Ana Penha: “Na mira do bacalhau”

“O BACALHAU É UM PEIXE. É VERDADE. MAS UM PEIXE COM UMA CAPACIDADE extraordinária – de marcar a história, a cultura e a economia dos povos do Atlântico Norte.  O bacalhau é muito mais do que um peixe…

Os stocks do bacalhau têm vindo a decrescer no seu meio natural tendo já ocorrido colapsos na costa noroeste do Atlântico. Por cá, a maioria do bacalhau que consumimos é capturado em águas norueguesas, onde vive no seu estado selvagem; existe também à venda bacalhau de aquacultura. Esta é uma indústria jovem com desafios sérios. Na Universidade de Nordland, uma investigação liderada por um português analisou o efeito da luz no crescimento do bacalhau, um dos fatores limitantes da sua criação sustentável em viveiro.

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Adaptação de um desenho de Kazue Nagasawa, biólogo na Universidade de Tohoku, Japão

O carisma de um peixe

Não há peixe mais carismático que o bacalhau… pelo menos em algumas zonas do planeta, como a nossa. Existem mais de 1000 receitas de bacalhau, e este faz parte do menu tradicional da consoada dos portugueses. A verdade é que o bacalhau alimenta-nos, sacia o mais requintado gosto gastronómico e dá-nos a sensação de pertença. Que mais se pode pedir a um peixe?!

Na Noruega come-se principalmente bacalhau fresco e há uma especialidade, o Lutefisk, em que o mesmo é servido gelatinoso, consistência conseguida após a sua demolha em água com soda cáustica…

E o fish-and-chips do Reino Unido? Pois é, o famoso fish-and-chips também é muitas vezes confecionado com bacalhau.

O bacalhau está intimamente relacionado com a cultura, história e economia dos países do Atlântico Norte, e até já provocou guerras. Guerras sem mortos nem declarações de guerra, mas com movimentos armados que poderiam ter tido consequências gravosas. As principais guerras do bacalhau (foram três) ocorreram entre as décadas de 1950 e 1970 e tiveram como epicentro as zonas de pesca islandesas.

Assimetria comprometedora

A Noruega e a Rússia são os maiores exportadores de bacalhau e Portugal o país onde se verifica um maior consumo per capita. Somos o melhor cliente da Noruega em termos de bacalhau.

A história da pesca do bacalhau é para os portugueses uma verdadeira epopeia. Mas os tempos mudaram. Face aos atuais condicionalismos das zonas de pesca, há quem ponha em causa o seu consumo “excessivo”, pois trata-se de um peixe que não habita nas nossas águas.

“Talvez não fosse mau que os portugueses mudassem alguns hábitos. Pelo menos, do ponto de vista económico, seria bom que deixássemos de lado o famoso “fiel amigo”. Fiel amigo da carteira dos noruegueses…” (António Abrantes). Este economista sugere uma alternativa para o jantar de Natal – o polvo, residente no mar de Portugal.

A pesca e a aquacultura

A pesca de bacalhau é uma prática antiga, com vários séculos de existência. No entanto, os stocks têm apresentado um preocupante decréscimo nas últimas décadas (figura 1).

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Figura 1 – Captura de bacalhau do Atlântico ao longo dos anos. Fonte dos dados: FAO (2015)

A fragilidade da pesca do bacalhau atraiu atenção internacional em 1992 quando o governo canadiano fechou a captura na Terra Nova e Labrador, lançando mais de 30.000 pessoas para o desemprego. E, na altura, também lá pescavam barcos portugueses.

Hoje, mesmo os melhores apreciadores de bacalhau podem pensar que este vem do oceano natural. Tal nem sempre é verdade – o bacalhau de aquacultura também chega aos supermercados como bacalhau fresco. Esta indústria tem aproximadamente 15 anos (antes disso a produção era residual). Em 2013 a aquacultura gerou 4 mil toneladas de bacalhau que corresponde a menos de 0,3% da quantidade capturada no oceano. No entanto, em 2008-2010, o setor aquícola produziu mais de 22 mil toneladas/ano, chegando a atingir 2,8% da pesca de bacalhau selvagem (figura 2).

Figura 2 – Valores globais da aquacultura do bacalhau. Fonte dos dados: FAO (2015)
Figura 2 – Valores globais da aquacultura do bacalhau. Fonte dos dados: FAO (2015)

O recente decréscimo vertiginoso da cultura do bacalhau está relacionado com a crise económica e também com a existência de maiores limitações biológicas do que as inicialmente previstas, o que levou ao encerramento de empresas. Esta é, potencialmente, uma indústria de sucesso mas que enfrenta desafios, sendo o seu futuro ainda incerto.

Investigação precisa-se

Uma das limitações biológicas da aquacultura está relacionada com a maturação sexual precoce do bacalhau em viveiro, o que limita o seu crescimento.

Na Universidade de Nordland, no norte da Noruega, um grupo de biólogos liderados por Jorge Fernandes analisaram como determinadas condições podem afetar o crescimento do bacalhau. Recorreu-se à criação de juvenis em tanques e comparou-se o desenvolvimento dos bacalhaus sujeitos a ciclos naturais de luz com o de outros sob luz contínua.

A investigação revelou que os bacalhaus sujeitos a luz manipulada têm o potencial de crescer mais. A permanência de luz contínua durante 4 meses estimulou o crescimento em mais 13% em comparação com os sujeitos ao ciclo de luz natural. Tal variação não é de todo desprezível em termos comerciais.

Mas não há bela sem senão. Os mesmos investigadores descobriram que a luz contínua altera a atividade de genes associados ao stress – isto é, uma iluminação contínua pode ter efeitos prejudiciais na saúde e bem-estar do peixe. Em aquacultura é comum a criação de larvas de bacalhau sob a exposição contínua de luz. Se estes resultados forem consistentes em futuras experiências, deve ser evitada essa exposição.

A aquacultura do bacalhau tem um longo caminho pela sua frente, e os stocks de bacalhau no seu meio natural são e serão uma preocupação para diversos players nos países do Atlântico Norte… onde o bacalhau é muito mais do que um peixe; o bacalhau é rei!”

Ana Penha é Engenheira do Ambiente com 15 anos de experiência profissional. Estudou na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, e tem um Mestrado em Economia e Política da Energia e do Ambiente no ISEG, um Executive MBA no ISG, e um Master of Science in Energy Management ministrado na Bodø University College (Noruega) e na MGIMO – Moscow State Institute of International Relations (Rússia)

Bibliografia

– Abrantes, A. (2015) O bacalhau, fiel amigo dos…noruegueses. url: http://www.faroldanossaterra.net/2015/01/07/o-bacalhau-fiel-amigo-dos-noruegueses/

– FAO (2015). Food and agriculture organization of the United Nations. Global of statistical collection http://www.fao.org/fishery/statistics/en

– FAO (2014). Food and Agriculture Organization of the United Nations. Cultured Aquatic Species Information Programme. Gadus morhua. url: www.fao.org/fishery/culturedspecies/Gadus_morhua/

– Giannetto A., Fernandes J.M.O., Nagasawa K., Mauceri A., Maisano M., Domenico E., Cappello T., Oliva S. & Fasulo S. (2014). Influence of continuous light treatment on expression of stress biomarkers in Atlantic cod. Developmental and Comparative Immunology 44(1): 30-34.

– Kurlansky, M. (2008). Bacalhau – Biografia do Peixe Que Mudou o Mundo. Terramar.

Foto: *saipal / Creative Commons

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