Entrevista: Economia circular “começa a ser vista como alternativa aos modelos de negócios tradicionais”

A Fundação Manuel Violante foi criada por um grupo de amigos e familiares do Manuel Violante após a sua morte em 2004. É uma organização sem fins lucrativos, cuja missão é contribuir para o desenvolvimento do setor social português através da capacitação em gestão das suas organizações. A capacitação “é um dos principais pilares para o desenvolvimento do setor e a Fundação ao longo dos últimos 15 anos já trabalhou com perto de 400 organizações”, aponta Patrícia Rocha, diretora executiva, que acredita que a economia circular “começa a ser vista como alternativa aos modelos de negócios tradicionais”.
– Qual a sua visão sobre a economia social e o que é que deve ser feito para dinamizar o terceiro setor?
A economia social desempenha um papel fundamental na nossa sociedade contribuindo para o desenvolvimento sustentável e coesão social, apoiando populações vulneráveis e desenvolvendo serviços de interesse público.
Para além da contribuição para o PIB e do peso no emprego, é o setor que por excelência combate as desigualdades sociais, presta serviços de apoio social e de saúde essenciais, particularmente a populações fragilizadas, tem um papel importante no desenvolvimento das economias locais e atua na primeira linha em situações de crise, demonstrando uma resiliência e capacidade de reinvenção bastante superior ao setor privado. Nos últimos anos, a economia social portuguesa tem vindo a destacar-se pela introdução de soluções inovadoras a problemas sociais em mudança e cada vez mais complexos.
“No futuro, é esperado que a economia social tenha uma presença cada vez mais significativa na economia portuguesa, consolidando o seu papel de pilar fundamental na construção de uma sociedade mais inclusiva e justa”
No entanto, para que seu impacto seja ampliado, é essencial adotar medidas que promovam a sua dinamização. Em primeiro lugar, é necessário fortalecer o apoio institucional e financeiro a estas entidades, facilitando o acesso a fundos, nacionais ou internacionais, e a investimentos cada vez mais ligado a resultados e impacto. O reforço da capacitação das equipas destas organizações é também fundamental, garantindo que têm as competências necessárias para inovar e gerir os seus recursos de forma eficaz e alcançar os resultados esperados nas suas comunidades.
Além disso, o reforço das redes de colaboração entre organizações da economia social, empresas e setor público gera sinergias positivas, facilitando a troca de boas práticas de gestão e o desenvolvimento de projetos conjuntos, ganhadores para todas as partes. A inovação social e o uso de novas tecnologias devem ser incentivados, promovendo soluções criativas para os desafios sociais e ambientais atuais.
No futuro, é esperado que a economia social tenha uma presença cada vez mais significativa na economia portuguesa, consolidando o seu papel de pilar fundamental na construção de uma sociedade mais inclusiva e justa. Através do fortalecimento da sua base organizacional e da adoção de uma cultura de inovação e sustentabilidade, este setor pode ser um motor de transformação, capaz de equilibrar o crescimento económico com o bem-estar social e ambiental.
– Qual o contributo da Economia Social para o Desenvolvimento Sustentável?
O papel da economia social no desenvolvimento sustentável tem várias dimensões, atuando de forma integrada nos pilares económico, social e ambiental. Socialmente, a promoção da inclusão social e a redução das desigualdades, assim como a procura pela criação de emprego sustentável e para todos; ambientalmente a procura por soluções ambientalmente responsáveis, a promoção da transição energética justa ou a reciclagem.
A inovação como ferramenta de promoção do desenvolvimento sustentável tem também sido colocada na agenda por entidades da economia social. São estas que procuram novas formas de resolver problemas sistémicos como a pobreza ou o desemprego através de soluções inovadoras.
“A capacitação em gestão das equipas destas organizações é chave para que muitos desafios de gestão, incluindo os ligados à sustentabilidade, possam ser ultrapassados. É o desenvolvimento destas competências que vai permitir melhorar a capacidade da intervenção, pensar em impacto e escalabilidade”
Finalmente a economia circular que começa a ser vista como uma solução para maximização do aproveitamento de recursos e até como uma alternativa aos modelos de negócios tradicionais.
– A economia social, segundo o INE, contribui com cerca de 3,0% do PIB nacional e empregar mais de 270.000 pessoas, divididas por 72.000 entidades. Estamos no bom caminho?
Comparando com outros países europeus, França, Espanha ou Itália, Portugal ainda tem um espaço para crescer tanto em termos de peso no PIB quanto na criação de emprego. No entanto, os dados são já bastante animadores e, considerando o número de entidades e pessoas empregadas, o setor tem boas perspectivas para expansão futura. A tendência em Portugal tem sido de crescimento contínuo, em resposta ao fortalecimento de algumas políticas de apoio ao setor e a cada vez maior consciencialização sobre o papel absolutamente crítico que tem no desenvolvimento sustentável.
