A sustentabilidade entrou definitivamente no centro da estratégia empresarial. Essa foi a principal conclusão da VII Conferência Green Savers, realizada hoje em Lisboa, mais precisamente no Auditório Carlos Paredes, que reuniu empresas, académicos e especialistas para discutir o impacto dos critérios ESG – ambientais, sociais e de governação – na competitividade das organizações. Num contexto marcado por pressão regulatória, instabilidade geopolítica e exigências crescentes dos consumidores, o consenso foi claro: o ESG deixou de ser uma ferramenta de reputação para se afirmar como uma condição de resiliência, inovação e continuidade dos negócios. O título do evento não deixava margem para dúvidas: “ESG: o superpoder das empresas”.
A ideia-força foi lançada logo na abertura por Rogério Júnior, CEO da Green Savers: a sustentabilidade “deixou há muito de ser uma preocupação distante” para se tornar “uma realidade concreta, diária e transversal”, presente nas decisões de gestão, nas cadeias de valor e na própria competitividade das empresas. O verdadeiro desafio, sublinhou, é passar do discurso à prática, “das intenções aos resultados”.
Sustentabilidade como super-herói
Filipa Pantaleão, secretária-geral do BCSD Portugal, foi a oradora principal e começou por subverter o título do evento: o ESG não é o super-herói, é a ferramenta – “são os superpoderes que a sustentabilidade, ela própria o super-herói, utiliza”. Com o BCSD a celebrar 25 anos, Pantaleão estruturou a sua intervenção em torno de quatro superpoderes: transformar risco em resiliência, informação em materialidade, intenção em estratégia e coragem em liderança.
Para ilustrar a resiliência, recorreu ao exemplo da Toyota e da sua “rede viva” de fornecedores – um sistema que aprendeu a resistir a disrupções na cadeia de valor. Para a materialidade, citou a Schneider Electric, que integrou a sustentabilidade na própria proposta de valor: ajudar os clientes a usar energia de forma mais eficiente, digital e descarbonizada. Para a estratégia, o exemplo foi a dinamarquesa Orsted, que transitou de negócio assente em combustíveis fósseis para líder mundial em energia eólica offshore. E para a liderança, apelou à coragem individual: “as transformações raramente começam dentro de um organograma, começam com uma pessoa a fazer a pergunta certa”.
Economia circular: do compromisso à execução
A primeira mesa-redonda juntou João Cordeiro, Administrador Executivo da SDR Portugal, Mónica Luízio, Directora de Compliance & Projecto do Electrão, e Vanessa Romeu, Head of Corporate Affairs do Lidl, para debater como a circularidade se operacionaliza no terreno. A SDR Portugal, entidade responsável pelo sistema de depósito-reembolso “Vai e Volta” para embalagens de bebidas, lançado a 10 de abril, trabalha para atingir uma taxa de recolha de 90% até 2029 – meta definida pela União Europeia. Em poucos dias de operação, já tinham sido recolhidas perto de três milhões de embalagens. O Eletrão, com mais de 20 anos e 15 mil pontos de recolha no país, apontou as lacunas estruturais: incumprimento histórico de metas, mercado paralelo que desvia equipamentos eletrónicos e ausência de valorização económica das matérias-primas secundárias. “Enquanto as matérias-primas virgens forem mais baratas, dificilmente teremos circularidade plena”, disse Mónica Luízio. O Lidl assumiu a sustentabilidade como parte intrínseca do modelo de negócio e não como “nice to have” – com 80% de marcas próprias, controla a cadeia desde a origem, com Vanessa Romeu a referir que o retalhista já reduziu 73% das emissões de Scope 1 e 2 desde 2019.
Ciência, estratégia e coragem para decidir
No painel sobre ciência e capital, Filipa Pires de Almeida, Diretora Executiva do Center for Responsible Business & Leadership da CATÓLICA-LISBON, foi direta: “uma empresa não pode ter uma estratégia de sustentabilidade – a sustentabilidade tem que ser a estratégia”. Os dados do Observatório dos ODS confirmam que 96% das grandes empresas portuguesas e 82% das PME acreditam que a sustentabilidade melhora a competitividade. Paulo Branco, Investigador do ISA e Diretor-executivo do Laboratório Associado TERRA, por seu lado, alertou para a necessidade de métricas flexíveis e adaptativas, capazes de reconhecer que uma mesma ação pode ter impactos opostos em contextos diferentes. Já Luísa Magalhães, Diretora Executiva da Associação Smart Waste Portugal, explicou que as empresas precisam da ciência. “Têm esse conhecimento e sentem cada vez mais essa necessidade de ligação. E o próprio ritmo da ciência está a mudar com os novos modelos de financiamento e os consórcios de investigação”, afirmou.
No último painel, Carlos Gouveia, CEO da Scoring, identificou o desconhecimento, a falta de transparência e a complexidade regulatória como principais obstáculos nas PME – que representam mais de 99% do tecido empresarial português. Já Francisco Ferreira, Presidente da ZERO, defendeu metas ambiciosas, mas realistas, transparentes e coerentes – e criticou os casos de carbono zero alcançado apenas por compensação e não por redução efetiva. Do lado do setor empresarial, Sílvia Machado, Executive Director for Sustainability da CIP, exigiu um enquadramento regulatório mais previsível e menos burocrático para que as empresas possam investir com segurança.
Resiliência como nova linguagem das empresas
Mariana Ribeiro Ferreira Vice-Presidente do GRACE, em representação da CUF, encerrou o evento com três mensagens: a jornada da sustentabilidade não se faz sozinha; sustentabilidade é resiliência – as empresas que investem em ESG estão a garantir a continuidade dos seus negócios perante riscos climáticos, geopolíticos e societais; e a sustentabilidade deve ser trabalhada de forma transversal e integral, casada com o core da estratégia empresarial. A sétima edição da conferência Green Savers confirmou que o ESG já não é um tema periférico. É a linguagem do negócio responsável – e do negócio duradouro.








