Turismo costeiro pode vir a ser maior segmento da Economia Azul em 2030, mas desafios à sustentabilidade persistem

A conclusão é apresentada no relatório “World Ocean Assessement III”, a principal avaliação da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o estado dos oceanos. O capítulo dedicado ao turismo costeiro e ao potencial dos oceanos na dinamização turística contou com a participação de duas académicas de Portugal.

Redação

O turismo costeiro gera todos os anos cerca de 5,5 biliões de dólares, representando algo como 5% do PIB mundial, empregando 174 milhões de pessoas. Dada a trajetória de crescimento, o setor poderá vir a tornar-se o maior segmento da Economia Azul até 2030.

A conclusão é apresentada no relatório “World Ocean Assessement III”, a principal avaliação da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o estado dos oceanos. O capítulo dedicado ao turismo costeiro e ao potencial dos oceanos na dinamização turística contou com a participação de Antónia Correia, professora da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve e presidente da direção do laboratório colaborativo KIPT. Do lado português, a lista de autores desse capítulo conta também com Adriana Ressurreição, da Universidade dos Açores.

Apesar da relevância do turismo costeiro, os investigadores avisam que o crescimento do setor continua associado à degradação dos ecossistemas marinhos e costeiros que sustentam a própria atividade turística.

Segundo os dados apresentados, a produção de energia associada ao turismo costeiro e oceânico gerou cerca de 1,57 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2e) em 2023. No caso específico da indústria dos cruzeiros, as emissões poderão atingir 80 milhões de toneladas de CO2e até 2030. As projeções apontam para um crescimento anual do número de passageiros de cerca de 6%, um ritmo que, de acordo com os especialistas, poderá anular parte dos ganhos obtidos através da melhoria da eficiência carbónica.

O relatório identifica ainda impactos significativos nos ecossistemas marinhos e costeiros, incluindo degradação de habitats, poluição, perturbação de espécies sensíveis e expansão de infraestruturas em territórios particularmente vulneráveis à erosão costeira, à subida do nível do mar e aos efeitos das alterações climáticas.

Um dos principais alertas do “World Ocean Assessment III” prende-se com o facto de o valor económico do capital natural marinho continuar amplamente ausente das métricas financeiras convencionais. Alertam os investigadores que esta realidade impede que muitos dos custos associados à degradação ambiental sejam considerados nos processos de investimento, planeamento e desenvolvimento turístico.

A equipa científica apresenta exemplos concretos desta realidade. Em 2018, um episódio de proliferação de algas nocivas na Flórida (Estados Unidos da América) provocou perdas estimadas em 2,7 mil milhões de dólares para o setor turístico. Os investigadores consideram que este caso é um “exemplo claro” dos custos económicos associados à degradação dos ecossistemas marinhos.

As conclusões do relatório mostram, no entanto, que que é possível conciliar o crescimento económico com a conservação dos oceanos. Modelos de turismo que, além de não terem impactos negativos sobre a Natureza, contribuem positivamente para a sua conservação e regeneração, e iniciativas desenvolvidas em estreita articulação com as comunidades locais têm, dizem os investigadores, níveis superiores de valor económico por visitante e exercem menor pressão sobre os ecossistemas.

Em alguns países do sudeste asiático, por exemplo, o turismo associado à observação de tubarões e raias já representa cerca de 7% das receitas nacionais de turismo marinho e apresenta um forte potencial de crescimento.

O relatório destaca igualmente o papel de instrumentos como taxas turísticas, impostos ambientais e incentivos a experiências de menor volume e maior valor acrescentado. A evidência científica demonstra que estas medidas contribuem para financiar áreas protegidas, reforçar a conservação dos ecossistemas e reduzir as emissões, sem comprometer a atratividade dos destinos, argumentam os autores do texto.

De forma geral, as conclusões do “World Ocean Assessment III” mostram que a persistência dos atuais modelos de turismo de massa não resulta tanto de limitações técnicas, mas sobretudo de “desafios de governação e da reduzida integração do capital natural nas decisões económicas”.

“A ciência demonstra que continuar a expandir o turismo costeiro segundo os modelos atuais significa comprometer os próprios fundamentos ecológicos e económicos do setor”, conclui a equipa científica responsável pelo capítulo dedicado ao Turismo Costeiro e Azul. “A transição para modelos alinhados com o World Ocean Assessment não é apenas desejável, é uma condição para a viabilidade futura da economia do oceano.”

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