No entanto, o reforço e apoio a este setor deve manter-se até que as taxas de cobertura sejam efetivas. Atualmente em diferentes áreas de intervenção, a resposta social é insuficiente, o que, juntamente com a inexistência de solução pública ou privada possível, origina a falta de resposta a uma percentagem considerável da população.
“O Plano de Ação para a Economia Social da Comissão Europeia de 2021 é uma ferramenta importantíssima na dinamização do setor e promoção do seu papel no desenvolvimento sustentável e inclusivo”
Alguns dados que permitem perceber o caminho que Portugal ainda tem para fazer. Em França e Itália a economia social representa 10% do PIB e em Espanha ~8%. O setor social francês é um dos mais fortes a nível europeu, empregando ~2,4 milhões de pessoas.
– Que desafios enfrenta ainda ao nível da sua autossubsistência, na sustentabilidade do seu modelo e da capitação dos seus recursos?
Apesar de identificados e conhecidos há vários anos, os desafios da economia social subsistem, mesmo que possam ser considerados já em menor escala.
Desde logo o desafio da sustentabilidade financeira, a capacidade de financiamento é um desafio decorrente do modelo de negócio destas entidades, difícil de ultrapassar. Esta condição torna as organizações mais dependentes de donativos e parceiros de curto prazo.
A capacitação em gestão das equipas destas organizações é chave para que muitos desafios de gestão, incluindo os ligados à sustentabilidade, possam ser ultrapassados. É o desenvolvimento destas competências que vai permitir melhorar a capacidade da intervenção, pensar em impacto e escalabilidade.
Atualmente em Portugal a regulação do setor também não facilita o desenvolvimento destas organizações, os processos são por vezes demasiado burocráticos dificultando o acesso a apoios públicos ou programas de financiamento.
– O reconhecimento do importante papel da Economia Social na promoção do Desenvolvimento Sustentável acontece no seguimento de outras iniciativas de instâncias transnacionais, como foi o caso anterior da aprovação, pela Comissão Europeia, de um Plano de Ação para a Economia Social, em dezembro de 2021.Como é que avalia este plano?
O Plano de Ação para a Economia Social da Comissão Europeia de 2021 é uma ferramenta importantíssima na dinamização do setor e promoção do seu papel no desenvolvimento sustentável e inclusivo. Propõe caminhos para ultrapassar os desafios já identificados, como o acesso ao financiamento e a garantia da sustentabilidade, enquanto impulsiona as organizações da economia social em direção à transição verde e digital. Contudo, como em qualquer plano desta natureza, o seu sucesso irá depender da capacidade de implementação, especialmente nos Estados-Membros onde o setor ainda é menos desenvolvido ou menos ágil.
Este documento reflete o reconhecimento da economia social como uma força fundamental para o crescimento sustentável, ancorado nos ODS. Apresenta medidas para fortalecer o ecossistema social europeu, para facilitar o apoio financeiro a estas entidades (através de instrumentos financeiros específicos para a economia social), reconhece a importância da transição verde e digital e volta a referir a absoluta necessidade de garantir que existem programas de formação e capacitação para os colaboradores destas organizações.
– Como é que surge a Fundação Manuel Violante, há quantos anos trabalha na economia social e quantas organizações tem no currículo?
A Fundação Manuel Violante foi criada por um grupo de amigos e familiares do Manuel Violante após a sua morte em 2004. O Manuel foi uma pessoa impactante que deixou a sua marca pessoal e profissional em todos que com ele se cruzaram. Fundou o escritório da McKinsey em Portugal e inspirou colegas e clientes que se tornaram amigos.
A Fundação foi criada para replicar o impacto que o Manuel sempre teve. É uma organização sem fins lucrativos, cuja missão é contribuir para o desenvolvimento do setor social português através da capacitação em gestão das suas organizações. A capacitação é um dos principais pilares para o desenvolvimento do setor e a Fundação ao longo dos últimos 15 anos já trabalhou com perto de 400 organizações.
– São uma organização sem fins lucrativos. Neste sentido, como é que é o vosso modelo de financiamento?
Temos como objetivo permitir o acesso à capacitação a todas as organizações que queiram capacitar a sua equipa e para isso queremos destruir todas as barreiras à capacitação, incluindo o investimento financeiro que as organizações têm de fazer para integrar este tipo de programas. Nesse sentido, o nosso modelo de financiamento conta com a participação de parceiros que permitem que as organizações se capacitem a muito baixo custo.
