A estória caricata por trás do maior parque eólico de África

Todos os anos, o holandês Willem Dolleman regressa ao lago Turkana (na foto), numa zona deserta do Quénia, para pescar. E todos os anos Dolleman, há uma década no país africano, sente a mesma dificuldade em encontrar algum local para pernoitar, uma vez que aquela é uma das regiões menos desenvolvidas do Quénia, com hotéis a centenas de quilómetros.

Assim, ele tem optado por acampar durante a noite, ainda que, muitas vezes, se arrependa rapidamente: os fortes ventos da região levam a tenda para um horizonte longínquo, obrigando Dolleman a passar várias noite no interior do seu carro.

Os ventos forte do lago Turkana há muito que afectam várias gerações de habitantes locais mas, claro, eram desconhecidos da restante população. Até que Dolleman passou a informação a Carlo van Wageningen, amigo e o seu actual parceiro de negócios.

“O Willem passava a vida a contar-nos que alguém tinha de fazer algo para aproveitar o incrível poder do vento daquela área”, explicou Wageningen ao Guardian. “O problema é que as condições não era as melhores para o investimento, uma vez que, nos anos 80 e 90, o diesel era tão barato que fazia mais sentido, para os quenianos, desenvolverem as fontes de energia térmica”.

Em 2004, com a subida do preço do petróleo, esta realidade alterou-se e muitos países, como o Quénia, começaram a procurar fontes de energia alternativas. Por essa altura, Wageningen e os seus parceiros de negócio propuseram ao Governo queniano a construção de um parque eólico de 310 MW – 20% da capacidade instalada de electricidade do país –nas margens do lago Turkana. O que foi considerado uma fantasia, uma vez que a região é remota, não há estradas pavimentadas e o ponto de rede mais próximo ficava a 428 quilómetros.

“Todos pensavam que éramos loucos: 310 MW de capacidade instalada numa área que é extremamente remota e onde não há nada”, relembra Wageningen. Foi então que Henk Hutting e Harry Wassenaar, especialistas holandeses em energia eólica, foram trazidos para o projecto e concluíram que a velocidade do vento era tal que poderia partir qualquer turbina.

O Santo Graal dos promotores eólicos

Uma turbina tradicional pode aguentar, no máximo, uma velocidade de 12 metros por segundo. Depois de pesquisarem toda a área, os responsáveis holandeses conseguiram encontrar um local abrigado entre duas colinas, Monte Kulal e Monte Njiru, onde a velocidade média do vento situava-se nos 11,8 metros por segundo. Um sonho para qualquer promotor de energia eólica.

Estudos aprofundados revelaram ainda que o local seria duas vezes mais eficiente que a maioria dos parques eólicos europeus, ou seja, podia ser vendido a um preço relativamente barato. Estes resultados ajudaram a convencer o Governo e o cepticismo da comunidade local.

O projecto recebeu financiamento imediato de bancos de investimento noruegueses, holandeses, finlandeses, dinamarqueses e alemães. O Bando de Desenvolvimento Africano também entrou na lista de apoiantes financeiros e a fase de financiamento do projecto ficou concluída em Dezembro de 2014.

Hoje, a vila de Sarima, a 40 quilómetros do lago Turkana, está no centro da maior infra-estrutura construída no Quénia desde a independência. O projecto vai instalar 365 turbinas eólicas em 162 km2, com uma capacidade total de 850 kW, e estará concluído em meados de 2017. Será o maior parque eólico de África.

A empresa de electricidade queniana vai construir uma estrada de 204 quilómetros e um empréstimo espanhol será responsável pela rede de 428 quilómetros que ligará a infra-estrutura à rede nacional.

Foto: Erik (HASH) Hersman / Creative Commons

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