<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Entrevistas &#8211; Green Savers</title>
	<atom:link href="https://greensavers.sapo.pt/temas/entrevista/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://greensavers.sapo.pt</link>
	<description>Notícias sobre sustentabilidade, ambiente, alterações climáticas, biodiversidade, florestas, finanças verdes, empresas, economia, ODS</description>
	<lastBuildDate>Mon, 11 May 2026 08:15:21 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-PT</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	

<image>
	<url>https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/01/gs-favicon-100x100.png</url>
	<title>Entrevistas &#8211; Green Savers</title>
	<link>https://greensavers.sapo.pt</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>“A sustentabilidade só será real se as PME forem parte integrante deste processo de transformação”</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/a-sustentabilidade-so-sera-real-se-as-pme-forem-parte-integrante-deste-processo-de-transformacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Filipe Pimentel Rações]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 May 2026 08:02:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<category><![CDATA[pme]]></category>
		<category><![CDATA[sustentabilidade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://greensavers.sapo.pt/?p=296794</guid>

					<description><![CDATA[As micro, pequenas e médias empresas são o motor da economia portuguesa, mas continuam afastadas do centro das decisões sobre sustentabilidade. Luís Roberto defende que o futuro verde do país passa por integrá-las na transição ecológica.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Mais de 90% do tecido empresarial português é composto por micro, pequenas e médias empre20sas, as chamadas PME. Assim, sem elas, a descarbonização da economia do país não será mais do que uma bonita ambição, entre tantas outras.</p>
<p>Sem os mesmos recursos técnicos, financeiros e humanos que as grandes empresas, muitas PME podem ter dificuldade em conseguir trilhar o caminho do desenvolvimento sustentável, alinhando os seus negócios com a proteção do planeta.</p>
<p>Luís Roberto, gestor, professor e especialista em Sustentabilidade, ESG e Regeneração, é um dos autores da recentemente publicada obra “A Caminho da Sustentabilidade: Os 7 passos para a acção”. Em entrevista, fala-nos dos desafios enfrentados pelas PME em Portugal e sobre como criar as condições para que a sustentabilidade não seja “um custo adicional” e se torne “uma oportunidade de inovação, eficiência e competitividade”.</p>
<p><strong>Dada a sua representatividade no tecido empresarial português (e também europeu), bem como as suas contribuições para as emissões de gases com efeito de estufa, a transição para uma economia mais alinhada com a proteção do planeta não é possível sem as PME. Mas ao contrário das grandes empresas, podem não ter os recursos humanos, técnicos e financeiros para fazer essa viagem. Como é que se pode ajudar as PME?</strong></p>
<p>A sustentabilidade só será real se as PME forem parte integrante deste processo de transformação.</p>
<p>Em Portugal existe mais de um milhão e quatrocentas mil PME, dominando o tecido empresarial português, gerando aproximadamente dois terços da atividade económica empresarial privada, o que significa que o crescimento económico é praticamente impossível sem a cooperação dos pequenos negócios.</p>
<p>No entanto, é verdade que muitas enfrentam limitações de recursos humanos, técnicos e financeiros, que dificultam a adoção de práticas sustentáveis. A ajuda tem de vir em várias frentes.</p>
<p>Em primeiro lugar, é essencial simplificar o acesso a financiamento verde. Muitas PME não têm departamentos dedicados para preparar candidaturas complexas, por isso os instrumentos de apoio devem ser mais ágeis, acessíveis e acompanhados de assistência técnica.</p>
<p>Em segundo lugar, precisamos de reforçar a capacitação e o desenvolvimento de competências em sustentabilidade, através de programas de formação, partilha de boas práticas, e o incremento das redes de apoio entre empresas. A colaboração setorial e territorial é chave. Quando as PME trabalham em ecossistemas locais, conseguem partilhar recursos, reduzir custos e acelerar a transição.</p>
<p>Terceiro, a digitalização é um grande parceiro. As ferramentas digitais permitem monitorizar consumos, otimizar processos e reduzir desperdícios, ou seja, tornam a sustentabilidade mais eficiente e mensurável.</p>
<p>Por fim, é importante reconhecer e valorizar as PME que já estão a dar passos nessa direção, através de mecanismos de certificação, incentivos fiscais ou visibilidade no mercado.</p>
<p>Em suma, ajudar as PME na transição sustentável significa criar um ambiente em que a sustentabilidade não seja um custo adicional, mas uma oportunidade de inovação, eficiência e competitividade.</p>
<p><strong>A quem é que cabe a responsabilidade de colocar as PME no caminho da sustentabilidade efetiva e de longo-prazo? Aos seus gestores, ao Governo e entidades públicas, às empresas maiores que as têm nas suas cadeias de valor, à própria sociedade que usa os seus serviços e consome os seus produtos?</strong></p>
<p>A responsabilidade é de todos. O sucesso da transição sustentável só será possível de alcançar quando tivermos a capacidade e a disponibilidade para interagirmos e trabalharmos em conjunto – empresas, academia, governos, ONG e cidadãos.</p>
<p>Começando pelas PME e os seus gestores, é claro que a mudança tem de começar dentro das empresas. A liderança é essencial para integrar a sustentabilidade na estratégia do negócio, mesmo que de forma gradual e adaptada à escala de cada negócio. Mas não podemos esperar que as PME façam esta caminhada sozinhas.</p>
<p>O Governo enquanto legislador, tem um papel determinante em criar condições políticas estáveis, incentivos financeiros e simplificação administrativa. Sem um enquadramento de apoio claro, é difícil que as PME assumam compromissos de longo prazo.</p>
<p>As grandes empresas, por sua vez, têm uma responsabilidade crescente na forma como gerem as suas cadeias de valor. Devem apoiar as PME fornecedoras na descarbonização, partilhar conhecimento e facilitar o acesso a ferramentas e métricas comuns. Essa colaboração é essencial para uma transição justa e eficaz.</p>
<p>E, finalmente, a sociedade e os consumidores também têm o poder de influência. Cada escolha de consumo influencia o mercado. Quando valorizamos produtos e serviços mais sustentáveis, estamos a enviar um sinal claro às empresas, de que esse é o caminho a seguir.</p>
<p>Portanto, a sustentabilidade das PME é um projeto coletivo, que requer liderança interna, políticas públicas inteligentes, colaboração empresarial e um mercado que premeie o compromisso com a sustentabilidade.</p>
<p><strong>Dados da Pordata indicam que, do total de PME em Portugal, mais de 90% (cerca de milhão e meio) são microempresas, ou seja, têm menos de 10 trabalhadores. Como é que empresas com essas dimensões, que muitas vezes estão mais focadas na luta diária para tentarem manter as portas abertas do que nos impactos ambientais, podem alinhar-se com as exigências que lhes são impostas? Muitas delas simplesmente podem não ter recursos, sejam quais forem, para fazer tais transformações, certo?</strong></p>
<p>É verdade. A maioria das PME portuguesas são microempresas, muitas vezes com equipas reduzidas e recursos muito limitados. A sua prioridade diária é sobreviver, pagar salários e manter clientes. Falar-lhes de sustentabilidade sem reconhecer essa realidade é contraproducente.</p>
<p>Mas a transição sustentável não tem de ser uma exigência inatingível, tem de ser um caminho ajustado à sua escala.</p>
<p>O primeiro passo é ajudar estas empresas a perceber que sustentabilidade também pode significar eficiência. Gastar menos energia, reduzir desperdício, otimizar transportes, ou valorizar produtos locais. Pequenas mudanças podem ter impacto ambiental e, ao mesmo tempo, melhorar margens.</p>
<p>Depois, é preciso aproximar os apoios da sua realidade. Programas simplificados, consultoria acessível, ferramentas digitais prontas a usar e projetos coletivos, por exemplo.</p>
<p>As autarquias, associações empresariais e clusters locais podem ter aqui um papel essencial, ao serem o elo de ligação entre as políticas públicas e o terreno, traduzindo a sustentabilidade em ações concretas, simples e úteis.</p>
<p>Por fim, temos de mudar a narrativa. A sustentabilidade nas microempresas não começa com os relatórios de sustentabilidade e certificações, mas com pequenas decisões diárias mais inteligentes e responsáveis. O importante é pô-las a caminho, com apoio, realismo e reconhecimento do seu esforço.</p>
<p><strong>As PME podem estar cientes da importância de fazerem a transição para modelos de negócio menos ambientalmente prejudiciais, não só por questões de estratégia de negócio, mas também por preocupações genuínas com o futuro do planeta. Outras podem não ter essa visão. Como é que se chega a elas? Será que a velha ladainha do “é um fator de competitividade e é bom para o negócio” chega? Ou é preciso mais?</strong></p>
<p>A ideia de que a sustentabilidade é boa para o negócio é verdade, mas já não chega.  Esse discurso, embora verdadeiro, soa muitas vezes a filosófico para quem está focado em manter a empresa a funcionar dia a dia.</p>
<p>Chegar às PME que ainda não abraçaram esta visão exige mostrar resultados tangíveis e casos práticos. Quando um empresário vê outro, semelhante a si, reduzir custos, conquistar novos clientes ou melhorar a reputação da sua marca através de práticas sustentáveis, isso tem muito mais impacto do que qualquer campanha institucional.</p>
<p>Além disso, é fundamental criar condições para que a sustentabilidade seja simples e vantajosa desde o início — com apoio técnico, incentivos concretos e menos burocracia. A mensagem tem de ser: “As PME não estão sozinhas, a sustentabilidade é um caminho partilhado”.</p>
<p>Mas há também uma dimensão mais profunda. Precisamos de reconectar a sustentabilidade ao propósito e à continuidade do negócio. No fundo, trata-se de garantir que as empresas que hoje sustentam as economias locais continuam a existir num futuro que será necessariamente mais sustentável.</p>
<p>Portanto, sim, é um fator de competitividade, mas é também um fator de sobrevivência e de reputação. A transição só acontecerá quando a sustentabilidade deixar de ser uma obrigação externa, e passar a ser um motivo interno de convicção e pertença.</p>
<p><strong>Poderá haver alguma relação entre o nível de escolaridade e o caminho para a sustentabilidade nas PME? Em abril de 2024, a Pordata indicava que 44% dos empregadores têm, no máximo, o 9.º ano. É sabido que formação académica não é conhecimento nem sabedoria, mas poderá influenciar, dada a complexidade dos assuntos em questão no que toca à sustentabilidade?</strong></p>
<p>O nível de escolaridade pode influenciar o acesso à informação, mas não determina a capacidade de liderança ou visão.</p>
<p>Em Portugal, muitas PME foram criadas e mantidas por pessoas com enorme experiência prática e sentido de responsabilidade. Esse capital humano é valiosíssimo, e é nele que temos de investir, não o substituindo, mas complementando-o com formação prática.</p>
<p>O que realmente faz a diferença é a oportunidade de aprender. Se a formação em sustentabilidade for dada de forma clara, ligada ao dia a dia do negócio, mostrando benefícios concretos e os impactos positivos que podem ser criados, então o nível de escolaridade deixa de ser uma barreira.</p>
<p>Tenho conhecido empresários com percursos escolares curtos, mas com uma visão e uma sensibilidade ambiental extraordinárias. Às vezes, o que faz mesmo a diferença é a abertura para aprender, a curiosidade e a vontade de fazer diferente.</p>
<p>Ou seja, mais do que escolaridade formal, o que importa é a capacitação contínua e proximidade, traduzir a sustentabilidade em linguagem simples, aplicável e inspiradora. Quando isso acontece, o conhecimento torna-se inclusivo, e todos podem fazer parte da transição, independentemente do diploma que têm.</p>
<p><strong>Em setembro passado, o Luís e outros colegas especialistas lançaram o livro “A <a href="https://www.bertrand.pt/livro/a-caminho-da-sustentabilidade-joaquim-caetano/32647125?srsltid=AfmBOor6dR_GWLkyNYULlslOjkPEpqzlbGmT7dPtk50XxvMn3mqoSDQ6" target="_blank" rel="noopener">Caminho da Sustentabilidade: Os 7 passos para a acção</a>”, que descrevem como sendo “um livro inevitável” para ajudar as PME “a conhecerem o essencial da sustentabilidade, e a percorrer a sua caminhada, de forma simples, mas estruturada”. Como é que uma PME poderia começar a pensar sobre a sua estratégia de sustentabilidade? Onde fica o início do início?</strong></p>
<p>O ‘início do início’ é, acima de tudo, quando ganhamos a consciência de que a sustentabilidade já não é opcional.</p>
<p>Quando à mesa do café a Margarida Antunes, o Joaquim Caetano, o Ricardo Ferreira e o Luís Roberto decidiram escrever o livro “A Caminho da Sustentabilidade – os 7 passos para a acção”, também ele um projeto coletivo, que reúne a experiência, o saber e a observação atenta dos seus autores, complementado por casos de estudo de empresas reputadas (Adega Mayor, Casa Mendes Gonçalves, Grupo Osíris), e a visão humanista da Escola de Negócios &#8211; AESE, quisemos precisamente mostrar que qualquer PME, independentemente da sua dimensão ou setor, pode começar esta caminhada de forma simples, desde que tenha um roteiro claro.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-279506 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2025/09/livro-a-caminho-da-sustentabilidade-1.png" alt="" width="439" height="643" srcset="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2025/09/livro-a-caminho-da-sustentabilidade-1.png 439w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2025/09/livro-a-caminho-da-sustentabilidade-1-205x300.png 205w" sizes="(max-width: 439px) 100vw, 439px" /></p>
<p>O método dos 7 Passos permite que todos os envolvidos entendam o que precisa ser feito, centrando os esforços nas tarefas certas, evitando o desperdício de tempo e esforço, garantindo que cada ação contribui diretamente para implementar a sua estratégia de sustentabilidade.</p>
<p>Criar uma estratégia de sustentabilidade e integrá-la na estratégia do negócio é o desafio que se coloca às PME. Ao serem capazes de o conseguir, estão paralelamente a proteger o negócio da estagnação e a potenciar oportunidades de desenvolvimento e inovação.</p>
<p>Assim, é também essencial que os empresários estejam dispostos a orientar as suas ações para um novo modelo de gestão, capaz de aliar o progresso económico à preservação do meio ambiente e às condições sociais.</p>
<p>Para estabelecer a estratégia de sustentabilidade de qualquer empresa, o primeiro passo, é compreender onde se está. Perceber os principais impactos e as oportunidades do seu negócio, no ambiente, nas pessoas e na comunidade. Esse diagnóstico inicial, mesmo que seja simples, ajuda a ganhar clareza e foco. E a partir daí, o caminho torna-se progressivo, passo a passo. Cada passo conta, e o importante é dar o primeiro.</p>
<p>O nosso objetivo com o livro foi exatamente esse. Traduzir a sustentabilidade para a linguagem das PME, tornando-a prática, acessível e estruturada. Um livro inevitável que ajuda a transformar boas intenções em ação concreta.</p>
<p><strong>Pensando que algum proprietário de uma PME poderá estar a ler esta nossa conversa, e que ainda não tem uma estratégia de sustentabilidade e nem pensou ainda muito sobre isso, como é que tentaria convencê-lo ou convencê-la de que a sustentabilidade é importante para o seu negócio e não é apenas uma coisa “ambientalista” que só vai dar trabalho e mais despesa?</strong></p>
<p>Antes de mais, eu diria a esse empresário ou empresária: Eu compreendo! Gerir uma PME em Portugal é um desafio diário e constante, onde sobra pouco tempo para pensar em mais uma ‘obrigação’.</p>
<p>Mas a sustentabilidade não é um custo nem uma moda. É, na verdade, uma forma de tornar o negócio mais eficiente e mais competitivo.</p>
<p>Em Portugal, 77,7 % das PME declaram ver a sustentabilidade como uma oportunidade estratégica, e 87 % acreditam que a sustentabilidade pode melhorar significativamente a competitividade do seu negócio.</p>
<p>Medidas simples, como otimizar consumos de energia ou reduzir desperdícios, podem trazer poupanças diretas e melhorar a resiliência da empresa face a aumentos de preços.</p>
<p>Além disso, há cada vez mais clientes, investidores e grandes empresas que exigem práticas sustentáveis aos seus parceiros. Quem se antecipa a essas exigências ganha vantagem competitiva e uma reputação positiva que ajuda a atrair novos clientes e talentos.</p>
<p>E, finalmente, há o fator humano. As PME sustentáveis tendem a ter equipas mais motivadas e inovadoras, porque trabalham com um propósito claro. Segundo um estudo produzido pela McKinsey, 80% dos millennials querem trabalhar em empresas fortes em sustentabilidade.</p>
<p>Portanto, sustentabilidade não é um fardo. É uma estratégia de crescimento inteligente, que combina responsabilidade com rentabilidade e prepara a empresa para o futuro.</p>
<p>A sustentabilidade é, no fundo, um novo modelo de gestão com visão de futuro. É garantir que o negócio continua a existir daqui a dez anos, num mundo que vai ser inevitavelmente mais exigente e mais consciente.</p>
<p>Saber que o que fazemos hoje pode contribuir para um futuro melhor não é ser ambientalista, é ser realista e responsável, e as PME que investem em sustentabilidade hoje serão as líderes de mercado amanhã.</p>
<p>Considera que quando se fala em transição ecológica, em alinhar os negócios com objetivos de proteção ambiental, o discurso tende a ter como foco as grandes empresas e, de alguma forma, a deixar de fora as PME, as suas dificuldades, as suas idiossincrasias?</p>
<p>Sim, o discurso sobre sustentabilidade e proteção ambiental ainda está muito centrado nas grandes empresas. Mas sem as PME, que são 99% do tecido empresarial português, não há transição possível.</p>
<p>O problema é que o discurso, e muitas vezes as políticas, não têm em conta a escala, a linguagem e os recursos das PME. Falamos em descarbonização, economia circular, fatores ESG e gestão de riscos, mas raramente explicamos o que isso significa na prática para uma empresa com 10 ou 15 colaboradores.</p>
<p>O desafio, portanto, é democratizar a sustentabilidade. Criar instrumentos simples, políticas adaptadas e narrativas que falem para todos os tamanhos de empresa. A transição ecológica só será justa e eficaz se for inclusiva, se percebermos que o pequeno negócio local é tão parte da solução quanto o grande grupo industrial.</p>
<p>É por isso que tenho insistido tanto em traduzir a sustentabilidade para a realidade das PME, tornando-a acessível e inspiradora.</p>
<p><strong>As PME têm um lugar à mesa das negociações de regulamentos ambientais e de sustentabilidade que as afetem diretamente? Têm capacidade para lá chegar, ou têm sequer a porta aberta para isso? Ou esses fóruns continuam a ser só para as grandes empresas?</strong></p>
<p>Infelizmente, as PME ainda estão pouco representadas nas decisões sobre sustentabilidade. As regras que as afetam são, muitas vezes, desenhadas sem as escutar.</p>
<p>Apesar do excelente trabalho desenvolvido por várias associações representativas das PME, o setor mantém-se fragmentado, com pouca articulação entre si, e um peso político diminuto, faltando, em minha opinião, uma plataforma comum que traduza, de forma coesa, as preocupações sobre regulação ambiental, sustentabilidade e outros temas cruciais como a transição digital, por exemplo.</p>
