Reportagem: Uma viagem de 14 dias pelo clima que não acaba aqui



Dia 18 de setembro de 2024, 16 jovens iniciavam o dia no Mosteiro Santa Maria do Mar em Carcavelos, rumo à caminhada das suas vidas. Divididos em três equipas levavam nas mochilas o sonho de consciencializar pessoas e comunidades para a mudança climática que urge, com a promessa de ali regressar 13 dias depois.

Nesta segunda edição desta Viagem pelo Clima, o objetivo continuava a ser o mesmo: mobilizar a sociedade portuguesa e os municípios para a transição climática, promovendo ações concretas de descarbonização. A iniciativa “visa criar o maior impacto positivo possível, sensibilizando para a influência dos estilos de vida na pegada de carbono e hídrica, e desafiando as pessoas a adotarem práticas mais sustentáveis em áreas como transportes, alimentação e consumo de água”, explica Maria João Ramos, gestora da Viagem pelo Clima e sócia fundadora da Get2C e PPP Manager (People, Projects & Partnerships) à Green Savers.

Antes de seguirem viagem, falámos com as três equipas para percebermos o que é que os motivou a participar e quais as suas expectativas. Para a Equipa Água (composta por André, Cristiana, Guilherme e Joana), a grande motivação “é poder contribuir para uma maior sensibilização e consciência ambiental da comunidade de uma forma prática e inovadora”, para a Equipa Terra (Rodrigo, Ana Gabriela, Andreia e Maria) “é ter a oportunidade de realizar atividades de impacto junto da população e consciencializar para a mudança climática” e para a Equipa Ar (Ana Teresa, Débora, João e Érica) “é conhecer a forma como as comunidades têm lidado com a sustentabilidade e os projetos que têm realizado”.

Dar a conhecer boas práticas na área da sustentabilidade

As equipas seguiam, assim, com a expectativa de “espoletar a mudança de hábitos e dar a conhecer boas práticas na área da sustentabilidade” (Equipa Azul), “que a população se deixe envolver nas nossas atividades e inicie um auto-questionamento sobre diversos aspetos das suas rotinas e da sociedade, para que comecem a mudar a perceção e os hábitos relativamente aos temas da sustentabilidade” (Equipa Terra) e de “impactar e sermos impactados pelas pessoas e projetos que iremos visitar” (Equipa Ar).

“A iniciativa visa criar o maior impacto positivo possível, sensibilizando para a influência dos estilos de vida na pegada de carbono e hídrica, e desafiando as pessoas a adotarem práticas mais sustentáveis em áreas como transportes, alimentação e consumo de água”

Maria João Ramos, gestora da Viagem pelo Clima

Com um percurso que se estendia ao longo de 14 dias, esperavam-lhes três tipos de desafios nos municípios parceiros de Cascais, Arronches, Faro, Mangualde, Matosinhos, Penafiel, Sesimbra e Torres Vedras. O primeiro – Climate Stories – tinha como objetivo visitar e entrevistar pessoas e entidades locais que se destacam pela sua contribuição para a sustentabilidade (heróis do clima, histórias de superação, boas práticas, etc). O segundo – Desafio – trava-se de uma ação de sensibilização com o objetivo de envolver a comunidade e causar o maior impacto positivo possível, trabalhando um tema escolhido pelo município e o terceiro – Rota da Sustentabilidade Municipal – pretendia incentivar o maior número de comerciantes possível a descarregar a APP Get2ZERO e a calcular a pegada de carbono do seu negócio.

Neste percurso, cada uma das equipas preenchia um diário de bordo (publicado no Instagram) descrevendo as suas experiências. Com o sentimento de “dever cumprido”, revelaram à Green Savers peripécias da experiência.

Múltiplos desafios

Durante a Viagem tiveram de lidar com múltiplos desafios, mas, “apesar disso, sentimos que tivemos uma equipa muito coesa e a maior parte das dificuldades resultaram essencialmente de fatores externos, tais como a lesão da nossa querida Débora, que corajosamente, apesar das dores e desconforto, continuou a dar um contributo imprescindível para a concretização dos nossos objetivos”, explica João Medeiros, da EQUIPA AR.

