Por Tiago Carrilho, Diretor de Conhecimento e Formação do BCSD Portugal
Há qualquer coisa de irónico em tentarmos explicar o estado do mundo com siglas que soam a peças de mobiliário escandinavo: VUCA, BANI, FLUX. Poderiam estar alinhadas numa prateleira minimalista, mas são, afinal, tentativas sérias de traduzir uma realidade que se tornou simultaneamente volátil, frágil e líquida.
Temos esta necessidade quase infantil de organizar o caos. De arrumar o mundo em gavetas conceptuais para podermos seguir em frente com alguma sensação de controlo. As siglas ajudam. Funcionam como mapas. Não simplificam o território, mas podem indicar o caminho, dando alguma coragem para atravessá-lo.
O VUCA ensinou-nos a ler os sistemas: volatilidade, incerteza, complexidade, ambiguidade. Quando observado na perspetiva do bem-comum, continua atual. Recorda-nos que clima, energia, cadeias de valor ou confiança institucional são peças de um mesmo puzzle. Não há soluções isoladas para problemas interdependentes. Ou cooperamos, ou fragmentamo-nos. As consequências podem ser devastadoras na segunda.
Depois chegou o BANI e trouxe desconforto. Mostrou que não são apenas os mercados que tremem, a parte mais importante do sistema são as pessoas. Fragilidade, ansiedade, não linearidade, incompreensibilidade. A instabilidade deixou de ser apenas económica ou política. Tornou-se emocional. Liderar passou a ser, também cuidar da confiança, da saúde mental coletiva e de todas as partes integrantes do sistema.
E o FLUX empurrou-nos para a evidência final: a mudança deixou de ser episódio e tornou-se condição. A estabilidade é um intervalo breve entre duas transições. Adaptar-se já não é competência tática é postura existencial. É a qualidade que nos fará construir o futuro de forma resiliente e dando resposta à imprevisibilidade do mundo.
Talvez a maturidade esteja na fusão dos três. VUCA ajuda-nos a compreender o sistema. BANI ajuda-nos a compreender as pessoas. FLUX ensina-nos a mover-nos entre ambos. Juntos formam um novo sistema operativo de liderança – sistémico, humano e adaptativo.
Responder a este mundo exige super competências. Pensamento sistémico para ler interdependências; inteligência emocional coletiva para reduzir ansiedade e gerar confiança; capacidade adaptativa para aprender em ciclos curtos; coragem para decidir quando o chão parece instável; empatia para construir pontes onde antes havia silos; otimismo radical (não ingenuidade) com a convicção de que é possível criar impacto positivo mesmo em contexto adverso; e propósito e serenidade como âncora quando tudo parece flutuar.
Num mundo de móveis conceptuais e realidades instáveis, a questão já não é como controlar o futuro. É como criar valor económico, social e ambiental enquanto ele se move a alta velocidade, sem perder a humanidade pelo caminho.








