Trabalho não remunerado das mulheres continua invisível nas economias, conclui investigação internacional

Os nove estudos mostram que, apesar de cada vez mais mulheres participarem no mercado de trabalho, nenhum país alcançou uma verdadeira igualdade económica entre homens e mulheres.

Redação

Trinta anos depois da adoção da Declaração de Pequim, considerada um marco na promoção da igualdade de género, o trabalho não remunerado realizado pelas mulheres continua a ser amplamente ignorado nas estatísticas económicas e nas políticas públicas. A conclusão resulta de uma coleção de estudos internacionais publicada na revista científica The Economic and Labour Relations Review.

Os nove estudos, coordenados por investigadores da Universidade de New South Wales (UNSW), na Austrália, mostram que, apesar de cada vez mais mulheres participarem no mercado de trabalho, nenhum país alcançou uma verdadeira igualdade económica entre homens e mulheres.

Segundo os investigadores, uma das principais razões é que tarefas essenciais como cuidar dos filhos, prestar assistência a familiares idosos, preparar refeições, limpar a casa ou apoiar familiares em situação de dependência continuam, em grande medida, fora das métricas económicas tradicionais, incluindo o Produto Interno Bruto (PIB).

A investigação estima que mais de metade do contributo total das mulheres para o trabalho corresponde a atividades não remuneradas, enquanto, no caso dos homens, essa proporção ronda um terço.

Para Yuvisthi Naidoo, investigadora do Social Policy Research Centre da UNSW, esta invisibilidade ajuda a explicar porque é que os progressos na igualdade de género têm sido mais lentos do que o esperado. “No centro do problema está o facto de grande parte do trabalho realizado pelas mulheres simplesmente não ser contabilizado”, afirma, citada em comunicado.

Ter emprego não significa autonomia económica

Os investigadores alertam ainda para o facto de o acesso ao emprego remunerado, por si só, não garantir independência financeira ou poder de decisão.

Em muitos países, as mulheres continuam concentradas em profissões mal remuneradas ou precárias, acumulando simultaneamente a maior parte das responsabilidades de prestação de cuidados e do trabalho doméstico. Em alguns contextos, têm mesmo um controlo limitado sobre a forma como o rendimento que auferem é utilizado.

Para Diana Kelly, editora-chefe da revista científica, o conceito de empoderamento económico vai muito além das taxas de emprego. “O empoderamento económico não pode ser medido apenas através das estatísticas de emprego”, sublinha.

Igualdade de género continua longe de ser alcançada

Os resultados surgem numa altura em que as Nações Unidas reconhecem que o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável relativo à igualdade de género até 2030 está longe de ser cumprido.

Os estudos revelam ainda que a segregação entre profissões continua profundamente enraizada. Na Austrália, por exemplo, apenas 20% das profissões apresentavam uma distribuição equilibrada entre homens e mulheres em 2025, enquanto cerca de uma centena de ocupações registavam diferenças salariais superiores a 25% em desfavor das mulheres.

As disparidades são ainda mais acentuadas entre as mulheres indígenas australianas, cuja diferença salarial face aos homens atinge os 38,1%.

Mudança exige reconhecer o valor do trabalho de cuidados

Embora os desafios sejam comuns em diferentes regiões do mundo, os investigadores identificam alguns sinais positivos, sobretudo na América Latina, onde vários países têm vindo a reconhecer os cuidados prestados a crianças, idosos e pessoas dependentes como uma infraestrutura social essencial.

Entre as medidas destacam-se o reforço dos serviços públicos de apoio à infância e à população idosa, bem como políticas destinadas a repartir de forma mais equilibrada as responsabilidades de prestação de cuidados entre famílias, empregadores e Estado.

Os autores defendem que alcançar uma verdadeira igualdade económica exige mais do que aumentar a participação das mulheres no mercado de trabalho. Será também necessário reconhecer o valor económico e social do trabalho de cuidados e doméstico que continua, em grande parte, invisível nas contas nacionais e nas decisões políticas.

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