Para este participante, foi desafiante o “cansaço extremo provocado pelas poucas horas de sono e as múltiplas viagens – carregados de malas de roupa e materiais de apoio para os nossos momentos chave – bem como o trabalho intenso para conseguir manter o ritmo das publicações diárias, que foram alimentando o instagram da Viagem pelo Clima” e, no seu caso particular, adaptar-se a uma alimentação vegetariana “foi de facto uma tarefa hercúlea”.

João sublinha ainda a “desigualdade territorial no que toca à disponibilidade de transportes públicos para servir os municípios mais distantes e mais pequenos”. “Vimo-nos muitas vezes dependentes de boleias para conseguirmos cumprir o itinerário apertado que tínhamos definido”, aponta.

Outra dificuldade que sentiram “foi na mobilização de pessoas para as atividades planeadas, no contato direto todos parecem interessados e participativos, mas, nas abordagens mais formais como convites ou divulgação das ações nas redes sociais, ou noutros canais de comunicação, a resposta é praticamente nula”.

Para André Manteigas, da EQUIPA ÁGUA, o maior desafio “foi definitivamente os transportes entre municípios. Nem tudo foi um pesadelo, perto das grandes cidades há sempre imensos transportes, mas para os municípios do interior foi difícil fazer coincidir as nossas atividades com as poucas opções disponíveis”.

“O maior desafio foi definitivamente os transportes entre municípios. Nem tudo foi um pesadelo, perto das grandes cidades há sempre imensos transportes, mas para os municípios do interior foi difícil fazer coincidir as nossas atividades com as poucas opções disponíveis”

André Manteigas, EQUIPA ÁGUA

Já Ana Gabriela Moutinho, da EQUIPA TERRA, aponta a comunicação como “o maior desafio, dentro e fora da equipa, na medida em que temos de trabalhar eficientemente e sob stress com pessoas que não se conhecem e não se escolheram, a viverem um mini reality-show de mochilas às costas e onde questionam os seus hábitos e rotinas, de sono, alimentação e até gasto de água. É também um desafio a nível externo pela quantidade de stakeholders que é necessário gerir e coordenar”.

Como tornar a viagem sustentável

Organizada pela Get2C em parceria com a Câmara Municipal de Cascais, a iniciativa envolveu diretamente as comunidades e os municípios portugueses, de norte a sul do país, sendo que as equipas tiveram várias responsabilidades no seu percurso.

Por um lado, sublinha Maria João Ramos, “é uma competição entre três equipas que viajam da forma mais sustentável possível de Norte a Sul de Portugal, passando obrigatoriamente pelos municípios parceiros. São avaliados pelas escolhas que fazem diariamente em termos de transportes, alimentação e consumo de água, utilizando a moeda clima que tem 5 vetores: CO2, Água, Tempo, Dinheiro e o quinto vetor que foi adicionado este ano é o impacto social”.

Este impacto social, continua a gestora, “é avaliado considerando os vários momentos durante 14 dias em que envolvem todos os municípios parceiros desta iniciativa: um desafio em cada município, definido e planeado previamente entre as equipas, as Câmaras Municipais e a Get2C, no âmbito dos ODS’s identificados como prioritários pelas autarquias. Tem como objetivo sensibilizar a comunidade e envolver pessoas. Pode ir desde uma ação de restauro de mobiliário usado para entrega a famílias carenciadas até uma ação de plantação de árvores, jogos educativos, workshops com a comunidade ou limpeza de praias e margens de rios”.

