Gralhas cansadas trocam a vigilância por um sono profundo

As aves, ao contrário dos humanos e de outros animais, podem dormir, por vezes literalmente, com um olho aberto. Em vez de mergulharem em sonos totalmente profundos, descansam uma metade do cérebro primeiro e depois a outra, mas não ao mesmo tempo, conseguindo, dessa forma, manter-se alerta para potenciais ameaças, como predadores.
Contudo, uma investigação divulgada esta semana na revista ‘Current Biology’ revela que as gralhas-de-nuca-cinzenta (Coloeus monedula), se estiverem mesmo muito cansadas, dormem profundamente, “desligando” ambos os hemisférios cerebrais, trocando a vigilância pelo descanso.
“O sono é uma perigosa parte da vida para muitos animais, uma vez que os deixa expostos a todo o tipo de perigos”, diz, em comunicado, Niels Rattenborg, investigador do Instituto Max Planck para Inteligência Biológica e coautor do artigo.
“Algumas aves conseguem funcionar surpreendentemente bem com muito menos tempo de sono do que nós, mas mesmo essa estratégia parecer ter os seus limites”, acrescenta, uma vez que “quando estão cansadas, as gralhas são mais propensas a dormir profundamente, mesmo que isso signifique ficar mais vulnerável”.
Ao analisarem a atividade cerebral das gralhas, através de eletroencefalogramas, os investigadores perceberam que nem todas as partes do cérebro destes animais são afetadas da mesma forma pela falta de descanso. Por exemplo, as regiões associadas à visão e à tomada de decisões eram as que mostravam os maiores sinais de desgaste devido à privação de sono, ao passo que outras zonas, como o hipocampo, associado à memória, eram menos afetadas.
Rattenborg acredita que as descobertas deste estudo podem ter implicações que vão além das próprias gralhas-de-nuca-cinzenta, podendo mesmo “ajudar-nos a compreender melhor o sono em geral”, incluindo nos humanos.
Peter Meerlo, um dos principais autores do estudo, acrescenta que o sono “não é apenas um estado passivo, mas um comportamento moldado tanto pela evolução como por exigências ambientais”.