Apenas 18% dos bancos europeus inquiridos integra os riscos climáticos nos seus empréstimos



Os ventos fortes, as inundações e outros perigos representam ameaças significativas para os ativos imobiliários e também para a produtividade das empresas que fazem parte das carteiras dos bancos. Para compreender melhor os riscos e as tendências que acompanham esses perigos, a Bain & Company, uma das principais consultoras estratégicas do mundo, analisou os dados disponíveis juntamente com a empresa de análise de riscos climáticos Jupiter Intelligence.

Segundo a mesma fonte, os reguladores financeiros de todo o mundo “já perceberam que o perigo relacionado com o clima tem crescido em todo o mundo em número e intensidade desde meados do século passado, e pedem cada vez mais responsabilidade na medição do risco físico”. A Autoridade Bancária Europeia (ABE), por exemplo, agora exige aos bancos a realização de análises de cenários sobre como tais riscos podem afetar a sua carteira de empréstimos.

Porém, os bancos “só agora estão a começar a incorporar o risco físico nos seus modelos de negócio”. A Bain & Company analisou os 50 principais bancos do mundo (por ativos totais) que fazem parte do Grupo de Trabalho de Divulgação Financeira Relacionada com o Clima (TCFD, da sua sigla em inglês). Segundo a análise, na Europa, apenas 18% desses bancos já começaram a integrar os riscos físicos na sua estratégia empresarial.

Por outro lado, “no caso da Península Ibérica, mais de 75% dos bancos com que trabalhamos estão a integrar os riscos físicos (incluindo também os riscos climáticos) no seu marco geral da gestão de risco. No entanto, ainda há trabalho a ser feito quando se trata de analisar os possíveis impactos desses riscos. Tudo isso é limitado pela baixa granularidade dos dados disponíveis para análise e pelas possíveis medidas para aliviá-los”, afirmou Tomás Moreno, partner da Bain & Company, citado em comunicado.

Risco físico aumenta com o tempo

A Bain & Company utilizou os dados da Jupiter Intelligence para avaliar o grau de exposição ao risco físico num horizonte a 30 anos em qualquer país, até às propriedades individuais de uma região concreta. A Jupiter mede o risco dos seguintes oito eventos extremos: inundações, precipitação, vento, calor, incêndios florestais, granizo, seca e frio. A partir de uma pontuação que sintetiza estes perigos, atribui uma intensidade de risco à região.

Os territórios que se enquadram na categoria de alto risco são aqueles que têm uma alta probabilidade de experienciar um evento extremo, como um furacão ou inundação. A título de exemplo, a Jupiter Intelligence categorizou de alto risco 43% dos EUA, 63% da Austrália e 31% da Indonésia. Para todos os países avaliados, o risco físico aumenta com o tempo.

O risco físico afeta os bancos principalmente de duas maneiras. Em primeiro lugar, “danifica as garantias, como uma casa ou fábrica, e reduz o seu valor”. Em segundo, “prejudica e pode conduzir à insolvência das contrapartes devido à perda de produção e credibilidade”. Por exemplo, as quebras nas colheitas causadas pelas secas ou inundações “podem expor a agroindústria a perdas que dificultam o reembolso de um empréstimo”.

Exposição de uma carteira hipotecária

Para ilustrar os possíveis efeitos dos fenómenos climáticos no setor bancário, a Bain & Company analisou uma carteira de hipotecas de uma amostra de 10.000 ativos em Itália, usando os dados da Jupiter Intelligence. Foi avaliada a exposição ao risco físico atual e previsto para todos os oito riscos dos cenários do painel climático da ONU, que vão desde um corte drástico nas emissões de dióxido de carbono para atingir ao zero líquido depois de 2050 (Caminho Socioeconómico Partilhado 1-2.6, SSP1-2.6), até emissões que rondam os níveis atuais antes de começarem a cair em meados do século (SSP2-4,5) para emissões que praticamente duplicam até 2050 (SSP5-8,5). Em toda a Itália, 40% destes locais de amostra já estão altamente expostos a pelo menos um perigo natural hoje, nível que deve aumentar para os 62% até 2050, o que sublinha a necessidade de dispor de um conjunto abrangente de dados sobre os riscos climáticos.