Outro momento, acrescenta Maria João Ramos, está ligado ao envolvimento de tecnologia, criando a rota da sustentabilidade Municipal de cada Município.  Antes de partir para esta aventura, os participantes identificaram, com o apoio das autarquias, os negócios mais sustentáveis da localidade e visitaram incentivando os comerciantes a descarregar a app Get2ZERO e a calcular a pegada de carbono do seu negócio. Também utilizaram o Get2Zero for People, partilhando com os cidadãos uma app de cálculo de pegada de carbono individual, na qual podem descobrir o seu impacto no planeta e algumas formas de o reduzir.

Um outro momento que teve um “enorme impacto”, revela ainda, foram as Climate Stories – Ao longo da sua estadia nos municípios parceiros, as equipas alimentaram a rubrica “Climate Stories”, dedicada a destacar pessoas e entidades locais que estão a moldar ativamente um futuro mais verde e sustentável. “Acreditamos que são as histórias, a partilha de experiências e boas práticas que não só informam, mas inspiram à ação”, sublinha.

Por fim, incentivaram alunos a participarem na MINI COP, um concurso de ideias destinado a alunos do 7º ao 12º ano de todas as escolas do país (ver caixa).

Uma experiência “superpositiva”

Para as três equipas o resultado desta experiência é, definitivamente, positivo. “O balanço desta viagem é claramente positivo! Embora tenha sido exigente e cansativo, todos sentimos que cumprimos a nossa missão. Tivemos a oportunidade de aprender, refletir, e incentivar outros a refletirem também, tocando os corações das pessoas com quem interagimos”, afirma André Manteigas, da EQUIPA ÁGUA.

Este participante considera que saíram desta experiência com mais conhecimento e sabedoria, “não só pelo estudo que necessariamente tivemos de fazer para desenvolver as nossas atividades, mas também pelas valiosas interações que tivemos, quer com especialistas em distintas áreas, quer com pessoas de origens mais humildes”.

Além disso, acrescenta, “levamos desta viagem algo ainda mais especial: amizades para a vida, não só entre nós, equipa, mas também com várias pessoas que conhecemos nos vários municípios por onde passámos”.

Uma experiência “superpositiva em diversos níveis”, classifica João Medeiros, da EQUIPA AR, explicando que, tendo em conta a composição da sua equipa – maioritariamente formada por pessoas oriundas de um tecido social muito urbano -, a possibilidade de viajar pelo país “permitiu-nos aprender mais sobre o território e as suas povoações, permitiu-nos ver como em muitas delas existe de fato um sentido de comunidade”.

A exposição e o sair de zona do conforto “foram também fatores de superação que contribuem para o balanço positivo da experiência”, aponta.

Uma das dificuldades sentidas “foi na mobilização de pessoas para as atividades planeadas, no contato direto todos parecem interessados e participativos, mas, nas abordagens mais formais como convites ou divulgação das ações nas redes sociais, ou noutros canais de comunicação, a resposta é praticamente nula”

João Medeiros, EQUIPA AR

Para além disso, “verificar que em diversas zonas do país se constrói um futuro onde a sustentabilidade é alicerçada em práticas que olham para a regeneração e a circularidade dos recursos, bem como a inovação e a criatividade, deu-nos um conforto e uma inspiração adicional para continuarmos na nossa busca diária pela redução do nosso impacto no planeta e pela sustentabilidade”, sublinha.

Por fim, “tivemos a oportunidade de aprender sobre diversas temáticas desde os diferentes tipos de agricultura, sustentabilidade na produção de produtos, e até arte e design sustentáveis”, conclui.

Para Ana Gabriela Moutinho, da EQUIPA TERRA, foram 14 dias “desafiantes e cansativos, mas que nos permitiram experienciar as assimetrias do nosso território continental, com o bom e o mau que representam”. O balanço “é positivo, uma vez que conhecemos muita gente com valores e vontade de agir, pelo que vamos mais inspirados e otimistas do que chegámos”. “É bom sentir que estamos juntos pelo objetivo partilhado de proteger o que temos”, conclui.

