Por Elisabete Matos e Manuel Pequito, professores da Egas Moniz School of Health and Science
A formação em ciências agrárias enfrenta, atualmente, desafios crescentes, decorrentes da digitalização acelerada, das contínuas pressões ambientais e das exigências cada vez mais complexas do mercado. Áreas como a agricultura, a silvicultura e as ciências veterinárias são a espinha dorsal desta atividade primária da economia, no entanto, a sua competitividade e resiliência exigem mais do que respostas tradicionais.
Pensar no futuro do setor é pensar simultaneamente na melhor forma de garantir uma transferência eficaz de conhecimento e na adequação das formações ministradas pelas instituições de ensino superior. Estas devem atuar de forma estratégica, de forma a responder às necessidades futuras da sociedade e assegurar a qualificação de profissionais conscientes do seu papel na construção de soluções verdadeiramente sustentáveis.
Enquanto docentes, a nossa principal tarefa é garantir que a inovação e a modernização caminham lado a lado com o ensino. Uma motivação que nos levou a integrar, recentemente, um projeto inovador na área de formação em ciências agrárias. O Farm4future, que resulta de um consórcio de várias instituições de ensino como a Faculdade Egas Moniz e que é financiado pelo PRR, veio promover um modelo pedagógico atual e dinâmico, integrando as ciências agrárias com um conjunto de atividades clínicas e tecnológicas alinhadas com os princípios da sustentabilidade e do bem-estar animal.
Revitalizar esta área de ensino exige mais contacto prático, mais inspiração e mais curiosidade. Requer, sobretudo, uma abordagem curricular repensada, que seja flexível, interdisciplinar e centrada na aprendizagem ativa e baseada em projetos. Só assim podemos garantir que os estudantes não só adquirem competências técnicas, mas também desenvolvem uma visão crítica, ética e inovadora, preparando-os para os desafios reais da profissão e para um futuro mais sustentável.
A aposta na digitalização deve também ser valorizada enquanto uma ferramenta estratégica para que os estudantes desenvolvam competências de forma autónoma e colaborativa, em ambientes que simulem cenários reais de prática profissional. Além destes, deve reforçar-se a oferta de microcredenciais e cursos de curta duração, que permitem uma atualização contínua e ajustada às necessidades emergentes do setor.
Todas estas abordagens, que procurámos integrar por meio do Farm4Future, são cruciais para reforçar o espírito crítico, a capacidade de resolução de problemas e a preparação para contextos laborais dinâmicos e complexos. O objetivo é formar profissionais que encarem o dia-a-dia desta profissão com confiança, criatividade e responsabilidade ética.
No caso da medicina veterinária, outro investimento fundamental para modernizar esta área de ensino é a aprendizagem baseada na prática clínica, nomeadamente através de laboratórios equipados com modelos de animais que permitem desenvolver competências por meio de simulações realistas. Estes modelos servem de complemento moderno ao uso de animais vivos em contexto pedagógico, enquanto permitem desenvolver nos estudantes a prática essencial à profissão.
Na Egas Moniz, temos procurado criar um contexto pedagógico mais dinâmico e inovador, em particular através da colaboração no projeto Farm4Future. Esse esforço traduziu-se, por exemplo, na reestruturação curricular do Mestrado Integrado em Medicina Veterinária e na criação de um laboratório equipado com modelos animais, que permitem reduzir o recurso a animais vivos durante o ensino e promover, simultaneamente, uma formação mais prática e segura. A par destes, temos vindo a apostar em plataformas digitais de aprendizagem ativa, baseada em metodologias de ensino por projeto.
Outro exemplo que destacamos foi a criação da Microcredencial em Inseminação Artificial de Bovinos, cuja primeira edição foi um sucesso, e que irá decorrer novamente em março de 2026, com o intuito de contribuir para reforçar as competências práticas e especializadas numa área-chave da medicina veterinária.
O futuro do ensino nas ciências agrárias pode – e deve – ser mais ambicioso, mais sustentável, mais digital e, acima de tudo, mais próximo da comunidade. Ao combinar inovação pedagógica, investimento tecnológico e compromisso ético, as instituições de ensino superior conseguem posicionar-se como agentes ativos na construção de soluções com impacto real e que contribuam para o bem-estar das gerações futuras. E é neste caminho que queremos assumir um papel pioneiro.
*O projeto Farm4Future faz parte do programa de modernização tecnológica e digital do ensino das ciências agrárias, financiado pelo PRR – Plano de Recuperação e Resiliência.









