A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), é uma organização intergovernamental que tem como objetivo alcançar a segurança alimentar para todos e garantir que as pessoas tenham acesso a alimentos de boa qualidade. Em Portugal, a FAO tem sede em Lisboa desde 2009. Falámos com Francisco Sarmento, Chefe de escritório e informação da FAO Portugal sobre sustentabilidade alimentar e de que forma isso tem impacto não só no nosso dia-a-dia mas também na qualidade de vida das gerações futuras.

 

Qual a forma de combater a fome e a desnutrição utilizando de forma sustentável os nossos recursos naturais como a terra, água e ar?

A FAO estima que o número de pessoas desnutridas tenha aumentado de 777 milhões (em 2015) para 815 milhões (em 2016). Estima-se que em 2050, teremos 9,8 mil milhões de habitantes, teremos metade da água que temos hoje e 1/3 menos de terra adequada em consequência da produção intensiva de hoje. Múltiplas formas de desnutrição, subnutrição, excesso de peso, obesidade, carência de micronutrientes, coexistem no mesmo País ao mesmo tempo.

Os sistemas alimentares atuais comprometem a produção alimentar futura e não nutrem adequadamente as pessoas.Se quisermos enfrentar os múltiplos desafios sociais, de saúde e ambientais causados pelos sistemas alimentares precisamos adotar padrões alimentares e produtivos mais saudáveis, respeitosos dos limites ambientais. Existem cada vez mais evidências de que padrões alimentares com baixos impactos ambientais são também consistentes com a promoção da saúde e maior democracia alimentar. Tais padrões podem representar uma melhoria substancial na forma como as pessoas comem, tanto em países onde os principais problemas são os de consumo excessivo e inadequado como em contextos de privação no acesso a alimentos ou onde as dietas não têm uma diversidade adequada.

Os desafios de hoje, incluindo as alterações climáticas, exigem novas abordagens. Uma delas, talvez a mais expressiva atualmente, é a “agroecologia”. A agroecologia aplica os conceitos e princípios ecológicos para otimizar as interações entre plantas, animais, seres humanos e meio ambiente. Tem também, em consideração, aspetos sociais importantes para um sistema alimentar sustentável entre eles a questão da equidade. Uma transição alimentar para modelos agroecológicos, consensual e assente na agricultura familiar, poderia contribuir para a revitalização de alguns territórios rurais, para um maior dinamismo de alguns setores económicos, novas relações de poder nas cadeias alimentares e melhor alimentação de alguns grupos sociais mais vulneráveis.

É preciso promover uma transição para modelos de produção sustentável, promover as cadeias curtas de distribuição, contribuindo para o desenvolvimento económico local e para as relações geográficas e sociais entre produtores e consumidores. A compra de alimentos da época e de produtores locais deve ser incentivada. Estes alimentos são ricos nutricionalmente e contribuem para a promoção da economia local e para a preservação dos recursos. A revitalização da dieta mediterrânica, amplamente considerada como um padrão alimentar saudável e sustentável e associada a melhorias significativas na saúde e no estado nutricional, pode representar uma das alternativas mais adequadas para modificar hábitos de consumo, de forma a promover uma alimentação mais saudável e sustentável. É fundamental educar e capacitar ao longo de todo o sistema alimentar, de modo a fortalecer e expandir este padrão alimentar.

O desperdício alimentar representa um desafio social, económico, ambiental, mas também ético. Quando desperdiçamos alimentos, desperdiçamos os recursos naturais que estão sob crescente pressão e o trabalho dos agricultores e agricultoras que todos os dias produzem os alimentos que chegam à nossa mesa. É necessário criar políticas públicas apropriadas, que garantam uma governança eficaz, para que os agricultores possam produzir alimentos nutritivos, enquanto conservam a biodiversidades, protegem os ecossistemas e minimizam os impactos ambientais. É também necessário promover ações de sensibilização junto de toda a cadeia alimentar, do produtor ao consumidor, de forma a consciencializar para a necessidade de uma ação global em torno do combate ao desperdício do sistema alimentar.

 

De que forma as gerações futuras podem beneficiar desta utilização eficiente dos nossos recursos?

Os múltiplos impactos da crise dos sistemas alimentares atuais suscitam preocupações éticas, políticas e económicas e a falta de ação perante este desafio provavelmente terá repercussões muito negativas nas gerações futuras.  A população mundial está a crescer exponencialmente estimando-se que em 2050 sejamos mais de 9 mil milhões de habitantes. Nessa altura, os recursos naturais, que estão sob forte pressão, serão cada vez mais escassos. Teremos metade da água que temos hoje e menos 1/3 de terra adequada em consequência da produção intensiva de hoje. Isto tudo ao mesmo tempo que a produção de gases com efeito de estufa levam ao aquecimento global e às alterações climáticas.

É necessário consciencializar as gerações atuais para o estado do planeta e para os riscos da insustentabilidade dos sistemas alimentares atuais. É fundamental produzirmos e consumirmos de forma adequada hoje para que as novas gerações possam ter a oportunidade de usufruir igualmente do planeta e dos recursos naturais no futuro.

 

Além de sermos sustentáveis na produção do que comemos, de que outras formas se concretiza a sustentabilidade alimentar?    

A FAO desenvolveu uma visão comum e uma abordagem integrada para a sustentabilidade do sistema alimentar, promovendo cinco princípios: Melhorar a eficiência na utilização dos recursos; ter uma ação direta para conservar, proteger e melhorar os recursos naturais; proteger os meios rurais de subsistência e melhorar a equidade e o bem-estar social; melhorar a resiliência das pessoas, comunidades e ecossistemas, especialmente as alterações climáticas e a volatilidade dos mercados; promover a boa governação para uma melhor sustentabilidade dos sistemas naturais e humanos.

Para a FAO, todos os seus Estados-Membros e as demais Agências das Nações Unidas, a boa governança na área da alimentação e nutrição, baseia-se na participação de todos os atores relevantes, concretamente, a Sociedade Civil, o Sector Privado, as Instituições Financeiras Internacionais, as Instituições Académicas e de Investigação e os Governos. As soluções para os atuais desafios colocados à questão da sustentabilidade alimentar não passam por uma ação setorial de um Ministério apenas, mas de um arranjo institucional adequado ao contexto de cada País. É fundamental a criação de mecanismos de Governança ao nível nacional, que possibilitem uma maior coordenação de áreas de governação e a participação dos atores mais relevantes. Torna-se também evidente a necessidade de desenvolver políticas e estratégias locais (municipais e intermunicipais) de alimentação e nutrição que integrem as diversas áreas do domínio público relacionadas com a alimentação e que combinem ações ao nível da agricultura, ambiente, economia, saúde, educação, planeamento, proteção social e proteção civil, em vista do estabelecimento de sistemas alimentares mais integrados, justos e sustentáveis. Nessas estratégias será importante que os países valorizem a sua cultura alimentar, o seu conhecimento tradicional alimentar e nutricional. Só assim poderão ocorrer mudanças efetivas em todos os sistemas alimentares. A implementação de políticas e programas adequados tem o potencial de moldar os sistemas alimentares, melhorando os ambientes alimentares através da facilitação do acesso físico e económico a dietas saudáveis e sustentáveis, em linha com a cultura alimentar local, permitindo escolhas alimentares mais saudáveis e menos complexas, contribuindo, assim, para a realização progressiva do Direito Humano à Alimentação Adequada.