<p>Por outro lado, os fóruns, as consultas públicas e as mesas de negociação continuam, em grande parte, dominados por grandes empresas, associações setoriais com mais recursos, e entidades públicas.</p>
<p>As PME não têm, por norma, departamentos jurídicos, de sustentabilidade ou de relações institucionais, por isso, precisam de ser representadas de forma mais estruturada. O papel das associações empresariais, câmaras de comércio e confederações é fundamental para levar a sua voz aos decisores.</p>
<p>Mas também cabe ao próprio poder público abrir as portas de forma mais inclusiva, criando mecanismos de consulta simplificados, fóruns regionais e processos participativos adaptados à dimensão das PME. As autarquias podem também atuar como facilitadoras, criando espaços de consulta local, redes colaborativas e programas de capacitação, em parceria com a academia, que ajudem as PME a compreender e a aplicar políticas de sustentabilidade.</p>
<p>Se queremos uma transição ecológica justa, precisamos de um diálogo mais equilibrado, em que o pequeno negócio local tenha voz na mesma mesa onde se definem as regras do futuro. A sustentabilidade também é governação participativa e equidade de representação.</p>
<p><strong>Já várias PME nascem com as preocupações ambientais no cerne dos seus modelos de negócio, patentes nos seus produtos e serviços e têm gestores bem alinhados com essas questões. Mas muitas outras nem por isso. Considera que algum dia será possível colocá-las todas no mesmo comprimento de onda “verde” ou o que importa mais é o percurso, o que se faz até lá, e não tanto o destino final?</strong></p>
<p>O importante não é que todas as PME cheguem ao mesmo destino ao mesmo tempo, mas que todas caminhem na direção certa. A sustentabilidade é um caminho, feito de passos, não de saltos.</p>
<p>Algumas PME já nascem com o ‘verde’ no ADN. São pioneiras e mostram o que é possível fazer. Outras chegam lá mais devagar, porque enfrentam constrangimentos reais de tempo, recursos ou conhecimento. Mas o essencial é que cada uma encontre o seu ponto de partida e a sua motivação.</p>
<p>A sustentabilidade não é uma meta única e fixa. É um processo de melhoria contínua, de aprendizagem e de responsabilidade. Como referi por diversas vezes, a sustentabilidade é uma <em>ongoing journey</em> [viagem contínua], que implica compromisso, liderança, e cultura de sustentabilidade, em que todos reconhecem a importância de serem sustentáveis.</p>
<p>Se conseguirmos que cada PME, por mais pequena que seja, dê passos consistentes e conscientes, então o resultado coletivo será transformador. No fundo, o que conta não é que todas falem a mesma linguagem verde, mas olhem o futuro mais equilibrado, resiliente e humano.</p>
<p>O caminho para a sustentabilidade não se faz sozinho. PME, grandes empresas e sociedade precisam de caminhar lado a lado, porque o verdadeiro valor está em crescer juntos, sem deixar ninguém para trás.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>*Entrevista publicada originalmente na revista de dezembro de 2025.</em></p>
<p>*<em>Nota de pesar: Luís Roberto faleceu em fevereiro de 2026 e deixou uma marca importante na promoção da sustentabilidade empresarial em Portugal. </em></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Entrevista: “Somos solo com pernas&#8221;</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/entrevista-somos-solo-com-pernas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Filipa Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Apr 2026 08:26:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<category><![CDATA[pernas]]></category>
		<category><![CDATA[solo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://greensavers.sapo.pt/?p=296883</guid>

					<description><![CDATA[Ray Archuleta, uma das principais referências internacionais em saúde do solo e agricultura regenerativa, defende uma visão do solo como sistema vivo e alerta para a necessidade de repensar a forma como a agricultura e a sociedade encaram a sua importância.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="text-base my-auto mx-auto [--thread-content-margin:var(--thread-content-margin-xs,calc(var(--spacing)*4))] @w-sm/main:[--thread-content-margin:var(--thread-content-margin-sm,calc(var(--spacing)*6))] @w-lg/main:[--thread-content-margin:var(--thread-content-margin-lg,calc(var(--spacing)*16))] px-(--thread-content-margin)">
<div class="[--thread-content-max-width:40rem] @w-lg/main:[--thread-content-max-width:48rem] mx-auto max-w-(--thread-content-max-width) flex-1 group/turn-messages focus-visible:outline-hidden relative flex w-full min-w-0 flex-col agent-turn">
<div class="flex max-w-full flex-col gap-4 grow">
<div class="min-h-8 text-message relative flex w-full flex-col items-end gap-2 text-start break-words whitespace-normal outline-none keyboard-focused:focus-ring [.text-message+&amp;]:mt-1" dir="auto" data-message-author-role="assistant" data-message-id="8fa93fc7-46c9-4ab5-95d2-8193e05a811e" data-message-model-slug="gpt-5-3-mini">
<div class="flex w-full flex-col gap-1 empty:hidden">
<div class="markdown prose dark:prose-invert w-full wrap-break-word light markdown-new-styling">
<p data-start="101" data-end="555">Em entrevista à <em data-start="117" data-end="131">Green Savers</em>, Ray Archuleta &#8211; uma das principais referências internacionais em saúde do solo e agricultura regenerativa, que esteve recentemente em Portugal, no âmbito do Fórum Regenerar 2026, promovido pela Fundação Mendes Gonçalves &#8211; aborda a forma como a agricultura moderna continua a subestimar o papel do solo enquanto sistema vivo, apesar de ser dele que depende a resiliência dos ecossistemas e da produção alimentar.</p>
<p data-start="557" data-end="1017">Ao longo da conversa, o especialista defende que a degradação dos solos está diretamente ligada à perda de estabilidade dos sistemas agrícolas, sobretudo num contexto de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes. Para Ray Archuleta, a regeneração não é apenas um conjunto de práticas, mas uma mudança de paradigma assente na recuperação da biologia do solo, na ciclagem natural dos nutrientes e na redução da dependência de fatores de produção externos.</p>
<p data-start="1019" data-end="1399" data-is-last-node="" data-is-only-node="">Nesse sentido, sublinha que a saúde do solo deve ser entendida como um indicador central da saúde dos sistemas alimentares, exigindo novas formas de medir, gerir e valorizar a agricultura. Sem essa mudança de foco, alerta, continuará a ser difícil construir sistemas verdadeiramente resilientes, capazes de responder aos desafios climáticos e à pressão sobre os recursos naturais.</p>
<p data-start="0" data-end="772"><strong data-start="0" data-end="209">O solo tem vindo a ganhar destaque no discurso climático, mas continua muitas vezes tratado como um recurso invisível. Porque é que, na prática, continua a ser subvalorizado face a outros temas ambientais?</strong></p>
<p data-start="0" data-end="772">O solo é subvalorizado porque fomos ensinados a vê-lo como um meio que apenas serve para sustentar as plantas, e não como um sistema vivo que impulsiona os ciclos da água, dos nutrientes e da energia.<br data-start="412" data-end="415" />Como a biologia não é visível, as pessoas tendem a olhar primeiro para a química. Mas o solo é o motor do ecossistema: quando falha, tudo o que está acima da superfície também falha.<br data-start="597" data-end="600" />A questão mais profunda é cultural. Separámos os indicadores, como os nutrientes, das funções, como a ciclagem e a infiltração. E isso limita a forma como tomamos decisões.</p>
<p data-start="774" data-end="1407"><strong data-start="774" data-end="947">Em que medida é que a degradação dos solos está diretamente ligada à perda de resiliência dos sistemas alimentares, sobretudo em cenários de eventos climáticos extremos?</strong></p>
<p data-start="774" data-end="1407">São inseparáveis. A degradação do solo destrói a agregação e, quando os agregados falham, a infiltração também falha. Quando a infiltração falha, falha o ciclo da água. Isto traduz-se em seca e inundação em simultâneo. Um solo funcional consegue amortecer os extremos, porque a biologia constrói estrutura e promove a ciclagem de nutrientes. E é essa estrutura que regula a água.<br data-start="1331" data-end="1334" />Sem estrutura e sem ciclagem de nutrientes e de água, não há resiliência.</p>
<p data-start="1409" data-end="2076"><strong data-start="1409" data-end="1579">Fala-se cada vez mais de agricultura regenerativa, mas o conceito nem sempre é claro. Onde é que termina a agricultura sustentável e começa, de facto, a regenerativa?</strong></p>
<p data-start="1409" data-end="2076">A agricultura sustentável tenta manter um sistema degradado. A agricultura regenerativa restaura a função. A diferença está em saber se estamos a construir a biologia do solo, que impulsiona a ciclagem de nutrientes e da água, ou se estamos simplesmente a substituí-la por fatores de produção externos.<br data-start="1886" data-end="1889" />Os sistemas regenerativos reduzem a dependência de energia externa, sobretudo dos fertilizantes azotados, que estão entre os fatores de produção mais intensivos em energia que utilizamos.</p>
<p data-start="2078" data-end="2892"><strong data-start="2078" data-end="2263">O modelo agrícola dominante nas últimas décadas contribuiu para a perda de matéria orgânica e biodiversidade no solo. Que erros estruturais foram cometidos e continuam por corrigir?</strong></p>
<p data-start="2078" data-end="2892">Simplificámos os ecossistemas: monocultura, perturbação do solo e fatores de produção sintéticos substituíram a biologia. O erro foi pensar que os nutrientes vêm de sacos, e não da biologia. O que continua por resolver é que ainda gerimos a agricultura com foco na produtividade, e não na função.<br data-start="2564" data-end="2567" />Enquanto não medirmos e gerirmos indicadores biológicos ligados a processos, nada muda. Não ensinámos que o solo está vivo. Tal como nós. Os seres humanos são compostos em cerca de 90% por bactérias. Apenas 10% somos nós. Somos solo com pernas. Quando compreendemos que o solo está vivo, tudo muda na exploração agrícola.</p>
<p data-start="2894" data-end="3455"><strong data-start="2894" data-end="3053">Até que ponto a dependência de fertilizantes sintéticos e mobilização intensiva do solo compromete a sua capacidade de funcionar como sumidouro de carbono?</strong></p>
<p data-start="2894" data-end="3455">Comprometem-na totalmente. A mobilização do solo oxida o carbono e o azoto sintético contorna a biologia. Quando as plantas deixam de precisar da biologia, deixam também de a alimentar. Sem fluxo de carbono para o solo, não há agregação nem sequestro de carbono. O armazenamento de carbono não é uma prática, é o resultado de uma função biológica. Este tipo de práticas é intrusivo e disruptivo.</p>
<p data-start="3457" data-end="4378"><strong data-start="3457" data-end="3637">Há quem defenda que não será possível alimentar uma população crescente sem agricultura intensiva. A agricultura regenerativa consegue responder a esse desafio à escala global?</strong></p>
<p data-start="3457" data-end="4378">Esse argumento ignora a eficiência. Os sistemas industriais utilizam enormes quantidades de energia para produzir nutrientes, sobretudo fertilizantes azotados. Os sistemas regenerativos usam a biologia para fazer circular os nutrientes. Quando os solos funcionam, a produtividade estabiliza com menos fatores de produção. A questão não é apenas a produtividade. É também a eficiência energética e a resiliência. Os sistemas regenerativos conseguem manter a produtividade com menos fatores de produção, sem degradar os nossos recursos nem a água. Imitar os processos da natureza exige menos energia e permite-nos obter alimentos mais densos em nutrientes, porque protegemos o habitat da biologia que extrai os nutrientes da geologia.</p>
<p data-start="4380" data-end="5085"><strong data-start="4380" data-end="4499">Que indicadores concretos devemos observar para avaliar a saúde de um solo e a eficácia das práticas regenerativas?</strong></p>
<p data-start="4380" data-end="5085">Os indicadores têm de estar ligados à função. A agregação está ligada à infiltração e ao ciclo da água. A respiração do solo está ligada à atividade biológica que impulsiona a libertação de nutrientes. O carbono orgânico representa armazenamento de energia para os microrganismos. A taxa de infiltração da água indica a resiliência do sistema. Os indicadores não estão separados dos processos. São a prova da sua existência. A ciclagem da água e dos nutrientes é crítica. Estes indicadores exigem que a biologia do solo esteja presente e ativa. Esse é um indicador fundamental.</p>
<p data-start="5087" data-end="5508"><strong data-start="5087" data-end="5244">A regeneração dos solos é frequentemente apresentada como uma solução baseada na natureza. Que limites científicos ou práticos ainda existem neste campo?</strong></p>
<p data-start="5087" data-end="5508">A limitação não está na ciência, está na aplicação. Temos a ciência. O desafio está na gestão. A agricultura regenerativa exige pensamento, observação e gestão adaptativa. Isso representa uma mudança face à agricultura baseada em fatores de produção externos.</p>
<p data-start="5510" data-end="5947"><strong data-start="5510" data-end="5636">Que papel desempenha a microbiologia do solo (muitas vezes invisível) na regulação do clima e na produtividade agrícola?</strong></p>
<p data-start="5510" data-end="5947">A microbiologia impulsiona tudo. Controla o fluxo de carbono, a ciclagem de nutrientes, a agregação e a retenção de água. Os microrganismos transformam os exsudados das plantas em carbono estável e em nutrientes disponíveis. Sem eles, o sistema colapsa e passa a depender de fatores de produção externos.</p>
<p data-start="5949" data-end="6521"><strong data-start="5949" data-end="6098">Em regiões vulneráveis como o sul da Europa, onde a desertificação é uma ameaça crescente, que práticas deveriam ser prioritárias no curto prazo?</strong></p>
<p data-start="5949" data-end="6521">Manter o solo coberto, aumentar a diversidade de plantas e reduzir a perturbação do solo. As raízes vivas são críticas, porque alimentam a biologia e reconstroem a estrutura. A água entra no solo através dos agregados, não através de solo nu. É necessário ter animais em pastoreio para restaurar e manter ambientes frágeis e secos. Os animais de pastoreio são fundamentais. Não conseguimos curar o planeta sem vacas.</p>
<p data-start="6523" data-end="6964"><strong data-start="6523" data-end="6697">A transição para sistemas regenerativos exige tempo e investimento. Como podem os agricultores gerir esse período sem comprometer a viabilidade económica das explorações?</strong></p>
<p data-start="6523" data-end="6964">Devem começar em pequena escala, com parcelas de teste. Reduzir os fatores de produção que a biologia consegue substituir. Medir resultados. É aqui que muitos têm dificuldade: é preciso ser mais científico, não menos. A gestão substitui os fatores de produção.</p>
<p data-start="6966" data-end="7536"><strong data-start="6966" data-end="7113">Considera que os atuais apoios da política agrícola são suficientes para promover esta mudança, ou continuam a favorecer modelos convencionais?</strong></p>
<p data-start="6966" data-end="7536">A maioria das políticas continua a recompensar a produção, e não a função. Enquanto não forem incentivados indicadores de saúde do solo ligados aos processos dos ecossistemas, os sistemas convencionais continuarão a dominar. É preciso olhar para onde está o dinheiro. O atual modelo agrícola industrial favorece a produção intensiva. As cooperativas agrícolas têm grande influência na definição da política agrícola.</p>
<p data-start="7538" data-end="7917"><strong data-start="7538" data-end="7685">De que forma é que os mercados, nomeadamente a grande distribuição, influenciam positiva ou negativamente a adoção de práticas regenerativas?</strong></p>
<p data-start="7538" data-end="7917">Os mercados pressionam no sentido da uniformidade e da produção de curto prazo. Isso funciona contra a regeneração. Mas, se os mercados começarem a valorizar a resiliência e a qualidade, podem acelerar a adoção destas práticas.</p>
<p data-start="7919" data-end="8363"><strong data-start="7919" data-end="8079">Existe hoje risco de “greenwashing” associado ao conceito de agricultura regenerativa? Como distinguir práticas genuínas de abordagens meramente comerciais?</strong></p>
<p data-start="7919" data-end="8363">Sim. A regeneração não é um rótulo, é um resultado mensurável. Se a biologia do solo, a agregação e a ciclagem da água não estiverem a melhorar, então não é regenerativo. Medir diretamente a densidade nutricional dos alimentos pode ser fundamental para combater o greenwashing.</p>
<p data-start="8365" data-end="8844"><strong data-start="8365" data-end="8552">Até que ponto a regeneração dos solos pode contribuir não apenas para mitigar as alterações climáticas, mas também para adaptar os sistemas agrícolas aos seus impactos já inevitáveis?</strong></p>
<p data-start="8365" data-end="8844">É na adaptação que a regeneração mais se destaca. Solos saudáveis absorvem água, armazenam carbono e amortecem extremos. Isto é resiliência em tempo real. O problema climático está num pequeno ciclo da água disfuncional, e não no carbono — alimento das plantas — presente na atmosfera.</p>
<p data-start="8846" data-end="9890" data-is-last-node="" data-is-only-node=""><strong data-start="8846" data-end="8990">Que transformações seriam necessárias ao nível do consumo alimentar para que este modelo se torne verdadeiramente sustentável a longo prazo?</strong></p>
<p data-start="8846" data-end="9890" data-is-last-node="" data-is-only-node="">Os consumidores precisam de valorizar a qualidade, e não apenas o preço. A comida barata reflete muitas vezes sistemas degradados. A regeneração alinha a alimentação com a função ecológica e com a saúde humana. As pessoas podem cultivar as suas próprias hortas. Isso proporciona uma experiência com a natureza que desenvolve amor pelo sistema natural. A educação deve ser uma prioridade para todos. A comida não é apenas substância. É também cultura e relação. Sim, até espiritualidade.<br data-start="9485" data-end="9488" />Há outra forma de dizer isto: se tivermos familiares de quem não gostamos e os convidarmos para uma refeição, se a comida for excelente e inesquecível, talvez os consigamos perdoar. O problema está na forma como vemos as coisas. Como dizia Campbell: “Se queres fazer pequenas mudanças, muda a forma como fazes as coisas. Se queres fazer grandes mudanças na tua vida, muda a forma como vês as coisas.”</p>
</div>
</div>
</div>
</div>
<div class="z-0 flex min-h-[46px] justify-start"></div>
</div>
</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Entrevista: “Os microplásticos já contaminam os nossos alimentos ao longo de toda a cadeia&#8221;</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/entrevista-os-microplasticos-ja-contaminam-os-nossos-alimentos-ao-longo-de-toda-a-cadeia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Filipa Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Apr 2026 13:01:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[microplásticos]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://greensavers.sapo.pt/?p=296590</guid>

					<description><![CDATA[Investigador alerta para contaminação crescente dos solos agrícolas e riscos para a saúde]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Os microplásticos estão a entrar nos sistemas agrícolas por múltiplas vias &#8211; desde biossólidos usados como fertilizantes a plásticos de cobertura e fertilizantes revestidos &#8211; acumulando-se nos solos e comprometendo a sua qualidade ao longo do tempo. A explicação é de Tony Walker, professor na Dalhousie University, que participa no Congresso Internacional 1H-TOXRUN 2026, co-organizado pela unidade de investigação da CESPU com este nome em conjunto com a Ordem dos Farmacêuticos, e que coloca o conceito One Health no centro do debate. Em entrevista à Green Savers, o investigador sublinha que muitos destes materiais, incluindo os ditos biodegradáveis, acabam por se fragmentar, contribuindo para uma contaminação persistente.</p>
