Dia Mundial das Abelhas: proteção aos polinizadores depende de todos

A Apis mellifera ou abelha-europeia, também conhecida por abelha-do-mel ou abelha-doméstica, é apenas um dos 20.000 tipos de abelhas que se conhecem e uma das poucas que é usada para produção de mel.

Globalmente, as abelhas polinizam até 170.000 espécies de plantas e as frutas e vegetais seriam muito menos abundantes sem abelhas; de facto cerca de um terço dos alimentos que comemos depende da polinização, pelo que as abelhas, juntamente com outros polinizadores, contribuem significativamente para a segurança alimentar mundial. O valor económico dos serviços de polinização a nível mundial foi inclusive, estimado em cerca de 150 mil milhões de euros.

No entanto, as abelhas estão cada vez mais ameaçadas de extinção. Na Europa, a extinção ameaça quase 10% de todas as espécies de abelhas. As principais causas desta situação são as doenças e infecções virais; a falta de fontes de alimento devido à agricultura intensiva com monoculturas e o corte frequente dos prados (as abelhas conseguem dessa forma aceder ao alimento apenas por um curto período de tempo no ano, o qual é também significativamente menos diverso do que no passado); o uso de pesticidas na agricultura; as novas pragas que se espalham rapidamente pelo mundo devido à globalização (ex: a vespa-asiática); o crescimento das zonas urbanas, que reduzem os habitats; a falta de locais de abrigo e instalação para polinizadores selvagens e por fim, mas não menos importante, as alterações climáticas.

Conhecimento e ação sobre as abelhas e outros polinizadores em Portugal

Apesar de haver um bom conhecimento sobre a abelha do mel (Apis mellifera) em Portugal, o conhecimento sobre as diversas espécies de abelhas selvagens em Portugal e o estado das suas populações, ainda é bastante deficiente. Há alguma expectativa com a publicação, em breve, do Livro Vermelho de Invertebrados Terrestres e Dulçaquícolas de Portugal, coordenado pelo Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, mas muito haverá a fazer nos próximos anos para Portugal chegar ao nível de conhecimento e capacidade de ação de outros países no espaço europeu.

Recentemente foi estabelecida a nível nacional a Rede Colaborativa de Avaliação, Conservação e Valorização dos Polinizadores e Serviços de Polinização, sob a liderança da FLOWer Lab, Centro de Ecologia Funcional do Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra. Esta rede será lançada oficialmente na presente semana, juntando representantes de 52 instituições de todo o território, incluindo a Quercus, que espera que a mesma venha a ser um pólo catalizador da mudança em Portugal e uma alavanca decisiva para a criação de um Plano de Ação Nacional para os Polinizadores.

SOS Polinizadores, um projeto apoiado pelo Grupo Jerónimo Martins

Em 2014, a Quercus iniciou a campanha SOS Polinizadores com o apoio da Jerónimo Martins, tendo realizado por todo o país sessões de esclarecimento sobre abelhas e vespas autóctones, procurando sensibilizar para a importância destes insetos e esclarecer a população sobre as espécies invasoras, com destaque para a vespa-asiática. Promoveram-se ações junto de agricultores e da comunidade, workshops sobre Apicultura Familiar, editaram-se materiais informativos e procurou sensibilizar-se os decisores para o peso que os insetos polinizadores, e as abelhas em especial, desempenham no ambiente e na economia nacional. A campanha irá continuar focada na sensibilização do público em geral, escolas e municípios e na articulação de esforços com outros stakeholders nacionais e europeus.

Cidades Amigas dos Polinizadores

A Quercus tem estado a divulgar o Guia para Cidades Amigas dos Polinizadores, que traduziu e adaptou para a língua portuguesa, uma publicação da Comissão Europeia elaborada pela ICLEI Europe com colaboração técnica da União Internacional para a Conservação da Natureza. O título completo desta publicação é “Guia para Cidades Amigas dos Polinizadores: como é que os responsáveis pelo planeamento e gestão do território podem criar ambientes urbanos favoráveis aos polinizadores?” e pode descarregar-se gratuitamente.

Município de Amarante prepara Plano de Ação para os Polinizadores

O Município de Amarante, inserido no distrito do Porto, está a preparar um Plano de Ação para os Polinizadores com a colaboração da Quercus. Esta ação surge na sequência do envolvimento do Município no projeto BeePathNet “O Caminho das Abelhas”, em parceria com Liubliana capital da Eslovénia e outras cidades europeias, no âmbito do Programa UrbAct.

Mais prado, menos relvado

As autarquias estão frequentemente sob a pressão dos residentes para que se efetuem podas, cortes, desmatações, desbates… Mas é exatamente necessário ir na direção oposta. Por exemplo, o singelo trevo-branco (Trifolium repens), geralmente visto como “erva-daninha”, que prolifera no meio da relva, com as suas flores brancas, é um excelente fornecedor de néctar e pólen para as abelhas. Por seu turno, os prados floridos são autênticos refúgios para as aves e excelentes oásis para os polinizadores. Alguns municípios portugueses já começam a dar o exemplo, introduzindo prados com flores silvestres, reduzindo a frequência de corte de relvados e abandonando o uso de herbicidas.

É necessário mais autarquias em ação, apostando também na sensibilização do público: as alterações na gestão do espaços verdes devem ser acompanhadas de medidas de comunicação à população para serem bem aceites. Por outro lado, a formação dos técnicos é um aspeto fundamental. O Arquiteto Ribeiro Telles trouxe a ideia do “prado” quando fez o restauro dos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian; mais tarde, foi semeado um prado biodiverso no Corredor Verde de Lisboa, a ele dedicado. Mas Ribeiro Telles já tinha alertado que havia um problema de falta de preparação dos técnicos para lidar com jardins com mata, prado e orlas de ligação, havendo a tendência de lhes ser aplicadas as regras da manutenção de um jardim do século XIX, incluindo cortar o prado como se tratasse de ervas daninhas.

Campanha Autarquias sem Glifosato e outros Herbicidas

A criação de espaços propícios às abelhas e outros polinizadores não é compatível com o uso de pesticidas. A Quercus tem, desde 2014, desenvolvido uma campanha para a sensibilização das autarquias – Câmaras Municipais e Juntas de Freguesias – focando-se na redução e mesmo abandono dos herbicidas químicos, e a sua substituição por métodos alternativos, promovendo também medidas para a aceitação das ervas espontâneas pela população. Nesse contexto, circula ainda pelo país uma exposição de desenhos em cadernos sobre as ervas espontâneas, realizados em 2017 em parceria com a associação UrbanSketchers Portugal.

Ações simples ao alcance do cidadão

A Quercus tem incentivado as pessoas a criarem habitat para abelhas e outros polinizadores selvagens, sobretudo através da rubrica Minuto Verde, emitida na RTP1, incluindo recorrer a flores que produzam bastante néctar e pólen, ação concreta ao alcance de qualquer pessoa que tenha jardim, horta, quintal ou floreiras na varanda. Por isso, em parceria com uma empresa portuguesa de sementes biológicas certificadas, a Quercus passou a vender na sua loja on-line pacotes de mistura de sementes selecionadas para alimentar abelhas e outros polinizadores. Estas e outras ações ao alcance do cidadão constam de um guia próprio, que será em breve divulgado pela Quercus.

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