Entrevista a Ana Trigo Morais. “Os resíduos, quando devidamente reciclados, são muito valiosos”



A Sociedade Ponto Verde é uma Instituição privada sem fins lucrativos, que tem como missão contribuir para a promoção da Economia Circular através do Sistema Integrado de Gestão de Resíduos de Embalagens (SIGRE) assente num forte compromisso com a Inovação e I&D, a Literacia Ambiental e a Cidadania Ativa.

Em entrevista à Green Savers, Ana Trigo Morais, CEO da Sociedade Ponto Verde, esclarece alguns pontos importantes para que a reciclagem seja cada vez maior em Portugal, e desmistifica alguns mitos relativamente a este processo. O que poderá estar a falhar? Que importância tem reciclarmos? Fique a saber tudo.

Em 2020, de acordo com o Tribunal de Contas, a taxa de reciclagem foi de 38% e cada habitante produziu em média 513 kg de resíduos. Estes números estão muito aquém das metas propostas pela União Europeia. O que justifica esta situação?

É importante esclarecer que os resíduos urbanos vão para além das embalagens, incluem todo o tipo de desperdício/lixo que produzimos em nossas casas, incluindo também, por exemplo, as matérias orgânicas. De todos os resíduos gerados pelos cidadãos em suas casas, cerca 20% a 25% é que respeitam às embalagens.

Se, em termos globais, a taxa de preparação para reutilização e reciclagem dos resíduos urbanos desceu, em 2020, para 38%, o relatório reconhece também que “quanto aos objetivos de valorização e reciclagem fixados para os resíduos de embalagens e, em particular, para os resíduos de plástico, as metas definidas para 2011 e posteriormente mantidas, têm sido realizadas”.

A este propósito podemos referir que a Sociedade Ponto Verde cumpriu as metas definidas na sua licença, tendo atingido em 2020 e 2021, respetivamente, 42,4% e 51,3% de taxa de reciclagem de embalagens de plástico, superando os 22,5% fixados. Ainda assim, em particular no caso do vidro, existe a necessidade de se continuar a estimular a adoção de boas práticas de prevenção e de colocação dos resíduos de embalagem nos ecopontos, apoiando o cumprimento daquelas que são as futuras e exigentes metas europeias.

As causas que identificamos como justificação de uma maior produção de resíduos que não são encaminhados para reciclagem estão relacionadas com os serviços prestados ao cidadão. Precisamos de ter ecopontos mais bem localizados, mais bem conservados, e com melhor recolha. Falamos, por exemplo, da necessidade de criação de sistemas complementares de servir os cidadãos, como a recolha porta a porta. Serviços que façam do ato de reciclar, não um esforço e um sacrifício, mas que seja fácil e conveniente as pessoas entregarem ao sistema os resíduos para poderem ser reciclados.

 

Considera que Portugal conseguirá cumprir com os objetivos de reciclagem com que se comprometeu para 2025, 2030 e 2035?

Portugal conseguirá cumprir com os objetivos de reciclagem se todos assumirem o compromisso com este que é um desígnio nacional, ou seja, cidadãos, empresas e demais organizações e Estado – e aqui incluímos o Governo, a administração pública e as autarquias. Cada um desempenhando o seu papel desde a participação ativa no processo de separação e colocação seletiva das embalagens nos ecopontos, ao uso de mais inovação assente no potencial da tecnologia e na digitalização, seja para permitir embalagens mais inteligentes e recicláveis como para termos sistemas de recolha de resíduos de embalagens mais otimizados e eficientes.

O esforço tem de ser colaborativo e passa pela inovação. É preciso um grande investimento, uma vontade de todos e uma política pública que oriente toda a cadeia de valor, complexa e com muitos agentes, para que todos estejamos alinhados para cumprirmos metas.

 

Que medidas devem ser implementadas para melhorar e aumentar a reciclagem no país?

Por um lado, é necessário incentivar as pessoas a reciclar mais e melhor, o que passa por continuar com estratégias de sensibilização e na educação dos cidadãos para a importância da participação na reciclagem e da separação individual dos resíduos em casa, colocando os mesmos depois no ecoponto correto. Para passar esta mensagem, a comunicação de proximidade é cada vez mais relevante.

O prémio “Junta-te ao Gervásio”, que lançamos este ano, é disso um exemplo. Trata-se de uma iniciativa destinada às Juntas de Freguesia, Entidades de proximidade (como associações ou cooperativas) e a cidadãos individuais ou em grupo que têm por objetivo precisamente este fator de sensibilização e de educação de uma forma muito próxima e local, dando visibilidade a projetos na área da reciclagem de embalagens e da economia circular.

No entanto, todas estas campanhas, só serão eficazes se devidamente acompanhadas por um melhor nível de serviço prestado ao cidadão. Para isso, é importante apostar em investigação e desenvolvimento, recorrendo a tecnologia como a digitalização, a internet of things, a inteligência artificial ou a sensorização. Neste último ponto sublinhamos o investimento no aumento da disponibilização de serviços de conveniência para a recolha de resíduos como o sistema porta a porta, de que já aqui falámos. É ainda importante referir a necessidade de apostar numa rede de ecopontos desenhada à medida das necessidades especificas de cafés e restaurantes.

 

Existem vários mitos que as pessoas ainda utilizam para justificar a falta de adesão à reciclagem. Pode mencionar dois que gostaria de desmitificar?

A ideia de que o camião do lixo junta todas as embalagens sem ter em atenção a sua separação é um dos mitos mais comuns, e falsos, sobre a reciclagem de embalagens. Os cidadãos desconhecem que os camiões são compartimentados no interior para colocar cada um dos materiais. Ou seja, o mesmo camião pode estar a fazer a recolha de mais do que um material dos ecopontos, mas no seu interior eles vão separados.

A ideia de que reciclar dá muito trabalho é outro grande mito. Na verdade, ao fazermos a separação de resíduos em casa, evitamos deslocações desnecessárias aos contentores. Desta forma poupamos tempo e, simultaneamente, estamos a contribuir para a melhoria da qualidade de vida comunitária, cooperando com a limpeza e a organização dos espaços públicos comuns. É ainda de referir que existem mais de 70 mil ecopontos espalhados pelas várias zonas do país, portanto, mesmo que não exista um à porta de casa, existirá um a curta distância.

 

Porque é que é importante reciclar?

Salientamos três vantagens de reciclar. Ao reciclar estamos a potenciar que o que é consumido possa voltar a ser uma nova matéria-prima que vai reentrar no processo produtivo e dar origem a novos produtos. Encarados assim como novos recursos, os resíduos, quando devidamente reciclados, são muito valiosos. Tornando-se matérias-primas (secundárias), evitam a extração dos recursos naturais do nosso planeta, que, como sabemos são finitos e precisam de ser preservados.

Por outro lado, o recurso a matérias-primas secundárias ou recicladas para produção de novos produtos significa também economizar energia. Muitos dos recursos energéticos que poupamos são fontes de energia não renováveis, como é o caso do petróleo. Desta forma, para além de evitarmos o esgotamento dos recursos naturais que dão origem aos combustíveis fósseis, como o petróleo, evitamos a consequente emissão de gases com efeito de estufa responsáveis pelo aquecimento global.

Uma terceira vantagem da reciclagem, é o facto de estarmos a contribuir para a eliminação de resíduos e a reduzir as quantidades que são encaminhadas para aterro sanitário, evitando também que novos venham a ser construídos em espaços que podem ser utilizados para outros serviços à população.



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