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	<title>Entrevistas &#8211; Green Savers</title>
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	<description>Notícias sobre sustentabilidade, ambiente, alterações climáticas, biodiversidade, florestas, finanças verdes, empresas, economia, ODS</description>
	<lastBuildDate>Fri, 21 Aug 2026 10:30:29 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Entrevistas &#8211; Green Savers</title>
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		<title>Entrevista a Ana Calhôa: “A transição energética será tanto mais eficaz quanto mais diversificado for o seu mix de soluções”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ana Filipa Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Aug 2026 07:02:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Ana Calhôa]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
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					<description><![CDATA[Ana Calhôa, Secretária-Geral da Associação de Bioenergia Avançada (ABA), faz o balanço de sete anos de evolução do setor e aponta os desafios para a próxima década.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="isSelectedEnd">Em sete anos, a bioenergia avançada deixou de ocupar um lugar relativamente marginal no debate energético português para assumir um papel cada vez mais relevante na descarbonização. Para Ana Calhôa, Secretária-Geral da Associação de Bioenergia Avançada (ABA), esta evolução resulta não só da diversificação das soluções disponíveis, mas também da crescente valorização de resíduos e subprodutos como recursos energéticos. Com mais de 25 associados e uma cadeia de valor em consolidação, a ABA considera que o setor já demonstrou capacidade para contribuir de forma concreta para a transição energética, sobretudo em áreas onde a eletrificação enfrenta maiores limitações, como o transporte pesado, a aviação, o transporte marítimo e a indústria.</p>
<p>Olhando para a próxima década, a dirigente defende um quadro regulatório mais estável e previsível, a conclusão da transposição da RED III, o reforço do mercado do biometano e uma maior utilização da capacidade industrial instalada em Portugal. O objetivo é transformar o potencial existente em produção, investimento e valor dentro do país, aproveitando recursos endógenos e criando novas cadeias de valor, emprego e dinamização dos territórios. Em 2035, Ana Calhôa gostaria de ver a bioenergia avançada plenamente integrada na matriz energética nacional e Portugal a apresentar resultados concretos, deixando de discutir apenas o potencial destas soluções para passar a afirmar-se como um exemplo nesta área.</p>
<p><strong>A Associação de Bioenergia Avançada assinala sete anos de atividade. Que balanço faz da evolução da bioenergia avançada em Portugal desde a criação da associação? O que é que mudou de forma mais significativa?</strong></p>
<p>O setor da bioenergia avançada mudou significativamente nos últimos sete anos. Se recuássemos a 2019, dificilmente o encontraríamos entre os principais temas da política energética portuguesa. Uma das mudanças mais relevantes verifica-se na diversificação das matérias-primas utilizadas na produção e importação de biocombustíveis, com uma valorização crescente de resíduos, subprodutos e matérias-primas avançadas. Esta evolução trouxe para o centro do setor uma lógica mais circular, em que resíduos que antes eram vistos sobretudo como um problema de gestão passam a ser encarados como recursos com valor energético. Ao mesmo tempo, assistimos a uma diversificação das próprias soluções, com os biocombustíveis líquidos avançados a coexistirem com o crescimento de outras alternativas gasosas, como é o caso do biometano e do hidrogénio verde, e com novas aplicações em diferentes setores da economia.</p>
<p><strong>Quando a ABA foi criada, a bioenergia avançada era ainda um tema relativamente pouco presente no debate público. Hoje, considera que existe um maior reconhecimento do seu papel na transição energética? O que contribuiu para essa mudança?</strong></p>
<p>Sim, sem dúvida. Foi nesse contexto que a associação surgiu, em 2019, com a missão de dar maior expressão a um setor que, à época, ainda procurava o seu lugar no debate energético nacional. Havia uma necessidade de dar a conhecer o potencial da bioenergia avançada, de aproximar a indústria e os seus principais <em>players</em> dos decisores políticos e também de esclarecer a sociedade civil sobre esta fonte de energia até aqui pouco conhecida ou compreendida. Nos últimos anos, esse cenário mudou. A definição de metas de incorporação de energias renováveis no consumo cada vez mais ambiciosas, tanto a nível europeu como nacional, veio dar maior visibilidade à bioenergia avançada enquanto a indústria começava a dar os seus primeiros passos no mercado português. O desenvolvimento de novos projetos e a maturidade crescente de tecnologias incorporadas ajudaram a demonstrar que não estamos perante uma solução de futuro, mas sim uma já consolidada e com impacto imediato na redução das emissões.</p>
<p>Hoje, é mais claro o contributo que os biocombustíveis avançados, tanto líquidos como gasosos, podem dar à descarbonização de setores onde o leque de alternativas continua a ser limitado, como o transporte pesado, a aviação, o setor marítimo ou a indústria. O crescimento de projetos de escala em Portugal e o desenvolvimento da fileira do biometano, em particular, são sinais dessa evolução. A própria consolidação da ABA, que passou de quatro fundadores para mais de 25 associados, acompanhando toda a cadeia de valor, é também reflexo deste percurso.</p>
<p><strong>Nos últimos anos, Portugal aprovou novos instrumentos estratégicos e legislativos para acelerar a descarbonização. De que forma esse enquadramento político e regulatório tem influenciado o desenvolvimento da bioenergia avançada?</strong></p>
<p>O enquadramento político e regulatório tem sido determinante para o desenvolvimento da bioenergia avançada em Portugal, sobretudo porque estes instrumentos podem dar maior previsibilidade à procura e definir uma trajetória de crescimento para o setor. Estes instrumentos legislativos funcionam como uma bússola que orienta o setor e permitem construir o caminho com maior ou menor previsibilidade e estabilidade. Quanto mais claro e transparente o enquadramento for, maior confiança é dada aos investidores e aos operadores para o desenvolvimento do setor.</p>
<p>Por isso, a definição de metas obrigatórias de incorporação de biocombustíveis avançados e biogás, a par das metas estabelecidas no PNEC e do reforço da ambição europeia através da RED II (e consequentemente da RED III), ajudam a criar um sinal claro para o mercado e para os investidores. Também os novos enquadramentos para setores como a aviação e o transporte marítimo vieram reforçar o papel destas soluções em áreas onde a eletrificação continua a enfrentar limitações. O resultado é visível na evolução do mercado: em 2025, segundo o nosso relatório anual, foram colocadas no mercado nacional 685 759 toneladas de biocombustíveis, sendo que mais de 360 mil toneladas vieram de produção nacional.</p>
<p><strong>A transposição da Diretiva RED III continua a ser aguardada. Que aspetos considera fundamentais para que esse diploma possa criar condições favoráveis ao investimento e ao crescimento do setor?</strong></p>
<p>A transposição da RED III é uma oportunidade importante para consolidar o caminho que tem vindo a ser feito no setor e, sobretudo, para criar as condições de previsibilidade de que investidores e operadores necessitam. No entanto, para que isso aconteça, é necessário que o diploma estabeleça, mais do que metas claras e transparentes, um calendário previsível para a incorporação de biocombustíveis nos diferentes setores e que reconheça de forma autónoma o contributo destas soluções para a descarbonização da economia. É também importante que este enquadramento permita uma maior aposta nas diferentes soluções de bioenergia disponíveis, desde a utilização de misturas mais ricas de biocombustíveis e do HVO nos transportes ao desenvolvimento do biometano, tendo em conta as necessidades e especificidades de cada setor. Isto só é possível se conseguirmos simplificar processos, criarmos mecanismos de apoio e incentivos fiscais, bem como se formos capazes de assegurar uma articulação eficaz entre as diferentes entidades envolvidas. Só com um quadro regulatório claro e estável é possível dar aos operadores a confiança necessária para tomar decisões de investimento com horizontes a médio e longo prazo.</p>
<p><strong>O Plano de Ação para o Biometano é frequentemente apontado como um passo importante para valorizar recursos endógenos e reduzir a dependência energética. Que potencial vê para esta fileira em Portugal e quais são ainda os principais obstáculos ao seu desenvolvimento?</strong></p>
<p>Vejo este potencial refletido em duas dimensões principais. A primeira está relacionada com a redução da dependência energética do exterior: ao valorizar recursos endógenos, o biometano contribui para reforçar a segurança e a autonomia energética do país. A segunda prende-se com a possibilidade de integrar o biometano na infraestrutura de gás existente, permitindo descarbonizar a economia sem exigir a substituição imediata de toda essa infraestrutura. E esta possibilidade tem um impacto significativo em termos ambientais, mas também económicos. É algo particularmente relevante num contexto em que diferentes setores avançam a ritmos distintos na transição energética.</p>
<p>Mas é, naturalmente, uma fileira ainda em fase de consolidação, que começa agora a ganhar maior expressão em Portugal. Persistem desafios relacionados com o licenciamento, a ligação à rede, a certificação e a previsibilidade necessária para concretizar novos projetos e unidades de produção. Ainda assim, o setor tem vindo a conquistar o seu espaço e a demonstrar uma evolução muito concreta. Um dos principais marcos e conquistas aconteceu, por exemplo, este ano, com a primeira emissão de Garantias de Origem (GO) para biometano produzido em Portugal, pela REN, em Aljustrel. É um passo importante para a afirmação desta solução no mercado nacional, pois permite comprovar a origem renovável da energia produzida e criar melhores condições para a sua valorização.</p>
<p><strong>Segundo o relatório semestral da ABA, os biocombustíveis avançados representaram, em 2025, mais de 685 mil toneladas equivalentes de petróleo. O que revelam estes números sobre a maturidade do setor e até onde é possível crescer?</strong></p>
<p>Revelam, primeiramente, que já não falamos apenas de uma solução residual, mas de um volume significativo que é efetivamente incorporado no mercado nacional. Significa isto que a bioenergia avançada ganhou escala e que existe já uma procura concreta por estas soluções. Mas o dado mais importante, a meu ver, é o facto de que esta evolução tem sido acompanhada por uma mudança estrutural do próprio mercado: os biocombustíveis produzidos a partir de matérias-primas avançadas representam hoje a maioria das matérias-primas utilizadas, refletindo uma transição para soluções assentes na valorização de resíduos e subprodutos.</p>
<p>Quanto ao potencial de crescimento, há ainda uma margem muito significativa, sobretudo do lado da produção nacional. O mercado já demonstrou que existe procura e interesse. O desafio passa por conseguir responder-lhe com mais ambição. Portugal tem uma capacidade industrial bastante expressiva, mas não tiramos ainda pleno proveito desta capacidade. Precisamos, por isso, aumentar a recolha e valorização de resíduos, desenvolver novas unidades de produção e, principalmente, biorrefinarias de segunda geração, mas também precisamos de criar condições regulatórias que deem segurança e previsibilidade a estes investimentos.</p>
<p><strong>Um dos argumentos mais frequentemente associados à bioenergia avançada é a valorização de resíduos e subprodutos. Até que ponto esta pode ser uma ferramenta relevante para promover uma economia mais circular em Portugal?</strong></p>
<p>A valorização de resíduos e subprodutos pode ser uma das ferramentas mais concretas para acelerar a economia circular em Portugal, porque permite transformar esses excedentes que muitas vezes são encarados como um problema de gestão num recurso com valor energético. Aliás, esta é a própria premissa de um modelo mais circular. Resíduos agrícolas, florestais, urbanos e industriais que, de outra forma, poderiam ser incorretamente descartados ou desperdiçados, podem ser convertidos em fontes de energia, reduzindo simultaneamente a utilização de matérias-primas de origem fóssil. O próprio percurso do setor demonstra este potencial, sendo que, segundo o nosso último relatório anual, as matérias-primas avançadas (AVA) e os Óleos Alimentares Usados (OAU) representam já 97% dos recursos utilizados na produção nacional de biocombustíveis e 90% das matérias-primas e subprodutos associados à importação de biocombustíveis.</p>
<p>Mas o verdadeiro potencial desta lógica vai muito além da bioenergia avançada. Quando falamos de economia circular, falamos também da capacidade de criar cadeias de valor nacionais, em que a recolha, o tratamento e a transformação de resíduos podem gerar atividade económica, criar novos postos de emprego e trazer valor acrescentado para a economia portuguesa. Ao mesmo tempo, ao apostarmos num modelo económico mais circular, estamos simultaneamente a reduzir a dependência de recursos e de energia importados. É uma forma de tornar o país mais resiliente e de aproveitar melhor os recursos endógenos, em vez de continuarmos a depender do exterior para responder a necessidades energéticas que podem ser parcialmente satisfeitas através de soluções nacionais.</p>
<p><strong>A eletrificação é frequentemente apresentada como a principal solução para a descarbonização dos transportes. Que papel devem desempenhar os combustíveis renováveis e a bioenergia avançada neste processo, sobretudo nos setores mais difíceis de eletrificar?</strong></p>
<p>Costumo dizer que Portugal está a avançar a velocidades diferentes nesta missão de descarbonizar e que, para que a transição energética seja eficaz, resiliente e equilibrada do ponto de vista ambiental e económico, não podemos depender apenas de uma única solução. A eletrificação terá, naturalmente, um papel relevante, mas não será suficiente para responder a todas as necessidades. É sobretudo nos setores mais difíceis de eletrificar, como o transporte pesado e de mercadorias, a aviação, o transporte marítimo e a indústria, que os combustíveis renováveis e a bioenergia avançada podem desempenhar um papel determinante. São setores com necessidades específicas de autonomia, desempenho e densidade energética que tornam a eletrificação mais complexa.</p>
<p>A bioenergia avançada tem ainda a vantagem de poder ser integrada nas infraestruturas e nos equipamentos existentes, permitindo reduzir emissões sem exigir uma substituição imediata de toda a frota ou infraestrutura energética. É uma solução madura e com impacto imediato na descarbonização, enquanto outras soluções tecnológicas continuam a ganhar escala. Não se trata, por isso, de colocar a eletrificação e a bioenergia em oposição, mas sim de as tornar complementares. A transição energética será tanto mais eficaz quanto mais diversificado for o seu <em>mix</em> de soluções, permitindo descarbonizar diferentes setores ao ritmo a que cada um consegue evoluir e evitando que os custos e as limitações de uma única tecnologia condicionem o processo como um todo.</p>
<p><strong>Portugal tem condições para se afirmar como um produtor relevante de combustíveis renováveis e de biometano ou corre o risco de ficar dependente de tecnologia e produção desenvolvidas noutros mercados?</strong></p>
<p>Portugal tem condições para se afirmar como um importante polo de produção de bioenergia avançada, mas esse potencial exige maior investimento e, sobretudo, uma melhor utilização da capacidade que já temos instalada. Atualmente, utilizamos menos de 40% da capacidade total disponível para a produção de biocombustíveis, o que significa que existe ainda uma margem significativa para crescer sem partir necessariamente do zero. Temos recursos endógenos, conhecimento técnico, capacidade industrial e uma cadeia de valor, com diferentes operadores, que se tem consolidado de forma muito significativa nos últimos anos. O desafio está em transformar esta base numa maior capacidade produtiva e num maior número de projetos à escala nacional. E é aqui que continuamos a encontrar alguns dos principais obstáculos, nomeadamente desafios regulatórios.</p>
<p>Precisamos, por isso, de criar condições para transformar os recursos e capacidade instalada em energia e valor dentro do país. Isso passa, principalmente, por garantir um quadro regulatório estável e previsível, capaz de sustentar decisões de investimento a médio e longo prazo. Na ABA, defendemos as misturas mais ricas e metas mais ambiciosas precisamente porque acreditamos que são um instrumento para criar essa dinâmica e dar maior escala ao setor.</p>
<p><strong>Para além da redução das emissões, que impacto económico poderá o desenvolvimento da bioenergia avançada ter em termos de investimento, criação de emprego e dinamização dos territórios?</strong></p>
<p>Mencionei anteriormente o potencial da bioenergia avançada na criação de emprego. O desenvolvimento de novas unidades de produção e biorrefinarias cria oportunidades de trabalho em várias frentes, desde a recolha e gestão de resíduos agrícolas e florestais até à operação industrial, investigação e desenvolvimento e certificação, contribuindo para a criação de emprego mais qualificado. Mas, para mim, a dinamização dos territórios é uma das dimensões mais relevantes deste impacto.</p>
<p>Muitos dos resíduos que podem alimentar esta fileira estão distribuídos por todo o território nacional, o que permite levar a atividade económica e o emprego qualificado que resultam do investimento no setor para fora dos grandes centros urbanos e contribuir, desta forma, para a fixação de população em territórios de baixa densidade. Estamos perante um modelo de produção que é essencialmente mais descentralizado e que cria um efeito multiplicador de investimento, inovação e atividade económica em torno de cada unidade. É uma oportunidade concreta para valorizar recursos locais, criar novas cadeias de valor e contribuir para combater a desertificação do interior.</p>
<p><strong>Ao longo destes sete anos, a ABA tem procurado aproximar decisores políticos, indústria e comunidade científica, nomeadamente através da B+Summit. Considera que o diálogo entre estes diferentes atores é hoje mais sólido ou continuam a existir barreiras que dificultam a implementação de projetos?</strong></p>
<p>Sim, considero que esse diálogo é hoje mais sólido e mais estruturado do que era há sete anos. Existe hoje uma maior proximidade entre empresas, decisores políticos, reguladores e comunidade científica, e espaços como a B+Summit, que já organizamos tanto a nível nacional como europeu e com várias edições, têm sido importantes precisamente para criar esse ponto de encontro e permitir uma discussão mais informada sobre os desafios e oportunidades da bioenergia avançada. Essa dimensão de diálogo estende-se também ao contexto europeu, através da cooperação da ABA com algumas das principais associações que representam o setor dos biocombustíveis líquidos e gasosos, como a EWABA – European Waste-based &amp; Advanced Biofuels Association e a European Biogas Association. Esta ligação permite-nos acompanhar mais de perto a evolução das políticas europeias, partilhar conhecimento e trazer para Portugal experiências e perspetivas de outros mercados. Para a ABA, este trabalho de aproximação sempre foi uma parte essencial da nossa missão.</p>