<p>Do ponto de vista da saúde, o problema já ultrapassou o plano ambiental. “Os microplásticos já contaminam os nossos alimentos ao longo de toda a cadeia, desde a produção até ao consumo (do ‘campo ao prato’)”, afirma. Segundo o especialista, partículas mais pequenas — incluindo nanoplásticos &#8211; podem atravessar barreiras celulares e acumular-se no organismo humano, tendo já sido detetadas em tecidos como o sangue, fígado ou placenta, com potenciais efeitos como disrupção endócrina e impactos na fertilidade.</p>
<p>Perante este cenário, defende uma mudança estrutural no setor agroalimentar, alinhada com o conceito One Health. “O impacto dos microplásticos no ambiente e nos organismos é indiscutível”, sublinha, defendendo uma abordagem de precaução e a eliminação de plásticos não essenciais. Para o investigador, a transição para materiais de base biológica e verdadeiramente biodegradáveis, aliada a regulação internacional e novos modelos de produção, será decisiva para enfrentar um problema que “já não pode ser ignorado”.</p>
<p><strong>De que forma é que os microplásticos estão hoje a entrar nos sistemas agrícolas e que impactos já conseguimos identificar na qualidade dos solos e dos alimentos?</strong></p>
<p>Existem inúmeras vias pelas quais os microplásticos entram nos sistemas agrícolas. Alguns exemplos principais incluem microplásticos retidos em biossólidos (que são eficientemente capturados e filtrados nas estações de tratamento de águas residuais), mas que acabam por ser secos e aplicados nos solos agrícolas (fertilizantes), para melhorar a fertilidade do solo e aumentar o teor de carbono orgânico. Ironicamente, estes biossólidos, que são adicionados para melhorar a saúde do solo, acabam por ter impactos negativos na saúde e produtividade do solo ao longo do tempo.</p>
<p>Outras vias importantes incluem os fertilizantes revestidos com plástico, que, mais uma vez, são utilizados para melhorar a fertilidade do solo, mas acabam por ter consequências negativas não intencionais, levando à contaminação dos solos com microplásticos. Embora estes fertilizantes revestidos com plástico sejam por vezes concebidos para serem biodegradáveis, muitos dos plásticos biodegradáveis disponíveis no mercado são derivados de matérias-primas plásticas de origem fóssil (convencionais) e não se degradam adequadamente no ambiente natural, fragmentando-se, na verdade, em microplásticos secundários.</p>
<p>Outros exemplos incluem os plásticos para cobertura do solo (<em>mulchings</em>), concebidos para reter a humidade. Estes incluem plásticos convencionais de origem fóssil, bem como misturas com plásticos biodegradáveis ou de base biológica, mas nem todos se degradam completamente, e a maioria acaba por ser incorporada no solo, uma vez que não pode ser eficazmente recuperada e reciclada. Tal como muitos plásticos no ambiente, estes filmes sofrem desgaste e fragmentam-se em microplásticos no solo.</p>
<p><strong> </strong><strong>Ao longo do seu trabalho, tem também explorado o potencial uso de microplásticos na agricultura. Em que circunstâncias é que essa utilização pode ser considerada sustentável &#8211; e onde devem ser traçadas linhas vermelhas?</strong></p>
<p>Relativamente ao uso de plásticos biodegradáveis acima referido, o uso contínuo e necessário de plásticos na agricultura deve eliminar progressivamente os plásticos derivados de combustíveis fósseis e remover os aditivos plásticos nocivos (tóxicos). Deve ocorrer uma transição para plásticos 100% de base biológica, que sejam totalmente biodegradáveis em condições ambientais normais.</p>
<p>Tudo isto exigirá aumento de escala, mas com uma avaliação cuidadosa de quaisquer consequências ambientais não intencionais. Instrumentos políticos, como as negociações em curso para o Tratado Global dos Plásticos, ajudarão a oferecer um enquadramento para a implementação destas mudanças.</p>
<p><strong>Que riscos representam os microplásticos para a saúde humana no contexto da cadeia alimentar, tendo em conta a perspetiva integrada do conceito One Health?</strong></p>
<p>Os microplásticos já contaminam os nossos alimentos ao longo de toda a cadeia, desde a produção até ao consumo (do “campo ao prato”). Microplásticos e até nanoplásticos já estão presentes nos nossos alimentos.</p>
<p>Enquanto os microplásticos maiores podem passar pelo trato gastrointestinal e ser excretados, os aditivos químicos associados libertam-se no organismo e podem causar efeitos nocivos, como disrupção endócrina e até interferir com a fertilidade. Importa salientar que os microplásticos mais pequenos (inferiores a 10 micrómetros) e os nanoplásticos (inferiores a 1 micrómetro) podem atravessar as paredes celulares humanas e acumular-se nos tecidos, tendo já sido detetados no sangue, ossos, coração, fígado, placenta e até no leite materno.</p>
<p><strong> </strong><strong>A agricultura intensiva tem sido apontada como um dos principais vetores de contaminação ambiental. Que papel desempenham os microplásticos neste cenário mais amplo de exposição a múltiplos poluentes?</strong></p>
<p>A utilização de plásticos e microplásticos na agricultura atinge valores entre 12,5 e 15 milhões de toneladas por ano. A maior parte permanece no ambiente após a sua utilização, pelo que a dimensão deste poluente ambiental é enorme e já não pode ser ignorada.</p>
<p><strong>Considera que a atual evidência científica já é suficiente para suportar decisões políticas mais restritivas sobre o uso de microplásticos na agricultura?</strong></p>
<p>Embora existam grandes lacunas no conhecimento e ainda haja muito por estudar, já sabemos que os microplásticos estão nos nossos alimentos e nos nossos corpos, e há agora evidência crescente de que estão a afetar a nossa saúde.</p>
<p>O impacto dos microplásticos no ambiente e nos organismos é indiscutível, mas mesmo sem uma base massiva de evidência sobre os impactos na saúde humana, é necessário adotar uma abordagem de precaução desde já, em vez de esperar até ser tarde demais. Podemos até já ter esperado demasiado tempo.</p>
<p><strong>Foi um dos signatários de uma carta que defendia a proibição de microplásticos não essenciais. Esse princípio deve também ser aplicado ao setor agrícola?</strong></p>
<p>Sim, absolutamente. Todos os plásticos não essenciais devem ser proibidos em todos os setores. Qualquer plástico que não seja essencial, reutilizável ou reciclável não deve ser produzido nem utilizado na nossa economia. É simplesmente insustentável.</p>
<p><strong>Como avalia o papel da regulação internacional, nomeadamente no âmbito do futuro tratado global dos plásticos, na mitigação deste problema?</strong></p>
<p>Como referi acima, instrumentos de política internacional, como as negociações em curso para o Tratado Global dos Plásticos, ajudarão a fornecer um enquadramento harmonizado para implementação global, de forma a mitigar este problema.</p>
<p><strong>Existem alternativas viáveis aos materiais plásticos atualmente utilizados na agricultura, sem comprometer a produtividade?</strong></p>
<p>Sim, existem, mas infelizmente ainda não à escala em que atualmente utilizamos plásticos no setor agroalimentar. É por isso que também precisamos de pensar em sistemas de reutilização para ajudar a reduzir a atual trajetória de aumento da produção de plásticos.</p>
<p><strong> </strong><strong>Que prioridades de investigação considera mais urgentes nesta área, tendo em conta as lacunas ainda existentes no conhecimento?</strong></p>
<p>Investigação sobre alternativas viáveis e sustentáveis aos plásticos de origem fóssil, com consequências ambientais negativas.</p>
<p>Adicionalmente, é necessária mais investigação sobre aditivos químicos nocivos nos plásticos e o desenvolvimento de modelos eficazes de avaliação de risco para exposições a microplásticos e químicos em diferentes contextos.</p>
<p><strong> </strong><strong>Num contexto de crescente pressão sobre os sistemas alimentares, como equilibrar a necessidade de produção com a redução de contaminantes emergentes como os microplásticos?</strong></p>
<p>Com uma população humana global de cerca de 8 mil milhões de pessoas (e projetada para atingir 10 mil milhões até 2050), existe uma pressão crescente para recorrer ao uso de plásticos e microplásticos na agricultura para alimentar a população. No entanto, o modelo atual é simplesmente insustentável, pelo que é necessária uma mudança de sistema em todo o setor agroalimentar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Em tempos de guerra e crise, a Ciência “é a primeira coisa a ser descartada e isso preocupa-me muito”, diz Nuno Ferrand, diretor do CIBIO</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/em-tempos-de-guerra-e-crise-a-ciencia-e-a-primeira-coisa-a-ser-descartada-e-isso-preocupa-me-muito-diz-nuno-ferrand-diretor-do-cibio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Filipe Pimentel Rações]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Apr 2026 07:40:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[Ciência em Português]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[ciência]]></category>
		<category><![CDATA[financiamento]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<category><![CDATA[natureza]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://greensavers.sapo.pt/?p=296525</guid>

					<description><![CDATA[À margem de uma conferência sobre biodiversidade promovida pela Fundação BNP Paribas Portugal, no dia 22 de abril, em Lisboa, o investigador e professor catedrático da Universidade do Porto contou à Green Savers que a situação global do financiamento da Ciência “não é boa”, ainda que o quadro seja “heterogéneo”.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A falta de financiamento e de priorização política da investigação científica deve ser motivo de preocupação, avisa Nuno Ferrand, diretor do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO).</p>
<p>À margem de uma <a href="https://greensavers.sapo.pt/fundacao-bnp-paribas-portugal-traz-a-biodiversidade-para-o-centro-da-conversa-publica-conhecimento-cientifico-e-absolutamente-critico-diz-presidente/" target="_blank" rel="noopener">conferência sobre biodiversidade promovida pela Fundação BNP Paribas Portugal</a>, no dia 22 de abril, em Lisboa, o investigador e professor catedrático da Universidade do Porto contou à Green Savers que a situação global do financiamento da Ciência “não é boa”, ainda que o quadro seja “heterogéneo”.</p>
<p>Em referência aos Estados Unidos da América (EUA), Ferrand disse-nos que “naquela que ainda é a maior potência mundial, a situação é muito má”, lembrando que “a Administração Trump é rigorosamente responsável por cortes substanciais no financiamento da atividade científica a todos os níveis”, desde a eliminação de apoios públicos a universidade e centros e investigação até à redução dos orçamentos de agências e outras entidades públicas, como a National Science Foundation ou o National Institute of Health.</p>
<p>“Como grande motor da investigação mundial que ainda é, estou muito preocupado com essa situação e com o que isso poderá significar para o resto do mundo”, confessa.</p>
<p>Contudo, a China tem vindo a investir muito em investigação científica, porventura tentando ocupar o espaço que vai sendo deixado pelo recuo dos EUA, e Ferrand acredita mesmo que o país asiático não está muito longe de vir a tornar-se a próxima maior potência científica do mundo.</p>
<p>Na Europa, estamos numa “situação difícil”, explicou o investigador, não só pelas ondas de choque anti-Ciência que vêm do outro lado do Atlântico, mas também por causa da conjuntura geopolítica instável e conturbada que deixa pouco espaço para dar prioridade à produção de conhecimento científico. Ou seja, em tempos de crise, financiamentos para a Ciência, e também para outras áreas, como a conservação da biodiversidade e do mundo natural, são dos primeiros a ser cortados e canalizados para, por exemplo, alívios dos preços da energia e compra de armamento bélico.</p>
<p>“Quando se diz que é preciso investir mais dinheiro em armamento, a primeira coisa a sofrer é a Cultura, é o Conhecimento, é a Ciência. É a primeira coisa a ser descartada e isso preocupa-me muito a nível europeu”, disse Ferrand. O académico, ecoando outros pelo continente fora, considera fundamental duplicação o orçamento da próxima edição do programa Horizon (de 2028 a 2034), instrumento-chave da União Europeia (UE) para financiar projetos de investigação e a inovação.</p>
<p>“Mas não estou a ver condições nenhumas para que isso venha a acontecer, tendo em consideração todas as pressões que são feitas para outro tipo de atividades”, lamentou, recordando o caso do programa LIFE. Embora considerado indispensável para os esforços de proteção ambiental, das alterações climáticas à biodiversidade, passando pela energia e uma série de outras áreas, o LIFE tem um futuro, pelo menos para já, incerto, com propostas para desmembrá-lo e integrá-lo noutros programas com focos mais economicistas. Ambientalistas e académicos já alertaram para os perigos de diluir o LIFE noutros programas de financiamento, incluindo a subordinação do financiamento do conhecimento a interesses económicos e empresariais.</p>
<p>Em Portugal, a situação de apoio público à Ciência não é melhor.</p>
<p><strong>A Ciência é prioridade política?</strong></p>
<p>Apesar de uma evolução considerável nos últimos 40 anos, o sistema científico nacional tem ainda “muitas fragilidades”, embora a Ciência de assinatura portuguesa percorra o mundo, faça capas de revistas de renome global, como a Science e a Nature, e faça avançar o conhecimento da humanidade. Mesmo assim, disse-nos Nuno Ferrand, nunca foi e continua a não ser uma prioridade real (não apenas retórica) de sucessivos governos.</p>
<p>Todos os anos, entre 2.000 e 2.500 doutorados saem das universidades, mas, sem apoios públicos para promover e tornar menos precárias as carreiras científicas, de pouco serve.</p>
<p>“Por exemplo, nos governos de António Costa, durante muito tempo falou-se em chegar aos 3% do PIB em termos de investimento na área científica, até 2030. Falamos disso desde 2015, já passaram 10 anos e não houve qualquer evolução”, criticou Ferrand. Atualmente, a despesa com a investigação científica ronda os 1,69%.</p>
<p>Regressando ao quadro europeu, o biólogo falou do caso do lobo na Europa, cujo <a href="https://greensavers.sapo.pt/especialistas-alertam-para-preocupante-situacao-do-lobo-e-apelam-a-portugal-para-manter-atual-regime-de-protecao-legal/">estatuto de proteção foi reduzido</a> a Convenção de Berna, e depois também na Diretiva Habitats da UE. Lembrando o caso “paradigmático” do pónei preferido de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, ter sido morto por um lobo na sua quinta na Alemanha, Ferrand acredita que a emoção e outras agendas frequentemente se sobrepõem às evidências científicas.</p>
<p>Para o investigador, isso significa que a Ciência só é ouvida pelos políticos “quando dá jeito” e quando não se coloca no caminho de interesses económicos. “Estamos longe de ter alcançado uma maturidade no relacionamento entre a evidência que no chega do conhecimento e da Ciência e aquilo que é a decisão política”, declarou.</p>
<p>Ainda assim, confessou-nos algum otimismo, dizendo que “na Europa, de forma geral, tem havido um progresso acentuado relativamente a decisões e construções políticas que são suportadas pela Ciência”. O Pacto Ecológico Europeu é disso exemplo, referiu, embora reconheça que também esse instrumento basilar está a sofrer, sobretudo com o desvio de dinheiros para esforços relacionados com a defesa.</p>
<p>Apesar de todos esses obstáculos, Ferrand considera que a Europa é o melhor exemplo, a nível mundial, de uma aproximação e articulação frutuosa entre Ciência e Sociedade.</p>
<p><strong>Falta visão a quem governa</strong></p>
<p>Em Portugal, Nuno Ferrand, do CIBIO e do programa Biopolis, considera haver falta de visão política no que toca à biodiversidade, dizendo que “estamos muito longe de uma situação ideal”.</p>
<p>“Falta visão aos nossos decisores e aos nossos políticos. Em particular, uma instituição como o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas devia ter hoje um protagonismo e uma capacidade de ação que não tem de todo”, salientou.</p>
<p>Reconhecendo que o problema não é de agora e que se arrasta há vários anos, Ferrand disse, no entanto, que tem vindo a agravar-se. “Por exemplo, termos hoje grandes parques naturais, ou mesmo um parque nacional, sem a figura de um diretor é uma coisa absolutamente incompreensível, não cabe na cabeça de ninguém”, lançou o académico.</p>
<p>Para Nuno Ferrand, o problema resulta de uma combinação de vários fatores, como a falta de prioridade política dada à Ciência, neste caso na área da biodiversidade, e também uma “falta geral de compreensão e de comunicação” da esfera política com o conhecimento que é produzido e emana das universidades e centros de investigação.</p>
<p>Disse-nos o catedrático que para proteger a biodiversidade não basta desenhar linhas num mapa e chamar-lhes “áreas protegidas” sem os meios necessários para a sua efetiva proteção e conservação.</p>
<p>“Para mim, é absolutamente incompreensível que todos os governos, desde há muito tempo, tratem assim a gestão e a conservação da biodiversidade num dos países da Europa que mais biodiversidade tem e que mais responsabilidade tem nessa área”, declarou.</p>
<p>Para amplificar as vozes da Ciência e o conhecimento que elas transmitem, Ferrand considera ser imprescindível juntar à mesma mesa cientistas, governantes, empresários e organizações da sociedade civil, para, em conjunto, identificarem problemas, partilharem conhecimento e recursos e conceberem soluções resultantes de perspetivas diversificadas.</p>
<p>Além de tudo isso, é preciso voltar a aproximar as pessoas do conhecimento, desenvolver e estimular o sentido crítico e a curiosidade pelo mundo em volta.</p>
<p>“Temos que ter cidades mais verdes, temos que ter cidades mais biodiversas, temos que ter programas de difusão do conhecimento que permitam chegar, desde cedo, a todos os miúdos nas escolas e nos liceus”, defendeu Nuno Ferrand.</p>
<p>“Temos de usar todas as ferramentas para evitar aquilo que já é muito notório, a dissociação progressiva entre as pessoas e o mundo natural. Isso é um grande problema.”</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Fundação BNP Paribas Portugal traz a biodiversidade para o centro da conversa pública. Conhecimento científico é “absolutamente crítico”, diz presidente</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/fundacao-bnp-paribas-portugal-traz-a-biodiversidade-para-o-centro-da-conversa-publica-conhecimento-cientifico-e-absolutamente-critico-diz-presidente/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Filipe Pimentel Rações]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Apr 2026 15:03:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[BNP Paribas]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://greensavers.sapo.pt/?p=296503</guid>

					<description><![CDATA[A organização quer trazer para o centro da conversa pública temas como a conservação da biodiversidade marinha, a inclusão social através do emprego de pessoas em situação de vulnerabilidade e a promoção do acesso a atividades culturais.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Esta quarta-feira, 22 de abril, no Dia Mundial da Terra, a Fundação BNP Paribas Portugal realizou a primeira de um conjunto de pelo menos três conferências para contribuir para o desenvolvimento sustentável da sociedade portuguesa.</p>