Arronches no coração dos participantes

Foram oito os municípios escolhidos para esta viagem, mas qualquer um pode participar, pelo menos, na seleção. Quando a organização lança uma nova edição, divulgam para todos os municípios para que possam manifestar o seu interesse em participar. Reúnem com todos os que querem saber mais sobre as condições de participação e o envolvimento necessário.

“O nosso objetivo é garantir uma diversidade geográfica e de perfis de municípios, de modo que a iniciativa abranja diferentes realidades, desde grandes áreas urbanas a pequenas localidades”, explica Maria João Ramos que avisa: “embora gostássemos de poder selecionar uma maior diversidade de municípios, compreendemos que cada um precisa de avaliar a sua capacidade de participação, considerando as suas prioridades e recursos disponíveis”.

Quanto à recetividade por parte destes munícios, Arronches parece ter ficado no coração destes participantes. “O mais recetivo foi definitivamente Arronches. Sentimo-nos sempre bem recebidos, e foram muito prestáveis. Para o desafio que realizámos Arronches disponibilizou-se para arranjar todos os materiais e a acompanhar-nos durante todo o desafio”, diz André Manteigas que considera, por outro lado, que Penafiel era o melhor preparado.

“Nós conseguimos levar o upcycling a um novo nível organizando um workshop, mas o município já o fazia, e a associação Cavalum Trails também já praticava plogging, nós apenas elevámos a prática a uma maior escala, causando um impacte ambiental positivo maior”, explica.

“Mais recetivo, provavelmente Arronches”, aponta Ana Gabriela Moutinho que também considera este mais bem preparado em termos ambientais “pelo desaceleramento ligado ao consumismo desenfreado, onde existe mais tempo para ter uma horta, fazer compostagem, recolher água da chuva, costurar, reciclar ou reduzir o desperdício”.

Já João Medeiros não arrisca a avançar apenas um, mas confessa que há quatro que “ocupam um lugar especial no nosso coração”. Arronches, “pela forma como desde os primeiros contatos se mostrou cooperante e empenhado no planeamento das atividades que tínhamos a desempenhar, pelo acolhimento caloroso e a disponibilidade para nos acompanharem em todos os momentos da nossa passagem pelo município”.

Mangualde, “muito envolvido desde o princípio e onde encontramos um apoio enorme na realização do nosso desafio, não só nas atividades que levamos a cabo, mas também no sentido de humor e na proximidade que sentimos com as pessoas que nos receberam”.

E por fim, no que toca à questão da melhor preparação em termos ambientais, “apesar de termos passado muito pouco tempo em cada município, a nossa perceção é de que, Matosinhos e Torres Vedras têm feito um trabalho fantástico, de sensibilização e envolvimento da população nos temas da sustentabilidade e do impacto ambiental, mostrando-se apoiantes e recetivos a projetos que envolvam essas matérias e visem oferecer serviços e produtos que promovam a mudança para estilos de vida mais conscientes e amigos do planeta”.

Quanto a episódios relevantes João Medeiros diz que é “difícil escolher apenas um momento que nos tenha marcado”. Ao longo desta viagem tiveram “muitos momentos marcantes”, especialmente o contacto que tiveram com as pessoas, que se mostravam recetivas e com uma vontade imensa de ajudar. “Mas posso destacar o dia do desafio de Faro, que começou da pior maneira possível, com a atividade que tínhamos programado a ter de ser totalmente improvisada, mas acabou da melhor maneira possível, com uma conversa profunda com o artista Silva Sancho na Galeria Gama Rama”, aponta.

Já André Manteigas confidencia-nos que, em Arronches tiveram a oportunidade de estar com um centro de dia, que os acompanhou na inauguração do moral no Centro Interpretativo de Identidade Local. “Tocou-nos imenso ver o sorriso na cara daquelas pessoas por poderem sair um pouco da rotina e ter alguém com quem falar. Encheu-nos o coração”, revela.