<p>Dito isto, é natural que existam ainda barreiras que dificultam o desenvolvimento do setor. Continuamos a precisar de que este diálogo se traduza em processos mais céleres e numa maior articulação entre entidades e operadores. É também por isso que continuamos a investir em iniciativas como a B+Summit e, mais recentemente, os <em>Brinner Talks</em>, que são encontros trimestrais, organizados pela ABA e pelos seus associados, nos quais se promove a reflexão e o debate sobre o papel da bioenergia avançada na matriz energética nacional. Mais do que criar espaços de diálogo, queremos aproximar diferentes intervenientes, dentro e fora de Portugal, e contribuir para um setor mais informado, resiliente e conectado.</p>
<p><strong>Que lições retirou a associação destes sete anos de atividade e de que forma essas aprendizagens influenciam as prioridades para a próxima década?</strong></p>
<p>Uma das principais lições que se retira destes sete anos é que uma atuação consistente e articulada entre empresas, academia, reguladores e decisores políticos pode gerar resultados concretos. Quando existe uma representação organizada e um trabalho continuado, é possível dar maior visibilidade ao setor e reforçar a sua influência no debate político. A própria razão de ser da ABA nasceu dessa necessidade. Depois, por outro lado, aprendemos que promover a literacia sobre o setor é um trabalho que não se extingue apenas no público em geral, mas também engloba empresas e entidades representativas. A necessidade de esclarecer e desmistificar os diferentes conceitos abrangidos pela bioenergia avançada e de demonstrar também o crescimento do setor é fundamental e requer de nós, associações e empresas do setor, um investimento extra.</p>
<p>É por isso que, na ABA, dinamizamos, entre outras iniciativas, um relatório anual, onde reunimos e analisamos os principais dados e indicadores do setor, procurando dar uma visão rigorosa sobre a sua evolução e contribuir para um debate mais informado. Este objetivo de contribuir para a literacia do setor é algo que ambicionamos continuar na próxima década. Felizmente, temos hoje um debate mais estruturado, mas isso não significa que todos os conceitos estejam consolidados ou que o conhecimento sobre o setor seja transversal. À medida que surgem novas tecnologias e novos enquadramentos regulatórios, surge também a necessidade de continuar a esclarecer e a aproximar estes temas de diferentes públicos. É um trabalho que não tem fim e que queremos continuar a fazer, com cada vez mais rigor e informação.</p>
<p><strong>Se tivesse de identificar três medidas prioritárias para acelerar o desenvolvimento da bioenergia avançada em Portugal, quais seriam?</strong></p>
<p>A primeira seria, sem dúvida, concluir a transposição da RED III para o enquadramento nacional, com obrigações robustas e específicas de incorporação de biocombustíveis avançados, líquidos e gasosos. Precisamos de metas claras e previsíveis para orientar o desenvolvimento do setor. Depois, destacaria a importância de reforçarmos o mercado do biometano, criando melhores condições para a ligação à rede e para a sua integração no mercado energético. Precisamos de um enquadramento estável e previsível que dê confiança aos operadores e investidores e permita acelerar a concretização dos projetos. E, por fim, a necessidade de reforçar a produção nacional, aproveitando melhor a capacidade industrial que já temos instalada e criando condições para novos projetos e unidades de produção. Se conseguirmos conjugar estabilidade regulatória, mecanismos de mercado funcionais e capacidade produtiva, podemos transformar a bioenergia avançada num ativo estratégico para a autonomia energética e para a competitividade da economia portuguesa.</p>
<p><strong>Olhando para 2035, como gostaria que fosse o setor da bioenergia avançada em Portugal? Que metas considera realistas e que papel espera que a ABA continue a desempenhar nesse percurso?</strong></p>
<p>Em 2035, gostaria de ver a bioenergia avançada totalmente integrada na matriz energética nacional, com maior capacidade para responder à procura interna e com uma produção nacional mais forte e competitiva. Gostaria de ver essa evolução traduzida, por exemplo, em aviões a utilizar SAF produzido a partir de matérias-primas sustentáveis, mais embarcações movidas a biocombustíveis e uma maior incorporação de biocombustíveis avançados no transporte rodoviário, através de misturas mais ricas. Tudo isto acompanhado por uma utilização mais eficiente da capacidade industrial que já temos, pela entrada em funcionamento de novas unidades de produção e pelo desenvolvimento de projetos de maior escala.</p>
<p>No caso do biometano, em concreto, considero realista a ambição de termos uma fileira plenamente consolidada, com uma rede de projetos distribuída pelo território e capaz de aproveitar de forma mais eficiente os resíduos agrícolas, pecuários, urbanos e agroindustriais disponíveis. O PAB estabelece já uma trajetória concreta de crescimento, sendo possível aumentar de forma significativa o peso do biometano na substituição do gás natural. Para 2035, seria desejável que estivéssemos a meio desse caminho, com os projetos necessários já em funcionamento e outros em fase avançada de concretização.</p>
<p>Quanto ao papel da ABA, gostaria que continuássemos a ser, cada vez mais, uma voz representativa do setor, mas também um agente ativo na promoção de conhecimento e diálogo, contribuindo para que a ambição e as metas definidas possam traduzir-se em resultados concretos e palpáveis. Se hoje estamos sobretudo a discutir o potencial da bioenergia avançada, gostaria que em 2035 estivéssemos a discutir os resultados concretos que Portugal conseguiu alcançar e o exemplo que podemos ser para outros países nesta área.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Entrevista: “A verdadeira questão já não é quanto custa investir em sustentabilidade, mas sim quanto custa ignorá-la”</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/entrevista-a-verdadeira-questao-ja-nao-e-quanto-custa-investir-em-sustentabilidade-mas-sim-quanto-custa-ignora-la/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Filipa Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 18 Aug 2026 09:01:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<category><![CDATA[sustentabilidade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://greensavers.sapo.pt/?p=303096</guid>

					<description><![CDATA[Para Bárbara Bouçon, Managing Director do district.space, integrar a sustentabilidade na estratégia é uma forma de criar valor, reduzir riscos e preparar as empresas para um contexto económico e social cada vez mais exigente.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="flex max-w-full flex-col gap-4 grow">
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<p class="isSelectedEnd">Em entrevista à Green Savers, Bárbara Bouçon, Managing Director do district.space explica que a sustentabilidade não pode ser tratada como um custo adicional ou como uma iniciativa pontual, devendo estar presente nas decisões que definem o negócio. No district.space, os princípios ESG estão integrados desde a origem e influenciam escolhas como as localizações, os parceiros, os materiais utilizados e os programas desenvolvidos para as comunidades.</p>
<p>Esta visão estende-se também à forma como os espaços de trabalho podem contribuir para uma utilização mais eficiente dos recursos e para a regeneração urbana. A empresa defende que impacto positivo e rentabilidade podem caminhar lado a lado, através de modelos que promovam a eficiência, atraiam talento, reforcem a ligação às comunidades e tornem as organizações mais resilientes. “A sustentabilidade não é um departamento nem um conjunto de indicadores. É a forma como gerimos o negócio todos os dias”, sublinha Bárbara Bouçon.</p>
<p class="PDq2pG_selectionAnchorContainer" data-start="342" data-end="518"><strong data-start="342" data-end="518">O district.space nasceu com critérios ESG integrados desde o início. Na prática, como é que esses princípios influenciam as decisões estratégicas e operacionais da empresa?</strong></p>
<p data-start="520" data-end="912">No district.space, os princípios ESG não foram acrescentados ao projeto numa fase posterior, fazem parte da sua criação e orientam todas as decisões estratégicas e operacionais. Influenciam a forma como escolhemos as localizações, os parceiros com quem trabalhamos, os materiais que utilizamos, os programas que desenvolvemos para a comunidade e até a forma como planeamos a expansão da rede.</p>
<p data-start="914" data-end="1449">Procuramos que cada novo espaço tenha um impacto positivo no território onde se insere, privilegiando práticas de economia circular, soluções que promovam a eficiência na utilização dos recursos e uma relação próxima com o tecido empresarial e associativo local. Mais do que minimizar impactos negativos, queremos contribuir para criar valor duradouro para as empresas, para as pessoas e para as cidades. Para nós, a sustentabilidade não é um departamento nem um conjunto de indicadores. É a forma como gerimos o negócio todos os dias.</p>
<p data-start="1451" data-end="1652"><strong data-start="1451" data-end="1652">Muitas organizações falam hoje de sustentabilidade, mas nem sempre conseguem traduzi-la em ações concretas. O que é que distingue uma estratégia sustentável genuína de uma mera ação de comunicação?</strong></p>
<p data-start="1654" data-end="2200">A diferença está na coerência entre aquilo que a organização comunica e a forma como toma decisões. Quando a sustentabilidade faz parte da estratégia, influencia escolhas estruturais do negócio, não depende de campanhas pontuais nem surge apenas para responder a exigências regulatórias. Por outro lado, uma estratégia sustentável exige compromisso de longo prazo e traduz-se em ações consistentes, mesmo quando estas implicam investimentos ou mudanças na forma de trabalhar. Aliás, é precisamente essa continuidade que lhe confere credibilidade.</p>
<p data-start="2202" data-end="2494">Hoje, colaboradores, investidores e clientes conseguem distinguir facilmente quando existe uma preocupação genuína e quando estamos apenas perante uma narrativa. A sustentabilidade deixou de ser uma questão reputacional para passar a ser um verdadeiro fator de confiança e de competitividade.</p>
<p data-start="2496" data-end="2667"><strong data-start="2496" data-end="2667">Ainda existe a ideia de que investir em sustentabilidade implica custos acrescidos. A sua experiência mostra que é possível conciliar impacto positivo e rentabilidade?</strong></p>
<p data-start="2669" data-end="2993">Sem dúvida. A verdadeira questão já não é quanto custa investir em sustentabilidade, mas sim quanto custa ignorá-la. Organizações mais eficientes na utilização dos recursos, capazes de atrair talento, responder às expectativas dos investidores e antecipar as exigências do mercado, tornam-se mais resilientes e competitivas.</p>
<p data-start="2995" data-end="3314">A sustentabilidade não deve ser encarada como um custo adicional, mas como uma forma de reduzir riscos e de criar valor a longo prazo – um valor que se manifesta em eficiência operacional, retenção de talento, confiança dos parceiros e capacidade de preparar o negócio para um contexto económico cada vez mais exigente.</p>
<p data-start="3316" data-end="3561">A nossa experiência demonstra que impacto positivo e rentabilidade não são objetivos incompatíveis. Pelo contrário, quando a sustentabilidade é integrada desde a génese de um projeto, torna-se um motor de crescimento e não um fator de limitação.</p>
<p data-start="3563" data-end="3722"><strong data-start="3563" data-end="3722">A dimensão ambiental tende a dominar o debate sobre ESG. Considera que os aspetos sociais e de governação continuam a receber menos atenção do que merecem?</strong></p>
<p data-start="3724" data-end="4286">Sim. A dimensão ambiental é essencial, mas não podemos esquecer que a sustentabilidade depende do equilíbrio entre os três pilares do ESG. Questões como a qualidade das condições de trabalho, a diversidade, a inclusão, a transparência, a ética ou a relação com as comunidades têm um impacto direto na capacidade das organizações criarem valor de forma sustentável. Um edifício energeticamente eficiente, por si só, não torna um projeto sustentável, se não contribuir para melhorar a experiência das pessoas ou gerar impacto positivo no território onde se insere.</p>
<p data-start="4288" data-end="4492">Nos próximos anos, acredito que as dimensões social e de governação ganharão um peso crescente, exatamente porque são determinantes para construir organizações mais resilientes e preparadas para o futuro.</p>
<p data-start="4494" data-end="4627"><strong data-start="4494" data-end="4627">De que forma é que os espaços de trabalho podem contribuir para reduzir a pegada ambiental das empresas e dos seus colaboradores?</strong></p>
<p data-start="4629" data-end="5134">Os espaços de trabalho podem desempenhar um papel muito relevante, porque permitem otimizar a utilização dos recursos e reduzir desperdícios. Modelos flexíveis evitam áreas subutilizadas, promovem uma ocupação mais eficiente dos edifícios e reduzem investimentos redundantes em infraestruturas. Ao mesmo tempo, decisões relacionadas com eficiência energética, reutilização de mobiliário, economia circular ou gestão inteligente dos consumos também contribuem para diminuir o impacto ambiental da operação.</p>
<p data-start="5136" data-end="5404">Existe, ainda, uma componente comportamental importante. Trabalhar diariamente num espaço onde todas estas práticas fazem parte da cultura promove a sensibilização dos utilizadores e incentiva hábitos mais responsáveis, tanto dentro como fora do contexto profissional.</p>
<p data-start="5406" data-end="5552"><strong data-start="5406" data-end="5552">A regeneração urbana é uma das apostas do district.space. Que papel pode desempenhar o setor privado na revitalização sustentável das cidades?</strong></p>
<p data-start="5554" data-end="6125">O setor privado tem um papel fundamental, porque reúne capacidade de investimento, inovação e execução. Quando este investimento é orientado por uma visão de longo prazo, pode ir muito além da recuperação física dos edifícios e contribuir para dinamizar a economia local, atrair novas empresas, criar emprego e reforçar a vitalidade das comunidades. Acreditamos que a regeneração urbana deve ser entendida como um processo integrado. Não basta reabilitar património, é necessário criar condições para que as pessoas queiram viver, trabalhar e investir nesses territórios.</p>
<p data-start="6127" data-end="6415">É esta lógica que procuramos aplicar no district.space. Cada unidade é pensada em função da realidade da cidade onde se insere, estabelecendo parcerias locais, promovendo iniciativas de impacto e contribuindo para criar ecossistemas de colaboração que perduram para além do espaço físico.</p>
<p data-start="6417" data-end="6522"><strong data-start="6417" data-end="6522">Como é que um espaço de cowork pode gerar impacto social positivo nas comunidades onde está inserido?</strong></p>
<p data-start="6524" data-end="6942">Um espaço de cowork pode ser muito mais do que um local de trabalho. Pode funcionar como uma plataforma de ligação entre empresas, empreendedores, instituições, associações e comunidade local. Ao promover programas de formação, eventos, parcerias com organizações da região e oportunidades de colaboração entre os seus membros, cria redes de conhecimento e de cooperação que dificilmente surgiriam de forma espontânea.</p>
<p data-start="6944" data-end="7097"><strong data-start="6944" data-end="7097">Sente que as empresas que procuram os vossos espaços estão hoje mais preocupadas com critérios de sustentabilidade do que há cinco anos? O que mudou?</strong></p>
<p data-start="7099" data-end="7529">Sem dúvida. Há cinco anos, a sustentabilidade era, frequentemente, encarada como um fator diferenciador, mas hoje começa a assumir-se como um verdadeiro critério de decisão. Os empresários têm dúvidas mais fundamentadas, procuram compreender as práticas ambientais e sociais dos espaços onde se instalam e valorizam organizações que consigam demonstrar compromisso, através de ações e práticas concretas e não apenas de intenções.</p>
<p data-start="7531" data-end="7972">Ao mesmo tempo, existe uma maior pressão por parte de investidores, clientes e colaboradores, que esperam níveis crescentes de responsabilidade, transparência e compromisso. Muitas organizações perceberam que estas questões têm um impacto muito direto e significativo na sua reputação, na capacidade de atrair talento e até na competitividade do negócio. Ainda existe caminho a percorrer, mas a mudança de mentalidade já é bastante evidente.</p>
<p data-start="7974" data-end="8132"><strong data-start="7974" data-end="8132">Na sua opinião, quais são os principais obstáculos que ainda impedem as empresas portuguesas de integrarem a sustentabilidade no centro da sua estratégia?</strong></p>
<p data-start="8134" data-end="8726">O principal obstáculo continua a ser a perceção de que a sustentabilidade representa apenas uma obrigação regulatória ou um centro de custos. Enquanto for encarada dessa forma, dificilmente será integrada nas decisões estratégicas da organização. Existe, também, alguma dificuldade em medir o impacto das iniciativas e em relacionar essas métricas com indicadores de negócio. Quando as empresas conseguem perceber que a sustentabilidade pode contribuir para aumentar a eficiência, reduzir riscos, atrair talento ou facilitar o acesso a investimento, a perspetiva altera-se significativamente.</p>
<p data-start="8728" data-end="9021">Mais do que falta de intenção, diria que muitas organizações ainda enfrentam um desafio de integração. A sustentabilidade não pode estar concentrada numa área específica, tem de fazer parte da cultura da empresa e envolver a liderança, porque só assim influencia a forma como o negócio cresce.</p>
<p data-start="9023" data-end="9178"><strong data-start="9023" data-end="9178">Face aos desafios climáticos e sociais atuais, que mudanças considera urgentes na forma como as organizações pensam o crescimento e a criação de valor?</strong></p>
<p data-start="9180" data-end="9515">Precisamos de ultrapassar uma visão de curto prazo centrada, exclusivamente, nos resultados financeiros. O crescimento continuará a ser essencial, mas terá de ser acompanhado por uma maior responsabilidade na utilização dos recursos, na valorização das pessoas e na forma como as organizações contribuem para os territórios onde atuam.</p>
<p data-start="9517" data-end="9739">As empresas mais competitivas serão aquelas que conseguirem integrar desempenho económico, impacto social e sustentabilidade ambiental numa única estratégia, deixando de tratar estas dimensões como objetivos independentes.</p>
<p data-start="9741" data-end="10139" data-is-last-node="" data-is-only-node="">No futuro, a criação de valor será cada vez mais medida pela capacidade das organizações gerarem confiança junto de colaboradores, investidores, clientes e comunidades. Essa confiança não se constrói apenas através do que as empresas dizem, mas sobretudo pelas decisões que tomam e pelo impacto que deixam. É essa visão integrada que fará a diferença nas organizações mais preparadas para o futuro.</p>
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		<item>
		<title>Entrevista: Autoridade dos Fundos Marinhos defende regras para mineração em mar profundo</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/entrevista-autoridade-dos-fundos-marinhos-defende-regras-para-mineracao-em-mar-profundo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Green Savers com Lusa]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jul 2026 09:11:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Autoridade dos Fundos Marinhos]]></category>
