Aquecimento global abaixo dos 1,5 graus ainda é possível, se países demonstrarem “maior ambição possível”
Em 2015, quase 200 governos concordaram em impedir que a temperatura média mundial ultrapassasse os 1,5 graus Celsius, acima de níveis pré-industriais, até ao final do século. Essa foi uma das grandes vitórias daquele que viria a ser conhecido como o Acordo Climático de Paris.
No entanto, passada uma década, parece que essa ambição é cada vez menos alcançável. Aliás, o próprio Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, declarou recentemente que “não conseguiremos conter o aquecimento global abaixo de 1,5ºC nos próximos anos”.
São perspetivas preocupantes, mas um grupo de investigadores da organização Climate Analytics e do Instituto de Potsdam para a Investigação dos Impactos Climáticos (PIK) dizem que nem tudo está, para já perdido, e que ainda é possível concretizar a meta climática de Paris.
Numa análise divulgada esta quinta-feira, dizem que, mesmo após anos de ação insuficiente para conter o agravamento da crise climática, ainda é possível manter o aquecimento global abaixo dos 1,5 graus durante este século, mas só se os países de comprometerem já com a “maior ambição possível” no que toca à ação climática.
Essa ambição deve traduzir-se no fortalecimento das renováveis e na eletrificação da economia global, o que, estimam os especialistas, desaceleraria e depois travaria o aquecimento global antes de 2050, limitando-o a 1,7 graus. A temperatura média do planeta podia ser ainda mais reduzida, para abaixo dos 1,5 graus até 2100, com um abandono progressivo mas rápido dos combustíveis fósseis, com cortes profundos nas emissões de metano e com a expansão e uma maior escala das tecnologias de remoção de carbono.
Com esses passos, os investigadores acreditam ser possível o mundo ser neutro em emissões de dióxido de carbono até 2050 e neutro em emissões de gases com efeito de estufa (para além do carbono) até 2060.
“Ultrapassar os 1,5 graus Celsius é um lamentável fracasso político e trará mais danos e riscos de pontos de não retorno que poderiam ter sido evitados”, diz, citado em comunicado, Bill Hare, CEO da Climate Analytics.
“Mas este roteiro mostra que ainda está ao nosso alcance a redução do aquecimento [global] para bem abaixo dos 1,5 graus até 2100”, salienta o responsável.
A análise aponta que é possível fazer cair o aquecimento do planeta para a meta de Paris, mas não conseguiremos impedir que os 1,5 graus sejam ultrapassados ainda que temporariamente. As estimativas sugerem que, num cenário de “maior ambição possível”, estaremos acima dos 1,5 graus durante cerca de 40 anos, até conseguirmos retroceder e voltar a ficar abaixo desse limiar climático crítico.
“Temos de fazer tudo o que pudermos para limitar o tempo que passamos acima desse limite de segurança para minimizar o risco de danos climáticos irreversíveis e a devastação que pode ser causada por excedermos esses pontos críticos”, sublinha Hare.
Passar acima dos 1,5 graus será inevitável, tal como o disse Guterres, porque nos últimos cinco anos não se fez o que se devia ter feito para impedi-lo, apontam os autores desta análise.
A janela de oportunidade para minimizarmos o tempo que ficaremos acima os 1,5 graus “ainda está aberta, mas a fechar-se rapidamente”, diz Neil Grant, especialista da Climate Analytics. “A escolha é nossa.”