Um coração que ainda bate: Depois de 20 anos “desaparecida” e receios de extinção, esta rola endémica das Filipinas volta a ser captada em imagens

O último registo confirmado por cientistas data de 2005. Uma espécie classificada já como “criticamente em perigo” de extinção desde 1994, intensificaram-se os receios de que a rola-apunhalada-de-mindoro tivesse realmente desaparecido, entrando mesmo na Lista das Aves Perdidas.

Filipe Pimentel Rações

Considerada uma das aves mais raras do mundo, a rola-apunhalada-de-mindoro (Gallicolumba platenae) é uma ave endémica de Mindoro, ilha das Filipinas, relativamente comum nas florestas do interior até meados do século XX. Desde então, os registos cientificamente comprovados foram tornando-se cada vez mais escassos até que, por fim, deixaram de acontecer.

O último registo confirmado por cientistas data de 2005. Um exemplar tinha sido apanhado numa armadilha direcionada para outras aves da floresta, tendo sido depois devolvido à Natureza, não sem antes ter sido fotografado. Uma espécie classificada já como “criticamente em perigo” de extinção desde 1994, intensificaram-se os receios de que a rola-apunhalada-de-mindoro tivesse realmente desaparecido, entrando mesmo na Lista das Aves Perdidas.

Um columbídeo de hábitos terrestres, que se desloca pela vegetação do solo florestal, e com uma distintiva mancha vermelha no seu peito, como se fosse uma ferida que sangra (daí o seu nome comum “apunhalada), muitos já se preparavam para abandonar qualquer expectativa de voltar a avistar essa ave na Natureza. Contudo, em agosto, a chama da esperança foi reavivada e, agora, brilha com mais intensidade.

No início do mês passado, armadilhas fotográficas colocadas pela organização filipina Center for Conservation Innovations (CCIPH) nas florestas de Mindoro captaram imagens que os investigadores não esperavam: uma rola-apunhalada-de-mindoro passava diante das objetivas, tranquilamente, ignorando que muitos no mundo da conservação pensavam ter-se perdido para sempre. Só depois de recolherem os equipamentos é que os investigadores deram conta do que tinham conseguido captar.

A rola-apunhalada-de-mindoro foi fotografada acima dos 900 metros de altitude, o que os investigadores dizem indicar que a ave está a deslocar-se para outras áreas de floresta pela destruição dos seus habitats nas terras baixas. Foto: CCIPH.

“Para uma espécies extremamente rara e reservada, uma única imagem pode ter um peso enorme”, diz a CCIPH, em comunicado, o que veio a revelar que a ave continua a sobreviver, mesmo em habitats altamente degradados.

Os investigadores dizem que o facto de a rola ter sido novamente captada em imagens não é o único aspeto importante, mas também o local onde a imagem foi obtida. A rola-apunhalada-de-mindoro sempre foi descrita como uma espécie das terras baixas, tipicamente encontrada por volta dos 400 metros acima do nível do mar, podendo, no limite, chegar aos 800 metros. As imagens recentemente captadas foram registadas acima dos 900 metros, pois os cientistas, depois de anos de estudo das condições ecológicas dos habitats naturais da ave e das alterações que sofreram ao longo das décadas, previram que os locais ideias para a espécie estariam agora acima dos 900 metros. Aí colocaram as armadilhas fotográficas e aí conseguiram a confirmação de que os melhores habitats estão atualmente em maiores elevações, onde reencontraram a rola.

Embora reconheçam que uma foto não permite, cientificamente, confirmar a mudança da área de distribuição da espécie, os especialistas entendem que sugerem que pelo menos algumas das rolas-apunhaladas-de-mindoro sobreviventes vivem agora em refúgios florestas nas terras altas da ilha filipina.

A expansão da agricultura e dos povoados, a mineração, a extração de madeira e a construção de estradas destruiu e fragmentou grande parte das florestas das terras baixas de Mindoro, e essas ameaças continuam bem presentes. Por isso, os investigadores da CCIPH dizem que um único registo fotográfico de uma única rola não é necessariamente garantia de nada. O que significa é que a espécie persistiu durante mais tempo do que se pensava. Por isso, avisam que, agora que se confirmou que a espécie ainda não desapareceu totalmente, é preciso investir urgentemente na proteção e restauro dos seus habitats para evitar que isso aconteça. Numa alusão à característica mancha que a rola tem no seu peito, a organização diz que “esse coração ainda bate”.

Se continuará a bater por mais 20 ou 100 anos, acautela a CCIPH, dependerá da forma como olharmos para esta imagem inesperada: meramente como um registo realmente extraordinário ou como algo que mudará significativamente o rumo a seguir no que toca à proteção desta ave.

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