<p>Para tal, a organização quer trazer para o centro da conversa pública temas como a conservação da biodiversidade marinha, a inclusão social através do emprego de pessoas em situação de vulnerabilidade e a promoção do acesso a atividades culturais.</p>
<p>A conferência de estreia, com o título “Biodiversidade: da célula aos gigantes do mar”, centrou-se nas ameaças que os mundos marinhos e oceânicos enfrentam nesta era conhecida, ainda que não oficialmente, como Antropoceno.</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-296507 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/04/WhatsApp-Image-2026-04-23-at-13.08.51-e1776946815505.jpeg" alt="" width="900" height="568" /></p>
<p>Em conversa com a Green Savers, à margem do evento, Luciana Peres, presidente da fundação, disse que o objetivo é dar destaque a um tema que tem sido, de alguma forma, pouco falado, pelo menos em comparação, por exemplo, com as alterações climáticas.</p>
<p>Tendo recebido luz verde em novembro do ano passado, por parte da fundação-mãe, para começar os trabalhos, a fundação portuguesa apercebeu-se de que havia interesse em trazer a biodiversidade para o debate público. Especialmente depois de dois projetos portugueses, ambos da iniciativa Biopolis (que junta academia, empresas, governos e sociedade civil), terem conquistado financiamento, de um total de 163 candidatos a nível mundial, da Fundação BNP Paribas internacional.</p>
<p>Os projetos em questão são o “OCEANPATH”, focado na criação de corredores de migração marinha para tubarões-azuis, tubarões-mako e baleias, e o “SHOW-IT”, para o estudo, em aquário, do impacto do aquecimento dos oceanos no desenvolvimento dos sistemas imunitários e motores do tubarão pata-roxa no Atlântico e no Mediterrâneo.</p>
<p>“Acreditamos sinceramente que contribuir para um conhecimento baseado na Ciência é algo absolutamente crítico para que as pessoas possam tomar boas decisões, seja enquanto consumidores, empresas ou governos”, explicou a responsável.</p>
<p>“Os eixos estratégicos da fundação estão alinhados também com a responsabilidade social do banco e a interconexão e os impactos que estes temas têm nas atividades económicas, nas atividades desenvolvidas pelas empresas que são nossas clientes, é enorme”, asseverou.</p>
<p>Luciana Peres salientou também a importância de uma abordagem “cada vez mais em conjunto” para refletir sobre estas crises globais, com impactos locais, e sobre possíveis soluções, juntando à mesma mesa empresas, a academia, os governos e a sociedade civil. As empresas, referiu, “são uma peça que não pode ser deixada de fora da conversa”, pelo que é preciso que o conhecimento científico ajude as empresas a orientarem e até a reverem as suas práticas “à luz daquilo que vão ser as consequências das alterações climáticas e da perda de biodiversidade”.</p>
<p>“Não podemos, de todo, deixar as empresas fora disto e as empresas também não devem querer estar fora disto”, sublinhou, acrescentando que as crises climática e de perda de biodiversidade são cada vez mais vistas como riscos para as empresas, mas também, ao mesmo tempo, oportunidades para que as organizações possam, da melhor forma, adaptar os seus modelos de negócio e a forma como operam à realidade que as rodeia e, com isso, obterem maior sustentabilidade e resiliência.</p>
<p>Investir na proteção na Natureza não é deitar dinheiro à rua, acredita Luciana Peres, “por isso é que hoje em dia se fala muito de capital natural, que era tomado como algo garantido, mas não é de todo”. “É um capital que se está a tornar cada vez mais importante e que todos temos de defender e no qual temos de investir”, argumentou.</p>
<p><strong>Vozes de quem estuda e vive no e do mar</strong></p>
<p>O evento contou também com uma intervenção de Nuno Ferrand, diretor do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO), da Universidade do Porto. O biólogo, docente universitário e investigador salientou a articulação entre Academia, Empresas, Governos e Sociedade Civil como indispensável para que o conhecimento possa orientar as tomadas de decisão.</p>
<p>Apontando para que a biosfera da Terra está a ser “completamente alterada pelo Homem”, Ferrand recordou o importante marco do Acordo de Kunming-Montreal de 2022, para proteger 30% dos habitats marinhos e terrestres até 2030, e a centralidade de órgãos e fóruns internacionais como o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) e o Painel Intergovernamental para a Biodiversidade e Serviços de Ecossistema (IPBES), além das COPs.</p>
<figure id="attachment_296656" aria-describedby="caption-attachment-296656" style="width: 711px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="wp-image-296656 " src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/04/Final_Conferencia-biodiversidade-fundacaoBNPP-2204-16-scaled.jpg" alt="" width="711" height="474" srcset="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/04/Final_Conferencia-biodiversidade-fundacaoBNPP-2204-16-scaled.jpg 2560w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/04/Final_Conferencia-biodiversidade-fundacaoBNPP-2204-16-300x200.jpg 300w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/04/Final_Conferencia-biodiversidade-fundacaoBNPP-2204-16-1024x683.jpg 1024w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/04/Final_Conferencia-biodiversidade-fundacaoBNPP-2204-16-768x512.jpg 768w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/04/Final_Conferencia-biodiversidade-fundacaoBNPP-2204-16-1536x1024.jpg 1536w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/04/Final_Conferencia-biodiversidade-fundacaoBNPP-2204-16-2048x1365.jpg 2048w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/04/Final_Conferencia-biodiversidade-fundacaoBNPP-2204-16-600x400.jpg 600w" sizes="(max-width: 711px) 100vw, 711px" /><figcaption id="caption-attachment-296656" class="wp-caption-text">Professor Nuno Ferrand, investigador e diretor do CIBIO.</figcaption></figure>
<p>Lembrando a extinção dos dinossauros há cerca de 65 milhões de anos, por um asteroide de que “refez a vida na Terra”, o investigador disse que também o humano está a provocar alterações profundas nos sistemas vivos, incluindo uma “sexta extinção em massa” que está em curso e que, dos dois milhões que se conhecem atualmente, está a ameaçar parte significativa das espécies.</p>
<p>Entender os impactos das atividades humanas na “diversidade da vida”, declarou Ferrand, é indispensável para se conseguir ter sociedades humanas mais sustentáveis.</p>
<p>A conferência encerrou com uma mesa-redonda que juntou vozes distintas, mas todas ligadas pelo mar: Raquel Gaspar, bióloga marinha e cofundadora da organização não-governamental Ocean Alive, Bernardo Freitas, velejador profissional que participou nos Jogos Olímpicos de Verão de 2012 e percorreu os oceanos do mundo na Volvo Ocean Race 2017-18, e Nuno Queiroz, gestor do projeto “OCEANPATH” e investigador do CIBIO especializado em tubarões.</p>
<figure id="attachment_296655" aria-describedby="caption-attachment-296655" style="width: 756px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-296655" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/04/Final_Conferencia-biodiversidade-fundacaoBNPP-2204-26-scaled.jpg" alt="" width="756" height="714" srcset="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/04/Final_Conferencia-biodiversidade-fundacaoBNPP-2204-26-scaled.jpg 2560w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/04/Final_Conferencia-biodiversidade-fundacaoBNPP-2204-26-300x283.jpg 300w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/04/Final_Conferencia-biodiversidade-fundacaoBNPP-2204-26-1024x967.jpg 1024w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/04/Final_Conferencia-biodiversidade-fundacaoBNPP-2204-26-768x725.jpg 768w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/04/Final_Conferencia-biodiversidade-fundacaoBNPP-2204-26-1536x1451.jpg 1536w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/04/Final_Conferencia-biodiversidade-fundacaoBNPP-2204-26-2048x1934.jpg 2048w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/04/Final_Conferencia-biodiversidade-fundacaoBNPP-2204-26-600x567.jpg 600w" sizes="auto, (max-width: 756px) 100vw, 756px" /><figcaption id="caption-attachment-296655" class="wp-caption-text">Mesa-redonda (da esquerda para a direita): José Maria Pimentel (moderador); Raquel Gaspar da Ocean Alive; Bernardo Freitas, velejador profissional; Nuno Queiroz investigador do CIBIO.</figcaption></figure>
<p>Todos foram unânimes na necessidade de se perceber que tudo está interligado: o que se faz em terra tem impactos no mar e vice-versa, e que olhar para os mundos marinhos como uma extensão de nós próprios é crucial para que entendamos a sua importância e a urgência da proteção.</p>
<p>“Foi ao olhar para os olhos de uma baleia que percebi a beleza do oceano”, recordou Raquel Gaspar, que frisou que é importante também olhar, ouvir e aprender com as pessoas que mais intimamente lidam com os mares, como pescadores e mariscadores, envolvendo-as diretamente na criação de soluções para preservar o mundo natural do qual elas, e todos nós, tanto dependem.</p>
<p>Nuno Queiroz, para quem mergulhar com tubarões é tão natural como respirar fora de água para os restantes de nós, referiu que a intensa presença humana nos mares é um grande problema para a conservação desses habitats e ecossistemas, especialmente devido a impactos como a poluição sonora e o lixo.</p>
<p>“Chegámos a apanhar tubarões com limões no estômago”, lembrou, apontando que “o impacto que estamos a ter é imenso” e que muito do lixo marinho não tem origem em terra, mas sim nas atividades humanas que acontecem mesmo no mar.</p>
<p>Por seu lado, Bernardo Freitas contou que, em pleno mar, já testemunhou o melhor, ao avistar um sem-número de animais que atestam a grande biodiversidade dos oceanos, e também o pior, os efeitos da presença humana nesses mundos de água salgada.</p>
<p>O velejador disse ter já encontrado lixo de todas as formas e feitios a boiar nas ondas, de cotonetes e sacos de plástico a televisões. A pegada humana é visível mesmo “nos locais mais remotos do planeta, onde estamos mais perto do Espaço do que de terra”.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Dia Mundial da Terra: “A Observação da Terra tem fornecido evidências claras e consistentes das alterações climáticas”</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/296334-2/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Filipa Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Apr 2026 08:05:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Dia Mundial da Terra]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<category><![CDATA[Observação da Terra]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://greensavers.sapo.pt/?p=296334</guid>

					<description><![CDATA[Em entrevista à Green Savers, Carolina Sá, responsável pelos programas de Observação da Terra da Agência Espacial Portuguesa, explica como os dados de observação por satélite estão a tornar visíveis os impactos das alterações climáticas e a apoiar decisões críticas.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p data-start="124" data-end="430">No Dia Mundial da Terra, os dados recolhidos a partir do espaço reforçam a urgência de agir perante as alterações climáticas, tornando visíveis fenómenos que muitas vezes escapam à perceção direta. A monitorização contínua do planeta permite hoje compreender melhor a dimensão e a evolução destas mudanças.</p>
<p data-start="432" data-end="1026">Em entrevista à Green Savers, Carolina Sá, responsável pelos programas de Observação da Terra da <span class="hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline"><span class="whitespace-normal">Agência Espacial Portuguesa</span></span>, sublinha que “a Observação da Terra tem fornecido evidências claras e consistentes das alterações climáticas”, destacando sinais como a subida do nível médio do mar, o degelo das calotes polares e as alterações nos padrões climáticos globais. Segundo a especialista, os satélites desempenham um papel central ao garantir uma visão contínua, global e integrada do planeta, permitindo não só acompanhar o presente, mas também melhorar a capacidade de previsão.</p>
<p data-start="1028" data-end="1478" data-is-last-node="" data-is-only-node="">A responsável lembra ainda que a utilidade destes dados depende da sua transformação em informação acessível e aplicável, quer para decisores políticos quer para a sociedade. Programas europeus como o Copernicus têm vindo a democratizar o acesso a esta informação, contribuindo para apoiar políticas públicas, impulsionar a inovação e aproximar a ciência do quotidiano, num momento em que compreender o planeta é essencial para proteger o seu futuro.</p>
<p><strong> </strong><strong>Para </strong><strong>começar, que significado tem hoje o Dia Mundial da Terra para quem trabalha diariamente com dados e sistemas de observação do planeta?</strong></p>
<p>Uma oportunidade para relembrar às pessoas que a beleza e a fragilidade da Terra são sempre uma referência feita pelos astronautas como aquilo que mais os impressiona nas suas viagens espaciais, e que é essencial preservar o nosso planeta.</p>
<p><strong>O </strong><strong>que é que a motivou a dedicar-se à área da Observação da Terra e como foi o seu percurso até assumir a responsabilidade pelos programas nesta área na <span class="hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline"><span class="whitespace-normal">Agência Espacial Portuguesa</span></span>?</strong></p>
<p>Os satélites de Observação da Terra eram uma ferramenta essencial para o meu trabalho de investigação. Tenho formação em ciências do meio aquático pela Universidade do Porto e estudava a dinâmica do fitoplâncton na costa portuguesa, com base em imagens de satélite, no grupo de investigação do MARE-ULisboa. Parece paradoxal estudar organismos que só conseguimos ver ao microscópio a partir do Espaço, mas os satélites permitem analisar variações nas características óticas do meio que estamos a observar, o que permite quantificar o que provoca essas variações. No caso do fitoplâncton, de forma muito genérica, por serem tão pequenos e por conterem pigmentos fotossintéticos, como a clorofila-a, que tem um espectro de absorção característico, conseguimos associar alterações na cor do oceano à quantidade de fitoplâncton presente. Com uma resolução espectral adequada, podemos até distinguir diferentes grupos de fitoplâncton a partir do Espaço e estudar a sua varibilidade e dinâmica ao longo do tempo, não só ao nível local, mas também global. A Agência Espacial Portuguesa foi criada para implementar a Estratégia Nacional para o Espaço – Portugal Espaço 2030 – que tem o Atlântico e os oceanos como um dos focos centrais para a ligação do espaço à ciência e à economia. Foi nesse contexto que integrei a equipa no final de 2019.</p>
<p><strong>Muitas</strong><strong> vezes falamos de Observação da Terra como um conceito técnico. Como explicaria, de forma simples, o que significa e por que é tão importante hoje?</strong></p>
<p>De forma genérica, a Observação da Terra refere-se à medição por deteção remota do meio (oceano, meio terrestre, atmosfera), ou seja, observar e medir sem estar em contacto direto com esse meio. Neste contexto, podemos fazer Observação da Terra colocando sensores em aviões, balões, drones ou outras plataformas, mas a Observação da Terra por satélite destaca-se porque, com diferentes sensores a bordo de plataformas que orbitam o planeta regularmente, temos uma visão sinóptica, global e contínua do nosso planeta. Isto permite-nos entender o planeta como um todo. Permite-nos ter monitorização contínua dos oceanos, da atmosfera, das florestas e dos campos agrícolas, incluindo locais inacessíveis onde não há forma de instalar sensores. São os satélites que nos permitem esta visão regular e global. E esta visão global é essencial para compreender desafios globais, como as alterações climáticas.</p>
<p><strong>De </strong><strong>que forma é que os sistemas de Observação da Terra nos ajudam a compreender melhor o estado do planeta?</strong></p>
<p>Os satélites de Observação da Terra são uma fonte importante de dados. Permitem uma monitorização global, uniforme, contínua de vários componentes e parâmetros físicos, químicos e biológicos, possibilitando uma visão integrada, quer no espaço, quer no tempo. Mais de 50% das Variáveis Climáticas Essenciais* (ECVs) definidas pelo Sistema Global de Observação do Clima (GCOS) podem ser medidas por satélite. Os satélites podem dar-nos uma visão instantânea do estado atual da qualidade do ar ou da água, do uso e ocupação do solo, do impacto de um incêndio, da extensão de um derrame de hidrocarbonetos, mas num contexto climático, são também uma fonte de dados importante para os modelos que nos permitem estudar as interações dos diferentes meios (oceano-atmosfera-terra) e entender a sua variabiildade e interdependências, ajudando não só a caracterizar o passado e o presente, mas também a reduzir incertezas sobre previsões e projeções futuras.</p>
<p>*<em>Uma </em><em>Variável Climática Essencial (ECV) é uma variável física, química ou biológica, ou um conjunto de variáveis interligadas, que contribui de forma determinante para a caracterização do clima da Terra</em><em>.</em></p>
<p><strong>Até</strong><strong> que ponto os dados recolhidos por satélite estão hoje a influenciar decisões políticas, económicas ou ambientais?</strong></p>
<p>Para influenciar decisões políticas e ambientais e promover impacto económico e social, não basta recolher dados de forma ocasional. É preciso garantir a recolha contínua e transformar esses dados em produtos e serviços úteis, acessíveis e fáceis de interpretar por utilizadores finais e decisores políticos. Há pouco mais de 25 anos, a Comissão Europeia criou o Copernicus, o programa europeu de Observação da Terra, que fornece gratuitamente não só os dados dos seus satélites, os Sentinel, mas também seis serviços operacionais que fazem a monitorização do meio terrestre, do meio marinho, da atmosfera, das alterações climáticas, de emergências e de segurança. Estes serviços são utilizados pelas autoridades e entidades nacionais e europeias em várias áreas, nomeadamente no apoio à implementação de diretivas europeias. Por exemplo, no âmbito da Política Agrícola Comum (PAC) os dados são já usados para verificar a plantação de determinadas culturas para efeitos de atribuição de subsídios aos agricultores; na Diretiva-Quadro Estratégia Marinha (DQEM), são usados para a monitorização de alguns indicadores da qualidade ambiental do meio marinho; e o serviço de alterações climáticas fornece dados para os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) que constituem uma base científica sólida para os Governos definirem políticas ambientais e climáticas.</p>
<p>Na componente económica, importa referir que os dados e serviços do Copernicus, com exceção dos serviços de emergência e segurança que só podem ser ativados por utilizadores autorizados, são livres, gratuitos e abertos a todos. Esta política de dados abertos serve para estimular a sua utilização, nomeadamente por empreendedores que os podem transformar em serviços de valor acrescentado e em novos negócios. O programa funciona, assim, também como uma ferramenta de desenvolvimento económico e de promoção da economia digital. Para apoio à decisão, é de referir o programa Destination Earth da Comissão Europeia, que está a desenvolver gémeos digitais da Terra que possibilitem cenarização e teste do impacto de políticas ambientais, e que utilizam dados de Observação da Terra na sua base.</p>
