mais altas das águas onde se desenvolveram.</p>
<p>Por isso, Sara Bento diz-nos que “os nossos resultados não nos permitem afirmar que este efeito, isoladamente, represente uma ameaça à sobrevivência da espécie”. No entanto, reconhece que apontam para um “potencial fator de risco”, que descreve como “importante”, especialmente se o aumento da temperatura da água se conjugar com outros fatores como a falta de alimento, a seca ou a predação.</p>
<p>Além dos efeitos da temperatura no desenvolvimento dos sapos, este trabalho mostrou também que águas mais quentes alteram as concentrações de azoto e de carbono nos tecidos dos animais na forma final, ou seja, nas fases juvenil e adulta das suas vidas.</p>
<p>Isso sugere que, em temperaturas mais elevadas, os girinos têm mais dificuldade em manter “o equilíbrio dos nutrientes no organismo”, como refere a cientista, o que pode resultar de alterações na dieta que o animal faz para compensar os efeitos das temperaturas mais elevadas.</p>
<p>Ainda que tal não tenha sido avaliado neste estudo, Sara Bento não põe de parte a possibilidade de os sapos, quando deixam a fase larvar, poderem vir a recuperar o equilíbrio dos nutrientes nos seus tecidos. Mas é possível que esse desequilíbrio possa tornar os sapos-comuns, pelo menos os juvenis que saíram de águas mais quentes, presas menos nutritivas para os predadores que deles se alimentam.</p>
<p><strong>É preciso saber mais para se poder proteger</strong></p>
<p>O sapo-comum está classificado na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza com o estatuto de “Pouco preocupante”, pelo que não é considerado uma espécie em risco de extinção. Esse estatuto está também refletido no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal de 2005, quando ainda tinha do nome científico <em>Bufo bufo</em>.</p>
<p>No Atlas dos Anfíbios e Répteis de Portugal, lançado em 2008, é dito que o sapo-comum é uma espécie que se encontra “de forma contínua” de norte a sul do país. Contudo, de acordo com a mesma fonte, esta espécie anteriormente considerada “muito abundante”, estava, na altura, a sofrer “um declínio generalizado das suas populações em grande parte da Península Ibérica e, em particular, nas zonas mais secas”. Essa queda em muito se deve, escreviam os especialistas, à destruição dos seus locais de reprodução, a explosões nocivas de algas nos charcos e albufeiras onde vivem por causa da pecuária intensiva, à competição com espécies exóticas e até à perseguição que lhes é lançada pelos humanos, por aversão.</p>
<figure id="attachment_301917" aria-describedby="caption-attachment-301917" style="width: 847px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-301917 " src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Bufo_bufo_near_Kleiner_Teufelssee_2021-03-30_02.jpg" alt="" width="847" height="565" srcset="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Bufo_bufo_near_Kleiner_Teufelssee_2021-03-30_02.jpg 1280w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Bufo_bufo_near_Kleiner_Teufelssee_2021-03-30_02-300x200.jpg 300w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Bufo_bufo_near_Kleiner_Teufelssee_2021-03-30_02-1024x683.jpg 1024w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Bufo_bufo_near_Kleiner_Teufelssee_2021-03-30_02-768x512.jpg 768w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/1280px-Bufo_bufo_near_Kleiner_Teufelssee_2021-03-30_02-600x400.jpg 600w" sizes="auto, (max-width: 847px) 100vw, 847px" /><figcaption id="caption-attachment-301917" class="wp-caption-text">O sapo-comum está classificado como &#8220;Pouco preocupante&#8221; em termos de conservação, mas falta informação para poder avaliar o estado das suas populações em Portugal. Foto: Leonhard Lenz / Wikimedia Commons.</figcaption></figure>
<p>Além disso, estes sapos podem percorrer vários quilómetros para chegarem aos locais de reprodução, pelo que sofrem uma elevada mortalidade por causa de atropelamentos.</p>
<p>Porém, “não existem dados recentes suficientes para caracterizar, com segurança, a atual tendência populacional desta espécie em Portugal”, diz Sara Bento. Por isso, defende que seria importante “uma atualização” das informações sobre os sapos-comuns no país, “baseada em monitorização padronizada da distribuição, abundância e sucesso reprodutor das populações”.</p>
<p>“Só com esses dados será possível detetar declínios, identificar as suas causas e avaliar de forma mais rigorosa o possível agravamento do estatuto de conservação desta e de outras espécies”, declara a investigadora do CE3C.</p>
<p>Para já, diz que “a prioridade deve ser proteger os habitats de reprodução a nível local”, como charcos, lagoas e troços de ribeira, para assegurar que conservam água “durante tempo suficiente para os girinos completarem a metamorfose”.</p>
<p>“Com o aumento previsto das temperaturas e dos eventos climáticos extremos como ondas de calor e secas severas na região mediterrânica, esse período com água poderá tornar-se mais curto e irregular”, avisa. Por isso, sublinha que é importante “limitar a drenagem e a captação de água durante a época de reprodução, preservar a qualidade da água e a vegetação ribeirinha, manter zonas com sombra que funcionem como refúgios térmicos e recuperar ou criar redes de charcos com diferentes profundidades”.</p>
<p>E essas medidas não beneficiariam apenas os sapos-comuns, mas também “muitas outras espécies de anfíbios e organismos dependentes destes ecossistemas”, assegura.</p>
<p>Colocando o sapo-comum no lugar de protagonista, servindo como “espécie-modelo”, esta equipa de cientistas quis perceber como é que animais ectotérmicos, especialmente os anfíbios, respondem ao aumento da temperatura, traço indelével das alterações climáticas que atualmente assolam o planeta.</p>