		<category><![CDATA[internacional]]></category>
		<category><![CDATA[mineração]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://greensavers.sapo.pt/?p=302338</guid>

					<description><![CDATA[“Estamos num momento histórico em que existe a possibilidade de procurar regular uma atividade antes do seu acontecimento”, sublinhou Letícia Carvalho, em entrevista à Lusa e ao Público, na 31.ª sessão da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA, na sigla em inglês), que decorre até sexta-feira em Kingston, Jamaica.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A secretária-geral da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos reconheceu que a regulação prévia da mineração em mar profundo não elimina os riscos nem as incertezas associadas à atividade, mas defendeu que constitui uma oportunidade única.</p>
<p class="text-paragraph">“Estamos num momento histórico em que existe a possibilidade de procurar regular uma atividade antes do seu acontecimento”, sublinhou Letícia Carvalho, em entrevista à Lusa e ao Público, na 31.ª sessão da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA, na sigla em inglês), que decorre até sexta-feira em Kingston, Jamaica.</p>
<p class="text-paragraph">Eleita em 2024, a brasileira Letícia Carvalho tornou-se a primeira mulher e a primeira cientista a liderar a ISA, assumindo como prioridades a gestão sustentável dos recursos e a proteção ambiental e a promoção da investigação científica.</p>
<p class="text-paragraph">Num momento em que a Autoridade prossegue os esforços para concluir o “Código de Mineração” que definirá as regras para a exploração comercial de minerais nos fundos marinhos internacionais, a responsável considerou que esse é o maior desafio que tem pela frente, mas é igualmente uma oportunidade.</p>
<p class="text-paragraph">“Ter a possibilidade de regular, vislumbrar os potenciais riscos e procurar antecipá-los com base na melhor ciência disponível no momento é uma oportunidade única na humanidade”, considerou.</p>
<p class="text-paragraph">No entanto, trata-se de uma atividade que decorrerá num ambiente ainda amplamente desconhecido.</p>
<p class="text-paragraph">Segundo um estudo publicado em 2024 na revista científica Science Advances, o conjunto das missões de observação direta realizadas até à data permitiu explorar menos de 0,001% do fundo dos oceanos.</p>
<p class="text-paragraph">Por isso, Letícia Carvalho admitiu que a ISA está a trabalhar com um grau de incerteza significativo e que nenhum código de mineração será “à prova de bala”.</p>
<p class="text-paragraph">“A pior alternativa é não ter regulação alguma e não ter um órgão regulador multilateral, porque aí passamos a um cenário em que cada um, dentro das suas próprias conceções e da sua própria visão de exploração, poderá servir-se desses recursos para o seu próprio benefício”, contrapôs.</p>
<p class="text-paragraph">Esse risco, acrescentou, põe igualmente em causa o “princípio mais importante do tratado” que reconhece que os recursos minerais da Área (designação dos fundos marinhos além de jurisdição nacional) são património comum da humanidade.</p>
<p class="text-paragraph">Apesar da incerteza associada à mineração em mar profundo, Letícia Carvalho considerou que outras indústrias podem oferecer lições, destacando em particular a mineração terrestre e a exploração de petróleo e gás ‘offshore’.</p>
<p class="text-paragraph">“A mineração terrestre tem inúmeros exemplos de uma imensa falta de cumprimento. Em todos os continentes, há exemplos em que os regulamentos não foram capazes de assegurar a devida proteção ambiental e eu acho que há muito a aprender com as falhas desse processo regulatório”, explicou.</p>
<p class="text-paragraph">Em contraste, a secretária-geral referiu a indústria da exploração de petróleo e gás ‘offshore’ como exemplo de um processo regulatório que foi, simultaneamente, um processo de aprendizagem, em que “regulador e regulado aprenderam de tal modo que, hoje, os incidentes são muito menores”.</p>
<p class="text-paragraph">Além do potencial impacto ambiental da mineração em mar profundo – que organizações ambientalistas e dezenas de países, incluindo Portugal, dizem não ser possível antecipar devido à falta de conhecimento, defendendo por isso uma “pausa precaucionária” – Letícia Carvalho reconheceu igualmente a possibilidade de “riscos intangíveis”.</p>
<p class="text-paragraph">“Estou a tentar trazer essa dimensão e legitimá-la dentro do debate”, afirmou, referindo-se aos impactos culturais, sobretudo para as comunidades com uma ligação ancestral ao oceano.</p>
<p class="text-paragraph">Num balanço da 31.ª sessão da ISA, Letícia Carvalho destacou como um dos principais avanços o consenso alcançado sobre um roteiro que não assenta num prazo, mas na identificação dos elementos ainda em falta.</p>
<p class="text-paragraph">Na resolução, o Conselho da ISA incumbe o Secretariado de preparar, para a 32.ª sessão, um roteiro que defina “as etapas necessárias para a adoção atempada das regras, regulamentos e procedimentos relativos à exploração, bem como uma lista indicativa atualizada das principais questões pendentes que exigem uma discussão temática adicional”.</p>
<p class="text-paragraph">Criada em 1994, quando entrou em vigor a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, a ISA reúne 171 países e a União Europeia.</p>
<p class="text-paragraph">
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Entrevista: “Se imaginarmos o prato de 2040, acredito que será simultaneamente mais tecnológico e mais próximo da natureza”</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/entrevista-se-imaginarmos-o-prato-de-2040-acredito-que-sera-simultaneamente-mais-tecnologico-e-mais-proximo-da-natureza/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Filipa Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jul 2026 08:01:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[2040]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<category><![CDATA[prato]]></category>
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					<description><![CDATA[Em entrevista à Green Savers, Manuela Pintado, diretora do Centro de Biotecnologia e Química Fina da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, explica como a ciência está a transformar os alimentos do futuro, conciliando saúde, sustentabilidade e inovação.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="isSelectedEnd">A alimentação do futuro está a ser desenhada muito para além da escolha de ingredientes. Para Manuela Pintado, compreender e controlar a estrutura dos alimentos à escala microscópica é hoje uma das áreas mais promissoras da inovação alimentar, permitindo desenvolver produtos com menos açúcar, sal e gordura, sem comprometer o sabor, a textura ou a experiência do consumidor. Esta abordagem abre também caminho a novas soluções para responder aos desafios do envelhecimento da população, da nutrição personalizada e da crescente procura por alternativas proteicas mais sustentáveis.</p>
<p>Ao longo da entrevista, a investigadora defende que a biotecnologia e a valorização de recursos subaproveitados serão determinantes para construir sistemas alimentares mais resilientes e circulares. Entre proteínas de origem vegetal e marinha, aproveitamento de subprodutos agroalimentares e alimentos adaptados às necessidades específicas de cada pessoa, Manuela Pintado antecipa uma transformação profunda do setor, onde ciência, indústria e sustentabilidade terão de caminhar lado a lado para responder aos desafios ambientais e alimentares das próximas décadas.</p>
<p class="PDq2pG_selectionAnchorContainer" data-start="0" data-end="261"><strong data-start="0" data-end="261">O tema do Innovation Day 2026 centrou-se na forma como a estrutura microscópica dos alimentos pode influenciar a sua composição e propriedades. De que forma é que esta abordagem está a transformar a indústria alimentar e o desenvolvimento de novos produtos?</strong></p>
<p data-start="263" data-end="618">A estrutura microscópica dos alimentos está a tornar-se tão importante como a sua composição. Hoje, a inovação já não passa apenas por alterar ingredientes, mas por desenhar a forma como os diferentes componentes de um alimento se organizam, influenciando a textura, o sabor, a saciedade e até a forma como os nutrientes são disponibilizados ao organismo.</p>
<p data-start="620" data-end="970">Esta abordagem permite desenvolver produtos mais saudáveis e sustentáveis, com menos açúcar, sal ou gordura, mantendo a experiência sensorial que o consumidor procura. É também fundamental para criar alimentos adaptados a necessidades específicas, como as da população idosa, ou para melhorar a aceitação de produtos à base de proteínas alternativas.</p>
<p data-start="972" data-end="1269">Foi precisamente esta visão que esteve no centro do Innovation Day 2026: utilizar o conhecimento da estrutura dos alimentos para conceber produtos simultaneamente mais nutritivos, sustentáveis e atrativos para o consumidor, transformando a ciência em soluções concretas para a indústria alimentar.</p>
<p data-start="1271" data-end="1499"><strong data-start="1271" data-end="1499">A procura por alimentos mais saudáveis tem levado à redução de ingredientes como açúcar, sal e gordura. Que avanços científicos permitem atingir esse objetivo sem comprometer o sabor, a textura e a experiência do consumidor?</strong></p>
<p data-start="1501" data-end="1827">Hoje sabemos que o sabor e a textura dos alimentos não dependem apenas da quantidade de açúcar, sal ou gordura, mas também da forma como estes componentes estão organizados no alimento. Ao controlar essa estrutura, é possível aumentar a perceção de doçura, salgado ou cremosidade sem aumentar a quantidade destes ingredientes.</p>
<p data-start="1829" data-end="2128">Por exemplo, novas estruturas desenvolvidas a partir de proteínas e fibras conseguem reproduzir a sensação de cremosidade associada à gordura, enquanto técnicas que controlam a distribuição e a libertação de sal e açúcar na boca permitem manter a intensidade do sabor com quantidades mais reduzidas.</p>
<p data-start="2130" data-end="2422">Estes avanços são especialmente importantes para responder aos desafios da saúde pública e do envelhecimento da população. O objetivo é desenvolver alimentos mais saudáveis e sustentáveis, sem comprometer o prazer de comer, conciliando nutrição, textura, sabor e bem-estar numa única solução.</p>
<p data-start="2424" data-end="2649"><strong data-start="2424" data-end="2649">As proteínas alternativas, especialmente de origem vegetal, têm ganho destaque nos últimos anos. Que desafios tecnológicos continuam por ultrapassar para que estes produtos sejam mais atrativos e acessíveis ao consumidor?</strong></p>
<p data-start="2651" data-end="3145">As proteínas alternativas têm um enorme potencial para tornar o sistema alimentar mais sustentável, mas ainda enfrentam alguns desafios. O principal é reproduzir as características que os consumidores mais valorizam nos produtos de origem animal, nomeadamente a textura, a suculência e o sabor. Hoje sabemos que isso depende não apenas da composição, mas sobretudo da estrutura do alimento, razão pela qual a investigação está cada vez mais focada no desenho e na estruturação destas proteínas.</p>
<p data-start="3147" data-end="3607">Os trabalhos desenvolvidos no Centro de Biotecnologia e Química Fina têm demonstrado que é possível utilizar proteínas de origem vegetal e outras fontes sustentáveis para criar alimentos nutricionalmente equilibrados e sensorialmente mais apelativos. O desafio passa por combinar ingredientes, processos e estrutura alimentar para aproximar a experiência de consumo daquela a que as pessoas estão habituadas, sem perder os benefícios ambientais e nutricionais.</p>
<p data-start="3609" data-end="3923">Outro desafio é a acessibilidade. Para que estas soluções tenham impacto real, é necessário desenvolver processos mais eficientes e economicamente viáveis. O objetivo não é apenas substituir proteínas animais, mas disponibilizar opções nutritivas, sustentáveis e atrativas para um número crescente de consumidores.</p>
<p data-start="3925" data-end="4156"><strong data-start="3925" data-end="4156">A inovação alimentar é frequentemente apontada como uma ferramenta importante para responder aos desafios ambientais. Que contributo podem dar estas novas tecnologias para a redução da pegada ecológica dos sistemas alimentares?</strong></p>
<p data-start="4158" data-end="4439">A inovação alimentar tem um papel fundamental na transição para sistemas alimentares mais sustentáveis. Hoje, o desafio não é apenas produzir mais alimentos, mas produzir melhor, utilizando os recursos de forma mais eficiente e valorizando matérias-primas até aqui subaproveitadas.</p>
<p data-start="4441" data-end="4909">No Centro de Biotecnologia e Química Fina, temos trabalhado no desenvolvimento de ingredientes e alimentos a partir de fontes sustentáveis, incluindo subprodutos agroalimentares e novas fontes proteicas, promovendo a economia circular e reduzindo o desperdício. Paralelamente, o conhecimento da estrutura dos alimentos permite desenvolver produtos nutricionalmente adequados com menor utilização de recursos, sem comprometer a qualidade ou a aceitação pelo consumidor.</p>
<p data-start="4911" data-end="5123">O objetivo final é construir sistemas alimentares mais resilientes e sustentáveis, que utilizem menos água, energia e matérias-primas, gerando simultaneamente benefícios para a saúde das pessoas e para o planeta.</p>
<p data-start="5125" data-end="5289"><strong data-start="5125" data-end="5289">Até que ponto é que a biotecnologia está a acelerar a criação de alimentos mais sustentáveis e adaptados às necessidades de uma população global em crescimento?</strong></p>
<p data-start="5291" data-end="5524">A biotecnologia está a acelerar a criação de alimentos mais sustentáveis porque permite aproveitar melhor os recursos naturais e transformar matérias-primas pouco valorizadas em ingredientes com elevado valor nutricional e funcional.</p>
<p data-start="5526" data-end="5953">No Centro de Biotecnologia e Química Fina, temos trabalhado na valorização de subprodutos agroalimentares, na identificação de compostos bioativos naturais e no desenvolvimento de novas fontes sustentáveis de proteínas e ingredientes alimentares. Uma área particularmente promissora é a biotecnologia azul, que explora recursos marinhos, como algas e microalgas, para obter ingredientes saudáveis e com menor impacto ambiental.</p>
<p data-start="5955" data-end="6350">Ao mesmo tempo, a biotecnologia permite desenvolver alimentos adaptados às necessidades de diferentes grupos da população, conciliando nutrição, sustentabilidade e qualidade sensorial. O grande desafio é garantir que estas soluções sejam produzidas à escala industrial e a preços acessíveis, para que possam contribuir para alimentar uma população crescente de forma mais saudável e sustentável.</p>
<p data-start="6352" data-end="6554"><strong data-start="6352" data-end="6554">Muitas das soluções desenvolvidas em laboratório demoram anos a chegar ao mercado. Quais são atualmente as principais barreiras à transferência de conhecimento científico para a indústria alimentar?</strong></p>
<p data-start="6556" data-end="6772">Hoje, a principal barreira já não é a falta de conhecimento científico. O grande desafio é transformar esse conhecimento em soluções que respondam às necessidades da indústria, dos consumidores e da sustentabilidade.</p>
<p data-start="6774" data-end="7127">A transferência de tecnologia exige que investigadores e empresas trabalhem em conjunto desde as fases iniciais do desenvolvimento. Muitas soluções apresentam excelentes resultados em laboratório, mas a sua implementação industrial requer adaptação à produção em grande escala, viabilidade económica, estabilidade do produto e aceitação pelo consumidor.</p>
<p data-start="7129" data-end="7393">Existem também desafios regulatórios importantes. Em áreas emergentes, como novos ingredientes ou processos biotecnológicos inovadores, a legislação nem sempre acompanha o ritmo da ciência, o que pode atrasar a chegada de soluções seguras e promissoras ao mercado.</p>
<p data-start="7395" data-end="7651">Por outro lado, persistem alguns desafios tecnológicos entre a prova de conceito e a industrialização. Nem sempre existem processos, equipamentos ou cadeias de fornecimento suficientemente desenvolvidos para permitir uma implementação rápida e competitiva.</p>
<p data-start="7653" data-end="8177">Por isso, acredito que a inovação alimentar depende cada vez mais da cocriação entre universidades, centros de investigação, empresas e reguladores. No Centro de Biotecnologia e Química Fina da Universidade Católica Portuguesa temos vindo a promover esse modelo colaborativo, aproximando a ciência dos desafios reais do mercado e aumentando a probabilidade de gerar soluções com impacto económico, social e ambiental. Mais do que transferir conhecimento, o objetivo é transformar conhecimento em inovação com aplicação real.</p>
<p data-start="8179" data-end="8398"><strong data-start="8179" data-end="8398">Os consumidores demonstram uma crescente preocupação com a origem e o impacto ambiental dos alimentos. Como tem evoluído a perceção pública relativamente a produtos desenvolvidos com recurso a tecnologias avançadas?</strong></p>
<p data-start="8400" data-end="8691">A perceção dos consumidores tem evoluído de forma muito positiva, acompanhando uma maior consciência da relação entre alimentação, saúde e sustentabilidade. Hoje, os consumidores querem saber não apenas o que comem, mas também como os alimentos são produzidos e qual o seu impacto ambiental.</p>
<p data-start="8693" data-end="9017">No entanto, a aceitação de tecnologias avançadas continua a depender da informação e da confiança. Os consumidores tendem a valorizar mais uma inovação quando percebem o seu benefício concreto, seja na redução do desperdício alimentar, na valorização de subprodutos ou na produção de alimentos mais saudáveis e sustentáveis.</p>
<p data-start="9019" data-end="9376">A nossa experiência mostra que o fator decisivo não é a tecnologia em si, mas a forma como esta é comunicada. Conceitos como biotecnologia, fermentação ou agricultura celular podem gerar alguma resistência quando são pouco compreendidos, mas a aceitação aumenta significativamente quando existe transparência sobre os processos, a segurança e os benefícios.</p>
<p data-start="9378" data-end="9501">Por isso, para além da inovação científica, é essencial investir em literacia alimentar e no envolvimento dos consumidores.</p>
<p data-start="9503" data-end="9646"><strong data-start="9503" data-end="9646">Que tendências acredita que irão marcar a alimentação da próxima década e que papel poderá Portugal desempenhar neste processo de inovação?</strong></p>
<p data-start="9648" data-end="9997">A próxima década será marcada por uma visão mais integrada da alimentação, em que saúde, sustentabilidade e inovação caminham lado a lado. Veremos o crescimento da agricultura regenerativa e de sistemas de produção mais resilientes, capazes de preservar os recursos naturais, aumentar a biodiversidade e reforçar a autonomia e a soberania alimentar.</p>
<p data-start="9999" data-end="10314">Ao mesmo tempo, os alimentos serão cada vez mais orientados para a promoção da saúde e para a prevenção da doença, com soluções adaptadas a diferentes grupos populacionais. A personalização da alimentação, apoiada pela biotecnologia, pela nutrição de precisão e pela ciência dos dados, será uma tendência crescente.</p>