<p><strong>Há</strong><strong> exemplos concretos em que a informação proveniente da Observação da Terra tenha permitido agir mais rapidamente perante um problema ambiental?</strong></p>
<p>Os exemplos mais concretos estão associados aos serviços Copernicus de emergência e de segurança. O serviço de emergência do Copernicus é ativado com frequência pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) em situações de incêndios e inundações, para delimitar as áreas críticas e apoiar as operações no terreno, mas também em fases de prevenção e planeamento, nomeadamente na identificação de áreas prioritárias de evacuação. O exemplo mais recente de ativação do serviço foi no início deste ano, durante a tempestade Kristin, para avaliar a extensão dos impactos deste evento extremo. Outro exemplo muito concreto é o serviço de segurança de monitorização do meio marinho, que assegura a deteção operacional de derrames de hidrocarbonetos e alerta as autoridades competentes em tempo real.</p>
<p><strong>Que</strong><strong> áreas beneficiam mais destes dados — agricultura, ordenamento do território, monitorização climática, proteção civil?</strong></p>
<p>Todas as áreas referidas são bons exemplos de utilização, mas há muitas mais: infraestruturas, planeamento urbano, turismo, saúde, seguros, energia, pescas e aquacultura, silvicultura.</p>
<p>A Agência Europeia para o Programa Espacial (EUSPA) analisa a utilização dos programas espaciais europeus nos vários mercados e nos seus relatórios tem identificado o sector segurador como aquele em que a utilização de Observação da Terra mais tem crescido. Também o planeamento urbano e a agricultura surgem como sectores de elevado impacto e crescimento. Tipicamente, a área da Defesa é um dos sectores que mais recorre a estas ferramentas e o principal cliente comercial destas tecnologias. Com o contexto geopolítico atual, é também um sector em que tem havido um forte investimento nos programas europeus.</p>
<p><strong>Que</strong><strong> papel tem Portugal no panorama europeu da Observação da Terra?</strong></p>
<p>Portugal, através da sua indústria, da academia e dos centros de investigação, participa nos programas de Observação da Terra da Agência Espacial Europeia e da Comissão Europeia, contribuindo para o desenvolvimento de equipamentos (hardware) e software na componente espacial (desenvolvimento de missões), e de software e serviços na componente de aplicações. Contribui, nomeadamente, para o desenvolvimento do programa Copernicus, dos satélites  Sentinel e dos respetivos serviços, mas também fornecendo dados através das missões de contribuição. A operadora comercial portuguesa GeoSAT é uma das duas únicas empresas europeias com capacidade de aquisição de dados de muito alta resolução, com capacidade inferior a um metro, fornecendo dados a vários sectores, incluindo para o programa Copernicus.</p>
<p>Com o Programa de Recuperação e Resiliência (PRR) os investimentos nacionais no sector estão a permitir que Portugal desenvolva maior capacidade de observação, com a Constelação do Atlântico e novos satélites SAR, reforçando o seu papel como fornecedor de dados para além dos serviços e aplicações que já desenvolve.</p>
<p><strong>A </strong><strong>cooperação internacional é essencial nesta área. Como se articula o trabalho da <span class="hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline"><span class="whitespace-normal">Agência Espacial Portuguesa</span></span> com programas europeus ou globais?</strong></p>
<p>Muitas missões espaciais têm um nível de complexidade e custo que só pode ser suportado através de cooperação internacional, como acontece na Agência Espacial Europeia (ESA). Os investimentos nacionais nos programas de Observação da Terra da ESA, que assenta numa política de geo-retorno, isto é, o investimento realizado traduz-se em contratos com a indústria nacional, garantem não só a participação de Portugal nestes esforços, como também para reforçar a capacitação da indústria nacional e torná-la mais robusta e capaz de captar financiamento em programas competitivos em que a política de geo-retorno não existe. A Agência Espacial Portuguesa assegura a representação nacional nas várias instituições internacionais ligadas ao espaço, nomeadamente nos programas europeus, acompanhando a sua implementação, defendendo os interesses nacionais e identificando oportunidades para o sector nacional. O objetivo é garantir a articulação e otimização dos investimentos e promover o crescimento do ecossistema nacional.</p>
<p><strong>Na </strong><strong>sua perspetiva, estamos a aproveitar plenamente o potencial dos dados de Observação da Terra no nosso país?</strong></p>
<p><strong> </strong>Já existem exemplos de utilização e integração em serviços públicos, mas ainda há muito trabalho pela frente. Para serem úteis, os dados de Observação da Terra têm de ser analisados, integrados e convertidos em informação acionável. Muitas instituições nacionais com responsabilidades em determinados sectores já o fazem. A Direcção-Geral do Território (DGT) já tem produtos de uso e ocupação do solo feitos com base em dados de Sentinel-2 (S2) do Copernicus. A AGIF (Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais) disponibiliza imagens S2 na sua plataforma interoperável (PLIS). O IPMA, além de utilizar estes dados de forma operacional para a previsão meteorológica, desenvolveu um agroportal que converte dados em informação útil aos agricultores, só para citar alguns exemplos.</p>
<p>Nos últimos anos, tem havido um esforço de divulgação das potencialidades destes dados. A Agência Espacial Portuguesa , em particular, tem organizado vários workshops em áreas sectoriais como a energia, o urbanismo, a agricultura ou a floresta, e lançou uma iniciativa de divulgação dedicada aos municípios, que percorreu todas as regiões do país, incluindo as regiões autónomas dos Açores e da Madeira. Na sequência dessa iniciativa, está a apoiar, no quadro da ESA, sete projetos de empresas nacionais no desenvolvimento de soluções de Observação da Terra que possam ser adotados pelos municípios. De referir ainda os programas nacionais de colaboração do  Copernicus dos serviços de atmosfera, clima e meio marinho, em que participam universidades, laboratórios colaborativos, centros de investigação e entidades públicas,  que estão a criar oportunidades de integração operacional destes dados nos sistemas públicos, como por exemplo no sistema QualAr (informação sobre a qualidade do ar) da Agência Portuguesa do Ambiente (APA).</p>
<p><strong> </strong><strong>Nos </strong><strong>últimos anos assistimos a uma evolução muito rápida da tecnologia espacial. O que mudou de forma mais significativa na Observação da Terra na última década?</strong><strong> A inteligência</strong><strong> artificial e a análise de grandes volumes de dados estão a transformar esta área?</strong></p>
<p><strong> </strong>A diminuição do custo de lançamento, associada à miniaturização da tecnologia, está a permitir que países e empresas com menor poder económico coloquem infraestruturas espaciais em órbita, o que se tem traduzido num aumento do número de constelações de Observação da Terra a operar. Estas constelações permitem reduzir os tempos de revisita e alargar o número de aplicações e sectores que podem beneficiar destes serviços, a par de uma redução expectável no custo de acesso a estes dados comerciais, melhorando o seu custo-benefício. No entanto, o maior impacto tem sido proporcionado pelo aumento da capacidade de análise destes dados.  Hoje, já é possível processar anos de dados sem descarregar uma única imagem para o nosso computador. A computação avançada e a inteligência artificial estão a desempenhar um papel crucial na extração de informação a partir de volumes de dados cada vez maiores, permitindo serviços mais rápidos e mais eficientes. Uma área em claro desenvolvimento são os modelos de linguagem natural que permitem fazer perguntas aos dados reduzindo as barreiras técnicas de utilização por utilizadores não-especialistas em Observação da Terra. A inteligência artificial está também a ser aplicada e testada a bordo dos próprios satélites para otimizar a aquisição dos dados e eficácia dos serviços.</p>
<p><strong> </strong><strong>A </strong><strong>democratização do acesso aos dados de satélite pode abrir novas oportunidades para empresas, universidades e até cidadãos?</strong></p>
<p><strong> </strong>Sem dúvida. A democratização do acesso aos dados de satélite tem um enorme potencial transformador. O programa Copernicus é um excelente exemplo de como uma política de dados livre, aberta e acessível pode estimular o empreendedorismo e a inovação. Estes dados permitem desenvolver novos serviços e aplicações, levando os benefícios do setor espacial a setores não espaciais, como a agricultura, a energia, os seguros ou o planeamento urbano. Esta oportunidade beneficia não só empresas e universidades, mas também o cidadão comum que tem acesso a melhores serviços e informação.</p>
<p><strong> </strong><strong>O </strong><strong>planeta enfrenta hoje desafios ambientais sem precedentes. Que sinais mais claros é que a Observação da Terra nos está a mostrar?</strong></p>
<p>A Observação da Terra tem fornecido evidências claras e consistentes das alterações climáticas. Entre os sinais mais evidentes estão a subida do nível médio do mar, o degelo das calotes polares e as mudanças nos padrões climáticos globais. Programas como o Climate Change Initiative da ESA e o Serviço de Alterações Climáticas do Copernicus disponibilizam dados e visualizações, incluindo imagens e animações, que tornam estas mudanças visíveis e compreensíveis por todos.</p>
<p><strong> </strong><strong>Há</strong><strong> fenómenos que hoje conseguimos monitorizar com muito mais precisão do que há 20 ou 30 anos?</strong></p>
<p><strong> </strong>Sim, claramente. Um bom exemplo é a cor do oceano. Inicialmente, era uma prova de conceito, mas hoje, com sensores multiespectrais e hiperespetrais mais avançados, conseguimos monitorizar com grande detalhe parâmetros como a concentração de clorofila, a qualidade da água e a saúde dos ecossistemas marinhos. Esta evolução tecnológica permite análises muito mais exatas e contínuas.</p>
<p><strong> </strong><strong>Na </strong><strong>sua opinião, os dados científicos são suficientemente valorizados quando se discutem políticas ambientais?</strong></p>
<p><strong> </strong>É uma questão complexa, mas há sinais positivos. Cada vez mais se discute a importância da utilização e da integração de dados científicos nas políticas públicas, especialmente ao nível europeu. Por exemplo, o Joint Research Centre (JRC) mostrou recentemente que o número de referências ao programa Copernicus nas diretivas europeias tem aumentado significativamente nos últimos anos. Ainda há caminho a percorrer, mas a tendência aponta para uma valorização crescente dos dados e da evidência científica na definição de diretivas e estratégias ambientais.</p>
<p><strong> </strong><strong>O Dia Mundial da Terra </strong><strong>também serve para sensibilizar a sociedade. O que falta fazer para aproximar mais as pessoas da ciência e da informação ambiental?</strong></p>
<p><strong> </strong>É sempre incontornável falar da educação. É fundamental investir na literacia científica desde cedo e tornar a informação ambiental mais acessível, clara e relevante para o dia a dia das pessoas. Aproximar a ciência da sociedade exige uma comunicação eficaz e envolvente. A Ciência Viva, através do ESERO Portugal, o programa da ESA dedicado à educação para o espaço nas escolas, com quem a Agência colabora, tem desempenhado um papel muito relevante na divulgação das áreas do Espaço nas escolas, com iniciativas como os Professores EspAciais, Detectives do Clima ou o CanSat, para referir alguns. Outra frente importante tem sido o jornalismo. Formar quem informa sobre estas matérias é essencial para melhorar a qualidade da informação que chega o público.</p>
<p><strong>Como é </strong><strong>que os dados de Observação da Terra podem ajudar a contar melhor a história das mudanças que estão a ocorrer no planeta?</strong></p>
<p><strong> </strong>Muitas vezes temos dificuldade em compreender o que não vemos diretamente. Os satélites permitem-nos tornar essas mudanças visíveis — seja através de imagens, séries temporais ou mapas interativos. Essa capacidade de “tornar visível o invisível” é essencial para comunicar com maior clareza a urgência das alterações ambientais e envolver mais pessoas na compreensão do que está a acontecer.</p>
<p><strong>Quando </strong><strong>pensa na próxima década, que evolução espera ver na forma como observamos e compreendemos a Terra?</strong></p>
<p>Espero uma utilização cada vez mais massificada dos dados de Observação da Terra, integrada no quotidiano de empresas, administração pública e cidadãos. Combinada com inteligência artificial e com uma maior capacidade de processamento, esta evolução permitirá análises mais rápidas, acessíveis e orientadas para a decisão.</p>
<p><strong>Que</strong><strong> papel poderão desempenhar as novas gerações de cientistas, engenheiros e empreendedores nesta área?</strong></p>
<p>Terão um papel central. Caber-lhes-á inovar, desenvolver novas tecnologias, criar aplicações concretas e encontrar soluções para desafios ambientais complexos. A capacidade de cruzar disciplinas e métodos de observação será fundamental.</p>
<p><strong>Se </strong><strong>tivesse de deixar uma mensagem neste Dia Mundial da Terra, qual seria a principal ideia que gostaria de transmitir?</strong></p>
<p>Que devemos ser mais observadores, como os satélites, em relação ao que nos rodeia e ser mais responsáveis na utilização dos recursos do nosso planeta — não apenas neste dia, mas todos os dias do ano.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Entrevista: &#8220;Estamos no local certo para selecionar as castas de acordo com a sua capacidade de adaptação&#8221;</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/entrevista-estamos-no-local-certo-para-selecionar-as-castas-de-acordo-com-a-sua-capacidade-de-adaptacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Filipa Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Apr 2026 09:02:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[castas]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://greensavers.sapo.pt/?p=295994</guid>

					<description><![CDATA[A diversidade das castas portuguesas é um trunfo face às alterações climáticas. Entre desvalorização e redescoberta, o futuro depende de ciência e mercado. Manuel Malfeito Ferreira, docente do Instituto Superior de Agronomia e coordenador científico do Só Castas, diz que Portugal tem condições únicas para liderar.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p data-start="112" data-end="513">Num contexto de alterações climáticas e transformação do mercado vitivinícola, a diversidade das castas portuguesas ganha nova relevância. Longe de um cenário de desaparecimento irreversível, especialistas defendem que o verdadeiro desafio está na valorização e utilização deste património genético. A ciência, a produção e o mercado cruzam-se numa equação decisiva para o futuro do vinho em Portugal.</p>
<p data-start="515" data-end="1111">Em entrevista à Green Savers, Manuel Malfeito Ferreira, docente do Instituto Superior de Agronomia e coordenador científico do Só Castas, afirma que a ideia de extinção aplicada às videiras deve ser relativizada, já que “as castas conhecidas são mantidas nas chamadas coleções ampelográficas, de onde podem ser multiplicadas”. O risco, explica, não está na perda definitiva, mas na falta de interesse produtivo: “o risco é haver castas que não são procuradas pela produção”. Ainda assim, exemplos como a casta Melhorio mostram que o potencial existe e pode ser reativado, sobretudo num mercado que valoriza frescura e diferenciação.</p>
<p data-start="1113" data-end="1760" data-is-last-node="" data-is-only-node="">A pressão do mercado continua, no entanto, a ser determinante nas escolhas dos produtores. “As castas mais plantadas são as mais procuradas”, sublinha, apontando para a necessidade de orientar tendências em vez de as seguir. Num cenário de alterações climáticas, o investigador destaca a vantagem da diversidade nacional: “o clima mediterrânico é conhecido pela sua variabilidade, logo estamos no local certo para selecionar as castas de acordo com a sua capacidade de adaptação”. Essa riqueza genética, aliada ao crescente interesse internacional, poderá ser decisiva para garantir a resiliência e competitividade do setor vitivinícola português.</p>
<p><strong>Que castas portuguesas estão atualmente em maior risco de extinçã</strong><strong>o?</strong></p>
<p>Não sei indicar quais são, pois, o conceito comum de extinção não se aplica às castas de videira. As castas conhecidas são mantidas nas chamadas coleções ampelográficas, de onde podem ser multiplicadas, se houver interesse da parte dos viticultores. Logo, o risco é haver castas que não são procuradas pela produção, mas como são mantidas em colecção podem ser recuperadas quando surgir interesse. Dou um exemplo: a casta tinta Melhorio é mantida na Colecção Ampelográfica Nacional, sediada na Estação Vitivinícola Nacional em Dois Portos. É uma casta de ciclo longo, dá origem a vinhos abertos de cor, pouca graduação alcoólica e com elevada acidez fixa. É rara, e pouco conhecida entre os viticultores, mas, pelas suas características, tem um potencial enorme para corresponder às atuais tendências de mercado. Se houver procura, será fácil colocá-la à disposição dos interessados.</p>
<p><strong>Que fatores explicam o desaparecimento progressivo destas variedades?</strong></p>
<p>A falta de interesse por parte da produção. Tendo Portugal mais de 250 castas conhecidas, é pouco provável que todas sejam procuradas.</p>
<p><strong>O abandono agr</strong><strong>ícola tem tido um impacto significativo nesta perda de diversidade?</strong></p>
<p>Certamente. Muitas destas castas pouco disseminadas aparecem em vinhas velhas, pouco produtivas, que vão sendo deixadas ao abandono por não haver quem as mantenha. A manutenção da viticultura, pela necessidade de mão de obra ao longo ao ano, é, talvez, a principal atividade do setor primário que contraria o abandono rural.</p>
<p><strong>At</strong><strong>é </strong><strong>que ponto </strong><strong>é </strong><strong>que a pressão do mercado influencia a escolha das castas plantadas?</strong></p>
<p>É determinante, as castas mais plantadas são as mais procuradas. O desafio é dirigir o mercado e não ir na onda das modas. Nas conferências do Só Castas, evento que aconteceu no último fim de semana, em Lisboa, foi dado um exemplo eloquente, referente à Região de Lisboa. Os oradores, José Eiras Dias, anterior diretor da mencionada Estação de Dois Portos, e o enólogo Vasco Penha Garcia, mostraram o aumento significativo da plantação da casta Arinto pelo país fora, devido à sua aptidão para corresponder à procura de vinhos com mais frescura. Pelo contrário, a casta Vital, apenas presente na região de Lisboa, tem registado um decréscimo na área de plantação, embora produza vinhos com carácter único. O que falta fazer ao Vital? O que foi feito ao Arinto nos últimos 30 anos: selecionar os melhores clones e disponibilizá-los à produção. O resto virá por acréscimo.</p>
<p><strong>Existe, hoje, um conhecimento suficiente sobre o potencial destas castas menos conhecidas?</strong></p>
<p>Já se sabe o potencial de muitas castas chamadas minoritárias, mas trabalho de descoberta não falta!</p>
<p><strong>Que papel t</strong><strong>êm tido as instituiçõ</strong><strong>es cient</strong><strong>íficas na sua identificaçã</strong><strong>o e preserva</strong><strong>çã</strong><strong>o?</strong></p>
<p>São fundamentais. Felizmente, existem empresas privadas que têm apostado na plantação de vinhas com castas raras, devido à valorização comercial dos seus produtos.</p>
