Populações de borboletas na Europa caem mais de 30% em nove anos



Os insetos são um dos grupos de animais que mais perdas populacionais tem sofrido nos últimos anos. A perda de habitat causada pelas alterações do uso do solo, como a expansão das cidades e práticas agrícolas insustentáveis, os efeitos das alterações climáticas e a proliferação de espécies exóticas invasoras têm sido apontadas como algumas das principais causas do declínio.

Uma nova investigação vem agora alertar que as populações de borboletas, insetos lepidópteros, que habitam os campos da Europa registaram uma redução de 36% entre 2011 e 2020, sendo que essa tendência de queda é mais preocupante no Reino Unido.

Nesse país, as populações de borboletas diminuíram perto de 80% desde a década de 1970 até hoje, e muitas são as espécies que estão à beira da extinção.

Com base em dados compilados pela Butterfly Conservation Europe, o relatório divulgado esta semana aponta que o declínio das borboletas é um sinal de que as pradarias europeias têm vindo a ser gravemente deterioradas ao longo dos últimos 30 anos. Os autores apontam o dedo à “intensificação agrícola”, que converte “pradarias em campos aráveis” ou que usa fortemente “fertilizantes e herbicidas que reduzem as flores silvestres nas quais as borboletas se reproduzem”.

Além disso, dizem que as alterações climáticas, que provocam secas e ondas de calor mais frequentes, mais intensas e mais duradouras, e os gases poluentes emitidos pelos automóveis a combustíveis fósseis são também fatores que intensificam as perdas.

E também o abandono do mundo rural é considerado um fator de pressão sobre esses insetos, com os relatores a afirmarem que “apenas se os jovens agricultores virem um futuro para as suas famílias, enquanto ao mesmo tempo respeitam tradições agrícolas de longa data, será possível salvar as borboletas das pradarias”.

Nigel Bourn, um dos responsáveis da organização, afirma que “as borboletas são barómetros incrivelmente úteis sobre a saúde do ambiente do qual todos nós dependemos” e que “precisamos de agir agora para ajudar a reverter o seu declínio”.

As borboletas, tal como muitos outros insetos, como as abelhas e as moscas-das-flores, são animais polinizadores fundamentais para a reprodução das plantas com flor e, por isso, para a manutenção da biodiversidade vegetal e para o bom funcionamento e estabilidade dos ecossistemas. Os insetos são também agentes de controlo natural de pragas e de doenças e elementos importantes da promoção da fertilidade dos solos.

Por isso, “o declínio das borboletas das pradarias põe em risco o futuro desses habitats vitais”, alertam os investigadores.

A análise focou-se nas tendências populacionais de 17 espécies de borboletas em 22 países europeus, sendo que a Phengaris arion, espécie distinguível pela sua coloração azul, foi registada como a que está em maior declínio, com perdas de mais de 80% desde 1990.

A borboleta da espécie Phengaris arion é considerada uma das que mais tem sofrido perdas populacionais nos últimos anos.
Foto: gailhampshire / Wiki Media

Outras das espécies com maiores perdas na Europa são a Coenonympha pamphilus, a Lasiommata megera e a Lysandra bellargus.

Apesar do cenário negro, os especialistas acreditam ainda haver razões para ter esperança, sobretudo depois de ter sido aprovada pela União Europeia a Lei de Restauro Ecológico, que exigirá aos Estados-membros medidas concretas para renaturalizarem vários ecossistemas e para reverterem as perdas populacionais dos insetos polinizadores até 2030.

“O rápido declínio das borboletas das pradarias europeias é um claro sinal de alerta acerca do apuro em que se encontra a vida selvagem na Europa”, salienta Martin Warren, da Butterfly Conservation Europe.

O especialista argumenta que a lei europeia para o restauro ecológico “é uma legislação de enorme importância para aplacar os declínios e esperamos que os Estados-membros estejam à altura do desafio para ajudarem a resolver a crise de biodiversidade que enfrentamos”.

Insetos polinizadores em “declínio alarmante” na Europa

Em janeiro, a Comissão Europeia apresentou a sua estratégia para combater o “declínio alarmante” dos insetos polinizadores na região e reverter as perdas populacionais até ao final desta década, destacando que uma em cada três espécies de abelhas, borboletas e de sirfídeos (também conhecidos como moscas-das-flores), todos polinizadores, estão hoje em declínio, sendo que 10% das espécies de abelhas e borboletas e 30% das espécies de sirfídeos estão mesmo ameaçadas de extinção.

“O declínio dos polinizadores representa uma ameaça tanto para o bem-estar humano, como para a natureza”, pode ler-se no documento, e essas perdas afetam negativamente a produtividade agrícola na UE, e não só, “agravando ainda mais a tendência influenciada por outros fatores, destacadamente a atual situação geopolítica com a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia”.

É nesse quadro que surge este ‘Novo Pacto para os Polinizadores’, que é uma revisão da Iniciativa da União Europeia de 2018 e que tem como uma das principais prioridades “melhorar a conservação dos polinizadores e combater as causas do seu declínio”.





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