<p>Mas Sara Bento diz que os mecanismos que ela e a restante equipa observaram durante esta investigação “poderão ser relevantes para muitas outras espécies, incluindo espécies com estatuto de ameaça mais preocupante”.</p>
<p>Além do CE3C, este trabalho envolveu também o Laboratório Associado TERRA, o CHANGE – Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade, o Politécnico de Leiria, o MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente e instituições britânicas e suecas.</p>
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		<title>“Não podemos continuar a esperar”: Greenpeace alerta que um quarto da costa portuguesa está a perder-se sob as ondas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Redação]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jul 2026 14:03:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alterações Climáticas]]></category>
		<category><![CDATA[Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[costa]]></category>
		<category><![CDATA[mar]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<category><![CDATA[subida do nível do mar]]></category>
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					<description><![CDATA[Essa é uma das principais conclusões de um relatório divulgado esta quinta-feira pela Greenpeace Portugal. Com o título “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco”, a análise aponta que a vulnerabilidade da costa portuguesa não se deve apenas aos efeitos das alterações climáticas, mas também a “décadas de ocupação e pressão urbanística” e a “fragilidades na aplicação das regras que deveriam proteger o litoral”.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Perto de 25% da costa de Portugal continental está a recuar por causa da subida do nível do mar, com mais de 100 mil pessoas a viverem atualmente em ozonas costeiras de “elevado risco”.</p>
<p>Essa é uma das principais conclusões de um relatório divulgado esta quinta-feira pela Greenpeace Portugal. Com o título “<a href="https://www.greenpeace.pt/wp-content/uploads/2026/07/Destruicao-a-Toda-a-Costa-Relatorio-GPPT_2026.pdf" target="_blank" rel="noopener">Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco</a>”, a análise aponta que a vulnerabilidade da costa portuguesa não se deve apenas aos efeitos das alterações climáticas, mas também a “décadas de ocupação e pressão urbanística” e a “fragilidades na aplicação das regras que deveriam proteger o litoral”.</p>
<p>A organização ambientalista destaca os exemplos da zona de Cascais, onde o nível médio do mar subiu 9,7 centímetros nos últimos 25 anos, e do Algarve, para onde se prevê que 40% das praias poderão desaparecer sob as ondas até 2050 “sem medidas urgentes de adaptação”.</p>
<p>Reconhecendo que Portugal dispõe de legislação e instrumentos de ordenamento “destinados a proteger a orla costeira”, mas que continuam a existir “fragilidades na aplicação, fiscalização, coordenação e atualização das regras face à evolução dos riscos”, a Greenpeace sentencia que a costa portuguesa está “presa entre o avanço do mar e o avanço da construção”.</p>
<p>“Portugal conhece há muito os riscos que ameaçam a sua costa”, diz o diretor da Greenpeace Portugal, acrescentando que “temos conhecimento científico, legislação e instrumentos de ordenamento”.</p>
<p>Por isso, Toni Melajoki Roseiro entende que “não podemos continuar a esperar que uma praia desapareça, uma arriba colapse ou uma infraestrutura fique em risco, para agir”.</p>
<p>“O desafio agora é transformar aquilo que sabemos em decisões políticas coerentes e numa estratégia de longo prazo capaz de proteger as pessoas, a natureza e um território que pertence a todos”, declara.</p>
<p>Contudo, ainda há tempo para resgatar as praias portuguesas do avanço contínuo do mar para terra. Ana Farias Fonseca, Coordenadora de Campanhas e Mobilização da organização portuguesa, diz que, para tal, é preciso “travar novas ocupações em áreas vulneráveis e apostar na prevenção e no restauro de ecossistemas, garantindo que as decisões de hoje não se tornam em problemas irreversíveis e os custos públicos elevados de amanhã”.</p>
<p>Conservar e recuperar ecossistemas costeiros e zonas húmidas, como dunas e sapais, é peça fundamental desses esforços de proteção da costa, pois ajudam a absorver a energia das tempestades, reduzem os impactos da erosão e das inundações e aumentam a capacidade de adaptação da faixa costeira a fenómenos extremos.</p>
<p>Sem essas defesas, as zonas costeiras, todo o seu património natural, bem como infraestruturas e pessoas, ficam expostas à força do mar e das tempestades, que se prevê que venham a ser cada vez mais frequentes e intensas com o agravamento das alterações climáticas.</p>
<p>O relatório é acompanhado por um <a href="https://maps.greenpeace.org/maps/gppt/coastline-impacts/" target="_blank" rel="noopener">mapa interativo</a> que reúne fotografias e informação sobre cerca de 350 dos pontos mais vulneráveis da costa portuguesa.</p>
<p>Da Costa da Caparica a Espinho, da Costa Nova à Figueira da Foz, de Tróia, Comporta, Carvalhal e Melides ao litoral alentejano, do Algarve à Madeira e aos Açores, o mapa permite visualizar o que a Greenpeace descreve como sendo “diferentes faces de um mesmo problema”: erosão e recuo da linha de costa, pressão urbanística, ocupação de zonas vulneráveis, degradação de ecossistemas e dificuldades de adaptação às alterações climáticas.</p>
<p>A organização assegura que, com esse mapa, o seu objetivo “não é criar um ranking das zonas mais graves, mas mostrar que o risco assume diferentes formas ao longo de todo o território e que nenhuma região pode ser analisada isoladamente da forma como Portugal decide ocupar, proteger e adaptar a sua costa”.</p>
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