Outro momento, acrescenta, foi o do mergulho noturno em Sesimbra, numa zona com organismos bioluminescentes. “Mergulhar naquelas águas deu-nos força, pois também era por maravilhas da natureza como aquelas que passámos 14 dias em viagem, a sensibilizar as pessoas. Isso fez-nos refletir sobre a importância de preservar a biodiversidade para que as gerações futuras disfrutem destas preciosidades como nós disfrutamos hoje”, sublinha.

“Há muita coisa que já está a ser feita, mas muito caminho a percorrer e que a mudança exige um esforço plurigeracional e uma intervenção multidisciplinar que terá de passar pela literacia ambiental, valorização de boas práticas, a simplificação da informação, a democratização no acesso e um investimento financeiro substancial”

Ana Gabriela Moutinho, EQUIPA TERRA

Ana Gabriela Moutinho não esquecerá a “descoberta do Sr. Manel (um dos nossos Climate Stories de Arronches) por ter sido inesperada quanto enriquecedora”. O seu passatempo, para além de frequentar a Academia Sénior de Arronches, é transformar lixo em arte, com o talento das próprias mãos. “Para além do seu sentido de humor, o senhor Manuel tem um talento impressionante para gerar peças de madeira de decoração e até mesmo instrumentos musicais, a partir do zero!”, destaca.

Equipa Ar voa até à COP29

Experiências e convicções à parte, tratava-se de um concurso e foi a equipa Ar a grande vencedora da iniciativa Viagem pelo Clima.

Esta equipa teve a oportunidade de viajar até ao Azerbaijão para participar na COP29, a Conferência das Nações Unidas para as Alterações Climáticas e apresentar a iniciativa no Pavilhão de Portugal no dia 18 de novembro.

Para além da contabilização dos gastos em climas (a moeda da iniciativa) no que diz respeito às escolhas durante a viagem (alimentação, transportes e consumo de água), um Júri avaliou as equipas na vertente do impacto social com base num conjunto de critérios previamente definidos que todos os participantes tiveram de cumprir.

Os quatro participantes da equipa vencedora, Ana Teresa Soeiro, Débora Pereira, Érica Ribeiro e João Medeiros expressaram a sua satisfação com a vitória: “é com grande entusiasmo e um profundo sentido de responsabilidade que recebemos esta vitória. Estamos extremamente felizes e, ao mesmo tempo, cientes do peso que é representar a Viagem pelo Clima naquele que é o principal palco mundial para as negociações climáticas, a COP29. A viagem pelo clima mostrou-nos que, no campo da sustentabilidade, não pode haver perdedores, e que a lógica de competição deve ser transformada em cooperação”.

A equipa também destacou o caráter colaborativo da iniciativa, agradecendo a todos os envolvidos: “foi uma experiência verdadeiramente transformadora, e neste momento sentimos uma enorme gratidão por todos aqueles com quem nos cruzamos. Este resultado só foi possível graças ao trabalho conjunto com a organização, municípios, parceiros, associações, empresas, embaixadores e, até mesmo, as equipas concorrentes, que também desenvolveram um trabalho extraordinário. A sustentabilidade depende e constrói-se com todos”.

Antes deste anúncio, João Medeiros revelou à Green Savers o que significava para a equipa participar na Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas. “Participar na COP29 tem um significado diferenciador. Após uma Viagem como esta que acabamos de fazer, ter a possibilidade de visitar a COP, permite-nos olhar para o mundo em escalas muito diferentes, o que acaba sempre por ser uma vantagem quando olhamos para os problemas globais”, sublinhou.

Por um lado, continuou, a Viagem Pelo Clima “permitiu-nos olhar para os problemas microscópicos, os problemas específicos de cada localidade ou de cada empresário ou de cada cidadão”.

“Ir à COP29 irá permitir-nos ter uma visão mais macroscópica do assunto, perceber como é que o Estados interagem e negoceiam uns com os com os outros, ou o que grandes organizações fazem para lidar com esta temática”, apontou.

“Ter a possibilidade de olhar para os problemas da sociedade numa perspetiva bottom up, é uma vantagem considerável para aqueles que são agentes da mudança”, reforçou.