<p data-start="10316" data-end="10681">Outra área de grande impacto será a valorização integral dos recursos biológicos, transformando subprodutos e biomassa subaproveitada em novos ingredientes, alimentos e bioprodutos de elevado valor acrescentado. Esta abordagem impulsionará a bioeconomia, promoverá cadeias alimentares mais circulares e ajudará a reduzir a dependência de matérias-primas importadas.</p>
<p data-start="10683" data-end="11142">Portugal está muito bem posicionado para participar nesta transformação, graças à sua capacidade científica, aos recursos agrícolas e marinhos, à qualidade do seu setor agroalimentar e a uma indústria cada vez mais inovadora. O desafio será reforçar a ligação entre ciência, empresas e políticas públicas, promovendo a produção local, a valorização dos recursos nacionais e sistemas alimentares mais sustentáveis, competitivos e menos dependentes do exterior.</p>
<p data-start="11144" data-end="11345"><strong data-start="11144" data-end="11345">O desenvolvimento de alimentos mais saudáveis nem sempre garante escolhas alimentares mais sustentáveis. Como pode a investigação ajudar a conciliar objetivos nutricionais, ambientais e económicos?</strong></p>
<p data-start="11347" data-end="11527">Acredito que sim. Saúde, sustentabilidade e viabilidade económica não têm de ser objetivos opostos; pelo contrário, quando a inovação é bem orientada, podem reforçar-se mutuamente.</p>
<p data-start="11529" data-end="11903">A investigação tem demonstrado que é possível desenvolver alimentos com melhor perfil nutricional recorrendo a matérias-primas locais, valorizando subprodutos agroalimentares e aproveitando recursos que antes eram desperdiçados. Isto permite aumentar o valor dos alimentos, reduzir perdas ao longo da cadeia e criar novas oportunidades económicas para produtores e empresas.</p>
<p data-start="11905" data-end="12170">Outro aspeto importante é que a sustentabilidade não se mede apenas pelo impacto ambiental. Um alimento só é verdadeiramente sustentável se combinar qualidade nutricional, acessibilidade económica, aceitação pelo consumidor e impacto positivo nos recursos naturais.</p>
<p data-start="12172" data-end="12542">Por isso, a investigação deve integrar desde o início as dimensões nutricional, ambiental, social e económica. O objetivo é desenvolver soluções que promovam a saúde, valorizem os recursos disponíveis e reforcem a competitividade das empresas. Essa visão integrada será essencial para construir sistemas alimentares mais resilientes, circulares e sustentáveis no futuro.</p>
<p data-start="12544" data-end="12697"><strong data-start="12544" data-end="12697">Se tivéssemos de imaginar o prato de um consumidor em 2040, quais seriam as principais diferenças em relação à alimentação que conhecemos atualmente?</strong></p>
<p data-start="12699" data-end="12898">Se imaginarmos o prato de 2040, acredito que será simultaneamente mais tecnológico e mais próximo da natureza. Será um prato mais diversificado, equilibrado e adaptado às necessidades de cada pessoa.</p>
<p data-start="12900" data-end="13292">Continuaremos a reconhecer os princípios da Dieta Mediterrânica, com frutas, hortícolas, leguminosas, cereais integrais, azeite e pescado, mas complementados por novas fontes proteicas sustentáveis de origem vegetal e marinha. O objetivo não será substituir os alimentos tradicionais, mas combinar diferentes fontes de nutrientes para garantir qualidade nutricional, sustentabilidade e sabor.</p>
<p data-start="13294" data-end="13603">Veremos também uma maior valorização dos produtos locais e sazonais e cadeias alimentares mais curtas e transparentes. Os avanços da ciência permitirão desenvolver alimentos mais ricos em fibra, compostos bioativos e proteínas de elevada qualidade, ajustados às necessidades de diferentes grupos da população.</p>
<p data-start="13605" data-end="13939" data-is-last-node="" data-is-only-node="">No fundo, o prato de 2040 será mais sustentável e personalizado, mas continuará a assentar num princípio simples: variedade, equilíbrio e valorização dos recursos locais. Porque a alimentação do futuro não será apenas uma questão de nutrientes ou tecnologia, continuará a ser também uma questão de sabor, cultura, identidade e emoção.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Entrevista: “7 em cada 10 portugueses separam as embalagens, mas destes só 1 é que separa bem”</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/entrevista-7-em-cada-10-portugueses-separam-as-embalagens-mas-destes-so-1-e-que-separa-bem/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Filipa Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Jul 2026 06:01:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[embalagens]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[portugueses]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://greensavers.sapo.pt/?p=301863</guid>

					<description><![CDATA[Em entrevista à Green Savers, Ricardo Sacoto Lagoa, Diretor de Marketing, Sensibilização e Comunicação da Sociedade Ponto Verde, explica como a parceria com o Ageas Cooljazz procura transformar a reciclagem de embalagens num gesto natural, dentro e fora dos festivais, e analisa os desafios que Portugal ainda enfrenta para cumprir as metas de reciclagem.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="isSelectedEnd">A Sociedade Ponto Verde regressa ao Ageas Cooljazz para reforçar a sensibilização para a reciclagem de embalagens e aproximar os cidadãos de comportamentos mais sustentáveis através da cultura e da música.</p>
<p class="isSelectedEnd">Em entrevista à Green Savers, Ricardo Sacoto Lagoa, Diretor de Marketing, Sensibilização e Comunicação da Sociedade Ponto Verde, explica os festivais são espaços privilegiados para promover mudanças de comportamento, graças à sua capacidade de mobilização e ao contacto direto com milhares de pessoas. A presença da entidade no Ageas Cooljazz, que se realiza de 8 e 31 de julho, traduz-se numa combinação de infraestruturas de recolha seletiva, mobiliário produzido com plástico reciclado e ações de sensibilização no terreno, procurando integrar a reciclagem na experiência do festival e demonstrar que este é um gesto simples, possível em qualquer contexto.</p>
<p>O responsável sublinha ainda que, apesar do aumento do investimento no sistema de gestão de resíduos de embalagens, Portugal continua a enfrentar desafios significativos para cumprir as metas de reciclagem. Entre os principais obstáculos estão a necessidade de melhorar os níveis de serviço da recolha seletiva e as dúvidas que persistem entre os cidadãos sobre a correta separação das embalagens. Nesse sentido, iniciativas de proximidade como a parceria com o Ageas Cooljazz assumem um papel importante na literacia ambiental, ajudando a esclarecer, envolver e incentivar uma participação mais ativa na economia circular.</p>
<p><strong>A Ponto Verde regressa ao Ageas Cooljazz como Parceiro Oficial de Sustentabilidade. Que objetivos concretos pretende alcançar com esta presença e de que forma avaliam o impacto destas iniciativas junto do público do festival?</strong></p>
<p>A presença da Ponto Verde no Ageas Cooljazz tem como principal objetivo sensibilizar os festivaleiros para a importância da reciclagem de embalagens e reforçar a ideia de que pequenos gestos individuais podem ter um impacto real.</p>
<p>Enquanto Parceira Oficial de Sustentabilidade, reforçamos o nosso compromisso com a promoção da reciclagem de embalagens e com a sensibilização dos cidadãos para práticas mais conscientes em grandes eventos.</p>
<p>Para nós, faz todo o sentido associar a reciclagem de embalagens à cultura e à música, em particular nos festivais, porque são espaços que juntam milhares de pessoas e têm uma enorme capacidade de mobilização. Queremos reforçar a ideia de que separar corretamente as embalagens é um gesto simples, que pode fazer parte do dia a dia de todos, em qualquer momento e em qualquer lugar.</p>
<p>O impacto destas iniciativas reflete-se na adesão do público às ações de sensibilização, na utilização das infraestruturas disponibilizadas e no envolvimento dos festivaleiros para com a reciclagem de embalagens. Mais do que marcar presença, queremos contribuir para que este gesto faça parte da experiência do festival e seja levado para fora dele.</p>
<p><strong>O Ageas Cooljazz reúne milhares de pessoas ao longo de várias semanas. Até que ponto eventos culturais deste tipo podem contribuir para alterar comportamentos e promover hábitos de reciclagem mais consistentes fora do contexto do festival?</strong></p>
<p>Os eventos culturais, nomeadamente os festivais de música, são uma oportunidade para levar a mensagem da reciclagem de embalagens a um público alargado e reforçar a adoção de comportamentos mais sustentáveis no dia a dia.</p>
<p>Eventos com muitas pessoas têm uma enorme capacidade de mobilização e proximidade junto dos cidadãos, o que os torna, de facto, fundamentais para promover comportamentos mais sustentáveis.</p>
<p>A presença da Ponto Verde neste contexto enquadra-se precisamente na nossa estratégia de comunicação, educação e sensibilização, na qual já investimos 63.6 milhões de euros ao longo dos nossos 30 anos de atividade.</p>
<p>Além de facilitar a reciclagem de embalagens durante o evento, um festival permite criar momentos de contacto direto com os cidadãos, esclarecer dúvidas e reforçar a literacia ambiental através de experiências práticas.</p>
<p>Acreditamos, por isso, que é essencial que existam vários conjuntos de infraestruturas para deposição de embalagens distribuídas por todo o recinto. A conveniência e a qualidade na prestação deste serviço aos cidadãos são fundamentais para que haja uma participação ativa, independentemente do contexto.</p>
<p><strong>Nesta edição, a Ponto Verde aposta em infraestruturas produzidas com plástico reciclado, ecopontos distribuídos pelo recinto e ações de sensibilização no terreno. Que importância tem a combinação entre soluções práticas e comunicação para aumentar a adesão à reciclagem?</strong></p>
<p>A combinação entre soluções práticas e comunicação e sensibilização é essencial para transformar a intenção em ação. Por um lado, ao disponibilizarmos ecopontos e outras infraestruturas de recolha seletiva ao longo do recinto, tornamos a reciclagem de embalagens mais acessível e conveniente para todos os visitantes.</p>
<p>Nesta edição, a Ponto Verde instalou 30 mesas de piquenique fabricadas em plástico reciclado no <em>foodcourt</em>, e disponibilizou um espaço exclusivo na zona lounge, equipado com <em>puffs </em>produzidos a partir de material reutilizado de outras ativações, para conforto dos festivaleiros.</p>
<p>Além disso, tem disponíveis 20 estruturas de ecopontos com informação em português e inglês nas áreas públicas do Hipódromo e do Parque Marechal Carmona; na zona VIP, os camarotes, os camarins dos artistas e o backstage vão contar igualmente com a presença de ecopontos.</p>
<p>Existem também 15 placas produzidas em plástico reciclado com informação alusiva a esta boa prática e será exibido um vídeo temático durante os intervalos dos concertos, reforçando a mensagem de que a reciclagem de embalagens pode ser feita em todos os momentos e em qualquer lugar.</p>
<p>A estas iniciativas, junta-se a presença de mochileiros Ponto Verde, que vão interagir com os festivaleiros, permitindo esclarecer dúvidas, reforçar a importância da correta separação das embalagens e envolver os festivaleiros numa experiência mais consciente e participativa, contribuindo para a adoção de comportamentos mais sustentáveis.</p>
<p><strong>A parceria entre a Ponto Verde e o Ageas Cooljazz é frequentemente apresentada como um exemplo de alinhamento entre cultura e sustentabilidade. Considera que os critérios ambientais estão a ganhar peso na forma como festivais e outros eventos culturais planeiam as suas operações e escolhem os seus parceiros?</strong></p>
<p>Acreditamos que os critérios ambientais têm vindo a assumir um peso crescente na forma como festivais e outros eventos culturais planeiam as suas operações e escolhem os seus parceiros. Existe uma preocupação cada vez maior em reduzir o impacto ambiental destes eventos, através da implementação de soluções de gestão de resíduos, da promoção da economia circular e da sensibilização dos participantes para comportamentos mais sustentáveis. Nesse contexto, as organizações procuram parceiros que partilhem estes objetivos e que contribuam com conhecimento, soluções concretas e capacidade de mobilização do público.</p>
<p>O Ageas Cooljazz é um bom exemplo desta evolução. A parceria com a Ponto Verde demonstra que é possível integrar a sustentabilidade de forma natural na experiência do festival, combinando soluções práticas, como a disponibilização de ecopontos e outras infraestruturas de recolha seletiva, com ações de sensibilização no terreno que ajudam os festivaleiros a separar corretamente as suas embalagens.</p>
<p><strong>Apesar da crescente sensibilização para a economia circular, Portugal continua a enfrentar desafios ao nível da reciclagem de embalagens. Quais são, na perspetiva da Sociedade Ponto Verde, os principais obstáculos que ainda persistem e que papel podem desempenhar iniciativas como esta para os ultrapassar?</strong></p>
<p>Portugal continua a enfrentar desafios importantes ao nível da reciclagem de embalagens. Em 2025, apesar do investimento histórico de 212 milhões de euros no Sistema Integrado de Gestão de Resíduos de Embalagens (SIGRE), mais 90 milhões de euros do que em 2024, o País não atingiu a meta de reciclagem de embalagens de 65% de todas as embalagens colocadas no mercado. Em 2026, o financiamento do sistema deverá voltar a aumentar, atingindo cerca de 237 milhões de euros. Ainda assim, os resultados não acompanham de forma proporcional este esforço de investimento. O desafio passa, por isso, por garantir uma melhoria dos níveis de serviço no terreno. É fundamental reforçar a eficiência da recolha seletiva e da triagem, tornando o sistema mais acessível, conveniente e próximo das pessoas, para que o investimento realizado se traduza efetivamente em mais embalagens encaminhadas para reciclagem.</p>
<p>Mas há um outro desafio que depende de todos nós. 7 em cada 10 portugueses separam as embalagens, mas destes só 1 é que separa bem, demonstrando que ainda existem dúvidas no momento de encaminhar corretamente estes resíduos. Foi precisamente para responder a esta necessidade que surgiu o chatbot da Ponto Verde, o ELO. Está disponível no site e na app Ponto Verde e o objetivo é que seja o ponto de ligação permanente entre os cidadãos e a informação fidedigna, aumentando as certezas quando chega o momento de reciclarem as embalagens.</p>
<p>Acreditamos que iniciativas como a presença da Ponto Verde no Ageas Cooljazz fazem a diferença. Ao estarmos presentes em contextos do dia a dia das pessoas, conseguimos sensibilizar, esclarecer dúvidas e reforçar a ideia de que cada embalagem corretamente separada contribui para alcançar as metas de reciclagem de embalagens.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Entrevista: “Cada Vinha Velha é um património vivo e a sua preservação depende do compromisso de todos”</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/entrevista-cada-vinha-velha-e-um-patrimonio-vivo-e-a-sua-preservacao-depende-do-compromisso-de-todos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Filipa Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Jul 2026 07:03:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<category><![CDATA[Vinha Velha]]></category>
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					<description><![CDATA[José Carlos Fernandes, Diretor de Viticultura da Aveleda, defende, em entrevista à Green Savers, a valorização das Vinhas Velhas como um património essencial para a biodiversidade, a resiliência climática e o futuro sustentável do Douro.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Num momento em que a sustentabilidade e a adaptação às alterações climáticas assumem um papel central no setor agroalimentar, as Vinhas Velhas do Douro destacam-se como um exemplo de equilíbrio entre produção agrícola e preservação dos ecossistemas. Para José Carlos Fernandes, Diretor de Viticultura da Aveleda, estas vinhas constituem verdadeiros reservatórios de biodiversidade e conhecimento acumulado ao longo de gerações, reunindo uma diversidade de castas e uma capacidade de adaptação ao território que lhes confere uma resiliência única perante fenómenos climáticos extremos.</p>
<p>Através da iniciativa “Guardiões das Vinhas Velhas”, a Quinta Vale D. Maria procura sensibilizar o público para a importância de conservar este património vivo e travar o seu abandono. Mais do que preservar uma paisagem classificada, trata-se de proteger um modelo agrícola que contribui para a sustentabilidade da região, valoriza as comunidades locais e demonstra que a conservação dos recursos naturais pode caminhar lado a lado com a criação de valor económico e cultural para as gerações futuras.</p>
<p><strong>As Vinhas Velhas são frequentemente descritas como um património único do Douro. Do ponto de vista ambiental e agrícola, o que é que torna estas vinhas tão valiosas e merecedoras de preservação?</strong></p>
<p><strong> </strong>As Vinhas Velhas são um património irrepetível do Douro. Resultam de séculos de observação, experiência e adaptação por parte dos viticultores, integrando uma elevada diversidade de castas e uma forte ligação ao ecossistema envolvente. São verdadeiros repositórios de conhecimento agrícola tradicional e de património genético, que continuam a ensinar-nos como produzir vinho de forma equilibrada, resiliente e adaptada ao território.</p>
<p><strong>Que riscos enfrentam atualmente as Vinhas Velhas, nomeadamente perante os desafios das alterações climáticas e da crescente pressão sobre os territórios rurais?</strong></p>
<p>O principal risco é a falta de valorização económica. As Vinhas Velhas têm custos de produção elevados e, muitas vezes, o valor pago pelas uvas não reflete esse esforço. Quando a rentabilidade deixa de existir, aumenta a pressão para abandonar ou substituir estas vinhas por modelos mais produtivos. Esse processo representa uma perda irreversível de património, de biodiversidade e da identidade da paisagem duriense.</p>
<p><strong>De que forma a iniciativa &#8220;Guardiões das Vinhas Velhas&#8221; contribui para a conservação da biodiversidade e para a proteção da paisagem duriense?</strong></p>
<p>Esta iniciativa contribui para quebrar o ciclo de abandono que ameaça muitas Vinhas Velhas. Ao valorizar a sua importância ecológica, paisagística e cultural, ajuda a criar consciência sobre a necessidade da sua preservação. Estamos a proteger uma componente essencial da paisagem classificada do Douro, mas também um elemento central da identidade da região e da sua biodiversidade.</p>
<p><strong>Preservar Vinhas Velhas é também uma forma de promover uma viticultura mais sustentável? Que benefícios ambientais podem resultar dessa aposta?</strong></p>
<p>Sem dúvida. As Vinhas Velhas representam uma das expressões mais completas de viticultura sustentável. A diversidade de castas, o equilíbrio natural entre plantas e a integração harmoniosa na paisagem tornam-nas sistemas agrícolas altamente resilientes. São um exemplo de como é possível produzir uvas de qualidade respeitando os equilíbrios naturais do território.</p>
<p><strong>Qual é o papel destas vinhas na adaptação da região do Douro aos impactos das alterações climáticas?</strong></p>
