A pandemia de COVID-19, para muitos já uma memória distante, trouxe os morcegos para as luzes da ribalta.
Embora o que ainda não falte são teorias, e umas mais mirabolantes do que outras, pensa-se que o vírus SARS-CoV-2, que causa a COVID-19, possa ter originado em morcegos.
Esses pequenos mamíferos alados são conhecidos por serem reservatórios de vírus, incluindo coronavírus, mas, ao longo de muitos anos de evolução, tornaram-se imunes a eles. Uma nova investigação vem agora explicar por que razão vírus que não causam danos aos animais não-humanos podem adaptar-se e provocar doenças graves nos humanos.
O trabalho, que tem como autores várias dezenas de investigadores e especialistas, foi publicado na revista ‘Cell Host & Microbe’, mostra que os coronavírus transportados pelos morcegos podem ser transmitidos aos humanos, e a resposta está numa pequena alteração numa única molécula.
A equipa analisou o SARS-CoV-2 e um outro coronavírus chamado RaTG13, que só infeta morcegos, e compararam a forma como cada um deles interage com as proteínas das células pulmonares de morcegos e humanos.
Através de experiências em laboratório, os cientistas perceberam que uma proteína viral de nome Orf9b pode ser a chave. A proteína é encontrada tanto no SARS-CoV-2 como no RaTG13, mas, apesar de serem 93% idênticas, têm comportamentos diferentes.
Nas células humanas, a versão SARS-CoV-2 da proteína Orf9b “desliga” o alarme do sistema imunitário, permitindo que o vírus se multiplique sem que haja uma resposta defensiva imediata do organismo. No entanto, nas células de morcego, a versão RaTG13 ativa uma proteína que ajuda a suprimir o vírus.
A equipa percebeu que alterar apenas um dos 100 aminoácidos que formam a proteína Orf9B é capaz de reverter a sua capacidade para escapar ao sistema imunitário do hospedeiro.
“A diferença entre um vírus que se mantém nos morcegos e um que é transmitido aos humanos e causa doenças catastróficas pode resumir-se a alterações genéticas incrivelmente pequenas”, diz Nevan Krogan, investigador da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCFS) e principal coautor do estudo.
“Ao mapearmos essas interações ao nível das proteínas – em dois vírus e duas espécies – conseguimos identificar as assinaturas moleculares qe permitem prever o risco de transmissão entre espécies. É o tipo de sistema de altera precoce de que o mundo precisa”, declara o cientista.









