Alimentação: compras mais conscientes

Por: Eunice Maia – Fundadora da loja Maria Granel e autora do livro Desafio Zero

De acordo com a Global Footprint Network, a nossa alimentação exige do planeta metade da sua biocapacidade [1]. Em Portugal, segundo um estudo [2] publicado em 2020, a alimentação é responsável por 29% da pegada ecológica nacional, assumindo-se como o país mediterrânico com a maior pegada alimentar per capita.
Por outro lado, no mundo, por ano, a FAO estima que 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos adequados ao consumo humano se perdem ou desperdiçam, o que representa 1/3 de todos os alimentos produzidos [3]. De forma paradoxal, cerca de 820 milhões de pessoas no mundo vivem em situação crónica de subnutrição ou de insegurança alimentar [4].
Cada vez mais países dependem de alimentos do exterior, reduzindo a resiliência dos sistemas alimentares e tornando-se mais vulneráveis a choques alimentares.
A forma como nos alimentamos e como escolhemos e compramos alimentos é uma poderosa ferramenta para reduzirmos a nossa pegada ecológica global.

Como comprar alimentos de forma (mais) consciente?

PLANIFICAR

  • Fazer uma lista de compras, depois de verificar a despensa e o frigorífico (REPENSAR), e definir um orçamento.
  • Planificar refeições e porções a confecionar e comprar em função das quantidades exatas a usar nessas refeições (REDUZIR).
  • Conceber um plano de refeições que permita reduzir a aquisição de produtos de origem animal, experimentando novas receitas (com leguminosas, hortícolas, cereais e tubérculos, sementes, frutos gordos, fruta,…) (REDUZIR).
  • Optar por recipientes e sacos reutilizáveis para reabastecimento a granel (REUTLIZAR).

COMPRAR MENOS, COMPRAR MELHOR

  • Privilegiar a compra de alimentos de agricultura não intensiva e que valorize (e regenere) os ecossistemas.
  • Incentivar um sistema de produção e comercialização de alimentos baseado em circuitos curtos agroalimentares, apoiando os produtores locais e nacionais, respeitando a sazonalidade.
  • Recusar a sobre-embalagem ou embalagens desnecessárias e de uso único.
    Escolher alimentos fora dos padrões estéticos impostos ou calibre habitual, apostando no seu aproveitamento integral (por exemplo, ramas).
  • Apoiar projetos e descarregar aplicações de combate ao desperdício alimentar.
    Ter em conta a validade do produto – a indicação “consumir de preferência até…” significa que o mesmo ainda poderá ser consumido após esse prazo, desde que em bom estado.

Como consumidores, devemos (ativamente) exigir transparência, rastreabilidade e acesso generalizado a informação validada por organizações competentes e independentes, tornando possível (e fácil) fazer a comparação fundamentada entre produtos, tendo em conta: ciclo de vida do produto, impacto ambiental, social e económico. [5]. Consumir de forma consciente é co-criar o futuro em que queremos viver.

FONTES:

[1] Global Footprint Network
[2] Galli, A., Iha, K., Halle, M., El Bilali, H., Grunewald, N., Eaton, D., Capone, R., Debs, P., Bottalico, F. 2017. Mediterranean countries’ food consumption and sourcing patterns: An Ecological Footprint viewpoint. Science of the Total Environment, 578, 383–391.
[3] FAO. 2011. Global food losses and food waste – Extent, causes and prevention. Rome.
[4] HLPE. 2014. Food losses and waste in the context of sustainable food systems. A report by the High Level Panel of Experts on Food Security and Nutrition of the Committee on World Food Security. Rome. p.11. [Online]. Disponível em http://www.fao.org/3/ai3901e.pdf.
[5] UNEP. 2017 Guidelines for Providing Product Sustainability Information Published, International Trade Centre (ITC). FAO, 2013. Food wastage footprints. Factsheet. Disponível em http://www.fao.org/fileadmin/templates/nr/sustainability_pathways/docs/Factsheet_FOODWASTAGE.
FAO. 2015. Food Wastage Footprint & Climate Change. Rome. p.1. [Online]. Disponível em http://www.fao.org/3/a-bb144e.pdf).
FUSIONS 2016. ‘Estimates of European Food Waste Levels.’ Disponível em http://www.eufusions.org/phocadownload/Publications/Estimates%20of%20European%20food%20waste%20levels.pdf.

Artigo Publicado na revista nº 2 – Março 2021

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