<p><strong>Que projetos concretos estão em curso para recuperar estas variedades?</strong></p>
<p>Não sei responder com uma lista concreta, mas tenho vários colegas académicos envolvidos nestes projetos por todo o país. Gostaria de mencionar apenas o trabalho incansável dos Professores Antero Martins e Elsa Gonçalves que, através da PORVID (Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira), estão na vanguarda da recuperação do património genético das nossas castas.</p>
<p><strong>Os produtores estã</strong><strong>o dispon</strong><strong>íveis para apostar em castas menos comerciais? Em que condiçõ</strong><strong>es?</strong></p>
<p>A PORVID inclui produtores privados, o que demonstra o seu interesse. Existem muitos outros que têm tido um papel determinante na recuperação de castas ancestrais pela plantação de vinhas novas.</p>
<p><strong>A valorização destas castas pode representar uma oportunidade econ</strong><strong>ó</strong><strong>mica para o setor?</strong></p>
<p>Certamente. Existe uma curiosidade por vinhos de castas raras quem tem sido aproveitada como vantagem competitiva por muitos produtores.</p>
<p><strong>Como tem evoluído a perceção internacional sobre as castas portuguesas?</strong></p>
<p>Existe um interesse crescente por castas portuguesas por todo o mundo vitícola, desde o Oregon, nos Estados Unidos, até à Austrália.</p>
<p><strong>Que interesse têm demonstrado investigadores e produtores estrangeiros? </strong><strong>Há exemplos de castas portuguesas a serem estudadas ou cultivadas fora do paí</strong><strong>s?</strong></p>
<p>Nada melhor que os vinhos das castas Alvarinho, Touriga Nacional, Touriga Franca, Vinhão e Tinta Roriz, provados no Só Castas e provenientes de Bordéus e do Languedoc. Quem diria, há um par de anos, que até em França já existiriam vinhos de castas portuguesas?!</p>
<p><strong>De que forma </strong><strong>é </strong><strong>que a diversidade gen</strong><strong>é</strong><strong>tica portuguesa pode responder aos desafios das alteraçõ</strong><strong>es clim</strong><strong>áticas?</strong></p>
<p>O clima mediterrânico é conhecido pela sua variabilidade, logo estamos no local certo para selecionar as castas de acordo com a sua capacidade de adaptação. Já no século XVI, Ruy Fernandes reconhecia a vantagem da diversidade quando afirmava “em anos que não dão umas, dão outras”.</p>
<p><strong>O reconhecimento internacional pode contribuir para a preservação destas castas em Portugal?</strong></p>
<p>Concerteza, nada melhor do que o estímulo da procura internacional para levar instituições e empresas a manter este património único.</p>
<p><strong>O que </strong><strong>é </strong><strong>que falta fazer para garantir a sobrevivência deste patrim</strong><strong>ó</strong><strong>nio vitivin</strong><strong>í</strong><strong>cola? </strong><strong>Estamos a tempo de evitar a perda irreversível de algumas destas variedades?</strong></p>
<p>O que tem sido feito é prova de que temos o saber e o empenho para garantir o futuro das nossas castas. A questão é que a riqueza da diversidade torna mais difícil explorar todas as hipóteses. Aliás, os últimos dados genéticos indicam que temos bastante mais do que as conhecidas 250 castas. Mãos à obra!</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Hospitais mais verdes: tecnologia portuguesa corta consumo energético sem afetar doentes</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/hospitais-mais-verdes-tecnologia-portuguesa-corta-consumo-energetico-sem-afetar-doentes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Filipa Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Apr 2026 06:01:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Empresas]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[hospitais mais verdes]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://greensavers.sapo.pt/?p=295353</guid>

					<description><![CDATA[Em entrevista à Green Savers, Filipa Rapazote, Head of Enterprise Services da Siemens Healthineers Portugal, e Gonçalo Leal, Head of Medical Imaging Strategy and Operations da Luz Saúde, falam sobre o projeto ActGreen, uma iniciativa que procura tornar mensurável o impacto da tecnologia na redução da pegada ambiental dos hospitais, sem comprometer a qualidade clínica nem a experiência do doente.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p data-start="105" data-end="415">Uma parceria entre a <span class="hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline"><span class="whitespace-normal">Siemens Healthineers</span></span> e a <span class="hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline"><span class="whitespace-normal">Luz Saúde</span></span> deu origem ao projeto ActGreen, uma iniciativa que procura tornar mensurável o impacto da tecnologia na redução da pegada ambiental dos hospitais, sem comprometer a qualidade clínica nem a experiência do doente.</p>
<p data-start="417" data-end="864">Em entrevista à Green Savers, Filipa Rapazote, Head of Enterprise Services da Siemens Healthineers Portugal, explica que o projeto nasceu da necessidade de transformar soluções tecnológicas já existentes em dados concretos e transparentes sobre eficiência energética. Através de uma metodologia robusta, foi possível medir consumos reais e isolar o impacto de ferramentas como a inteligência artificial, permitindo quantificar ganhos ambientais e operacionais até então pouco visíveis no dia a dia hospitalar.</p>
<p data-start="866" data-end="1348" data-is-last-node="" data-is-only-node="">Já Gonçalo Leal, Head of Medical Imaging Strategy and Operations da Luz Saúde, destaca que a implementação do ActGreen permitiu reduzir significativamente o consumo energético dos exames de ressonância magnética, graças à automatização inteligente dos equipamentos. Os resultados superaram as expectativas, com poupanças de energia até 46% em períodos não produtivos e uma redução anual de mais de 200 MWh, ao mesmo tempo que melhoraram o conforto dos doentes, com tempos de exame mais curtos e uma experiência mais eficiente.</p>
<p><strong>Como surgiu a ideia para o projeto ActGreene que necessidade concreta pretendiam responder no momento em que esta parceria foi desenhada?</strong></p>
<p><em>Filipa Rapazote, Head of Enterprise Services, Siemens Healthineers Portugal</em></p>
<p>O projeto ActGreen vem no seguimento de uma visão partilhada e de um alinhamento muito consistente entre a Siemens Healthineers e a Luz Saúde no que respeita à eficiência da utilização dos recursos e a sustentabilidade da prestação de cuidados de saúde. Apesar de muitos dos produtos e soluções da Siemens Healthineers já integrarem funcionalidades orientadas para a utilização eficiente de recursos e para a redução da pegada ecológica, o seu impacto real no dia a dia dos hospitais não era plenamente visível, nem quantificável. No momento em que esta parceria foi desenhada, existia uma necessidade concreta de transformar essa eficiência tecnológica em dados objetivos e transparentes, que permitisse compreender, medir e valorizar o contributo das soluções de poupança energética e de Inteligência Artificial para a sustentabilidade dos hospitais.</p>
<p><strong>Que desafios encontraram na fase inicial de implementação, tanto do ponto de vista tecnológico como organizacional?</strong></p>
<p><em>Filipa Rapazote, Head of Enterprise Services, Siemens Healthineers Portugal</em></p>
<p>Na fase inicial, os principais desafios passaram pela criação de uma metodologia tecnológica robusta para medir consumos energéticos reais e isolar o impacto específico das soluções implementadas, bem como pelo alinhamento organizacional entre equipas clínicas, técnicas e de gestão, para, numa primeira fase, agilizar a instalação da solução e, mais tarde, garantir a confiança nos dados e integração do projeto na rotina hospitalar.</p>
<p><strong>De que forma conseguiram reduzir o consumo energético dos exames de Ressonância Magnética sem comprometer a qualidade clínica ou a experiência do doente?</strong></p>
<p><em>Gonçalo Leal, Head of Medical Imaging Strategy and Operations, Luz Saúde</em></p>
<p>A Luz Saúde conseguiu reduzir de forma significativa o consumo energético dos exames de Ressonância Magnética no primeiro piloto do projeto, que foi realizado com 10 equipamentos de Ressonância Magnética, permitindo validar o impacto real da solução em ambiente clínico. Face aos resultados obtidos, o projeto foi posteriormente escalado para um conjunto mais abrangente de equipamentos e unidades do grupo, alargando de forma consistente os benefícios energéticos e operacionais.</p>
<p>A redução do consumo foi alcançada através da automatização inteligente da gestão energética dos equipamentos, eliminando consumos desnecessários fora dos períodos de atividade clínica, sem qualquer alteração aos protocolos diagnósticos ou à qualidade das imagens. No que respeita à experiência do doente, esta não só não foi comprometida como foi claramente melhorada, uma vez que numa parte significativa dos exames foi possível reduzir o tempo de aquisição, o que se traduz em menos tempo do doente dentro da máquina e num maior conforto e tranquilidade durante o exame.</p>
<p><strong>Os resultados alcançados superaram as expectativas iniciais? Podem partilhar alguns indicadores concretos do impacto ambiental obtido?</strong></p>
<p><em>Filipa Rapazote, Head of Enterprise Services, Siemens Healthineers Portugal</em></p>
<p>Sim, os resultados obtidos superaram as expectativas em vários dos paramêtros analisados. Este projeto permitiu identificar e quantificar de forma precisa os consumos energéticos dos sites envolvidos, tendo em conta as suas condições específicas. Destaca-se um potencial de poupança energética na ordem dos 46% durante os períodos não produtivos, o que corresponde a uma poupança anual de 203,4 MWh, à redução de 33,66 toneladas de CO₂, a uma economia aproximada de 25.000€ em custos energéticos e ao equivalente a 2.240 árvores necessárias para compensar as emissões associadas aos equipamentos. Adicionalmente, foi identificado um potencial de redução de até 60% no consumo energético dos exames realizados com a nossa solução de Inteligência Artificial. Estes resultados  permitiram alcançar ganhos reais com impacto a nível operacional e ambiental nas unidades incluídas no projeto, reforçando também o alinhamento estratégico entre as duas organizações quanto à importância e interligação entre  inovação tecnológica e sustentabilidade. Sabemos que ainda há um caminho a percorrer e que é um caminho feito de colaboração, lado a lado com os nossos parceiros. E o objetivo é claro &#8211; gerar valor real e mensurável para as instituições de saúde e para os cuidados ao paciente,  que colocamos sempre no centro de todas as decisões.</p>
<p><strong>Que benefícios operacionais trouxe esta redução da pegada de carbono para a gestão hospitalar no dia a dia?</strong></p>
<p><em>Gonçalo Leal, Head of Medical Imaging Strategy and Operations, Luz Saúde</em></p>
<p>Além da poupança direta nos custos energéticos e de uma maior previsibilidade do consumo, o principal benefício operacional foi o facto de esta iniciativa ser praticamente transparente para os profissionais de saúde das unidades da Luz Saúde. Os profissionais de saúde são altamente diferenciados e lidam diariamente com tarefas clínicas complexas e críticas, pelo que alterações significativas aos seus métodos de trabalho poderiam resultar em perda de produtividade ou no risco de descurar aspetos relevantes da atividade assistencial.</p>
<p>Neste contexto, uma estratégia que implicasse pouca ou nenhuma mudança comportamental, mas que tivesse um impacto positivo real e mensurável, revelou-se essencial. A automatização e integração silenciosa da solução permitiram alcançar ganhos ambientais e operacionais relevantes sem introduzir fricção na prática clínica diária, fator decisivo para a aceitação, eficácia e escalabilidade do projeto.</p>
<p><strong>Na vossa perspetiva, este projeto teve também impacto na sensibilização interna das equipas para as questões da sustentabilidade?</strong></p>
<p><em>Gonçalo Leal, Head of Medical Imaging Strategy and Operations, Luz Saúde</em></p>
<p>Na perspetiva da Luz Saúde, o projeto teve um impacto positivo na sensibilização interna para a sustentabilidade. A visibilidade clara e objetiva dos resultados alcançados veio acrescentar uma dimensão muito relevante ao que já é a missão intrínseca de quem trabalha na área da saúde: cuidar das pessoas e melhorar a sua qualidade de vida. Poder aliar esta missão à da sustentabilidade ambiental reforça o sentido de propósito das equipas, demonstrando que é possível proteger a saúde das populações hoje sem comprometer a saúde do planeta no futuro. Esta associação entre impacto clínico e impacto ambiental contribuiu para consolidar a sustentabilidade como um valor integrado na cultura organizacional.</p>
<p><strong>O facto de o ActGreen ter sido distinguido com o Prémio Inovação em Saúde 2025 veio reforçar a importância da agenda ambiental no setor da saúde em Portugal?</strong></p>
<p><em>Filipa Rapazote, Head of Enterprise Services, Siemens Healthineers Portugal</em></p>
<p>Sem dúvida, esta distinção do <a href="https://premioinovacaosaude.pt/index.php/vencedores-2025/" target="_blank" rel="noopener">Prémio Inovação em Saúde 2025</a> veio reforçar a relevância da agenda ambiental no setor da saúde em Portugal, validando a sustentabilidade como um pilar estratégico da inovação e incentivando outras instituições a seguirem o mesmo caminho.</p>
<p><strong>Consideram que este modelo de parceria pode ser replicado noutros exames, tecnologias ou instituições de saúde, em Portugal ou internacionalmente?</strong></p>
<p><em>Filipa Rapazote, Head of Enterprise Services, Siemens Healthineers Portugal</em></p>
<p>Sim, este modelo de parceria é altamente replicável, podendo ser adaptado a outros exames, tecnologias de diagnóstico e instituições de saúde, tanto em Portugal como a nível internacional, sempre que exista a ambição de conjugar inovação, eficiência operacional e sustentabilidade na prestação de cuidados de saúde. Como referido acima, este modelo de monitorização começou a ser implementado como um projeto-piloto e encontra-se já atualmente em fase de expansão para todas as unidades do grupo Luz Saúde. O que demonstra e reforça a sua escalabilidade e impacto real.</p>
<p><strong>Que papel pode a tecnologia desempenhar, nos próximos anos, no equilíbrio entre eficiência clínica, sustentabilidade ambiental e controlo de custos? Olhando para o futuro, como veem a evolução da agenda ESG no setor da saúde e que responsabilidades acrescidas terão as organizações nesta matéria?</strong></p>
<p><em>Gonçalo Leal, Head of Medical Imaging Strategy and Operations, Luz Saúde</em></p>
<p>Entendemos que a tecnologia será um dos principais catalisadores de uma abordagem ESG madura e integrada no setor da saúde, ultrapassando claramente a dimensão ambiental e assumindo um papel estruturante também nas vertentes social e de governança. No plano operacional, a tecnologia permite hoje e permitirá cada vez mais uma utilização mais eficiente e solidária dos recursos disponíveis, como é o caso da rotação de equipamentos entre unidades hospitalares. Esta prática, que a Luz Saúde promove há muitos anos, assegura a continuidade e equidade no acesso a linhas clínicas assistenciais em diferentes geografias, permitindo que unidades que de outra forma não teriam determinada capacidade tecnológica possam prestar cuidados diferenciados às suas populações, reforçando a coesão do sistema de saúde.</p>
<p>No âmbito da sustentabilidade ambiental e económica, a incorporação de critérios ESG nos concursos de aquisição de tecnologia médica assume um papel crescente. Para além do desempenho clínico, fatores como eficiência energética, ciclo de vida do equipamento, capacidade de atualização tecnológica e impacto ambiental tornam-se elementos centrais na decisão. Esta lógica permite privilegiar modelos de evolução contínua da tecnologia, evitando o abate prematuro de equipamentos que mantêm plena utilidade clínica, reduzindo desperdício, emissões associadas à produção e pressão sobre investimentos de capital.</p>
<p>É necessário existir uma gestão responsável de recursos escassos, como por exemplo os meios de contraste iodado, através de sistemas que permitem monitorizar consumos, otimizar protocolos e reduzir desperdícios, reforçando simultaneamente a segurança do doente e a resiliência das organizações face a constrangimentos de mercado ou de abastecimento.</p>
<p>Do ponto de vista social, a agenda ESG no setor da saúde estará cada vez mais ligada a temas como acesso equitativo aos cuidados, segurança do doente, valorização e proteção dos profissionais de saúde e impacto positivo nas comunidades onde as organizações estão inseridas. A tecnologia pode apoiar este caminho ao reduzir a carga administrativa, melhorar fluxos de trabalho, diminuir o risco de erro ajudando a mitigar o desgaste profissional num setor particularmente exigente.</p>
<p>Na dimensão da governança, a evolução será igualmente significativa. As organizações de saúde terão responsabilidades acrescidas ao nível da transparência, da monitorização de indicadores ESG, do reporte estruturado e da integração destes critérios nos processos de decisão estratégica. A tecnologia permitirá suportar modelos de governação mais informados, baseados em dados fiáveis, auditáveis e comparáveis, reforçando a confiança dos <em>stakeholders</em>, dos profissionais, dos reguladores e da sociedade em geral.</p>
<p>Encaramos a agenda da sustentabilidade como um eixo estratégico indissociável da nossa missão assistencial. O futuro passará por organizações capazes de conjugar inovação clínica, responsabilidade social, sustentabilidade ambiental e uma governação sólida, utilizando a tecnologia não como um fim em si mesmo, mas como um instrumento ao serviço de cuidados de saúde.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Transição energética: Planeamento, rigor e envolvimento das comunidades são fundamentais para que não se troque um mal por outro</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/transicao-energetica-planeamento-rigor-e-envolvimento-das-comunidades-sao-fundamentais-para-que-nao-se-troque-um-mal-por-outro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Filipe Pimentel Rações]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Apr 2026 10:03:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[comunidades]]></category>
		<category><![CDATA[conservação da natureza]]></category>
		<category><![CDATA[energia]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<category><![CDATA[Transição Energética]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://greensavers.sapo.pt/?p=295176</guid>

					<description><![CDATA[Miguel Macias Sequeira, investigador do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade (CENSE), explica-nos como é possível transformar o panorama energético, para lá dos combustíveis fósseis, sem comprometer a biodiversidade e as comunidades humanas.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O abandono dos combustíveis fósseis em prol de fontes de energia que sejam renováveis e que não contribuam, ou cujos impactos sejam os menores possível, para a degradação ambiental e climática é considerado a grande revolução dos tempos modernos.</p>
<p>Essa transformação é essencial para travar o aquecimento do planeta, para mitigar fenómenos extremos e para proteger humanos e não-humanos. No entanto, a corrida para a transição – muito impulsionada por interesses económicos e políticos, até às vezes mais do que por reais preocupações ambientais – parece estar a enfrentar cada vez mais resistências, seja por parte das populações que vivem nos locais onde são implementados projetos de energia renovável, que contestam impactos na paisagem, no ambiente e nas suas vidas, seja por parte dos próprios ambientalistas, e até de cientistas, que chamam a atenção para efeitos negativos sobre o mundo natural.</p>