<p>As Vinhas Velhas têm demonstrado uma enorme capacidade de adaptação às alterações climáticas. As suas raízes profundas permitem aceder a reservas de água inacessíveis às vinhas mais jovens, reduzindo o impacto dos períodos de seca. Além disso, a sua adaptação ao longo de décadas ou séculos torna-as particularmente resistentes aos fenómenos climáticos extremos que hoje observamos com maior frequência.</p>
<p><strong>A diversidade de castas presente nas Vinhas Velhas pode ser considerada uma vantagem em termos de resiliência agrícola e adaptação futura? Porquê?</strong></p>
<p>Sem dúvida. A mistura de dezenas de castas cria um verdadeiro mecanismo natural de mitigação do risco. Em anos em que determinadas castas sofrem mais com condições adversas, outras respondem melhor e compensam essas quebras. Esta diversidade traduz-se numa maior estabilidade produtiva e qualitativa ao longo do tempo, algo que raramente encontramos em vinhas monovarietais.</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone wp-image-301537 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Quinta-Vale-D.-Maria-Vinhas-Velhas.jpg" alt="" width="1024" height="1536" srcset="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Quinta-Vale-D.-Maria-Vinhas-Velhas.jpg 1024w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Quinta-Vale-D.-Maria-Vinhas-Velhas-200x300.jpg 200w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Quinta-Vale-D.-Maria-Vinhas-Velhas-683x1024.jpg 683w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Quinta-Vale-D.-Maria-Vinhas-Velhas-768x1152.jpg 768w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Quinta-Vale-D.-Maria-Vinhas-Velhas-600x900.jpg 600w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></p>
<p><strong>Que práticas de gestão vitícola têm sido implementadas para garantir a longevidade destas vinhas e, simultaneamente, reduzir o impacto ambiental da produção?</strong></p>
<p>O princípio fundamental é o respeito pela vinha e pela sua história. O nosso papel é compreender o equilíbrio existente e dar-lhe continuidade, intervindo apenas quando necessário. Procuramos preservar a estrutura original da vinha, respeitar a sua diversidade e garantir que as intervenções realizadas não comprometem o legado que recebemos das gerações anteriores.</p>
<p><strong>Como é possível conciliar a preservação deste património vitícola com a necessidade de manter a atividade economicamente viável para os produtores?</strong></p>
<p>A preservação só será sustentável se existir uma valorização económica adequada. Os produtores têm de ser compensados pelo esforço acrescido que estas vinhas exigem e pelo valor patrimonial, ambiental e qualitativo que geram. Sem essa valorização, será muito difícil travar o abandono e garantir a sua continuidade para as próximas gerações.</p>
<p><strong>Através da nova Adega Expositiva – Guardiã das Vinhas Velhas, pretendem também sensibilizar o público para a importância da conservação deste património. Que papel pode o enoturismo desempenhar na promoção de uma maior consciência ambiental?</strong></p>
<p>O enoturismo é uma das formas mais eficazes de aproximar o consumidor da realidade da vinha. Quando as pessoas compreendem o que é uma Vinha Velha, o esforço necessário para a preservar e a riqueza que encerra, passam naturalmente a valorizar mais os vinhos que dela resultam. Na Quinta Vale D. Maria, a paisagem e as Vinhas Velhas são parte integrante da experiência enoturística e um veículo privilegiado de sensibilização ambiental.</p>
<p><strong>Considera que os consumidores estão hoje mais atentos à origem dos vinhos e às práticas de sustentabilidade associadas à sua produção? Como se reflete essa tendência no setor?</strong></p>
<p>Claramente. Hoje o consumidor procura cada vez mais conhecer a origem dos produtos, a sua história e o impacto da sua produção. Essa tendência está a incentivar os produtores a adotarem práticas mais sustentáveis e a comunicar melhor o esforço que realizam na proteção do território e dos recursos naturais.</p>
<p><strong>Que contributo podem dar iniciativas como esta para a valorização das comunidades locais e para a preservação do conhecimento agrícola tradicional do Douro?</strong></p>
<p>Contribuem para valorizar o conhecimento acumulado ao longo de gerações e para reforçar o orgulho das comunidades no seu património. Ao dar visibilidade às Vinhas Velhas, estas iniciativas ajudam a preservar saberes tradicionais e a sensibilizar toda a cadeia de valor, desde o agricultor até ao consumidor final.</p>
<p><strong>Existem metas ou projetos futuros da Aveleda relacionados com a proteção das Vinhas Velhas e a promoção de práticas mais sustentáveis na região?</strong></p>
<p>A proteção das Vinhas Velhas e a promoção de uma viticultura mais sustentável fazem parte da nossa atividade diária e da nossa visão de longo prazo. Acreditamos que este é o caminho para responder às exigências dos consumidores, aos desafios ambientais e à necessidade de preservar o património vitícola da região.</p>
<p><strong>Na sua perspetiva, que medidas deveriam ser prioritárias para assegurar a preservação deste património nas próximas décadas?</strong></p>
<p>A prioridade deve ser travar o abandono das Vinhas Velhas. Para isso, são fundamentais políticas de incentivo económico, programas de apoio técnico, investigação aplicada e iniciativas de transmissão de conhecimento. Não basta preservar as vinhas, é igualmente essencial garantir que existe conhecimento para as gerir corretamente e assegurar a sua continuidade.</p>
<p><img decoding="async" class="alignnone wp-image-301539 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Quinta-Vale-D.-Maria-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1706" srcset="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Quinta-Vale-D.-Maria-scaled.jpg 2560w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Quinta-Vale-D.-Maria-300x200.jpg 300w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Quinta-Vale-D.-Maria-1024x683.jpg 1024w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Quinta-Vale-D.-Maria-768x512.jpg 768w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Quinta-Vale-D.-Maria-1536x1024.jpg 1536w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Quinta-Vale-D.-Maria-2048x1365.jpg 2048w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Quinta-Vale-D.-Maria-600x400.jpg 600w" sizes="(max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /></p>
<p><strong>O que gostaria que os visitantes levassem consigo, não apenas sobre o vinho, mas também sobre a importância da conservação da paisagem e dos ecossistemas do Douro?</strong></p>
<p>Gostaria que os visitantes saíssem com uma compreensão mais profunda da ligação entre vinho, paisagem, biodiversidade e comunidade. Que percebessem que cada Vinha Velha é um património vivo e que a sua preservação depende do compromisso de todos. E que nos deixassem também a sua perspetiva, porque ouvir quem nos visita é uma forma importante de continuarmos a melhorar.</p>
<p><strong>Num momento em que a sustentabilidade é um tema central para o setor agroalimentar, que exemplo acredita que o projeto &#8220;Guardiões das Vinhas Velhas&#8221; da Quinta Vale D. Maria pode dar a outras regiões vitivinícolas, em Portugal e no estrangeiro?</strong></p>
<p>Gostaríamos que este projeto da Quinta Vale D. Maria demonstrasse que a preservação do património vitícola não é incompatível com a inovação e com a criação de valor. O respeito pelo legado recebido deve ser encarado como um investimento no futuro. Se conseguirmos conservar estas vinhas e transmitir o seu valor às próximas gerações, estaremos a dar um exemplo relevante não apenas para o Douro, mas para outras regiões vitivinícolas em Portugal e no mundo.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Entrevista: “As árvores são seres vivos extraordinários e ainda sabemos muito pouco sobre elas”</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/entrevista-as-arvores-sao-seres-vivos-extraordinarios-e-ainda-sabemos-muito-pouco-sobre-elas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Filipa Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Jul 2026 06:02:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[árvores]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://greensavers.sapo.pt/?p=301513</guid>

					<description><![CDATA[Em entrevista à Green Savers, a diretora artística Susana C. Gaspar explica como o espetáculo "Entre as Árvores" procura revelar os segredos das florestas e estimular uma nova relação entre as pessoas e o mundo natural.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="isSelectedEnd">Num cenário marcado pela perda de biodiversidade, pela fragmentação dos habitats naturais e pelos impactos crescentes das alterações climáticas, a forma como nos relacionamos com as florestas ganha uma importância renovada. É precisamente dessa relação &#8211; muitas vezes distante e superficial &#8211; que parte <em>Entre as Árvores</em>, o mais recente espetáculo do Chão de Oliva, que convida o público a percorrer a Quinta da Ribafria, em Sintra, numa experiência que cruza criação artística, conhecimento científico e contacto direto com a natureza.</p>
<p>Em entrevista à Green Savers, a diretora artística Susana C. Gaspar explica como nasceu este projeto inspirado na complexidade do mundo vegetal e nas ligações invisíveis que sustentam os ecossistemas florestais. Através de uma abordagem sensorial e participativa, o espetáculo procura despertar a curiosidade sobre a vida das árvores e incentivar uma reflexão mais profunda sobre a necessidade de proteger os sistemas naturais dos quais dependemos.</p>
<p><strong>Entre as Árvores propõe uma experiência imersiva em contacto direto com a natureza. Como nasceu a ideia de criar um espetáculo centrado na relação entre as árvores e as formas de comunicação que estabelecem entre si?</strong></p>
<p><strong> </strong>Em 2026, o Chão de Oliva está a dedicar a sua produção artística ao tema “ecogeografias”, onde estabelecemos uma relação direta entre arte e ciência e nos dedicamos a uma pesquisa artística sobre biodiversidade e alterações climáticas.</p>
<figure id="attachment_301515" aria-describedby="caption-attachment-301515" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-301515 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Entre-as-Arvores_Susana-Chico-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1654" srcset="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Entre-as-Arvores_Susana-Chico-scaled.jpg 2560w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Entre-as-Arvores_Susana-Chico-300x194.jpg 300w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Entre-as-Arvores_Susana-Chico-1024x662.jpg 1024w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Entre-as-Arvores_Susana-Chico-768x496.jpg 768w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Entre-as-Arvores_Susana-Chico-1536x992.jpg 1536w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Entre-as-Arvores_Susana-Chico-2048x1323.jpg 2048w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Entre-as-Arvores_Susana-Chico-600x388.jpg 600w" sizes="(max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /><figcaption id="caption-attachment-301515" class="wp-caption-text">@Susana Chicó</figcaption></figure>
<p>O tema que nos propomos a abordar no espetáculo “Entre as Árvores” surge, por isso, de forma muito natural. As árvores são seres complexos que, além de serem fundamentais para a vida humana e para a restante biodiversidade, comunicam de formas inesperadas entre si. Têm sensibilidade, memórias e vivem em comunidade. O espetáculo parte dessa descoberta científica, mas procura ir além da informação. Interessou-nos criar uma experiência sensorial e poética que convida o público a conhecer e interagir com a floresta de outra forma.</p>
<p><strong> </strong><strong>A peça inspira-se em obras científicas, literárias e poéticas, bem como em testemunhos de profissionais ligados às florestas. Como foi desenvolvido o processo de investigação e de que forma estas diferentes fontes influenciaram a criação artística?</strong></p>
<p><strong> </strong>O texto original recorre a literatura de ciência, livros como <em>A Sabedoria das Árvores</em> de Peter Wohlleben ou <em>Como ler uma árvore</em>, de Tristan Gooley, excertos de poesia, textos originais e relatórios com dados estatísticos e informações sobre as atuais ameaças à biodiversidade. Inspirou-se, também, no livro <em>A Utilidade das Árvores</em>, de Mário de Azevedo Gomes, editado pela Câmara Municipal de Sintra, que permite criar uma ligação ainda mais direta com o território onde esta primeira peça é encenada. Estes diferentes livros e vozes e as conversas que fomos tendo com algumas pessoas inspiraram o processo dramatúrgico. Foi difícil a seleção de todo o material e chegar à “montagem final”, pois tudo nos fascinava. Ainda assim, estamos contentes com o resultado. Com os diferentes textos e testemunhos, conseguimos expressar a pluralidade das características das árvores e aproximarmo-nos delas com uma outra perspectiva.</p>
<p><strong> </strong><strong>Nos últimos anos, tem aumentado o interesse público pelo chamado “mundo invisível” das árvores e das florestas. De que forma procuraram traduzir para o palco &#8211; ou, neste caso, para a paisagem &#8211; conceitos científicos complexos sem perder o rigor nem a dimensão poética?</strong></p>
<p><strong> </strong>A natureza é uma fonte inesgotável de novos saberes e de conhecimento científico. Essa linguagem mais técnica, porém, pode causar resistência por parte do público em geral. Acreditamos que a abordagem de livros como <em>A Vida Secreta das Árvores </em>ou <em>Como ler uma árvore</em> têm contribuído para despertar o interesse de mais pessoas. Não é por acaso que alguns desses livros se tornaram <em>bestsellers</em>. Há também uma curiosidade crescente por parte das pessoas, pois nem sempre se ensina na escola ou nem sempre a linguagem científica é clara o suficiente. Como não somos especialistas, não somos biólogas, o nosso processo foi uma espécie de filtro. Tivemos de conseguir compreender tudo, para depois explicar por palavras nossas.</p>
<figure id="attachment_301516" aria-describedby="caption-attachment-301516" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-301516 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Entre-as-Arvores_Susana-Chico-1-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1718" srcset="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Entre-as-Arvores_Susana-Chico-1-scaled.jpg 2560w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Entre-as-Arvores_Susana-Chico-1-300x201.jpg 300w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Entre-as-Arvores_Susana-Chico-1-1024x687.jpg 1024w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Entre-as-Arvores_Susana-Chico-1-768x516.jpg 768w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Entre-as-Arvores_Susana-Chico-1-1536x1031.jpg 1536w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Entre-as-Arvores_Susana-Chico-1-2048x1375.jpg 2048w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/Entre-as-Arvores_Susana-Chico-1-600x403.jpg 600w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /><figcaption id="caption-attachment-301516" class="wp-caption-text">@Susana Chicó</figcaption></figure>
<p>Acreditamos que esse olhar distanciado, e também através da abordagem poética, pode ajudar a que outras pessoas percebam melhor alguns desses conceitos também. A dimensão poética ficou sempre presente na nossa abordagem. Deixamos que a paisagem despertasse a nossa imaginação, sem perder o rigor científico. Também tivemos a premissa, desde o ínicio, de alcançar diferentes públicos. E é por isso que surge a versão geral para “crescidos” e a versão adaptada para a infância. São experiências que acontecem em simultâneo para adultos e crianças, que têm acesso à mesma informação, mas com linguagens distintas (uma mais poética, e outra mais leve e brincada).</p>
<p><strong>O espetáculo desafia o público a interagir com o espaço natural da Quinta da Ribafria. Que papel desempenham os espectadores na construção da experiência e como é que essa participação influencia cada sessão?</strong></p>
<p><strong> </strong>Sim, existe um convite a essa proximidade com a natureza. Trocar no tronco das árvores, cheirar, sentir. É uma experiência também muito sensorial. Como são grupos pequenos em cada sessão, existe uma cumplicidade muito forte entre atrizes e público e entre as pessoas do público também. Há uma partilha constante &#8211; pois todos são conduzidos através da experiência sonora e numa espécie de “bolha” dentro da paisagem. Acreditamos que cada sessão será diferente, consoante a interação do público. Se tivermos outra temporada num outro espaço o impacto será certamente diferente, pois o contexto natural que nos rodeia também será distinto. É, por isso, um espetáculo muito flexível e que poderá contar com diferentes abordagens.</p>
<p><strong> </strong><strong>A relação entre arte e natureza está no centro do ciclo Ecogeografias. Que potencial considera que as artes performativas têm para promover uma maior consciência ambiental e uma ligação mais profunda aos ecossistemas?</strong></p>
<p><strong> </strong>A natureza e a arte têm uma ligação histórica profunda. Há vários séculos que as encontramos em diálogo em diferentes formatos, quer seja em pinturas, esculturas ou mesmo no teatro. As artes performativas têm o poder de criar uma ligação direta e emocional com o público. Queremos, por isso, que este seja um espaço de partilha, sensibilização, mas que também crie memórias e ação junto do público, para que seja possível espoletar pequenas mudanças na forma como cada pessoa se relaciona com o planeta e, mais concretamente, com as árvores e florestas.</p>
<p><strong>A escolha da Quinta da Ribafria, em Sintra, parece particularmente simbólica para este projeto. De que forma é que as características deste espaço influenciaram a dramaturgia, a encenação e o percurso proposto ao público?</strong></p>
<p><strong> </strong>A escolha da Quinta da Ribafria foi determinante desde o início do processo criativo. Ao desenvolver um espetáculo site-specific, procurámos que cada momento dialogasse com as características deste espaço, valorizando o seu património natural e criando uma relação de proximidade entre os espectadores e a paisagem. As árvores, os percursos, a luz, os sons naturais e a história deste espaço influenciaram a forma como a narrativa foi construída e como o público a experiencia.</p>
<p>Além disso, é um lugar que tem uma identidade própria e uma forte ligação ao território de Sintra, local com o qual o Chão de Oliva e a Companhia de Teatro de Sintra também têm uma ligação muito forte, pelo que fazia todo o sentido que fosse também um dos protagonistas deste espetáculo.</p>
<p><strong>Num contexto marcado pela perda de biodiversidade e pelos impactos das alterações climáticas, acredita que o teatro pode contribuir para uma reflexão mais ampla sobre a forma como nos relacionamos com o mundo natural?</strong></p>
<p><strong> </strong>Acreditamos que sim. O teatro tem a capacidade de transformar temas complexos em experiências humanas e emocionais. Embora, por si só, não resolva os desafios ambientais que enfrentamos, pode criar espaços de reflexão, de diálogo e de questionamento que ajudam a despertar novas formas de olhar para o mundo.</p>
<p>O teatro tem ainda uma dimensão coletiva muito importante. É uma experiência vivida em comunidade, onde diferentes pessoas partilham o mesmo tempo e o mesmo espaço. Isso torna-o um lugar privilegiado para pensar os grandes desafios do presente e imaginar, em conjunto, formas mais sustentáveis de habitar o planeta.</p>
<p><strong>O espetáculo foi concebido para públicos de diferentes idades e inclui versões áudio adaptadas para crianças e adultos. Quais foram os principais desafios de criar uma experiência simultaneamente acessível, educativa e artisticamente estimulante para toda a família?</strong></p>
