A morte lenta das caminhadas sem propósito

Caminhar tornou-se um luxo no ocidente. Poucas são as pessoas que o conseguem fazer, dado o congestionamento rodoviário e todos os meios de transporte que têm à sua disposição. Desta forma, caminhar, independentemente da distância, tornou-se numa actividade planeada ou de lazer. Ou por motivos de saúde e para manter a forma. Contudo, há uma outra coisa que as caminhadas proporcionam: tempo para pensar.

Charles Dickens, Virginia Woolf, George Orwell, Thomas De Quincey, Friedrich Nietzsche ou Vladimir Nabokov são alguns dos grandes escritores mundiais que apreciavam uma boa caminhada e utilizavam esse tempo para reflectir sobre a vida e pensar, pensamentos esses que se traduziam nas suas obras.

Mas não é necessário ser escritor ou um grande pensador para valorizar uma boa caminhada. Mas uma caminhada em particular, não a distância entre a esquina da rua e o café mais próximo. A caminhada da contemplação sem um propósito definido.

Maio, no Reino Unido, é o mês Nacional da Caminhada e um livro de Frederic Gros, lançado recentemente, intitulado “A Philosophy of Walking”, é objecto de uma certa discussão entre os britânicos. Na última semana, um estudo da Stanford University destaca os benefícios que uma pequena caminhada, mesmo que seja na passadeira de casa ou do ginásio, promove no pensamento criativo, refere a BBC.

“Há algo de especial em relação ao ritmo da caminhada e do pensamento, que se parecem sincronizar. Caminha requer alguma atenção, mas proporciona muitos momentos para pensar. Acredito que uma vez que o sangue começa a fluir para a cabeça, o cérebro começa a trabalhar de maneira mais criativa”, afirma Geoff Nicholson, autor de “The Lost Art of Walking”.

Nicholson é um escritor que vive em Los Angeles, uma cidade onde os carros têm a primazia. Mas existem muitas outas cidades onde fazer uma simples caminhada por ser uma tarefa hercúlea. Kuala Lampur, por exemplo, capital da Malásia. Quem quiser caminhar nesta cidade deve possuir uma grande paciência e nervos de ferro. Os passeios acabam misteriosamente. As ruas movimentadas têm de ser atravessadas sem a ajuda de passadeiras. E o simples acto de caminhar pela rua pode causar a perplexidade dos moradores.

Mas mesmo nas cidades que parecem ter sido construídas para os carros há frutos para os que escolhem divagar. “A maior parte das minhas caminhadas são feitas na cidade – em Los Angeles as coisas estão espalhadas. Portanto, há muito para onde olhar. É exploração urbana. Estou sempre à procura de ruas estreitas e becos estranhos”, indica Nicholson.

Mas nem todos estão preparados para esperar. Existem muitos que consideram as caminhadas como tempo morto, uma obrigação para nos deslocarmos de um lado para o outro sem estar a fazer nada de útil, numa altura em o tempo parece ser cada vez mais precioso. Como tal, este tempo é aproveitado ao máximo e é cada vez mais comum ver pessoas a caminhar e a fazer uma outra coisa ao mesmo tempo. Muitos caminham e falam ao telemóvel ao mesmo tempo ou enviam mensagens, vêem e-mails ou redes sociais. E os acidentes com pedestres distraídos pelos dispositivos móveis estão a aumentar.

As caminhadas contemplativas parecem estar, assim, em vias de extinção, bem como a oportunidade de reflectir sobre a vida e os seus aspectos.

Foto:  Redrock Junction / Creative Commons

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