Apenas cerca de 10% dos alimentos mais consumidos por pessoas entre os três e os 17 anos são, ao mesmo tempo, nutritivos, têm menos impactos no ambiente e um custo acessível.
A conclusão é de um estudo publicado recentemente na revista ‘Critical Reviews in Food Science and Nutrition’, liderado pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação e pelo Instituto de Saúde Pública, Universidade do Porto, ambos da Universidade do Porto.
O objetivo era perceber quais os alimentos que são, simultaneamente, sustentáveis e mais bem aceites por crianças e jovens. O trabalho teve por base informação recolhida junto de 521 crianças e 633 adolescentes no âmbito do Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física. Esses dados permitiram identificar os alimentos mais consumidos e avaliar a sua sustentabilidade com base em indicadores nutricionais, ambientais e económicos.
Os resultados mostram que apenas um conjunto restrito de alimentos reúne os critérios que os investigadores dizem ser essenciais para uma alimentação saudável. Vegetais frescos e processados, fruta fresca e fruta em frasco, leguminosas, massa, arroz, tubérculos, sumos naturais e néctares são alimentos considerados de elevada densidade nutricional, de reduzido impacto ambiental e, em média, mais económicos. Contudo, a investigação mostra que representam apenas um décimo das escolhas alimentares habituais das crianças e adolescentes portugueses.
A equipa de investigação explica que, muitas vezes, os alimentos com maior qualidade nutricional tendem a ser também os que apresentam maiores emissões de gases com efeito de estufa e custos mais elevados.
Os produtos de origem animal, como carne, peixe e ovos, são um exemplo disso, apontam os investigadores: apesar de fornecerem nutrientes importantes para o crescimento, são igualmente responsáveis por maior uso de solo e maior pegada carbónica.
Em contraste, os alimentos ultra-processados apresentam pior qualidade nutricional, embora alguns possam ser mais acessíveis do ponto de vista económico.
Para os autores do estudo, estes resultados mostram que é preciso repensar políticas alimentares e estratégias de promoção da saúde dirigidas aos mais jovens. Nesse sentido, defendem que a criação de orientações alimentares sustentáveis deve considerar o equilíbrio entre saúde, ambiente, custo e preferências culturais. Caso contrário, essas recomendações serão difíceis de aplicar na prática.
“Políticas de incentivo à produção agrícola mais sustentável e medidas que facilitem o acesso económico a frutas, legumes e leguminosas podem também desempenhar um papel decisivo numa mudança de comportamentos”, reforça Mariana Rei, primeira autora do estudo.
Considerado pelos seus autores como o primeiro em Portugal a integrar simultaneamente as dimensões nutricionais, ambientais, económicas e socioculturais na análise das escolhas alimentares de crianças e adolescentes, este trabalho de investigação abre caminho para a revisão futura das orientações alimentares nacionais, incorporando sugestões mais precisas sobre as opções mais sustentáveis dentro de cada grupo alimentar.









