Terá o asteroide que matou os dinossauros permitido que atuns e outros grandes predadores de sangue quente dominassem os oceanos?

Uma teoria de longa data sugere que o desaparecimento dos grandes répteis marinhos criou oportunidades para a rápida evolução dos atuns e de outros grandes e velozes predadores marinhos de sangue quente, ocupando nichos ecológicos deixados vagos pelos seus gigantescos antecessores. Mas uma investigação recente vem pôr em causa essa ideia.

Redação

Há cerca de 66 milhões de anos, um asteroide de dimensões gigantescas embateu contra a Terra e ditou a extinção dos dinossauros não-avianos, e dizimou também a maioria dos grandes répteis marinhos.

Uma teoria de longa data sugere que o desaparecimento desses animais criou oportunidades para a rápida evolução dos atuns e de outros grandes e velozes predadores marinhos de sangue quente, ocupando nichos ecológicos deixados vagos pelos seus gigantescos antecessores. Tal como, em terra firme, aconteceu com os mamíferos, que ocuparam os nichos dos dinossauros no seguimento do evento de extinção massiva que marcou a transição do período Cretácico para o Paleogénico, também conhecida como K-Pg.

Mas uma investigação recente, encabeçada pela Universidade de Yale (Estados Unidos da América), vem pôr em causa essa ideia.

Os cientistas combinaram dados genéticos de fósseis para criar o que descrevem como a árvore evolutiva “temporalmente calibrada” mais completa disponível atualmente para a família dos Escombrídeos, que inclui os atuns, as cavalas e quase metade das espécies vivas de peixes de sangue quente com barbatanas raiadas.

A análise revela que os Escombrídeos surgiram por volta da queda do asteroide, mas mostra que os atuns, cavalas e outros peixes predadores evoluíram de forma independente os seus corpos de grandes dimensões e a capacidade para regularem a sua temperatura corporal interna (a endotermia) muito depois desse evento de extinção.

“Os nossos resultados demonstram que a extinção do K-Pg não desencadeou a evolução dos atuns e outros grandes predadores endotérmicos relacionados”, declara Chase Brownstein, primeiro autor do artigo que revela este trabalho, publicado este mês na revista ‘Proceedings of the Royal Society B’.

“Mostramos que os planos corporais destes predadores evoluíram ao longo de dezenas de milhões de anos e que não há uma ligação entre as origens da endotermia e grandes tamanhos corporais nestas linhagens”, detalha o investigador.

O estudo sugere que diferentes tipos de endotermia evoluíram de forma independente três vezes na família dos Escombrídeos, e que pelo menos duas delas aconteceram 10 a 15 milhões de anos depois do impacto do asteroide.

Dizem os autores que pensava-se que os grandes corpos destes peixes e a sua capacidade para regular a temperatura corporal estavam ligados, mas o que encontraram não explica essa relação.

“Perceber que a endotermia evoluiu independentemente diversas vezes nos atuns e nas cavalas permite compreender os mecanismos fundamentais subjacentes ao metabolismo e à termorregulação”, refere Thomas Near, coautora do artigo, que diz serem sistemas “centrais” no que toca à saúde dos humanos, incluindo problemas como obesidade e diabetes.

Deixando claro que não é, pelo menos para já, possível traçar uma ligação direta, o investigador considera que “estudar como a nossa biodiversidade tem lidado com desafios semelhantes ao longo do tempo é relevante compreender melhor a saúde humana”.

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