Focas estão a ingerir microplásticos mesmo nas regiões mais remotas do Alasca

Cientistas descobrem que as focas da espécie Phoca largha estão a ingerir micropartículas de plásticos nos mares de Bering e de Chukchi, ao largo da costa do Alasca (Estados Unidos da América).
Num artigo publicado recentemente na revista ‘Marine Pollution Bulletin’, investigadores da Universidade do Alasca em Fairbanks e técnicos do Departamento de Pesca e Caça do Alasca dizem ter encontrado microplásticos nos estômagos de 33 das 34 focas examinadas, que foram capturadas por caçadores de subsistência nas cidades de Gambell e Shishmaref, no extremo mais ocidental desse estado norte-americano, já parte da região ártica.
“A maioria das pessoas vê o Ártico como um local prístino que está livre desta contaminação antropogénica”, aponta Alexandria Sletten, em comunicado. Mas a investigadora e primeira autora do estudo avisa que “os microsplásticos estão neste ambiente e os mamíferos marinhos estão a ingeri-los”.
As focas foram caçadas entre 2012 e 2020 e daquelas que ingeriram microplásticos os investigadores retiraram um total de 190 partículas sintéticas dos seus estômagos. Os autores concluem que as concentrações desses materiais não variam consoante a idade, a localização ou o ano em que foram capturadas, o que leva a crer que os microplásticos estão, pelo menos ao longo dos últimos 13 anos, a contaminar as águas do Ártico em concentrações relativamente constantes.
Sendo uma região remota e com uma presença humana reduzida, os investigadores acreditam que os microsplásticos terão lá chegado arrastados pelas correntes oceânicas, oriundos de outras partes do planeta.
De acordo com a investigação, as maiores concentrações de microplásticos encontrados nos estômagos destas focas estavam associadas a presas por elas consumidas, como camarões e peixes que vivem no leito marinho, onde, coincidentemente, essas partículas sintéticas tendem a acumular-se. Por isso, a contaminação das focas será, na prática, indireta, pois acontece através do consumo de presas que primeiramente ingeriram os microplásticos ou de outros peixes mais acima na cadeia alimentar que são predadores desses animais.
Embora digam que este é o primeiro estudo a analisar o conteúdo dos estômagos de mamíferos marinhos nos mares de Bering e de Chukchi, os autores salientam que os resultados estão em linha como uma tendência já identificada ao longo de uma série de outros trabalhos científicos que apontam para uma contaminação persistente por microplásticos de mamíferos marinhos por toda a região ártica e subártica, incluindo baleias-da-gronelândia, belugas, morsas e outras espécies de focas.
Lara Horstmann, uma das principais coautoras do artigo, lamenta que “encontramos [microplásticos] em todo o lado” e avisa que “já não há nada que seja absolutamente limpo e puro”.