Investigadores descobriram como uma estirpe de um parasita causador de diarreia conseguiu alargar o número de espécies que infeta, oferecendo novas pistas sobre a forma como as infeções parasitárias surgem e se propagam até aos humanos.
O estudo, liderado pelo Instituto Walter and Eliza Hall (WEHI), revelou um atalho genético que permitiu ao Giardia duodenalis — e potencialmente a muitos outros parasitas — saltar para novos hospedeiros, à custa da sua sobrevivência a longo prazo. Os resultados ajudam também a compreender como estes organismos desenvolvem resistência a medicamentos, com implicações relevantes para estratégias de tratamento em todo o mundo.
Segundo os autores, compreender estes mecanismos pode reforçar a vigilância em saúde pública e apoiar esforços para antecipar a transmissão de doenças de origem animal e o surgimento de resistências antes de estas se tornarem generalizadas.
Principais conclusões do estudo
Uma das principais conclusões do estudo é que uma linhagem assexuada do parasita Giardia consegue infetar uma gama mais alargada de hospedeiros do que a sua contraparte com reprodução sexual, embora essa vantagem tenha um custo evolutivo elevado, uma vez que a acumulação de mutações prejudiciais acaba por conduzir à extinção da linhagem. A investigação confirma ainda que a giardíase continua a representar um problema de saúde pública à escala global, provocando diarreia crónica e défices nutricionais, sobretudo em crianças.
Além disso, os investigadores concluem que os mesmos compromissos evolutivos que facilitam a adaptação a novos hospedeiros podem também estar na origem do desenvolvimento de resistência aos medicamentos, sublinhando a necessidade de estratégias de tratamento e de vigilância mais eficazes.
Um ameaça global à Saúde
A giardíase interfere com a absorção de nutrientes no intestino delgado, provocando diarreia persistente e atrasos no crescimento. Os quistos resistentes do parasita sobrevivem durante longos períodos na água e no ambiente, tornando os surtos difíceis de controlar.
Na Austrália, registam-se até 600 mil casos por ano, enquanto a nível mundial o número ultrapassa os 280 milhões. A doença afeta de forma desproporcionada crianças em comunidades mais pobres e em comunidades indígenas remotas.
Segundo o investigador principal, o professor Aaron Jex, a expansão de um parasita de um único hospedeiro para vários torna o controlo em saúde pública muito mais complexo.
“Ao identificarmos os padrões genéticos por detrás desta mudança, podemos antecipar melhor onde e como futuras infeções poderão surgir e desenvolver sistemas de vigilância mais eficazes para as travar”, afirmou.
A sobrevivência dos “quase aptos”
O estudo, publicado na revista Nature Communications, revelou um paradoxo evolutivo: uma linhagem assexuada de Giardia conseguiu infetar uma gama mais alargada de hospedeiros do que a sua antecessora sexual, apesar de estar numa trajetória genética que conduz à extinção.
Abandonar a reprodução sexual poderá ter sido a chave para que o parasita se tornasse um generalista, capaz de infetar animais de companhia, gado, vida selvagem e humanos. Esta capacidade de mudar de hospedeiro é um fator central no aparecimento de novas doenças humanas.
No entanto, a vantagem é temporária. Sem troca de material genético, as mutações prejudiciais acumulam-se ao longo do tempo, enfraquecendo o parasita até ao colapso da linhagem.
“Não é a sobrevivência do mais apto, mas do ‘mais ou menos apto’”, resume Aaron Jex. “Essa vantagem de curto prazo permite ao parasita espalhar-se antes de os problemas genéticos se tornarem fatais.”
Um caminho oculto para a resistência aos medicamentos
O mesmo mecanismo pode ajudar a explicar a forma como surge a resistência aos fármacos. As mutações que permitem sobreviver aos tratamentos tendem a reduzir a aptidão global do parasita. Em organismos com reprodução sexual, estas variantes são rapidamente ultrapassadas por outras mais competitivas.
Nos parasitas assexuados, porém, essas mutações persistem, criando uma janela de oportunidade para a disseminação de estirpes resistentes.
“Quando a reprodução sexual desaparece, a seleção natural torna-se menos eficiente”, explica o investigador. “Essa ineficiência pode permitir que parasitas resistentes aos medicamentos se mantenham e se espalhem.”
Porque é que o ‘sexo’ dos parasitas importa
A reprodução sexual não serve apenas para gerar descendência, mas também para garantir a sobrevivência a longo prazo. A recombinação genética ajuda os parasitas a manterem-se competitivos na corrida evolutiva com os seus hospedeiros.
Quando esse processo cessa, os ganhos imediatos — como a capacidade de infetar novos hospedeiros — surgem à custa da viabilidade futura.
A equipa pretende agora investigar se os mesmos atalhos genéticos que facilitam a mudança de hospedeiro também permitem a persistência de estirpes resistentes, e de que forma este conhecimento pode orientar estratégias de tratamento e sistemas de vigilância capazes de prevenir surtos antes de estes se instalarem.