<p>Pelo mundo fora, e Portugal não é exceção, ouve-se muitas vezes dizer que, apesar de a transição energética ser indispensável para proteger o planeta e as pessoas, não pode acontecer a qualquer custo, ou arriscamo-nos a estar apenas a trocar um mal por outro. O derrube de árvores e a fragmentação ou destruição de habitats para a construção de megacentrais solares ou de grandes parques eólicos podem ajudar a reduzir as emissões de gases com efeito de estufa que aquecem a Terra, mas, por outro lado, podem também estar a agravar a crise da perda de biodiversidade e a tornar ainda mais vulneráveis comunidades humanas cuja subsistência depende de ecossistemas saudáveis, robustos e funcionais.</p>
<p>Então, como é que se pode assegurar que a transição energética é socialmente justa, economicamente sustentável e ecologicamente positiva? Uma equipa de investigadores portugueses debruçou-se sobre o assunto, lançado um olhar analítico sobre a energia solar em Portugal para, precisamente, ajudar a responder a essa pergunta.</p>
<p><strong>A importância de um bom planeamento</strong></p>
<p>As conclusões dessa reflexão foram divulgadas numa análise em outubro de 2025 pelo laboratório associado CHANGE &#8211; Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade, do qual fazem parte três centros de investigação: o Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade (CENSE), o Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C), e o Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento (MED).</p>
<p>O documento, em formato “policy brief”, tem como título “<a href="https://www.changeinstitute.pt/uploads/fotos_artigos/files/policy_fotovoltaico_final.pdf" target="_blank" rel="noopener">Energia Solar em Portugal: Rumo a uma Transição Equilibrada e Sustentável</a>” e apresenta recomendações para concretizar uma transição na qual seja possível conciliar energia renovável, desenvolvimento sustentável e proteção ambiental.</p>
<p>Miguel Macias Sequeira, investigador do CENSE, é o primeiro autor da análise. Em entrevista à Green Savers, assegura que “é possível compatibilizar a expansão das energias renováveis, particularmente a energia solar fotovoltaica, com a preservação de áreas naturais e com respeito pelas comunidades locais”. No entanto, ressalva que conseguir esse equilíbrio está dependente da forma como os projetos de renováveis são planeados e implementados.</p>
<p>“A transição energética não pode ser encarada como um processo meramente tecnológico ou económico, mas sim como um processo social que exige a participação ativa de múltiplos atores, incluindo as populações locais”, salienta o investigador. Para ele, quando, de facto, há um planeamento adequado, todas as partes interessadas são envolvidas no processo logo desde o início, os locais de implementação dos projetos são escolhidos de forma rigorosa e são assumidas medidas de compensação, “é possível reduzir significativamente os impactos negativos e, por vezes, até derivar impactos positivos, tanto para o ambiente, como para as comunidades”.</p>
<p>Contudo, em Portugal, essa articulação virtuosa muitas vezes não é conseguida, ou sequer tida em conta. A forte aposta na produção renovável centralizada (por exemplo, cerca de 60% da potência solar fotovoltaica está em modelo centralizado), e de larga escala, a pressão dos agentes económicos para aliviar as exigências do licenciamento ambiental e a vontade dos políticos para alcançar metas num espaço de tempo demasiado curto “têm levado a decisões que desvalorizam impactos ecológicos e sociais”, explica-nos Miguel Macias Sequeira.</p>
<p>“Por exemplo, mais de 90% dos projetos de energia solar submetidos a Avaliação de Impacto Ambiental nos últimos anos recebeu parecer positivo”, diz o investigador em energia e clima do CENSE, acrescentando que “em Portugal, há uma sobreposição sistemática de interesses económicos e políticos que privilegiam o investimento em energias renováveis, muitas vezes por multinacionais, em detrimento da proteção do património ecológico e cultural”.</p>
<p>Reconhecendo a aceleração da transição energética como “fundamental” para que o país possa colher benefícios em múltiplas frentes (ambiental, climática, económica, social, de segurança), o investigador não deixa de salientar que “existe a necessidade de corrigir desequilíbrios e reforçar processos participativos e critérios ambientais”.</p>
<p><strong>O desequilíbrio entre centralização e descentralização</strong></p>
<p>Prevê-se que a centralização da produção de energia renovável aumente até ao final da década. A capacidade instalada de solar fotovoltaica centralizada deverá mais do que quadruplicar, passando do atuais 3,7 gigawatts (GW) em 2025, segundo <a href="https://www.dgeg.gov.pt/pt/estatistica/energia/publicacoes/estatisticas-rapidas-das-renovaveis/" target="_blank" rel="noopener">estatísticas rápidas das renováveis da Direção-Geral de Energia e Geologia</a>, para os 15,1 GW em 2030, meta estabelecida no <a href="https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/resolucao-assembleia-republica/127-2025-914597185" target="_blank" rel="noopener">Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC 2030)</a>. Quanto à descentralizada, deverá assinalar-se um aumento muito mais ligeiro, dos 2,9 GW para os 5,7 GW.</p>
<p>Para Miguel Macias Sequeira, esse “desequilíbrio” prende-se, sobretudo, com escolhas políticas e com “fatores como a maior facilidade de implementação de grandes projetos, economias de escala com menor custo de produção de eletricidade e modelos de negócio consolidados”.</p>
<p>Ainda assim, não deixa de salientar que existem “barreiras administrativas, regulatórias e técnicas” que impedem o avanço da descentralização, do autoconsumo e das <a href="https://greensavers.sapo.pt/coopernico-lanca-iniciativa-para-fomentar-comunidades-de-energia-renovavel/">comunidades de energia renovável</a>.</p>
<p>Na análise, os investigadores sugerem uma proporção da 50-50 entre produção centralizada e produção descentralizada, referindo que a expansão da solar deverá acontecer em edifícios, zonas industriais e noutras áreas artificializadas. Para Miguel Macias Sequeira, essa proporção permitiria “maximizar benefícios sistémicos e minimizar conflitos pelo uso de solo”, uma vez que a produção descentralizada “permite aumentar a capacidade renovável minimizando impactos na biodiversidade e conflitos com comunidades locais”.</p>
<p>“Além disso, promove maior resiliência energética, envolve os cidadãos e empresas na transformação do sistema energético e reduz as perdas nas redes elétricas”, acrescenta.</p>
<p>Ao dar prioridade à expansão da energia solar em espaços já artificializados, “evita-se a ocupação de solos naturais ou agrícolas, reduzindo impactos ecológicos e tensões com comunidades locais”, argumenta do investigador, que diz que tal também permite “uma distribuição mais equitativa dos benefícios da transição energética, envolvendo diretamente cidadãos e empresas”.</p>
<p>“Desta forma, a transição energética não é apenas um processo de modificação tecnológica – onde a eletricidade passa a ser produzida em centrais solares e parques eólicos que substituem as centrais térmicas a carvão ou gás natural – podendo contribuir para mitigar injustiças sociais, com a implementação de medidas de combate à pobreza energética, e para fomentar a participação cívica, com a adoção de modelos de governança democráticos no âmbito das comunidades de energia”, defende.</p>
<p>No entanto, admite que a descentralização “não é uma solução única ou suficiente por si só” e que precisa de acontecer em simultâneo com “uma estratégia mais ampla e integrada de transição energética” que minimize “os impactos da produção centralizada”, como “o planeamento territorial adequado, a definição de áreas de aceleração, a compatibilização entre diversas atividades económicas e o envolvimento comunitário com partilha de benefícios com as populações locais”.</p>
<p><strong>Portugueses disponíveis para o autoconsumo</strong></p>
<p>Um <a href="https://portugal.fes.de/e/crise-climatica-percecoes-publicas-e-prioridades-em-portugal.html" target="_blank" rel="noopener">estudo</a> publicado recentemente pela representação em Portugal da Fundação Friedrich Ebert mostra que a grande maioria dos portugueses entende que, mesmo depois do apagão de abril de 2025, o país deve continuar a aposta nas renováveis e que está disponível para produzir a sua própria energia renovável ou integrar comunidades de energia.</p>
<p>Para Miguel Macias Sequeira, isso revela que “existe um reconhecimento da relevância do autoconsumo por parte das famílias e empresas portuguesas, que tem tendência a aumentar em momentos de crises energéticas com o rápido aumento dos preços dos combustíveis fósseis”. No contexto da atual crise energética espoletada pelo conflito no Médio Oriente, que lançou os preços dos combustíveis numa ascensão meteórica, vários são os especialistas que entendem que se poderá esperar uma aceleração da transição energética para atenuar os impactos da dependência da energia de origem fóssil.</p>
<p>O investigador do CENSE diz-nos que o autoconsumo individual, o autoconsumo coletivo e as comunidades de energia trazem “múltiplos benefícios para o país e para os consumidores, com destaque para a redução significativa das faturas energéticas”. Mesmo sem apoios financeiros ou fiscais ao autoconsumo, continua, “o período de retorno do investimento em sistemas solares fotovoltaicos é interessante, considerando a vida útil longa dos equipamentos e, particularmente, no caso de investimento coletivo em sistemas de maior dimensão que permitem economias de escala e otimização da produção e consumo de energia entre os vários membros”.</p>
<p>No entanto, apesar de todos os benefícios que lhe são reconhecidos e do interesse por parte dos consumidores, o autoconsumo em Portugal continua a padecer de “uma lacuna na implementação”, que se deve, pelo menos em parte, “a barreiras como falta de informação, complexidade administrativa e custos iniciais elevados”, aponta o investigador.</p>
<p>Como tal, o “policy brief” publicado no ano passado pelo CHANGE destaca a importância de “campanhas de sensibilização e capacitação dirigidas a cidadãos e empresas para desenvolverem comunidades de energia renovável que catalisem a transição energética à escala local”, afirma Miguel Macias Sequeira.</p>
<p>“A aceitação de custos adicionais, como os associados à instalação de painéis, está diretamente associada à perceção clara dos benefícios no curto, médio e longo prazo – incluindo as dimensões económica, ambiental e social – e da existência de mecanismos de apoio que tornem esses investimentos mais acessíveis a toda a população, com destaque para os grupos mais vulneráveis”, assevera.</p>
<p><strong>Interesses superiores e atropelos ambientais</strong></p>
<p>Quando projetos, sejam eles quais forem, entram em conflito com outros interesses, como os das comunidades locais que serão por eles mais afetadas ou de índole ambiental, frequentemente ouve-se falar de termos como “interesse público superior”, “imprescindível utilidade pública” ou alguma variante de mesmo valor semântico ou jurídico.</p>
<p>Na prática, a invocação desses princípios prioriza os projetos em causa em detrimento de outras preocupações ou reivindicações que sejam feitas contra eles. Em Portugal, há casos de abates de <a href="https://greensavers.sapo.pt/governo-autoriza-abate-de-sobreiros-e-azinheiras-em-parque-eolico-em-penamacor/">sobreiros e azinheiras</a>, por exemplo, feitos sob a guisa da “imprescindível utilidade pública” de projetos de renováveis.</p>
<p>No “policy brief” do laboratório associado CHANGE, os autores dizem que é preciso refrear a aplicação desses princípios, usá-los de forma criteriosa e limitar a sua abrangência.</p>
<p>“A utilização da prorrogativa da ‘imprescindível utilidade pública’ para aprovar projetos e atividades em Portugal, demolindo quaisquer obstáculos ambientais, sociais, administrativos ou de ordenamento do território, sempre foi altamente questionável independentemente do setor económico em causa”, diz-nos Miguel Macias Sequeira.</p>
<p>Refere o investigador do CENSE que, “considerando os interesses económicos nas energias renováveis, é natural que a declaração de ‘imprescindível utilidade pública’ também tenha começado a ser aplicada neste setor”.</p>
<p>A última revisão da <a href="https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/HTML/?uri=OJ:L_202302413" target="_blank" rel="noopener">Diretiva Europeia das Energias Renováveis</a>, também conhecida pela sigla RED III, veio firmar esse princípio no campo das renováveis, introduzindo o “interesse público superior”, que permite dar prioridade a projetos de energias renováveis, de redes elétricas e de armazenamento de energia que possam colidir com regulamentos de proteção ambiental, como a Diretiva Aves, a Diretiva Habitats e a Diretiva-Quadro da Água.</p>
<p>“Abre-se, assim, uma passadeira vermelha para que projetos mal formulados e com impactos negativos significativos sejam considerados como de interesse público e, desta forma, avancem para implementação independentemente dos resultados da Avaliação de Impacto Ambiental e da sua consulta pública”, lança Miguel Macias Sequeira. Avisa o investigador que “a aplicação do princípio do ‘interesse público superior’ vai diretamente contra os objetivos da Lei de Restauro da Natureza que visa a conservação e regeneração dos ecossistemas degradados na União Europeia”.</p>
<p>E os impactos podem também extravasar a esfera ecológica, uma vez que, e indo contra os interesses dos próprios produtores de energia renovável, “a atribuição pouco transparente da nomenclatura de projeto de interesse nacional, pode levar a maior contestação social e a demorados processos judiciais”, salienta o investigador.</p>
<p>Por tudo isso, esses termos de priorização devem ser, segundo os autores do “policy brief”, utilizados com cautela e apenas incidir sobre as chamadas áreas de aceleração de energias renováveis, zonas onde não se prevê que a implementação de projetos de renováveis tenha impactos ambientais significativos.</p>
<p>“A sua aplicação indiscriminada pode comprometer objetivos de conservação ambiental e gerar desconfiança junto das comunidades, ao parecer que certos projetos são impostos independentemente dos impactos”, acautela Miguel Macias Sequeira, sugerindo que “para garantir uma transição verdadeiramente sustentável, é necessário equilibrar este instrumento jurídico com salvaguardas ambientais claras”.</p>
<p><strong>Articular conservação da biodiversidade e transição energética</strong></p>
<p>No campo dos conflitos resultantes da rápida expansão das renováveis, surge as frequentes tensões com os interesses da conservação da Natureza e, agora, com os do restauro dos ecossistemas.</p>
<p>Grandes áreas são alocadas, por exemplo, a projetos de megacentrais solares fotovoltaicas, muitas vezes resultando no derrube de árvores, gerando contestação por parte de populações, ambientalistas e cientistas.</p>
<p>Para tentar evitar a colisão entre medidas de mitigação de duas das maiores crises planetárias dos nossos tempos – as alterações climáticas e a perda de biodiversidade – os autores do “policy brief” do instituto CHANGE deixam uma sugestão: instalar centrais solares em zonas de solos degradados, articulando com medidas de restauro, e em zonas agrícolas.</p>
<p>Lembrando que a implementação desses projetos tem “ocorrido de forma desordenada no território nacional, com impactos ambientais tanto negativos como evitáveis e com crescente contestação das comunidades locais”, Miguel Macias Sequeira, em declarações à Green Savers, diz que vários têm resultado na decapagem do solo e no “abate de dezenas de milhares de árvores, incluindo sobreiros e azinheiras, com impactos negativos e significativos nos ecossistemas”.</p>
<p>“Muitas vezes, as populações não são consultadas e opõem-se legitimamente à instalação de grandes projetos no seu território”, salienta.</p>
<p>Por isso, este grupo de investigadores considera que instalar centrais solares em solos degradados pode converter um potencial conflito numa “oportunidade de recuperação do solo”.</p>
<p>“Ao combinar produção de energia com medidas de restauro ecológico, é possível melhorar a qualidade do solo e reduzir a pressão sobre áreas naturais ou produtivas”, explica o investigador do CENSE. “No caso do agrivoltaico, a integração entre produção agrícola e energética permite um uso mais eficiente do território”, refere, acrescentando que tal pode “aumentar a produtividade agrícola, reduzir o consumo de água e gerar rendimento adicional para agricultores”.</p>
<p>Para o especialista em energia e clima, “estas abordagens exigem um conhecimento detalhado do território e um planeamento cuidadoso dos projetos de energias renováveis para que sejam, efetivamente, compatíveis com os usos locais do solo”.</p>
<p>Para poder compatibilizar a transição energética com a conservação da biodiversidade é, no entanto, preciso mais conhecimento científico sobre como essas duas dimensões interagem uma com a outra.</p>
<p>“Esta lacuna é preocupante, pois pode levar a decisões mal informadas e a consequências ambientais não antecipadas”, declara Miguel Macias Sequeira, que nos diz também que “a falta de dados sobre a evolução da biodiversidade em centrais solares, não permite identificar com rigor boas práticas na implementação de projetos de energias que possam ser replicadas”.</p>
<p>“Sem conhecimento científico e com o interesse económico a prevalecer face à proteção ambiental, existe, sem dúvida, o risco de agravar a perda da biodiversidade ao mesmo tempo que se reduz as emissões de gases de efeito estufa”, alerta o académico, defendendo, juntamente com os dois coautores da análise, que é preciso apostar mais fortemente na investigação e monitorização de longo-prazo. Só assim, e com o conhecimento adquirido, será possível “ajustar práticas e garantir que a transição energética contribui de forma sistémica e transformadora para a sustentabilidade global”.</p>
<p><strong>Estarão as comunidades realmente a ser ouvidas?</strong></p>
<p>Uma das premissas do desenvolvimento sustentável, do qual a transição energética justa é pilar fundamental, é resumida no lema “ninguém fica para trás” (ou “leave no one behind”, no inglês original). O objetivo é que a transformação profunda da forma como as sociedades humanas se relacionam com o planeta, e umas com as outras, seja feita de forma equitativa e que permita que todos possam dela beneficiar.</p>
<p>No entanto, entre as palavras e a ação, há um grande fosso pode ser colmatado havendo rela vontade para isso. Mas será que há?</p>
<p>Relativamente à transição energética, o “policy brief” do instituto CHANGE aponta que, muitas vezes, as comunidades locais que mais serão afetadas por projetos de energias renováveis ou não são integradas nos processos logo desde o início ou não são integradas de todo. E isso pode gerar descontentamento e, no limite, abrir portas à contestação e à resistência.</p>
<p>“Quando as populações são chamadas apenas em fases tardias do processo, quando as decisões já estão todas praticamente tomadas, a sua influência real é limitada e a perceção de imposição externa de um projeto pode gerar contestação”, confirma Miguel Macias Sequeira.</p>
<p>Além disso, “a inexistência de mecanismos de partilha dos benefícios gerados pelos projetos de energias renováveis é um fator crítico para a resistência social”, acrescenta.</p>
<p>Contudo, outros caminhos que podem ser tomados para, por um lado, mitigar conflitos e, por outro, para converter o “ninguém fica para trás” de meras palavras em ações concretas.</p>
