Alterações climáticas e perda de habitat estão a mudar o comportamento dos primatas e a expô-los a novas ameaças, revela estudo



Espécies de primatas que habitam locais quentes e com dosséis florestais mais reduzidos têm uma maior probabilidade de transitar de vivências predominantemente arborícolas para um maior uso do solo, devido às alterações climáticas e à perda de habitat.

A conclusão é de uma investigação realizada por um grupo de centenas de cientistas, e publicada este mês na ‘Proceedings of the National Academy of Sciences’, nos Estados Unidos, que se suportou em mais de 150 mil horas de observação durante 2.227 meses, abrangendo 47 espécies de primatas em 20 locais em Madagáscar e 48 nas Américas.

“À medida que a humanidade modifica os habitats e causa alterações climáticas, os nossos resultados sugerem que espécies que já habitam locais quentes e com coberturas florestais escassas, e que tenham dietas mais generalizadas, têm maior probabilidade de transitar para uma maior utilização do solo”, aponta o coletivo científico.

Essas mudanças de comportamento expõem os primatas arborícolas “a novos predadores e a novos padrões de predação”, explicam. Embora várias dessas espécies já desçam ao solo com alguma frequência, o estudo indica que “até um certo ponto, as mudanças ambientais e a crescente presença antropogénica nas florestas tropicais podem atuar como catalisadores para que as espécies adotem hábitos terrestres, enquanto a cobertura florestal se torna mais dispersa e a floresta mais fragmentada, fornecendo menos recursos, ou recursos de menor qualidade.

Nesse cenário, os primatas “podem descer até ao solo para atravessarem áreas abertas com maior frequência para satisfazerem as suas necessidades energéticas”, para procurarem oportunidades de reprodução ou novos territórios.

“Por exemplo, espécies arborícolas dependentes de recursos sazonais podem tender a expandir o seu nicho dietético para incluir recursos do solo durante períodos de escassez de alimentos”, referem os cientistas, que indicam que primatas que já são terrestres ou semiterrestres apresentam corpos maiores e tendem a viver em grupos de grandes dimensões, adaptações que se acredita facilitarem a proteção contra predadores.

Contudo, se a perda de habitat e o aumento da temperatura obrigarem as espécies arborícolas a descerem com cada vez maior frequência das árvores, as ameaças a essas populações serão ainda maiores.

Os autores argumentam que essa ‘migração’ para o solo deverá ser mais significativa em espécies de primatas cuja alimentação dependa menos de frutos, que tenham corpos maiores e que tenham capacidade para se organizarem em grupos de maiores dimensões. E essa capacidade de adaptação poderá ser fundamental para proteger da extinção as espécies de primatas arborícolas das florestas de Madagáscar e das Américas.

Contudo, “todos os primatas não-humanos enfrentarão desafios criados por mudanças antropogénicas, e para espécies menos propensas à atividade terrestre, será preciso implementar estratégias de conservação rápidas e efetivas para assegurar a sua sobrevivência”, alertam os cientistas.



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