<p><strong> </strong>O maior desafio foi encontrar uma linguagem que conseguisse envolver diferentes públicos sem simplificar em excesso os conteúdos nem perder a dimensão artística da criação. Procurámos construir um espetáculo que despertasse a curiosidade das crianças, mas que também proporcionasse momentos de reflexão aos adultos.</p>
<figure id="attachment_301518" aria-describedby="caption-attachment-301518" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-301518 size-full" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/DSC_0738-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1707" srcset="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/DSC_0738-scaled.jpg 2560w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/DSC_0738-300x200.jpg 300w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/DSC_0738-1024x683.jpg 1024w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/DSC_0738-768x512.jpg 768w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/DSC_0738-1536x1024.jpg 1536w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/DSC_0738-2048x1365.jpg 2048w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/DSC_0738-600x400.jpg 600w" sizes="auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px" /><figcaption id="caption-attachment-301518" class="wp-caption-text">@Susana Chicó</figcaption></figure>
<p>As versões áudio adaptadas permitem precisamente responder às diferentes formas de receção do espetáculo, tornando a experiência mais inclusiva e adequada às várias idades. O nosso objetivo nunca foi criar um espetáculo &#8220;para crianças&#8221; ou &#8220;para adultos&#8221;, mas sim uma experiência partilhada, onde cada pessoa, a partir da sua sensibilidade e do seu conhecimento, possa estabelecer uma relação própria com as árvores, com a floresta e com as questões ambientais que o espetáculo levanta.</p>
<p><strong>Entre as Árvores integra várias medidas de acessibilidade, incluindo folhas de sala em braille, percurso adaptado e interpretação em Língua Gestual Portuguesa. Até que ponto a inclusão tem sido uma preocupação crescente nas criações do Chão de Oliva?</strong></p>
<p><strong> </strong>A inclusão e acessibilidade tem sido uma preocupação no trabalho mais recente desenvolvido pelo Chão de Oliva e faz parte da forma como pensamos os nossos projetos desde o início. Mais do que acrescentar medidas de acessibilidade no final do processo, procuramos que estejam integradas na conceção artística de cada criação, permitindo que um número cada vez maior de pessoas possa usufruir plenamente da experiência. Ainda estamos a aprender a fazê-lo, num processo de tentativa-erro, mas temos feito esse esforço, acompanhando o trabalho que também outras entidades artísticas têm feito.</p>
<p>Em <em>Entre as Árvores</em>, essa preocupação traduz-se em diferentes respostas de acessibilidade, como as folhas de sala em braille, a interpretação em Língua Gestual Portuguesa (será no dia 25 de julho) e os recursos áudio pensados para diferentes públicos (audidescrição, versão geral e versão infância e versão em inglês). Estas medidas refletem o compromisso de tornar a cultura mais inclusiva e de eliminar barreiras que continuam a limitar o acesso de muitas pessoas às artes performativas. Acreditamos que uma criação artística só está verdadeiramente completa quando pode ser vivida por públicos diversos.</p>
<p><strong>Depois de mergulharem no universo das árvores e das florestas durante este processo criativo, que mensagem ou sensação gostariam que os espectadores levassem consigo quando regressarem ao quotidiano?</strong></p>
<p><strong> </strong>Gostaríamos que os espectadores saíssem da Quinta da Ribafria com um olhar diferente sobre as árvores e sobre a natureza que os rodeia. Muitas vezes passamos diariamente por estes seres vivos sem reparar na sua importância, na sua complexidade ou na forma como sustentam a vida no planeta.</p>
<p>Se o espetáculo conseguir despertar mais curiosidade, mais atenção e um maior sentimento de pertença em relação ao mundo natural, acreditamos que já terá cumprido uma parte importante da sua missão. Não esperamos que o público saia com respostas fechadas, porém com vontade de observar, de fazer perguntas e de estabelecer uma relação mais próxima e consciente com as árvores e com os ecossistemas de que fazemos parte.</p>
<p>No fundo, esperamos que esta experiência permaneça para além da última cena e que funcione como um convite a cuidar da natureza, reconhecendo que o nosso futuro está profundamente ligado ao equilíbrio e à preservação da biodiversidade. Além disso, queremos também que seja um incentivo para as pessoas continuarem a visitar o património natural de Sintra, em particular a Quinta da Ribafria. É um espaço rico em biodiversidade e história que merece ser (re)descoberto.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Entrevista: Em Portugal, “o oceano continua, em grande medida, invisível nas contas nacionais e nos modelos financeiros”</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/entrevista-em-portugal-o-oceano-continua-em-grande-medida-invisivel-nas-contas-nacionais-e-nos-modelos-financeiros/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Filipa Rego]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jul 2026 06:03:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
		<category><![CDATA[oceano]]></category>
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					<description><![CDATA[Apesar de ocupar um lugar central na identidade e na economia do País, o oceano permanece subvalorizado nos processos de decisão económica e financeira. Para Stefania Semenova, gestora de projetos da Fundação Oceano Azul, essa invisibilidade compromete a proteção dos ecossistemas marinhos e a resiliência económica a longo prazo.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A abordagem tradicional da chamada “economia do mar” continua a tratar o oceano como “uma mercadoria a ser explorada”, orientada por ganhos imediatos e por uma lógica extrativa incompatível com os limites do planeta. Em entrevista à Green Savers, Stefania Semenova, gestora de projetos da Fundação Oceano Azul, defende que o oceano “deve ser entendido como um bem natural partilhado que sustenta a vida, a resiliência e a prosperidade a longo prazo”.</p>
<p>Para a gestora, uma economia azul “verdadeiramente sustentável requer uma transformação fundamental na forma como organizamos e medimos a atividade económica” e “deve ser orientada pela investigação científica, mas existe uma falta persistente de integração do oceano nos processos de decisão de governos e instituições financeiras”. Esta subvalorização “é particularmente preocupante, dado a escala e a aceleração da crise oceânica”, alerta.</p>
<p>Num contexto em que setores como a energia eólica offshore ganham peso estratégico, a salvaguarda passa por “garantir que o seu desenvolvimento esteja rigorosamente alinhado com os objetivos de biodiversidade e com a saúde dos ecossistemas marinhos”, acrescenta a gestora. Stefania Semenova diz ainda que o risco de “bluewashing” é uma “ameaça visível” e exige decisões baseadas na ciência, transparência e regras claras. Cabe ao Estado reorientar subsídios prejudiciais, prevenir práticas danosas na sua origem e tornar visível o valor do capital natural azul. Portugal reúne condições para se afirmar como referência europeia e global, mas apenas se evitar que a economia azul se torne um novo rótulo para práticas antigas num planeta finito.</p>
<p><strong>A Fundação Oceano Azul tem assumido um papel relevante na afirmação da economia azul em Portugal. Porque é que consideram essencial deixar para trás a noção tradicional de “economia do mar”? </strong></p>
<p>Ir além da tradicional “economia do mar” é essencial porque o modelo atual é altamente extrativo e baseado numa procura incessante de crescimento, num planeta cujos recursos são finitos. Esta abordagem tradicional trata o oceano como uma mercadoria a ser explorada, tornando-se num dos principais motores da sua degradação, e por isso, incompatível com a sua recuperação. Não seremos capazes de proteger o oceano sem transformar o sistema económico que sustenta a sua degradação, as alterações climáticas e as crises planetárias mais amplas que enfrentamos hoje. Reconhecendo isto, a Fundação Oceano Azul tem trabalhado para promover exemplos concretos de como poderá ser um futuro baseado numa verdadeira economia azul sustentável.</p>
<p>No cerne desta abordagem está a visão da Fundação de uma economia azul sustentável que altere o paradigma predominante, afastando-se da extração e dos ganhos a curto prazo. Em vez disso, o oceano deve ser entendido como um bem natural partilhado que sustenta a vida, a resiliência e a prosperidade a longo prazo. Esta perspetiva exige valorizar o oceano não apenas pelos bens e serviços imediatos que fornece, mas também pelo seu papel fundamental na regulação climática e na estabilidade dos ecossistemas. Ao integrar as dimensões ambientais, sociais e de equidade na tomada de decisões económicas, este modelo procura afastar-se de atividades prejudiciais e avançar para uma abordagem regenerativa que alinha a atividade económica com os limites planetários e a saúde a longo prazo dos ecossistemas marinhos.</p>
<p><strong>A economia azul defende uma abordagem que coloca a natureza e as comunidades no centro das decisões. Na prática, sentem que esta mudança de paradigma já está refletida nas políticas públicas e nas opções económicas ligadas ao oceano? </strong></p>
<p>Embora a mudança de paradigma em direção a uma economia azul centrada na natureza esteja a ganhar impulso, ainda não se reflete totalmente nas escolhas económicas globais. Uma economia azul verdadeiramente sustentável exige mais do que pequenos ajustes ao sistema atual; requer uma transformação fundamental na forma como organizamos e medimos a atividade económica. O modelo económico atual muitas vezes externaliza os custos ambientais e sociais e recompensa a degradação. Por exemplo, apenas cerca de 3% do investimento global é atualmente direcionado para iniciativas positivas para a natureza, enquanto os restantes 97% continuam a financiar atividades ambientalmente prejudiciais (UNEP, 2023). Este desequilíbrio ilustra como os fluxos financeiros e os incentivos permanecem desalinhados com a saúde a longo prazo do oceano e o bem-estar das comunidades.</p>
<p>Há, no entanto, um maior reconhecimento de que o oceano não é apenas um espaço para a atividade humana, mas um sistema vivo que fornece serviços essenciais ao clima, à biodiversidade e às sociedades. O seu papel como regulador climático, sumidouro de carbono e reservatório de biodiversidade é fundamental para a resiliência planetária. Modelos económicos que não têm em conta estas funções permanecem estruturalmente limitados. Isto sublinha a necessidade de uma transformação mais profunda em direção a uma economia azul sustentável, na qual a natureza e as comunidades não sejam considerações periféricas, mas centrais na forma como as políticas são concebidas, os investimentos são direcionados e o sucesso económico é definido.</p>
<p>Posto isto, estão a surgir avanços importantes ao nível das políticas. Podem ser observados progressos significativos em instrumentos regulatórios como a Diretiva de Reporte de Sustentabilidade Corporativa da UE (CSRD) e a Diretiva de Diligência de Sustentabilidade Empresarial (CSDDD), que exigem às empresas que divulguem e abordem os seus impactos ambientais. Estes instrumentos representam uma mudança em direção a uma maior responsabilidade, mesmo que a sua eficácia dependa de uma implementação e fiscalização robustas.</p>
<p>Ao nível nacional, Portugal apresenta um exemplo emergente através do Pacto da Bioeconomia Azul, uma agenda mobilizadora ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência que reúne mais de 80 empresas, instituições de investigação e atores públicos. O Pacto centra-se na reindustrialização de setores estratégicos, integrando a biotecnologia azul nas cadeias de valor, promovendo a utilização sustentável dos recursos marinhos para impulsionar a inovação, a descarbonização e a criação de emprego. Ilustra como os princípios da economia azul podem começar a traduzir-se em ação industrial e políticas concretas.</p>
<p>Apesar deste progresso, o oceano continua, em grande medida, invisível nas contas nacionais e nos modelos financeiros. Como resultado, os interesses das comunidades e o valor a longo prazo dos ecossistemas continuam frequentemente subordinados aos retornos económicos de curto prazo. A transição de um conceito de nicho para uma política geral continua a ser um processo em curso. Em particular, os interesses das comunidades e o valor a longo prazo dos ecossistemas são frequentemente secundários face aos retornos económicos imediatos nos processos de tomada de decisão.</p>
<p><strong>Fala-se cada vez mais do risco de algumas iniciativas se apresentarem como “azuis” sem alterarem verdadeiramente os seus modelos de atuação. Esse fenómeno é visível em Portugal? Como distinguir projetos sérios de simples estratégias de comunicação? </strong></p>
<p>O risco de “bluewashing” é uma ameaça visível que devemos combater através da tomada de decisões baseada na ciência e da transparência. Projetos sérios relacionados com financiamento podem ser distinguidos de meras estratégias de comunicação pela sua adesão a padrões “azuis” de elevada integridade, como os estabelecidos pelas Nações Unidas, que exigem a clara exclusão de atividades prejudiciais e alinhamento com os objetivos climáticos. Além disso, iniciativas genuínas concentram-se em dados “relevantes para investimento” e em relatórios rigorosos sobre biodiversidade, em vez de declarações vagas sobre sustentabilidade.</p>
<p>Em Portugal, um dos projetos da Fundação Oceano Azul, o Blue Bio Value, demonstra como isto pode funcionar na prática. O programa apoiou mais de 96 startups que atuam ao longo da cadeia de valor dos recursos marinhos para desenvolver soluções sustentáveis e prontas para o mercado. Ao centrar-se em soluções sustentáveis orientadas pela investigação e na construção de capacidades dentro da bioeconomia marinha, o BBV ilustra como os projetos podem ir além da comunicação para gerar um impacto ambiental e social tangível.</p>
<p><strong>Que papel concreto tem desempenhado a Fundação Oceano Azul para assegurar que a economia azul assenta em conhecimento científico, sustentabilidade ambiental e impacto real no território? </strong></p>
<p>A Fundação Oceano Azul é uma fundação de conservação da natureza centrada no oceano, que trabalha para restaurar e manter a saúde e a produtividade do oceano em benefício da vida no planeta. Os seus esforços concentram-se em apoiar a implementação de Áreas Marinhas Protegidas eficazes e baseadas na ciência, ao mesmo tempo que promovem o compromisso internacional de proteger 30% dos oceanos do mundo.</p>
<p>Reconhecendo que a proteção do oceano exige mais do que a conservação isolada, a Fundação atua na interseção entre conservação, advocacia internacional e políticas, quadros e economia. Neste último domínio, promove um modelo sustentável, fundamentado ecologicamente, socialmente equitativo e alinhado com os objetivos globais de sustentabilidade. Isto inclui defender mecanismos legais e financeiros que valorizem adequadamente os serviços dos ecossistemas, apoiar a cooperação internacional na governação do oceano e promover a integração do Capital Natural Azul na tomada de decisão pública e privada. Ao desafiar políticas oceânicas desatualizadas e catalisar mudanças sistémicas na forma como os recursos marinhos são valorizados e geridos, a Fundação garante que a economia azul se baseie na ciência, na sustentabilidade ambiental e em impactos tangíveis.</p>
<p>Em última análise, a abordagem da Fundação baseia-se no princípio de que só restaurando e mantendo a saúde do oceano poderá a economia azul tornar-se um caminho credível para um futuro sustentável e resiliente às alterações climáticas.</p>
<p>Com base nesta abordagem, a Fundação tem desempenhado um papel de liderança na ligação entre ciência e a economia, para assegurar que a economia azul tenha um impacto territorial concreto. Contribuiu para a criação do consórcio português INOVAMAR e do Pacto da Bioeconomia Azul, no valor de 139 milhões de euros, que alinha mais de 80 entidades nacionais em setores industriais regenerativos baseados em recursos marinhos.</p>
<p>Adicionalmente, estamos a colaborar com a London School of Economics para reavaliar o “Capital Natural Azul”. Esta iniciativa procura garantir que os serviços ecológicos cruciais e as funções sistémicas do oceano, como a fixação de carbono, o ciclo de nutrientes e a criação de biomassa, sejam finalmente refletidos na tomada de decisões económicas. Embora ainda esteja nas fases iniciais, a iniciativa reúne um grupo internacional e interdisciplinar de especialistas em economia, direito, finanças, ciências sistémicas, com o objetivo de redefinir o conceito de Capital Natural Azul e identificar estratégias para mudar mentalidades, criando uma ponte para a sua adoção generalizada. A iniciativa pretende demonstrar que um oceano saudável é um bem natural partilhado, a salvaguardar e investir, e não uma mercadoria a explorar de forma insustentável, promovendo o reconhecimento e valorização do Capital Natural Azul, enquanto apoia uma mudança sistémica na forma como este é reconhecido nas áreas de economia, finanças e direito.</p>
<p><strong>A ciência do oceano tem hoje o peso necessário nas decisões políticas associadas à economia azul ou continua a ser subvalorizada? </strong></p>
<p>A ciência oceânica continua a ser subvalorizada na tomada de decisões políticas e económicas, sendo frequentemente tratada como secundária face ao ganho financeiro imediato. Os sistemas naturais do oceano são muitas vezes invisíveis nas previsões económicas, porque os seus benefícios &#8211; como o ciclo de nutrientes, a fixação de carbono, a resiliência dos ecossistemas e a proteção costeira &#8211; raramente são tidos em conta nos modelos económicos ou nos quadros de política. Argumentamos que uma economia azul “verdadeira” deve ser orientada pela investigação científica, mas existe uma falta persistente de integração do oceano nos processos de decisão de governos e instituições financeiras. Esta subvalorização é particularmente preocupante, dado a escala e a aceleração da crise oceânica. O aquecimento dos oceanos, a acidificação, o declínio da biomassa e a rápida perda de biodiversidade estão já a perturbar a química, a biologia e a capacidade do oceano de regular o clima.</p>
<p>No entanto, os quadros de governação global têm tido dificuldades em acompanhar esta evidência científica, resultando em respostas políticas fragmentadas e frequentemente reativas, e não preventivas. A integração limitada da ciência marinha na tomada de decisões não só enfraquece os resultados ambientais, como também compromete a resiliência económica e social a longo prazo.</p>
<p>Em última análise, esta lacuna reflete uma falha estrutural mais profunda na forma como o oceano tem sido governado e como tem sido visto, principalmente, como um recurso ou espaço de exploração, em vez de um sistema vivo complexo e interconectado que sustenta a estabilidade planetária. A ciência oceânica deve ocupar um lugar central na tomada de decisões se a economia azul quiser proporcionar sustentabilidade real, resiliência climática e benefícios duradouros.</p>
<p><strong>A formação e a capacitação, sobretudo das gerações mais jovens, são frequentemente apontadas como determinantes. Que importância têm, de facto, para garantir uma economia azul com futuro? </strong></p>
