Concentração de CO2 na atmosfera já excede em 50% o nível pré-industrial

O máximo anual do dióxido de carbono (CO2) na atmosfera atingiu agora outro perigoso limiar, com a concentração global deste gás com efeito de estufa a ser 50% superior ao nível anterior à idade industrial.

Em relatório divulgado segunda-feira pela agência dos EUA para a Atmosfera e o Oceano (NOAA, na sigla em Inglês), salientou-se que a velocidade média de aumento é a mais rápida de sempre.

A NOAA avançou que a concentração média de CO2 em maio foi de 419,13 partes por milhão (ppm). Esta quantidade supera a homóloga em 1,82 ppm e é 50% superior ao nível estável da era pré-industrial, quando se situava nas 280 ppm, realçou o cientista climático Pieter Tans, da NOAA.

As ppm indicam o número de moléculas de CO2 por milhão de moléculas de ar seco.

Os níveis de dióxido de carbono na atmosfera atingem o máximo anual em maio, antes de a vida vegetal no Hemisfério Norte florescer, o que permite a absorção de parte desse CO2 pelas flores, folhas, sementes e caules.

Mas o alívio é temporário, porque as emissões de CO2 resultantes da queima de carvão, petróleo e gás natural para transporte e eletricidade excedem em muito a capacidade de absorção das plantas, o que coloca os níveis deste gás com efeito de estufa em valores recorde, ano após ano.

“Alcançar um nível de dióxido de carbono 50% acima do pré-industrial é realmente estabelecer uma nova referência, mas não uma boa”, considerou Natalie Mahowald, cientista climática da Universidade de Cornell, que não participou na investigação. “Se queremos evitar as piores consequências das alterações climáticas, precisamos de trabalhar muito mais para cortar as emissões de dióxido de carbono, e isto já”, acrescentou.

O aquecimento global faz muito mais do que elevar as temperaturas. Torna os eventos climáticos extremos, como tempestades, incêndios, inundações e secas, piores e mais frequentes e provoca a subida do nível do mar, que também fica mais ácido. Conduz também a problemas de saúde, incluindo mortes por calor, e ao aumento de alergias. Em 2015, foi assinado o Acordo de Paris, no quadro da Organização das Nações Unidas, com o objetivo de manter o aquecimento global abaixo de níveis considerado perigosos.

A concentração de CO2 é monitorizada também na montanha de Mauna Loa, no Havai, na Instituição de Oceanografia Scripps, da Universidade da Califórnia, em San Diego. Este controlo foi criado por Charles Keeling, em 1958, o que deu origem à famosa Curva de Keeling, e é hoje continuado designadamente pelo seu filho, o geoquímico Ralph Keeling.

A Scripps, que calcula os números de uma forma relativamente diferente, baseados no tempo e em médias, estima o pico de maio em 418,9.

Estes valores beneficiaram das contenções socioeonómicas determinados pelo combate à pandemia, que reduziram viagens, transportes e outra atividade.

O dióxido de carbono pode ficar no ar durante mil anos ou mais.

A média do aumento das ppm do CO2, considerando um período de referência de 10 anos, alcançou um máximo, de 2,4 ppm por ano.

“Um aumento destes do dióxido de carbono em poucas décadas é extremamente raro”, salientou Tans. “Por exemplo, quando a Terra saiu da última idade de gelo, o dióxido de carbono subiu cerca de 80 ppm, o que precisou de seis mil anos. Nós tivemos uma subida muito maior nas recentes décadas”, disse.

Em termos comparativos, foram precisos apenas 42 anos, de 1979 to 2021, para aumentar o CO2 naquela mesma quantidade.

“O mundo está a aproximar-se do ponto onde a ultrapassagem dos objetivos de Paris e a entrada em uma zona climática perigosa se tornam inevitáveis”, preveniu Michael Oppenheimer, climatólogo na Universidade de Princeton.

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