“Desse modo, a nossa participação na COP29 também seria a possibilidade de ajudarmos a transmitir esta perspetiva, que é tão importante para o desenho das políticas públicas, uma vez que estas devem responder aos problemas específicos dos cidadãos”, concluiu.

A Equipa Água alcançou o segundo lugar, seguida da equipa Terra, que conquistou a terceira posição e André Manteigas resumiu o que significaria estar presente na COP numa palavra: esperança.  “De que juntos vamos conseguir combater desigualdades, injustiças e cumprir todos os ODS. Para nós seria uma honra e privilégio poder representar Portugal e a Viagem Pelo Clima, num evento mundial onde se reúnem pessoas que trabalham para o bem global. Seria uma honra mostrar o projeto ao mundo e dar um testemunho de esperança sobre o que se anda a fazer sobre sustentabilidade”, afirmou.

Para Ana Gabriela Moutinho, da EQUIPA TERRA, teria sido “uma oportunidade única de presenciar um momento icónico e um marco no tema da Sustentabilidade”, conhecendo projetos, pessoas e iniciativas que tentam colocar o mundo na rota certa. “Carrega o sonho de ajudar a tornar o mundo num sítio melhor”, salientou.

Mudanças já são visíveis

Na verdade, este sonho já tinha passado por muitos na primeira edição e conseguiu mesmo “impulsionar mudanças significativas nos municípios por onde passámos”, conta Maria João Ramos. Um exemplo concreto, explica, foi o apoio à reativação do Festival da Água em Gouveia, que é um marco importante para sensibilizar a população sobre a gestão sustentável deste recurso vital. Esta iniciativa, “além de valorizar o património local, promove uma maior consciencialização sobre a crise hídrica e as soluções necessárias para a preservar”, sublinha.

Também em Faro, os alunos vencedores do Concurso de Ideias Mini COP (que faz parte integrante da Viagem pelo Clima), desenvolveram um plano estratégico de implementação da sua ideia, com o apoio da Get2C e vão vê-la financiada pelo Município, “provocando mudanças muito relevantes e sustentáveis na área da energia e do consumo de água na sua escola”, acrescenta.

Em Cascais, as escolas envolvidas pelo programa desenvolveram programas de sustentabilidade e valorização dos recursos naturais (nomeadamente o uso eficiente de água) para mais de 2 000 crianças, remata.

E nesta segunda edição já se começa a ver uma influência crescente da Viagem pelo Clima. Segundo a gestora, a iniciativa “tem gerado um envolvimento mais profundo das comunidades e dos municípios, com cada vez mais projetos e ações a serem desenvolvidos em resposta aos desafios climáticos. Em vários municípios, temos visto um maior compromisso e, além disso, há uma maior consciencialização nas escolas e entre os jovens, que são agentes de mudança importantes, mas também temos tido experiências incríveis em lares e academias seniores”.

Este ano houve também uma novidade no que diz respeito a tecnologia “porque queremos que as pessoas, desde cidadãos a empresas, compreendam a importância da tecnologia como ferramenta essencial para democratizar o acesso a dados sobre as suas pegadas de carbono, sejam individuais ou empresariais”.

Ao tornar o cálculo das emissões mais acessível, “facilitamos a identificação de áreas onde é possível reduzir o impacto no planeta, o que é fundamental para promover mudanças comportamentais. A utilização destas ferramentas, sabemos hoje, com os dados que dispomos, que foi um enorme sucesso e que permitiu chegar a muito mais pessoas”.

Medo de experimentar hábitos sustentáveis

A muitas pessoas e aos próprios participantes. André Manteigas da EQUIPA ÁGUA afirma que, em termos ambientais, aprenderam que “não é fácil mudar mentalidades e que existe muito medo de experimentar hábitos sustentáveis, porque não faz parte da vida das pessoas, não é normal para elas, e basta uma pequena desinformação, o clássico “ouvi dizer que isso não é nada bom” para ser justificação e não mudar”.