<p>A educação e o desenvolvimento de capacidades são fatores decisivos porque muitas empresas, instituições financeiras e governos continuam a não ter consciência de como as suas decisões impactam o oceano ou de como se define o espaço de soluções. Na prática, isto significa que é necessário construir um historial de projetos bem-sucedidos e integrar o oceano nos currículos escolares e universitários, de forma a familiarizar os futuros decisores com a economia azul e a proteção dos oceanos. A literacia oceânica molda a forma como a sociedade percebe e valoriza o Capital Natural Azul. Não traz apenas conhecimento sobre os ecossistemas marinhos, mas também uma compreensão do oceano como um sistema vivo que desempenha um papel vital na regulação climática, na segurança alimentar e também na resiliência económica. A educação desenvolve esta capacidade ao fomentar conhecimento crítico e respeito pelos limites da natureza, enquanto capacita as futuras gerações a basearem as suas escolhas em evidência científica e não em retornos de curto prazo. Fortalece ainda o envolvimento público e a responsabilidade social, criando apoio às decisões e sendo essencial para uma economia azul resiliente.</p>
<p>Para a geração mais jovem, uma economia azul com futuro oferece oportunidades significativas de inovação em resposta aos desafios globais. Envolver os jovens desde cedo através da educação garante que estejam conscientes dos desafios oceânicos e equipados com o conhecimento e as competências para tomar decisões informadas, contribuindo para uma sociedade que valoriza, protege e, gradualmente, constrói uma economia oceânica regenerativa.</p>
<p><strong>Sendo a economia azul apresentada como um modelo inclusivo, que não se limita às zonas costeiras, de que forma pode Portugal assegurar que os benefícios chegam também ao interior do país? </strong></p>
<p>A economia azul deve ser abordada como uma cadeia de valor económica nacional e não como um conjunto de atividades limitado às áreas costeiras. Para garantir que os seus benefícios cheguem às regiões interiores de Portugal, deve ser vista como uma mudança económica sistémica que influencia a inovação e as cadeias de fornecimento onde quer que estejam localizadas. Embora muitas atividades marinhas ocorram ao longo da costa, grande parte da criação de valor através da investigação, transformação, serviços digitais, finanças e manufatura avançada pode ser gerada no interior, tornando a economia azul relevante para todo o país.</p>
<p>O Pacto da Bioeconomia Azul ilustra esta abordagem inclusiva, reunindo cerca de 80 entidades nacionais, incluindo 50 empresas de diferentes dimensões e setores e 30 organizações de investigação e inovação, que podem estar localizadas em todo o território nacional, para desenvolver soluções prontas para o mercado nos setores da alimentação, rações e biotecnologia. Paralelamente, a inovação na bioeconomia azul está a criar novos setores industriais que recorrem a recursos, competências e conhecimentos terrestres para apoiar produtos de base marinha. Ao contabilizar também o valor do Capital Natural Azul de Portugal ao nível do Orçamento do Estado, os benefícios económicos de um oceano saudável podem ser refletidos na tomada de decisões públicas, fortalecendo a resiliência económica em todo o país, incluindo nas regiões interiores.</p>
<p><strong>A aposta na energia eólica offshore surge como uma prioridade estratégica. Que salvaguardas considera essenciais para compatibilizar este desenvolvimento com a proteção dos ecossistemas marinhos? </strong></p>
<p>À medida que a energia eólica offshore se torna uma prioridade estratégica, a salvaguarda essencial consiste em garantir que o seu desenvolvimento esteja rigorosamente alinhado com os objetivos de biodiversidade e com a saúde dos ecossistemas marinhos. Acreditamos que qualquer expansão da economia azul, incluindo as energias renováveis, deve evitar a abordagem “prejudicial e extrativa” do passado e, em vez disso, operar dentro dos limites planetários. Tal exige avaliações de impacte ambiental (e social) abrangentes e uma valorização holística do capital natural da área, de modo a prevenir práticas danosas antes de estas ocorrerem. Isto significa, por exemplo, que os projetos de energia eólica offshore devem ser concebidos para apoiar &#8211; e não comprometer &#8211; a produtividade e a resiliência do sistema oceânico, garantindo que a aposta na energia limpa não se faz à custa da vida marinha.</p>
<p>As salvaguardas essenciais incluem o planeamento de projetos energéticos com base numa abordagem baseada no ecossistema e no Ordenamento do Espaço Marítimo, de forma a assegurar que as infraestruturas evitam áreas ecologicamente sensíveis, têm em conta os impactos cumulativos de múltiplas atividades e reduzem os conflitos com outros utilizadores do oceano. Devem ser realizadas Avaliações de Impacte Ambiental rigorosas em todas as fases de desenvolvimento, acompanhadas por cartografia e monitorização contínuas da biodiversidade e dos habitats marinhos, para orientar uma localização responsável dos projetos. Soluções híbridas e positivas para a natureza, como a conceção de estruturas offshore que proporcionem habitat ou a combinação de parques eólicos flutuantes com aquacultura de baixo impacte ou iniciativas de restauro, podem gerar energia ao mesmo tempo que apoiam a regeneração dos ecossistemas. A energia offshore deve também estar alinhada com os objetivos climáticos, de biodiversidade e de política pública, incluindo metas nacionais de proteção e iniciativas da UE como o Pacto Ecológico Europeu e o Horizonte Europa, de forma a acelerar tecnologias que sejam simultaneamente positivas para a energia e para a natureza. Por fim, o envolvimento das comunidades locais, de cientistas e de outros utilizadores do oceano nos processos de decisão é crucial para garantir que o desenvolvimento da energia offshore respeita os limites ecológicos, promove a coexistência e contribui para uma economia azul regenerativa e sustentável.</p>
<p><strong>Ainda é comum ouvir que proteger o oceano pode travar o crescimento económico. Como respondem a esse argumento? </strong></p>
<p>O argumento de que proteger o oceano prejudica o crescimento económico reflete um mal-entendido fundamental; na realidade, a proteção marinha é a base para a criação de valor a longo prazo. Um oceano saudável e em funcionamento fornece benefícios essenciais à sociedade e, portanto, à economia, permitindo que os sistemas planetários operem de forma estável. Processos como o ciclo de nutrientes, a regulação climática e a produção de oxigénio são frequentemente dados como garantidos precisamente porque historicamente funcionaram de forma fiável.</p>
<p>No entanto, a abordagem atual, extrativa e prejudicial ao oceano, e à natureza em geral, tratando-a como um recurso “gratuito”, oculta o declínio da rede de segurança natural ao focar-se estritamente no crescimento económico de curto prazo. Quando os impactos negativos são excluídos da tomada de decisão e o verdadeiro valor da natureza funcional e viva é tratado como uma externalidade, alimenta-se uma espiral de degradação dos próprios ativos dos quais a sociedade e a economia dependem. Isto cria riscos ocultos que só se materializam quando se ultrapassam limites críticos.</p>
<p>Esta dinâmica pode também ser medida em termos económicos. Se continuarmos com o “business as usual”, dois terços das empresas cotadas poderão perder 8,4 biliões de dólares de valor nos próximos 12 anos devido à degradação do oceano (WWF, 2021). Pelo contrário, a transição para uma economia azul sustentável poderia reduzir estas perdas em até 5 biliões de dólares. As Áreas Marinhas Protegidas (AMPs) não devem, portanto, ser vistas como um “custo” para os governos, mas como os investimentos essenciais de capital que são. Elas salvaguardam serviços críticos, como o armazenamento de carbono, a geração de biodiversidade e a resiliência dos ecossistemas, que sustentam o funcionamento futuro do planeta e, por sua vez, a oportunidade económica e a produtividade a longo prazo.</p>
<p><strong>Que responsabilidades deve assumir o Estado na criação de regras claras que incentivem o investimento, sem colocar em causa a saúde dos oceanos? </strong></p>
<p>O Estado deve assumir a responsabilidade de estabelecer regras claras que reorientem subsídios prejudiciais e implementem regulamentos para prevenir práticas danosas na sua origem. Isto inclui integrar o Capital Natural Azul nos orçamentos e contas nacionais, tornando visível para todos os decisores o valor económico, social e estratégico completo de um oceano saudável. Ao implementar estes quadros, o Estado fornece a certeza e a confiança necessárias às instituições financeiras e aos investidores para direcionar capital para indústrias sustentáveis, em vez de extrativas. Esta abordagem permite uma tomada de decisão verdadeiramente informada, com perspetiva de longo prazo, garantindo que os benefícios de manter sistemas naturais em funcionamento são plenamente contabilizados ao lado dos retornos monetários.</p>
<p>A colaboração intersetorial entre instituições de investigação, empresas e organismos públicos permite o desenvolvimento de novos produtos, serviços e tecnologias que incorporam o valor dos recursos marinhos tanto nas cadeias de valor tradicionais como nas emergentes. Regulamentos bem concebidos, monitorização e incentivos transparentes não só protegem o oceano, como também podem estimular a inovação, atrair novos investimentos e fomentar o desenvolvimento de setores emergentes sustentáveis. Desta forma, o Estado não apenas salvaguarda o oceano, como também contribui para desbloquear o potencial económico de uma economia azul regenerativa, criando oportunidades que beneficiam a sociedade, a indústria e as gerações futuras.</p>
<p><strong>Portugal reúne condições para se afirmar como uma referência europeia ou mesmo global na economia azul? O que falta para dar esse salto? </strong></p>
<p>Portugal possui as condições essenciais para se tornar uma referência europeia e global na economia azul. Com a quinta maior Zona Económica Exclusiva da Europa, o país dispõe de um vasto território marítimo que oferece uma plataforma única para expandir a atividade económica sustentável, promover a inovação e reforçar a investigação e desenvolvimento ligados ao oceano. A economia azul portuguesa beneficia de uma diversidade de setores, incluindo o turismo costeiro, os recursos vivos marinhos e os serviços baseados no oceano, apoiados por uma forte rede de plataformas de inovação.</p>
<p>Para dar o próximo salto, Portugal &#8211; e qualquer país que persiga uma economia azul regenerativa &#8211; deve adotar uma abordagem sistémica. Isto significa integrar o Capital Natural Azul na contabilidade nacional e nos orçamentos públicos, redirecionar financiamento e subsídios para soluções sustentáveis e desenvolver quadros jurídicos e económicos que reflitam o valor intrínseco dos sistemas marinhos vivos. Também é necessário garantir que o valor do Capital Natural Azul esteja incorporado tanto na tomada de decisão pública como na privada. A educação e o desenvolvimento de competências são igualmente essenciais. Programas especializados que combinem conhecimento sobre economia azul com negócios, tecnologia e finanças irão preparar a força de trabalho para inovar, gerir cadeias de valor sustentáveis e transformar investigação em soluções prontas para o mercado.</p>
<p><strong>Atividades tradicionais, como a pesca, enfrentam desafios crescentes. Como podem integrar-se numa lógica de economia azul sem perder sustentabilidade económica e social? </strong></p>
<p>Atividades tradicionais, como a pesca, podem ser integradas num quadro de economia azul ao passar-se de um foco no rendimento de curto prazo para um modelo que valorize o papel do peixe no ecossistema mais amplo. Isto não significa acabar com a pesca, mas sim evoluir o setor para apoiar a gestão responsável e garantir que a biodiversidade e os serviços ecossistémicos sejam reconhecidos como o “capital” que sustenta o futuro social e económico da indústria. Esta mudança protege os meios de subsistência das comunidades costeiras, mantendo a produtividade a longo prazo dos oceanos de que dependem.</p>
<p>Para tornar esta integração credível para aqueles cujas vidas dependem da captura diária, a economia azul deve ser enquadrada como uma estratégia para proteger o “capital biológico” que sustenta os meios de subsistência locais e o património costeiro. Os pescadores tradicionais são frequentemente os primeiros a sentir os impactos da degradação oceânica, e devem estar no centro da transição de um modelo orientado pelo volume para um modelo orientado pelo valor. Isto implica apoiar o setor com investimentos em rastreabilidade, tecnologia melhorada e cadeias de abastecimento mais curtas, permitindo que os pescadores obtenham maior valor de mercado pelos produtos capturados de forma sustentável, em vez de competir numa corrida para o fundo com a extração industrial.</p>
<p>Ao estabelecer co-gestão baseada na ciência e proteger áreas críticas de “berçário” através de Áreas Marinhas Protegidas (AMPs), não estamos a restringir a pesca, mas a garantir o “capital” necessário para mares produtivos e resilientes. Em última análise, a Fundação vê a economia azul como um meio de assegurar que o oceano continue a ser uma fonte de riqueza e dignidade para a próxima geração de pescadores, passando de um modelo de esgotamento para um modelo de gestão responsável a longo prazo, em que um oceano saudável é a única garantia de rendimento estável.</p>
<p><strong>Até que ponto a economia azul pode ser decisiva para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, em particular o ODS 14, dedicado à proteção da vida marinha? </strong></p>
<p>A economia azul é decisiva para alcançar o ODS 14 porque procura redirecionar o significativo fluxo de capital global das atividades prejudiciais para soluções positivas para o oceano. Sem esta mudança financeira, qualquer progresso na criação de Áreas Marinhas Protegidas (AMPs) corre o risco de ser minado por incentivos de mercado que favorecem a extração e a degradação. Continuar com o “business as usual” deterioraria ainda mais a saúde dos oceanos, colocando em risco um enorme valor económico e ecológico global. Por contraste, uma economia azul verdadeiramente sustentável alinha a busca da prosperidade económica com a necessidade urgente de proteger a vida marinha, transformando a gestão responsável dos oceanos num motor de inovação, investimento e benefício social a longo prazo. Desta forma, torna-se não apenas uma ferramenta de apoio, mas um motor principal para atingir as metas de 2030 estabelecidas pelo ODS 14.</p>
<p><strong>Existe o risco de a economia azul se tornar apenas um novo rótulo para práticas antigas. Se daqui a uma década continuarmos a falar de economia azul, mas o estado do oceano tiver piorado, onde é que Portugal terá falhado? </strong></p>
<p>Existe um risco significativo de a economia azul se tornar um “novo rótulo para práticas antigas” se não formos além da busca de crescimento incessante num planeta finito. Uma economia azul sustentável não é um complemento aos caminhos de desenvolvimento existentes, mas uma mudança necessária no paradigma económico. À medida que o oceano enfrenta pressões crescentes devido às alterações climáticas, à perda de biodiversidade e à poluição, é imperativo incorporar o capital natural na tomada de decisão económica, valorizando o oceano não apenas pelos bens e serviços imediatos que fornece, mas também pelo seu papel na regulação climática, na resiliência dos ecossistemas e na habitabilidade global.</p>
<p>Portugal terá falhado se, daqui a uma década, continuarmos a tratar o oceano como um recurso infinito e invisível nos nossos modelos financeiros e previsões nacionais. O sucesso exige uma  transição da extração para a regeneração. Se o estado do oceano continuar a deteriorar-se, será porque não redefinimos o conceito de “valor” e permitimos que interesses financeiros de curto prazo sobreponham os limites científicos e ecológicos. Os setores económicos dependentes dos ecossistemas marinhos &#8211; desde a pesca e aquacultura até à biotecnologia e ao turismo &#8211; devem operar dentro dos limites planetários. Setores emergentes, como a biotecnologia marinha e a bioeconomia azul, oferecem um verdadeiro potencial, mas o seu sucesso é inseparável da saúde do sistema oceânico do qual dependem.</p>
<p>Esta responsabilidade não recai apenas sobre Portugal; trata-se de um esforço multilateral para alcançar este objetivo. Contudo, como um dos líderes na área dos oceanos, o país deve dar o exemplo. Nesta visão, a economia azul, as finanças e o direito não são apenas ferramentas para o crescimento; são instrumentos de regeneração, resiliência e de um futuro verdadeiramente sustentável.</p>
<p style="text-align: right;"><em><strong>*Entrevista publicada originalmente na edição em papel de março de 2026</strong></em></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>Entrevista/Calor: O dilema europeu entre arrefecer o clima ou a casa</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/entrevista-calor-o-dilema-europeu-entre-arrefecer-o-clima-ou-a-casa/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Green Savers com Lusa]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Jul 2026 17:08:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[casa+]]></category>
		<category><![CDATA[clima]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[internacional]]></category>
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					<description><![CDATA[“A Europa está neste momento num impasse. Por um lado, quer atingir as metas ambientais e poupar energia, não ter ares condicionados, nem outras fontes de gastos energéticos. Por outro lado, está a sofrer com a mudança climática, que obriga a que os edifícios tenham ar condicionado, o que é completamente contrário às metas que definiu”, afirmou o arquiteto Nuno Sampaio.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="text-paragraph">As ondas de calor podem pôr em causa metas definidas pela Europa contra o aquecimento global, dada a necessidade de adotar medidas de refrigeração dos edifícios, defendeu em entrevista à Lusa o diretor executivo da Casa da Arquitetura.</p>
<p class="text-paragraph">“A Europa está neste momento num impasse. Por um lado, quer atingir as metas ambientais e poupar energia, não ter ares condicionados, nem outras fontes de gastos energéticos. Por outro lado, está a sofrer com a mudança climática, que obriga a que os edifícios tenham ar condicionado, o que é completamente contrário às metas que definiu”, afirmou o arquiteto Nuno Sampaio.</p>
<p class="text-paragraph">Dados divulgados na quarta-feira pelo Eurostat, revelaram que o consumo de energia para arrefecer as habitações na União Europeia duplicou em apenas seis anos, impulsionado pelo aumento das temperaturas e pela maior utilização de ar condicionado.</p>
<p class="text-paragraph">“Será provavelmente o continente que mais sofrerá com as alterações climáticas, principalmente o norte da Europa, o sul também, mas o norte foi sempre desenhando cidades para responder às condições climáticas que tínhamos, que era frio”, observou.</p>
<p class="text-paragraph">Na arquitetura, recordou, trabalhava-se para não se dissipar o calor que se produzia dentro das casas. “Eram feitos isolamentos térmicos muitíssimo grandes, por fora dos edifícios, e aqueciam-se as casas e o importante era não deixar que o calor saísse”, referiu Nuno Sampaio ao analisar a situação dos países da Europa central e do norte.</p>
