No concelho de Torres Vedras, perto da pequena aldeia de Ameal, um grupo de investigadores fez uma descoberta inédita sobre a vida das plantas em Portugal há muitos milhões de anos.
Na formação fossilífera de Vale Cortiço, os cientistas, incluindo Mário Miguel Mendes, do Centro de Investigação da Terra e do Espaço da Universidade de Coimbra (CITEUC), desvendaram, por fim, um mistério que há pelo menos uma década tem mistificado aqueles que estudam a flora muito antiga, os paleobotânicos.
Há cerca de 140 milhões de anos, durante o Período Cretácico, o território que agora forma Portugal apresentava uma grande riqueza de coníferas da família Cheirolepidiaceae. Durante o Cretácico Inferior, entre 145 milhões e 100 milhões de anos atrás, essas plantas dominavam a paisagem que viria a ser a portuguesa, tendo desaparecido no final do Cretácico Superior, algures há 66 milhões de anos.

Dessa família faziam parte os frenelopsídeos, dos géneros Frenelopsis e Pseudofrenelopsis. Eram plantas com “uma notável capacidade de adaptação”, explica-nos Mário Miguel Mendes, também docente da Universidade Fernando Pessoa, no Porto. Isso, porque eram capazes de viver e prosperar em diversos tipos de habitats, de semiáridos a áridos, e há também registos que apontam para que tivessem vivido em regiões interiores com condições mais amenas.
Por isso, encontrar num dado local fósseis de frenelopsídeos, ou dos pólenes por eles produzidos, que pertencem ao género Classopollis, revela que ali, há muitos milhões de anos, existia um clima quente e com pouca água.
É precisamente esse tipo de ambiente que terá caracterizado o Vale Cortiço durante o Cretácico, e foi precisamente aí que a mesma equipa de cientistas encontrou um cone de conífera que não tinha, até então, sido identificado em qualquer outra parte do mundo. É mais uma peça que ajuda a compor o puzzle da vida antiga que habitou nesse local.
Muito mais do que um simples cone
Poderá o leitor perguntar-se “Mas o que tem de especial um fóssil de um simples cone?”. A isso Mário Miguel Mendes responde “quando se faz ciência, por vezes as coisas mais simples são também as mais extraordinárias”.
O cone em questão é masculino e foi encontrado em muito bom estado de conservação. A coníferas têm tanto cones masculinos, que produzem e libertam os grãos de pólen, como femininos, que os recebem para fecundar os óvulos que carregam, para dar origem às sementes, neste caso, aos pinhões, como acontece com as várias espécies de pinheiro da flora atual.
Diz-nos o investigador português que o cone, tal como os que nos são hoje familiares, é composto por microsporofilos, as “escamas”, dispostos em forma de hélice. Neles foram encontrados grãos de pólen que, através de análises minuciosas por microscopia eletrónica de transmissão, foram identificados como sendo da espécie Classopollis martinottii. Até então, esses grãos de pólen só haviam sido encontrados dispersos pelo sedimento, sem se saber que planta os produzira.
Poderá parecer estranho dar o nome de espécie a um grão de pólen, mas na paleobotânica é muito difícil encontrar-se um fóssil de uma planta completa. “Aquilo que, geralmente, se encontra preservado no registo fóssil são as diferentes partes da planta preservadas, mas separadamente”, explica Mário Miguel Mendes. Partes de ramos num sítio, grãos de pólen espalhados pelos sedimentos, cones acolá. Por isso, torna-se difícil saber com total certeza se um elemento pertence a uma ou outra espécie.
Para contornar esse problema, os paleobotânicos adotaram um sistema de classificação taxonómica diferente do que muitos conhecem: cada elemento, cada parte da planta, recebe um nome de género e espécie próprio. Assim, mesmo que pertençam a uma mesma planta, no caso de não se saber isso, é como se cada um fosse uma espécie de direito próprio.
Ao cone agora descoberto, único no mundo para já, foi dado o nome científico de Classostrobus amealensis, por produzir pólen do género Classopollis e por ter sido encontrado em Ameal.
Resta então responder a uma pergunta: que planta produziu o cone? Em Vale Cortiço, onde o cone foi encontrado, há uma grande quantidade de vestígios de frenelopsídeos das espécies Frenelopsis teixeirae e Pseudofrenelopsis dinisii. Contudo, nos níveis fossilíferos onde os investigadores desenterraram o cone os restos de F. teixeirae eram os mais abundantes.
Significa isso que o cone pertencia a um frenelopsídeo F. teixeirae? Como não foi encontrado ligado a nenhum ramo, à partida torna-se complicado dizer qual das espécies de plantas tê-lo-á produzido. Mas é mesmo aqui que entra um “trabalho de detetive” para juntar todas as evidências e criar uma imagem mais nítida do que se passou.
CSI: Paleobotânica
Para tentarem perceber que planta terá produzido este cone único, Mário Miguel Mendes e a sua equipa, que inclui investigadores da Rússia, República Checa e Países Baixos, juntaram as peças do puzzle. O cone foi encontrado em níveis onde os fragmentos de F. teixeirae abundam e são em muito maior quantidade do que os de Pseudofrenelopsis dinisii. Mas isso só não chega.
Os investigadores olharam mais de perto e perceberam que os pequenos orifícios que permitem às plantas fazerem trocas gasosas com o ambiente, os estomas, tinham uma organização semelhante no cone e na F. teixeirae. Por tudo isso, Mário Miguel Mendes considera que “é praticamente certo” que o cone tenha sido produzido por essa espécie de frenelopsídeo.
“Este trabalho de CSI permitiu montar o puzzle”, afirma. Com todas essas provas científicas percebeu-se que o pólen Classopollis martinottii é produzido pelos cones Classostrobus amealensis, que, por sua vez, serão muito provavelmente produzidos pela planta Frenelopsis teixeirae.

“A partir daqui, quando alguém em Espanha, França ou Inglaterra identificar pólenes de Classopollis martinotti dispersos no sedimento, saberá qual é a sua origem. E não foi tarefa fácil, pois eu ando a trabalhar nesta flora desde 2010!”, revela-nos Mário Miguel Mendes.
Para que se possam dissipar as dúvidas que restam é preciso que se encontre um desses cones ligado a um ramo de F. teixeirae, “pois, quanto ao resto, está lá tudo”.
Olhar para a vida de há milhões de anos é crucial para compreender como é que ela chegou como chegou aos dias de hoje. A família de coníferas Cheirolepidiaceae há muito que está extinta, mas, como acautela o investigador, “não é possível compreender a flora moderna sem recorrer ao passado”.
“E são estas coisas simples e aparentemente insignificantes que nos ajudam a juntar as peças do puzzle e a compreender a diversidade vegetal do passado.”
Estas descobertas serão divulgadas ao mundo num artigo a ser publicado no volume de maio da revista internacional ‘Cretaceous Research’.









