Por Célia Pedro, Diretora Industrial da Eco-Oil e presidente da European Young Engineers
Terminou recentemente a COP30, apelidada pela presidência de “A COP da Verdade”. Um encontro que, mais uma vez, trouxe o mundo para a mesa das negociações climáticas.
Embora tenham surgido alguns sinais de progresso, a conferência expôs também fragilidades que exigem das entidades governativas, das empresas, da indústria e de cada um de nós, individualmente, mais ambição e um compromisso renovado para o combate às alterações climáticas.
Enquanto parte envolvida e interessada, reconheço que os resultados desta cimeira não apresentam apenas um apelo à ação, mas servem – e devem servir – como um ponto de referência estratégico para orientar esforços coordenados na implementação de soluções climáticas eficazes, baseadas em conhecimento científico e inovação tecnológica.
Sem uma ação coletiva e estruturada em evidências científicas, os impactos da inação continuarão a agravar-se, comprometendo assim metas climáticas e aumentando, consequentemente, os riscos socioeconómicos. É uma prioridade inevitável, sobretudo num contexto em que estas consequências se tornam cada vez mais evidentes e, em muitos casos, permanentes e irreversíveis.
As cheias que arrasaram há bem pouco tempo o Rio Grande do Sul ou Valência, e os incêndios que este verão voltaram a consumir florestas e meios de subsistência no nosso país, são apenas exemplos de um planeta que reage à nossa demora. Catástrofes que, além do seu impacto na economia, colocam em causa a garantia de um futuro sustentável para a nossa geração e as seguintes.
No entanto, os resultados que esperávamos desta conferência ficaram muito aquém das expectativas. A aprovação do Mutirão Global, por exemplo, tinha potencial para tornar esta uma COP de ações, mas a ausência de um roteiro para o abandono global dos combustíveis fósseis, como previsto inicialmente, trouxe uma série de desafios significativos. Esta lacuna veio, no entanto, reforçar a urgência de um esforço coletivo para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa e a necessidade de um maior alinhamento com o compromisso assumido na COP28 de promover uma transição gradual e eficaz para fontes renováveis e modelos circulares.
Tal como destacou o presidente desta Conferência das Nações Unidas, André Aranha Corrêa do Lago, o “real valor está no poder a unidade, mais do que na força individual”. Esta ideia resume, de forma simples, o verdadeiro motor para a mudança: cooperação internacional e ações concretas mensuráveis. Várias vezes, temos dado provas de que, quando mobilizamos governos, empresas e cidadãos, conseguimos inovar e criar soluções que sirvam o interesse coletivo da sociedade. Vimo-lo, por exemplo, com o desenvolvimento da vacina para o COVID-19. O verdadeiro desafio está em alinhar políticas públicas, incentivos e estratégias empresariais para que a ambição ambiental caminhe lado a lado com a solidez económica.
O Mutirão Global apela também ao reforço de financiamento para a adaptação climática de forma justa e com especial atenção às comunidades desfavorecidas e mais vulneráveis. Este documento também prevê a abertura de uma discussão mais clara sobre o papel do comércio internacional na descarbonização, destacando-o como crucial para a valorização dos ecossistemas como ativos económicos.
Até porque, a sustentabilidade e a viabilidade económica não podem ser conceitos antagónicos. Antes pelo contrário, é fundamental que sejam encarados como interdependentes. A transição climática só será eficaz se integrar soluções que conciliem redução de emissões com competitividade e estabilidade financeira. Modelos circulares, eficiência energética e inovação tecnológica são exemplos de abordagens que permitem alinhar objetivos ambientais com crescimento económico, garantindo que a descarbonização é, simultaneamente, viável e escalável.
Não se trata de escolher entre crescimento económico e sustentabilidade, mas de perceber que o futuro dependerá precisamente da capacidade de integrar ambas as dimensões. Uma transição feita à custa da estabilidade financeira ou social não será duradoura, tal como uma economia que ignora os limites ambientais não será viável a longo prazo.
No entanto, é necessário que se estabeleçam compromissos claros e vinculativos com a eliminação gradual do consumo fóssil. E é necessária mais ambição e ação política. A sua ausência pode conduzir a uma falsa perceção de progresso, em que a ação, os compromissos e as metas estipuladas ficam muito aquém do que o momento exige.
Se quisermos que a COP30 seja mais do que um encontro anual de intenções, é imperativo transformar compromissos em ação concreta. Isso exige políticas claras, incentivos consistentes e uma colaboração efetiva entre governos, ONGs, academia e setor privado. A transição climática só será justa e viável se integrar inovação tecnológica e modelos circulares que conciliem a redução de emissões com a competitividade económica.
É hora de transformar a sustentabilidade em vantagem estratégica, garantindo, principalmente, que cada investimento em engenharia e ciência traduz-se em impacto real e mensurável.