<p>“Quando as comunidades são envolvidas desde o início e beneficiam diretamente dos projetos, a aceitação tende a aumentar significativamente”, aponta o investigador do CENSE. Para isso acontecer, diz que é preciso melhorar a comunicação entre os projetos, os cidadãos, a sociedade civil e as autoridades locais para “mitigar potenciais impactos”, e isso tem de acontecer logo no início dos projetos “para que as contribuições possam ser refletidas no desenho do projeto”.</p>
<p>É importante também criar medidas que tornem compatíveis os projetos de energias renováveis com outras atividades, como as agrícolas, já existentes nos locais onde serão implementados. Ademais, é essencial que os promotores dos projetos implementem medidas que compensem as comunidades locas pelos impactos negativos resultantes desses projetos.</p>
<p>“Tal pode incluir a possibilidade dos cidadãos, por exemplo através de cooperativas de energia e comunidades de energia, se tornarem co-investidores e co-proprietários das centrais solares”, aponta, a título de exemplo, Miguel Macias Sequeira.</p>
<p>O investigador diz que uma outra via é criar-se fundos para apoiar as comunidades locais na sua própria transição energética, “por exemplo, ao nível da renovação energética das habitações e da criação de comunidades de energia renovável autónomas, com o objetivo de fomentar a sustentabilidade e resiliência das comunidades e mitigar a pobreza energética”.</p>
<p>Para o académico, “o envolvimento ativo e positivo dos cidadãos em projetos de energias renováveis não é apenas desejável, é essencial para o sucesso da transição energética”.</p>
<p><strong>Mais eficiência, melhor planeamento e real envolvimento</strong></p>
<p>Numa altura em que a transição energética na Europa avança a velocidade de cruzeiro, apesar das turbulências do outro lado do Atlântico, e vai sendo reforçada pelos conflitos que mostram o perigo da dependência do fornecimento externo de energia, Portugal tem também um caminho a percorrer, e vai fazendo-o, com mais ou menos percalços, sendo considerado um dos melhores exemplos na região no que toca à penetração das energias renováveis no país.</p>
<p>No entanto, como deixam claro os vários casos de contestação e conflito sobre projetos de energias renováveis, há ainda muito que melhorar para que a transição seja verdadeiramente justa do ponto de vista social, positiva numa perspetiva ecológica e sustentável no que à vertente económica diz respeito.</p>
<p>Miguel Macias Sequeira aponta três prioridades: melhorar a eficiência energética em todos os setores económicos, basear a expansão das renováveis num planeamento territorial “rigoroso” suportado por critérios ambientais e sociais “exigentes”, e envolver ativamente “famílias e empresas” na transformação do sistema energético “respondendo a desigualdades sociais e garantindo a partilha de benefícios”.</p>
<p>Para que isso seja possível, o investigador salienta a relevância da descentralização da produção de renováveis “através de modelos como as comunidades de energia”, a definição mais adequada de zonas de aceleração para produção centralizada, a proteção de áreas de elevado valor ecológico e a promoção de soluções como o agrivoltaico e o restauro ecológico.</p>
<p>Ao mesmo tempo, é preciso mais conhecimento científico e monitorização contínua.</p>
<p>“Acima de tudo, a transição energética deve ser construída com as pessoas e não apenas pelos decisores políticas e agentes económicos, assegurando uma distribuição justa de custos e benefícios e promovendo um modelo energético mais sustentável, justo e democrático”, declara Miguel Macias Sequeira.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Entrevista: Sustentabilidade na construção passa por tornar o betão “cada vez mais eficiente do ponto de vista ambiental”</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/entrevista-sustentabilidade-na-construcao-passa-por-tonar-o-betao-cada-vez-mais-eficiente-do-ponto-de-vista-ambiental/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Filipa Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 05 Apr 2026 13:55:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[betão]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<category><![CDATA[secil]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://greensavers.sapo.pt/?p=291769</guid>

					<description><![CDATA[ Em entrevista à Green Savers, Ana Paula Rodrigues, diretora de sustentabilidade da Secil, explica como é que a empresa concilia a necessidade deste material com a pressão crescente para reduzir o impacto ambiental da sua produção e fala sobre os desafios da descarbonização do setor.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O betão é o material de construção manufaturado mais utilizado no mundo. Em entrevista à Green Savers, Ana Paula Rodrigues, diretora de sustentabilidade da Secil, precisamente por essa centralidade, a empresa “entende que a sustentabilidade na construção passa por tornar este material cada vez mais eficiente do ponto de vista ambiental”.</p>
<p>A responsável defende que a descarbonização do setor passa por uma “abordagem integrada e progressiva, combinando eficiência energética, inovação tecnológica e investimento em soluções estruturais que permitam reduzir significativamente a pegada carbónica do cimento no longo prazo”.</p>
<p>E sublinha que a Secil tem vindo a desenvolver novas gamas de cimentos low-carbon e betões otimizados, com menor pegada ambiental e melhor desempenho ao longo do ciclo de vida. Paralelamente, apostam em soluções “inovadoras” como a construção modular, através da KREAR, joint venture entre a Secil e o Grupo Casais, a impressão 3D e o betão sensorizado, que “permitem reduzir desperdícios, acelerar processos construtivos e melhorar a monitorização e a manutenção das estruturas, respondendo a desafios cada vez mais relevantes no setor da construção”.</p>
<p><strong>O betão continua a ser um material essencial para o desenvolvimento das cidades e das infraestruturas. Como é que a Secil concilia essa necessidade com a pressão crescente para reduzir o impacto ambiental da sua produção?</strong></p>
<p>O betão é o material de construção manufaturado mais utilizado no mundo, sendo essencial para garantir infraestruturas seguras, duráveis e resilientes. Precisamente por essa centralidade, a Secil entende que a sustentabilidade na construção passa por tornar este material cada vez mais eficiente do ponto de vista ambiental.</p>
<p>Essa conciliação faz-se através de uma abordagem integrada à cadeia de valor, desde a produção do clínquer até ao produto final. A eficiência energética dos processos industriais, a incorporação de materiais alternativos às matérias-primas virgens, e a incorporação de resíduos e a sua valorização, em substituição de combustíveis fósseis, são alguns dos exemplos para conseguir diminuir a intensidade carbónica das emissões.</p>
<p>Um excelente exemplo é o caso dos resíduos de construção e demolição, que inclui betão recuperado transformado em agregados para a produção de novos betões, permitindo responder às exigências da construção moderna, assegurando simultaneamente desempenho técnico, longevidade das estruturas e um menor impacto ambiental ao longo do seu ciclo de vida.</p>
<p><strong>Sendo a indústria cimenteira responsável por uma fatia relevante das emissões globais de CO₂, quais são hoje os maiores obstáculos à descarbonização do setor?</strong></p>
<p>A indústria cimenteira enfrenta desafios específicos na descarbonização porque as suas emissões têm duas origens distintas: combustão e processo.<br />
No caso da combustão, que são cerca de 40% das emissões associadas ao consumo energético dos combustíveis, podem ser endereçadas através de projetos de eficiência energética e inovação industrial. É o caso da nossa fábrica no Outão, a que chamamos Clean Cement Line (CCL), que aposta na redução do consumo de energia; na substituição progressiva de combustíveis fósseis por combustíveis alternativos; e na produção própria de energia.</p>
<p>Os restantes 60% das emissões resultam do próprio processo químico de produção do clínquer, inerente à transformação do calcário, e não podem ser eliminados apenas com ganhos de eficiência. A mitigação desta componente exige desde a produção de cimentos com menor incorporação de clínquer, até ao desenvolvimento e a implementação de novas tecnologias, nomeadamente soluções de captura, utilização e armazenamento de carbono (CCUS).</p>
<p>A descarbonização do setor passa, assim, por uma abordagem integrada e progressiva, combinando eficiência energética, inovação tecnológica e investimento em soluções estruturais que permitam reduzir significativamente a pegada carbónica do cimento no longo prazo.</p>
<p><strong>O projeto Clean Cement Line, no Outão, tem sido apontado como um exemplo de boas práticas a nível europeu. O que distingue este projeto de outras unidades industriais mais convencionais?</strong></p>
<p>O Clean Cement Line, no Outão, ainda em fase de otimização, distingue-se por representar uma transformação profunda do processo produtivo. É o resultado de um investimento estratégico da Secil na modernização industrial, com foco na eficiência energética, na redução da pegada carbónica e na preparação da indústria para os desafios futuros.</p>
<p>Hoje, é considerada uma das unidades de produção de cimento mais sustentáveis da Europa. O projeto irá permitir reduzir cerca de 20% das emissões de CO₂ e do consumo de energia térmica, aumentando a autonomia energética da unidade. Cerca de 30% da eletricidade consumida será produzida internamente, através de sistemas de recuperação de calor do processo produtivo (Waste Heat Recovery) e da integração de energia solar térmica.</p>
<p>O projeto permite uma elevada taxa de utilização de combustíveis alternativos, em detrimento dos combustíveis fósseis, bem como a introdução de materiais substitutos do clínquer, produzindo um Low Carbon Clinker, contribuições essências para o decréscimo das emissões.</p>
<p>A forte aposta na digitalização, no controlo avançado do processo e na valorização de subprodutos reforça uma lógica de economia circular, tornando o CCL uma verdadeira plataforma de inovação industrial. Esta abordagem será agora replicada na nossa unidade da Maceira, através do projeto ProFuture, financiado ao abrigo do PRR.</p>
<p><strong>A redução de cerca de 20% nas emissões de CO₂ e no consumo de energia foi um objetivo desde o início ou um resultado que acabou por superar as expectativas?</strong></p>
<p>Foi um objetivo assumido desde o início. A modernização da fábrica teve precisamente como ponto de partida responder a essa ambição: tornar o processo de produção mais eficiente, reduzindo a sua pegada carbónica sem comprometer a fiabilidade industrial. Este investimento enquadra-se nos compromissos de descarbonização assumidos pela Secil a nível europeu e global.</p>
<p>A possível redução de 20% das emissões de CO₂ dá-nos esperança na capacidade de transformar a indústria pesada. O CCL demonstra que este é um caminho de melhoria contínua, que a Secil pretende aprofundar, tornando os seus processos cada vez mais eficientes e sustentáveis. Por isso o projeto vai ser replicado na Maceira.</p>
<p><strong>Uma parte significativa da energia utilizada na fábrica é assegurada através da recuperação de calor e de energia solar térmica. Que vantagens concretas trouxe esta aposta na produção própria de energia?</strong></p>
<p>A recuperação de calor permite valorizar energia que é inerente ao processo de produção de cimento e que, de outra forma, seria perdida, convertendo-a em eletricidade utilizável no próprio sistema produtivo. A integração de energia solar térmica, aplicada sobretudo à secagem de matérias-primas e combustíveis alternativos, reforça esse aproveitamento e contribui para uma utilização mais racional dos recursos disponíveis.</p>
<p>Esta aposta reforça a autonomia energética da unidade, reduz a exposição à volatilidade dos mercados energéticos e contribui para uma operação mais previsível, eficiente e com menor impacto ambiental.</p>
<p><strong>Na prática, que contributo pode dar um projeto como o CCL para o cumprimento das metas nacionais e europeias de neutralidade carbónica até 2050?</strong></p>
<p>Ao reduzir de forma significativa as emissões de CO₂ e o consumo energético numa unidade industrial de grande escala, o Clean Cement Line (CCL) contribui diretamente para o cumprimento das metas intermédias definidas para 2030, que são determinantes para a trajetória de neutralidade carbónica até 2050.</p>
<p>Este projeto está alinhado com os roteiros nacionais e internacionais de descarbonização do setor, nomeadamente pela ATIC, GCCA e Cement Europe. Em paralelo, o CCL materializa os compromissos de redução de emissões assumidos pela Secil, incluindo a meta aprovada pela Science Based Targets initiative (SBTi), que prevê uma redução de 30,4% das emissões do Grupo Secil até 2030, face a 2020.</p>
<p>Mais do que um projeto isolado, o CCL funciona como um case study replicável, permitindo escalar soluções tecnológicas e operacionais que podem ser aplicadas noutras unidades e contextos industriais, acelerando a descarbonização do setor como um todo.</p>
<p><strong>Para além da eficiência dos processos industriais, a Secil tem vindo a desenvolver produtos mais sustentáveis, nomeadamente ao nível do betão. Que mudanças estão a ser introduzidas e que impacto podem ter no setor da construção?</strong></p>
<p>Não basta tornar o processo produtivo mais eficiente do ponto de vista ambiental, é essencial que essa evolução também se reflita no que colocamos no mercado. A estratégia da Secil passa por melhorar de forma contínua toda a cadeia de valor, desde a produção até ao produto final.</p>
<p>Neste sentido, temos vindo a desenvolver novas gamas de cimentos low-carbon e betões otimizados, com menor pegada ambiental e melhor desempenho ao longo do ciclo de vida. Paralelamente, apostamos em soluções inovadoras como a construção modular, através da KREAR, joint venture entre a Secil e o Grupo Casais, a impressão 3D e o betão sensorizado, que permitem reduzir desperdícios, acelerar processos construtivos e melhorar a monitorização e a manutenção das estruturas, respondendo a desafios cada vez mais relevantes no setor da construção.</p>
<p>A inovação estende-se também às formulações que temos vindo a otimizar através da integração de ferramentas digitais, inteligência artificial e análise de big data para ajustar os materiais em tempo real às exigências específicas de cada projeto, garantindo maior durabilidade, melhor desempenho técnico e um menor impacto ambiental ao longo do ciclo de vida.</p>
<p>Temos estado também a trabalhar em projetos com maior grau de complexidade técnica, como é o caso da plataforma flutuante em betão que desenvolvemos em parceria com a Etermar Energia, no âmbito da Aliança para a Transição Energética. Trata-se de um projeto que evidencia o potencial do betão enquanto material estratégico para soluções associadas às energias renováveis e à construção em ambiente marítimo. A sua relevância tem vindo a ser reconhecida internacionalmente, tendo sido destacada na Expo Osaka 2025, no Japão, e apresentada no evento Business2Sea, em Matosinhos.</p>
<p><strong>Os clientes e parceiros da Secil estão hoje mais atentos às questões ambientais? Tem sentido uma maior procura por soluções com menor pegada carbónica?</strong></p>
<p>Hoje existe uma consciência muito mais alargada sobre a importância da preservação ambiental, que atravessa a sociedade como um todo e se reflete, naturalmente, no setor da construção. Os clientes estão mais informados e atentos ao impacto ambiental dos materiais que utilizam, o que se traduz numa procura crescente por soluções com menor pegada carbónica e maior transparência na informação.</p>
<p>No caso da Secil, esta evolução é visível no dia a dia, através de um interesse crescente por cimentos e betões mais sustentáveis, mas também por dados objetivos que suportem as decisões. Para que a sustentabilidade seja comunicada como um atributo, como acontece já há muito tempo com a qualidade, a transparência e o rigor são essenciais.  Exemplo disso são as Declarações Ambientais de Produto (DAP), que a Secil disponibiliza em todas as áreas de negócio, permitindo aos clientes avaliar o desempenho ambiental dos produtos com base em informação verificada e comparável. Além disso, a certificação ambiental ISO 14001 das fábricas de cimento e das centrais de betão reflete um compromisso contínuo com a gestão ambiental, a melhoria dos processos e a redução dos impactos associados à atividade industrial.</p>
<p>Esta procura não se limita a grandes projetos ou ao cumprimento de requisitos regulamentares. Resulta também de uma mudança gradual de mentalidade, em que a sustentabilidade passa a ser encarada como um critério relevante de decisão, a par do desempenho técnico, da durabilidade e da segurança, reforçando a importância de uma abordagem baseada em dados e no ciclo de vida dos materiais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A transição energética na indústria pesada exige investimento significativo. Que papel devem ter as políticas públicas e os mecanismos de apoio neste processo?</strong></p>
<p>As políticas públicas têm um papel essencial na criação de condições que permitam às empresas avançar com projetos de descarbonização de grande escala.</p>
<p>É fundamental garantir enquadramentos regulatórios estáveis, previsíveis e alinhados com os objetivos climáticos, assim como mecanismos de financiamento eficazes, que reconheçam o esforço de inovação e a complexidade destes investimentos. Instrumentos como fundos europeus, financiamento verde ou programas de apoio à inovação são determinantes para acelerar a adoção de novas tecnologias, assegurar a competitividade da indústria europeia e permitir que setores que consomem muita energia contribuam para as metas de neutralidade carbónica.</p>
<p><strong>Olhando para o futuro, como antevê a evolução da indústria cimenteira e que papel pretende a Secil assumir nesse caminho?</strong></p>
<p>A indústria cimenteira está a entrar numa nova fase de transformação, marcada pela aceleração da descarbonização e pela integração crescente de inovação tecnológica. A evolução do setor passará por processos produtivos mais eficientes, pela redução contínua da intensidade carbónica dos materiais, pela incorporação de soluções de economia circular e pelo desenvolvimento de produtos mais duráveis e adaptados a novos contextos construtivos.</p>
<p>Nesse caminho, a Secil pretende assumir um papel ativo, contribuindo de forma consistente para a transformação do setor. Para isso, continuará a investir na modernização das suas unidades industriais, na inovação ao longo da cadeia de valor e no desenvolvimento de soluções com menor impacto ambiental. Paralelamente às medidas já em implementação, a captura, utilização e armazenamento de carbono (CCUS) será uma tecnologia determinante para endereçar as emissões residuais associadas ao processo produtivo.</p>
<p>Tal como tem vindo a ser discutido no setor, nomeadamente na recente Conferência PT Carbon Link, o CCUS é encarado como uma solução de médio e longo prazo, que complementa as soluções já em curso. Esta solução será fundamental para alcançar a neutralidade carbónica, mas terá de ver garantidas as condições que viabilizem a concretização do investimento, nomeadamente no desenvolvimento da infraestrutura de transporte do carbono capturado e locais para o armazenamento do mesmo.</p>
<p>O objetivo da Secil é afirmar o cimento e o betão como materiais essenciais para a construção de infraestruturas mais sustentáveis, resilientes e alinhadas com os desafios do futuro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