O estudo revela a rapidez com que uma carteira hipotecária pode ficar exposta a altos níveis de risco relacionados com um perigo – neste caso, um incêndio, tendo em conta fatores como a disponibilidade de combustível e a extinção local de incêndios. Quando se combina estes efeitos com os riscos de inundação e seca na nossa carteira de amostra, a análise revela que os danos podem chegar a 10 a 15 pontos percentuais (p.p.) do valor da garantia e potencialmente muito mais elevados para os ativos situados em zonas de muito alto risco.

Desenvolver uma estratégia sólida

Este tipo de análise “é essencial para o desenvolvimento de uma estratégia sólida que combine medidas de mitigação com oportunidades de novos mercados”, sublinha o comunicado.

Táticas defensivas. A análise informa primeiro sobre como mitigar os riscos através de táticas defensivas, como:

  • impor limites na relação empréstimo-valor;
  • alterar a combinação de segmentos de clientes;
  • reduzir o custo do risco mediante seguros de proteção do crédito; e
  • ajustar os preços em zonas muito expostas.

As táticas defensivas podem valer 5,5 p.p. em receita operacional líquida para a carteira hipotecária de um banco.

Táticas ofensivas. Além da postura defensiva de mitigação de riscos, os bancos podem assumir uma postura mais ofensiva, por exemplo:

  • aumentar os níveis de desconto dos ativos de baixo risco;
  • promover os seguros de proteção ao crédito; e
  • Seguro autónomo de proteção contra os riscos climáticos.

Os movimentos ofensivos podem acrescentar 5,3 p.p. adicionais na receita operacional líquida.

Novas ofertas. Os bancos também podem criar uma vantagem competitiva desenvolvendo novos produtos de financiamento e aconselhando os clientes para ajudá-los na transição. Entre as novas oportunidades de negócio relacionadas com o risco podemos incluir as seguintes:

  • fomentar e financiar a adoção de soluções de adaptação ao clima;
  • promover o financiamento de parcerias público-privadas em cidades e vilas; e
  • oferecer uma avaliação da resistência aos riscos climáticos dos ativos e instalações da empresa.

Este conjunto de novos movimentos empresariais pode adicionar ainda mais 10 p.p. à receita operacional líquida.

Em resumo, “a combinação de medidas de mitigação com iniciativas de criação de valor pode gerar um aumento de 15 a 20 p.p. (ou mais) na receita operacional líquida em 2030. Além disso, a adoção de medidas limitadas ou a inação terão consequências mais graves com o tempo”.

Tornar-se um pioneiro ou um seguidor rápido

“Já é hora de os bancos integrarem o risco físico nos processos de risco, crédito e planeamento estratégico. Isto implica a atualização da avaliação e das políticas de classificação creditícia, bem como a análise de garantias para refletir o risco físico, adaptando a integração do cliente para capturar a informação-chave relacionada com o risco e incorporando os riscos à segmentação de clientes para garantir um tratamento consistente do risco físico em todo o banco”, salienta o comunicado.

A mesma fonte acrescenta que um banco “pode começar por avaliar a sua carteira para medir a exposição a riscos específicos e identificar os pontos críticos mais relevantes para a classe de ativos e os setores específicos avaliados”. Com base na combinação de riscos de uma carteira, o banco “pode identificar um conjunto inicial de táticas de mitigação em consonância com as condições de mercado, limitações regulamentares e a estratégia geral do banco”. Dependendo das suas ambições, “também pode identificar oportunidades para novos produtos e serviços relacionados com os riscos que criam valor enquanto reforçam os clientes e as comunidades contra os efeitos das alterações climáticas”.

“O risco físico representa, sem dúvida, uma grande ameaça, mas também uma oportunidade única para a inovação no setor bancário. Os bancos que tomarem as medidas adequadas rapidamente podem melhorar a sua estabilidade financeira e a sua perceção entre clientes e reguladores. Mesmo que um banco não tenha apetite ou capacidade para ser pioneiro nesse aspeto, vale a pena começar a ter em conta estes aspetos”, conclui.

 





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