No entanto, acrescenta, “basta força de vontade para haver mudança, e nós, durante estes 14 dias, somos a prova viva de que hábitos sustentáveis não só são possíveis, mas também são fáceis de adotar, saudáveis e vantajosos em diversos aspetos”.

Por outro lado, sublinha, “aprendemos que existem testemunhos silenciados e muitas vezes esquecidos que representam verdadeiros exemplos de sustentabilidade. Na sua maioria, estas são pessoas mais velhas, provenientes de zonas rurais, que vivem em harmonia com a natureza. Comem o que plantam, fazem compostagem e compram local. Além disso, pelo seu estilo de vida mais pacato, emitem muito pouco CO2. Esta forma de viver e as lições que nos transmitiram foram uma grande aprendizagem, mostrando-nos que a sustentabilidade pode estar nas pequenas ações do dia a dia”.

João Medeiros, da EQUIPA AR, explica que, uma vez que a sua Equipa é constituída por pessoas com áreas de formação muito diferentes, desde pessoas mais ligadas às ciências da vida, uma gestora e uma arquiteta,” aquilo que aprendemos foi um pouco diferente para cada um de nós”.

Ainda assim, da Hidroponia, passando pelos princípios da agricultura regenerativa ou a produção fungos e os seus benefícios para a saúde e para o ambiente, “acho que foi na vertente agrícola que mais ampliamos o nosso conhecimento”, revela.

Para além disso, continua, “também na arte e artes plásticas percebemos técnicas e abordagens que nos deslumbraram e nos puseram a pensar em novas formas de aproveitar aquilo que para muitos é desperdício”.

Já Ana Gabriela Moutinho, EQUIPA TERRA, diz que aprenderam que “há muita coisa que já está a ser feita, mas muito caminho a percorrer e que a mudança exige um esforço plurigeracional e uma intervenção multidisciplinar que terá de passar pela literacia ambiental, valorização de boas práticas, a simplificação da informação, a democratização no acesso e um investimento financeiro substancial”.

Para os elementos das três equipas, estes 14 dias foram gratificantes e transformadores, mas para a organização estas mudanças “são apenas o começo”. Cada município “tem o potencial de criar respostas únicas para os desafios climáticos, e a nossa missão é continuar a inspirar e apoiar essas ações concretas que fazem a diferença no terreno”, remata Maria João Ramos. Uma viagem diária e que está longe de ter terminado.

Mini COP dá voz às escolas portuguesas na criação de soluções para enfrentar a crise climática

Esta iniciativa, que faz parte da Viagem pelo Clima, tem como objetivo sensibilizar os jovens para as mudanças climáticas e envolvê-los ativamente na criação de soluções sustentáveis a nível local e nacional.

O concurso é direcionado a alunos do 7º ao 12º ano de qualquer escola a nível nacional, que, através de uma dinâmica escolar, são desafiados a identificar ideias sustentáveis para o seu município.

Esta ação promove a consciência ambiental incentivando os jovens a pensar em estratégias concretas que se adequem à sua implementação no país, município e/ou nas escolas (desde que possam ser replicadas por outras entidades no município). Os temas a serem abordados incluem Economia Circular, Água, Energia, Proteção dos Oceanos, Mobilidade, Resíduos e Biodiversidade. No entanto, além dos temas sugeridos, os alunos têm a liberdade de escolher o que querem desenvolver desde que respeitem a lógica de integração e estejam alinhados com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

A Mini COP e a Viagem pelo Clima são iniciativas do Cooler World, um movimento que visa a neutralidade carbónica, criado pela Get2C, uma consultora especializada em alterações climáticas. Estas iniciativas contam com o apoio do Fundo Ambiental e de várias outras entidades, tendo como objetivo mobilizar a sociedade portuguesa para a urgente transição climática.

*Reportagem publicada originalmente na edição em papel de dezembro de 2024






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