<p class="text-paragraph">O frio continuará a existir, mas segundo as projeções climáticas, as temperaturas elevadas serão cada vez mais frequentes e intensas, devido ao aquecimento global. “Isto é uma coisa que já é irreversível”, observou.</p>
<p class="text-paragraph">Os arquitetos estudam, neste momento, como adaptar habitações e cidades aos fenómenos extremos de calor e de chuvas intensas, causadas por uma maior evaporação.</p>
<p class="text-paragraph">“Temos de conseguir acomodar esta nova situação”, disse Nuno Sampaio, que é também curador da Bienal de Arquitetura Ibero-Americana, marcada para a primeira semana de novembro, em Brasília, onde estes temas estarão em discussão.</p>
<p class="text-paragraph">“A preocupação em alguns momentos do ano na Europa é termos um pico de calor, que aquece a cidade, o espaço público, e as construções não estão preparadas para dissipar esse calor”, admitiu Nuno Sampaio, dando como exemplo a falta de ventilação transversal, com janelas desenhadas para não abrirem ou de reduzida dimensão.</p>
<p class="text-paragraph">No caso dos países nórdicos, com pouca luz, as janelas de grandes dimensões não dispõem de proteção solar. “Pelo contrário, o que eles queriam era que entrasse luz, para não gastarem em iluminação interna”.</p>
<p class="text-paragraph">Da mesma forma, as grandes paredes de vidro dos edifícios, ao estarem hoje expostas a um “sol mais forte” deixam entrar uma temperatura “muito elevada”, explicou Nuno Sampaio, salientando que ao contrário de outros países mais habituados a temperaturas elevadas, na Europa central e do norte, os sistemas não estão preparados para arrefecimento.</p>
<p class="text-paragraph">“Não foram trabalhados para isso, têm pavimentos de aquecimento central, com piso radiante, aquecimento de radiadores, não têm ar condicionado”, salientou o arquiteto.</p>
<p class="text-paragraph">Para Nuno Sampaio, a Europa, que se destacava até aqui na luta contra as alterações climáticas, pode vir a ter “a primeira grande zona terrestre a sofrer diretamente”, pondo em causa as metas que estabeleceu para mitigar o aquecimento global.</p>
<p class="text-paragraph">Fachadas trabalhadas com elementos que ajudem a baixar a temperatura do edifício e vegetação fazem parte das soluções enumeradas por Nuno Sampaio, no âmbito das opções com menor impacto ambiental.</p>
<p class="text-paragraph">“A Europa vive este drama neste momento porque está numa área territorial que foi feita para proteger do frio e manter o calor dentro de casa, para agora ter de lidar com temperaturas e exposições solares altíssimas. Não tem as condições, nem da arquitetura da cidade, nem da construção, nem muitas vezes da própria estrutura de arrefecimento”, concluiu Nuno Sampaio, que pretende envolver os governos de Portugal, Espanha e Brasil na discussão destas questões na Bienal de Arquitetura Ibero-Americana.</p>
<p class="text-paragraph">“Quando a arquitetura não ajuda, a tecnologia ajuda. Só que no caso da tecnologia, o ar condicionado não é muito bom para o ambiente”, advertiu.</p>
<p class="text-paragraph">A Europa, considerou o arquiteto, está perante um dilema que precisa de resposta a curto prazo, porque já está a sofrer os efeitos do aquecimento do clima, quando a transformação da cidade e da arquitetura implicam intervenções de médio e longo prazo.</p>
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		<title>Adaptação climática das infraestruturas críticas “ainda longe da dimensão que o problema exige”</title>
		<link>https://greensavers.sapo.pt/adaptacao-climatica-das-infraestruturas-criticas-ainda-longe-da-dimensao-que-o-problema-exige/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Filipe Pimentel Rações]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Jul 2026 07:03:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alterações Climáticas]]></category>
		<category><![CDATA[Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Green Savers]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[adaptação climática]]></category>
		<category><![CDATA[entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[infraestruturas]]></category>
		<category><![CDATA[nacional]]></category>
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					<description><![CDATA[Elói Figueiredo, catedrático da Lusófona e engenheiro civil especialista em resiliência das infraestruturas, explica os riscos de não adaptar infraestruturas críticas, como energia, comunicações e transportes, a eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes e intensos.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Temperaturas acima dos 40 graus Celsius em muitas regiões de Portugal continental e cerca de dois terços do território sob aviso vermelho. É assim que começa julho, com uma onda de calor que leva os termómetros para máximos históricos em muitos locais, que resseca a terra e faz olhar com apreensão para o que ainda poderá estar por vir.</p>
<p>Isto, depois de um arranque de 2026 que nos presenteou com um “comboio de tempestades” que deixou diversas localidades em estado de calamidade, que destruiu casas, devastou florestas, desalojou famílias, interrompeu negócios e converteu aldeias em réplicas catastróficas de Veneza.</p>
<p>Ainda há estradas destruídas, autarquias, famílias e empresas à espera de apoios financeiros para se reerguerem, telecomunicações que aguardam regularização do serviço, ao mesmo tempo que o calor volta a apertar Portugal e muitos outros países da Europa.</p>
<p>Esta semana a <a href="https://www.facebook.com/photo?fbid=1447884710710639&amp;set=a.316691103830011&amp;locale=pt_PT" target="_blank" rel="noopener">Representação da Comissão Europeia em Portugal</a> recorreu às suas redes sociais online para transmitir uma mensagem ominosa, mas nem por isso inesperada ou divergente dos alertas feitos há anos pelos cientistas: “A Europa está a aquecer ao dobro da média global. Os verões que hoje consideramos extremos podem muito bem tornar-se a norma amanhã”.</p>
<p>Se o calor extremo poderá tornar-se a norma, é preciso pensar, entre outras coisas, sobre a adaptação, especialmente de infraestruturas críticas como a energia, as telecomunicações e as vias de transporte. Recentemente, um troço dos <a href="https://www.bbc.com/news/articles/c5yzl2ll8l8o" target="_blank" rel="noopener">caminhos-de-ferro entre as cidades britânicas de Leamington Spa e Coventry</a> esteve inoperacional por causa de deformação causada pelas altas temperaturas, e <a href="https://www.aljazeera.com/video/newsfeed/2026/6/30/german-heatwave-melts-tram-tracks-triggers-travel-disruptions" target="_blank" rel="noopener">carris de elétrico na cidade alemã de Leipzig derreteram</a>.</p>
<p>É um exemplo entre muitos outros, mas ilustra bem o que o futuro nos reserva. No final de junho, a Comissão Económica das Nações Unidas para a Europa (UNECE) lançou um <a href="https://unece.org/transport/publications/climate-change-impacts-towards-climate-resilient-transport-systems" target="_blank" rel="noopener">relatório</a> no qual antevê grandes riscos para os sistemas de transporte (estradas, ferrovia, portos e aeroportos) na Europa, Ásia Central e América do Norte. A análise diz que se espera que esses sistemas enfrentem “condições climáticas ainda mais adversas” já a partir de 2051, incluindo cheias, calor extremo e aumento do nível do mar.</p>
<p>Os analistas estimam que as infraestruturas de transporte terão de conseguir suportar um aumento de 10 a 50 dias por ano de temperaturas acima dos 25 graus, com algumas áreas a poderem experienciar até 200 dias adicionais acima desse limiar. Isso aumenta o risco de deterioração dos pavimentos, de expansão térmica das juntas de dilatação das pontes, de deformação de caminhos-de-ferro e de incêndios em torno dessas infraestruturas.</p>
<p>Sabendo que o verão ainda agora começou, estará Portugal preparado para lidar com o calor extremo? Serão as infraestruturas críticas nacionais de transporte, energia e comunicações capazes de lidar com as temperaturas elevadas que se preveem?</p>
<p><strong>Um clima que pode já não existir</strong></p>
<p>“De um modo geral, as infraestruturas de energia, comunicações e transportes em Portugal apresentam um nível razoável de robustez”, diz-nos Elói Figueiredo, engenheiro civil e professor catedrático da Universidade Lusófona, em Lisboa. “Contudo, o clima para o qual grande parte das infraestruturas portuguesas foi projetada poderá já não existir”, acrescenta.</p>
<figure id="attachment_301060" aria-describedby="caption-attachment-301060" style="width: 212px" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-301060" src="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/eloi-figueiredo-e1783086851239-212x300.jpg" alt="" width="212" height="300" srcset="https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/eloi-figueiredo-e1783086851239-212x300.jpg 212w, https://greensavers.sapo.pt/wp-content/uploads/2026/07/eloi-figueiredo-e1783086851239.jpg 500w" sizes="auto, (max-width: 212px) 100vw, 212px" /><figcaption id="caption-attachment-301060" class="wp-caption-text">Elói Figueiredo é professor catedrático da Universidade Lusófona, engenheiro civil especialista em resiliência de infraestruturas e coordenador do centro de investigação RISE – Resilient Infrastructure Systems and Environment.</figcaption></figure>
<p>O especialista em resiliência de infraestruturas, e coordenador do centro de investigação <a href="https://rise.ulusofona.pt/" target="_blank" rel="noopener">RISE – Resilient Infrastructure Systems and Environment,</a> explica que, ao longo de décadas, as infraestruturas em Portugal foram sendo “sucessivamente construídas, adaptadas e sobrepostas”, o que criou “um sistema infraestrutural complexo” no qual coexistem “diferentes gerações, níveis de conhecimento e pressupostos de projeto”.</p>
<p>Grande parte das estradas, das linhas ferroviárias, pontes e sistemas energéticos “foi projetada assumindo um clima relativamente estável”, mas “num contexto de extremos climáticos cada vez mais frequentes, essa premissa deixou provavelmente de ser válida”, avisa.</p>
<p>O calor extremo causa deformações que levam ao limite a capacidade de tolerância de carris e pontes, aceleram a degradação de estradas e sobreaquecem equipamentos elétricos, “o que pode resultar em interrupções temporárias”, avança. Mas o problema não é só das infraestruturas e também se reflete ao nível da qualidade dos serviços prestados.</p>
<p>Elói Figueiredo dá como exemplo “episódios de desconforto térmico” no comboio de longo curso Alfa Pendular, que de desloca entre o Norte e do Sul do país, em alturas de grande calor. Aponta também a “interrupção intermitente” que durante várias semanas atingiu a Linha do Norte devido a inundações e quedas de árvores causadas pelo “comboio de tempestades”, o que, para ele, “provou a falta de resiliência climática da linha ferroviária”.</p>
<p>No dia 3 de julho, a CP – Comboios de Portugal emitiu um <a href="https://www.cp.pt/pt/detalhe-aviso/temperaturas-extremas-julho-26" target="_blank" rel="noopener">aviso</a> no qual dizia, precisamente, que devido à onda de calor que atingia o país era possível a ocorrência de “alterações às condições de circulação e de conforto de alguns comboios”, deixando claro a exposição dessas infraestruturas aos piores efeitos das alterações climáticas.</p>
<p><strong>O conhecimento já existe</strong></p>
<p>Apesar de reconhecer que Portugal está hoje “mais bem capacitado do que há uma década” para responder a fenómenos climáticos fora do comum, e que os responsáveis pela gestão das infraestruturas críticas estão a adquirir “uma cultura de ação”, o catedrático diz que o país continua numa “fase de adaptação reativa”. Ou seja, responde aos eventos depois de acontecerem, “em vez de antecipar sistematicamente riscos futuros”, lamenta.</p>
<p>O conhecimento sobre como adaptar as infraestruturas ao clima que hoje temos já existe, diz-nos Elói Figueiredo, pelo que “o grande desafio” estão em convertê-lo em normas, investimentos e decisões “antes que os danos se tornem mais caros do que a prevenção”.</p>
<p>No que toca a infraestruturas já existentes, o especialista diz que a adaptação climática deve ser central na reabilitação. Entre 2021 e 2023, coordenou o projeto “ClimaBridge”, que estudou o impacto do aumento uniforme da temperatura numa ponte de betão armado no norte do país, construída na década de 1990. Percebeu-se que as normas da altura subestimavam “significativamente” os efeitos das variações de temperatura.</p>
<p>Contudo, as normas europeias relativas ao projeto de estruturas de edifícios e de outras obras de engenharia civil, os chamados Eurocódigos Estruturais, já oferecem “uma margem de segurança mais adequada para enfrentar um clima em mudança”, descreve Elói Figueiredo. “É um novo paradigma no dimensionamento, baseado em projeções futuras e não apenas em dados históricos”, salienta.</p>
<p>Assim, “a ciência e a tecnologia necessárias já existem em muitos domínios”, diz, pelo que resta incorporá-las integralmente na forma como se concebem, implementam, gerem e reabilitam as infraestruturas.</p>
<p><strong>Energia e comunicações</strong></p>
<p>Também as redes energéticas estão a ser impactadas por fenómenos climáticos extremos, agora, especificamente, pela onda de calor. Por exemplo, em França um “apagão” deixou quase 70.000 casas sem eletricidade depois de uma falha num transformador relacionada com o calor extremo.</p>
<p>Em Portugal, a ministra do Ambiente e Energia admite a <a href="https://greensavers.sapo.pt/calor-ministra-do-ambiente-pede-economia-de-agua-e-admite-apagoes-localizados/" target="_blank" rel="noopener">possibilidade de “apagões” localizados</a> devido a uma eventual “sobrecarga da utilização da eletricidade”. Mais calor leva a um maior consumo de eletricidade para aparelhos de refrigeração, como ar condicionado, que sobrecarregam a rede.</p>
<p>“Temos uma rede neste momento muito resiliente, mas não estamos livres disso poder acontecer, como aconteceu em França e em outros países da Europa”, reconhece Maria da Graça Carvalho.</p>
<p>Elói Figueiredo explica que as altas temperaturas e ondas de calor mais frequentes “elevam a probabilidade de perturbações nos sistemas energéticos”. E isso pode traduzir-se, diz-nos o especialista, na redução da eficiência das linhas elétricas, dos transformadores e dos centros de dados. A juntar a isso, o aumento do consumo de eletricidade devido à “utilização intensiva” de sistemas de ar condicionado é mais um fator de pressão.</p>
<p>“A resiliência das infraestruturas energéticas é cada vez mais determinante num clima em mudança”, e “o mesmo raciocínio pode ser aplicado às infraestruturas de comunicação, cuja operação depende da disponibilidade de energia e do controlo térmico dos equipamentos”, aponta o catedrático.</p>
<p>“O aumento da resiliência das infraestruturas energéticas e de comunicação deverá privilegiar a redundância, a descentralização e a capacidade de recuperação rápida após eventos extremos”, defende.</p>
<p><strong>É preciso ir mais longe</strong></p>
<p>No passado mês de junho, o <a href="https://greensavers.sapo.pt/governo-aprovou-nova-estrategia-de-adaptacao-as-alteracoes-climaticas/" target="_blank" rel="noopener">Governo</a> aprovou a nova <a href="https://participa.pt/contents/consultationdocument/ENAAC_2030_2810.pdf" target="_blank" rel="noopener">Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas 2030</a> (ENAAC2030), que tem como um dos objetivos estratégicos “acelerar a implementação de medidas de adaptação, integrando o risco climático no planeamento, promovendo o ‘climate proofing’ das infraestruturas e atividades, e acelerando a execução de medidas concretas”.</p>
<p>Por todo o documento encontram-se referências aos riscos representados pelas alterações climáticas às infraestruturas em Portugal, bem como à importância de agir para reforçar a sua resiliência a fenómenos extremos. Ainda que seja “um passo importante”, Elói Figueiredo considera que o ENAAC2030 é “insuficiente para garantir a resiliência climática das infraestruturas portuguesas nas próximas décadas”.</p>
<p>Como “grande crítica”, aponta o facto de Portugal não ter ainda “um programa nacional de adaptação das infraestruturas críticas, com prioridades, metas e financiamento claramente definidos”.</p>
<p>“A adaptação climática está a ganhar visibilidade em Portugal, mas a efetivação está ainda longe da dimensão que o problema exige”, sublinha Elói Figueiredo, explicando que “ainda não está sistematizada a integração das projeções climáticas e do risco climático no planeamento das infraestruturas e na priorização de investimentos preventivos na adaptação”.</p>
<p>Mas a responsabilidade não pode ser somente imputada ao Estado central, que, reconhece o especialista, tem um “papel insubstituível” na definição de estratégias nacionais, na regulamentação e no financiamento de infraestruturas críticas. Também os municípios são chamados a contribuir.</p>
<p>Explica o catedrático da Lusófona que as autarquias desempenham “um papel fundamental”, pois “são responsáveis pelo ordenamento do território, pela gestão de grande parte da rede viária local, pela drenagem urbana, pela proteção civil e pela resposta de proximidade às populações”. Por isso, destaca como “decisiva” a integração das alterações climáticas nos instrumentos de planeamento municipal e nos investimentos em infraestruturas locais “para aumentar a resiliência do território português”.</p>
<p>As empresas que gerem sistemas de transportes, energia e comunicações são outros dos intervenientes indispensáveis. Para Elói Figueiredo, essas entidades “têm a responsabilidade de incorporar o risco climático na gestão dos seus ativos e de desenvolver planos de adaptação e continuidade de serviço”. Ainda assim, reconhece que a mobilização dessas empresas para estes esforços “dependerá muito do retorno financeiro imediato da adaptação”.</p>
<p><strong>Ainda não é uma prioridade política</strong></p>
<p>Apesar de estar cada vez mais presente nos debates públicos e políticos, especialmente depois dos eventos extremos que têm assolado o país desde o início do ano, a adaptação climática das infraestruturas críticas “ainda não se tornou uma prioridade política ao mesmo nível de outras áreas”, considera o coordenador do centro de investigação RISE.</p>
<p>E isso é explicado, pelo menos em parte, pelo facto de os “benefícios do investimento preventivo” serem “menos visíveis do que os custos da reconstrução após catástrofe”, explica Elói Figueiredo, que sentencia que “continuamos a investir mais na reparação dos danos do que na redução das vulnerabilidades”.</p>
<p>Para que esse paradigma se altere, “é necessário quantificar economicamente os riscos, demonstrar que a adaptação precoce é mais barata do que a reconstrução reativa e criar mecanismos estáveis de financiamento para a resiliência climática”, esclarece o catedrático. E acrescenta que “o investimento em adaptação deve ser encarado como uma política de segurança nacional e de competitividade económica”.</p>
<p>Estima-se que as tempestades do início do ano terão já este ano um impacto de cerca de mil milhões de euros, cerca de 0,3% do PIB, na receita fiscal e contributiva, um efeito que ainda se fará sentir em 2027, com um impacto previsto de 300 milhões.</p>
<p>Descrevendo as infraestruturas de energia, comunicações e transportes como “a espinha dorsal de sociedades modernas”, cujas falhas “propagam-se rapidamente” pela economia, pelos serviços públicos e pela vida quotidiana de todas as pessoas, Elói Figueiredo sentencia que investir na sua resiliência climática é, na sua essência, “reduzir perdas económicas, proteger vidas humanas, aumentar a segurança do território e garantir a continuidade de serviços essenciais”.</p>
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