– A Fundação Manuel Violante ambiciona provocar a mudança de paradigma na economia social trabalhando ao lado do setor privado e público na construção de uma sociedade mais justa, equilibrada e sustentável. De que forma?
O contexto económico e social em que vivemos exige um setor social forte, capaz de responder de forma eficaz, que consiga continuar na linha da frente sem pôr em causa a sua sustentabilidade e as suas equipas. Para isso, precisamos de garantir que as organizações da economia social são organizações sólidas, com lideranças fortes e equipas motivadas e profissionais. Organizações com um propósito direcionado para o seu beneficiário, conscientes dos novos desafios sociais que surgem e capazes de lhes responder de forma inovadora. É este o nosso foco quando trabalhamos com as organizações sociais, mas sabemos que para o impacto ser maior, é necessário envolver vários intervenientes do setor – nada se constrói se estivermos virados para dentro.
Envolvemos, assim, de diferentes formas estes intervenientes: seja enquanto parceiros da Fundação e, para isso, precisam de estar muito alinhados com o nosso propósito, seja como parceiros nos nossos programas apoiando de forma muito directa a capacitação de organizações sociais contribuindo com conhecimento ou com bolsas para a viabilização da participação destas organizações no programa.
– Quais os resultados dos últimos anos?
Nos últimos cinco anos capacitámos mais de 100 organizações (de um total de 350 até ao ano passado).
Este ano, pela primeira vez, estamos a trabalhar com quase 50 organizações sociais ao mesmo tempo, o que é já um resultado do esforço que a Fundação tem feito para conseguir, efectivamente, provocar a mudança de paradigma na economia social referida anteriormente.
Para se ter uma ideia, as 48 organizações que estamos a capacitar actualmente representam um total de 3 821 colaboradores e impactam directamente 104 989 beneficiários.
“É através do MILES que a Fundação Manuel Violante cumpre a sua missão.
Com efeito, neste programa trabalhamos com as equipas das organizações da Economia Social para que se sintam mais preparadas para enfrentar os desafios do dia-a-dia”
Estes resultados quantitativos orgulham-nos, obviamente, mas o que realmente mais nos surpreende são as histórias de transformação a que assistimos ano após ano: equipas mais motivadas, líderes mais empoderados e inspiradores, organizações com dificuldades financeiras que criaram formas de gerar receitas próprias, multiplicação de projetos em organizações que eram muito pouco conhecidas, entre muitas outras… O mais surpreendente é que estas conquistas resultam da implementação de medidas simples e muito práticas, mas que são realmente transformadoras.
– Consegue dar um exemplo específico de sucesso?
Temos vários!
Um com que com certeza muitos se vão identificar é o de uma organização do Norte do país que criou a função de diretor executivo, mas a pessoa que assumiu esta função não se sentia verdadeiramente capaz de enfrentar alguns desafios relacionados com a equipa: desmotivação, falta de alinhamento, comunicação muito difícil com alguma toxicidade entre alguns elementos.
Participando no nosso “programa-estrela”, o MILES, a nova diretora executiva aproveitou para envolver a equipa em torno dos desafios de gestão da organização e, ao mesmo tempo, desenvolver-se enquanto líder.
O resultado não poderia ter sido melhor: “A nossa organização vai levar desta experiência no programa uma liderança muito mais eficaz, mas acima de tudo uma grande valorização da equipa.”
– O que é que é o programa MILES?
É através do MILES que a Fundação Manuel Violante cumpre a sua missão.
Com efeito, neste programa trabalhamos com as equipas das organizações da Economia Social para que se sintam mais preparadas para enfrentar os desafios do dia-a-dia.
Ao identificarmos as áreas prioritárias destas organizações através de um diagnóstico inicial, conseguimos oferecer-lhes ferramentas de gestão direcionadas, muito práticas e implementáveis no terreno. Ao longo do programa e conforme os diferentes temas de gestão que são trabalhados, assistimos a uma mudança nos procedimentos e práticas, mas também a uma grande mudança de mindset nas equipas, o que contribui para os resultados que esperamos: organizações mais fortes, mais estruturadas, mais sustentáveis, mais inovadoras e com maior impacto.
Actualmente a escala do MILES permite-nos ter um alcance nacional, o que significa que conseguimos capacitar organizações de Norte a Sul do país.
– Qual a vossa equipa e com quantos voluntários contam?
Sempre foi uma opção da Fundação manter uma equipa pequena, mas com um forte trabalho em rede.
Em primeiro lugar contamos com cerca de 80 voluntários ativos no MILES, o que é extremamente importante para garantirmos a escala que alcançámos. Depois, temos parceiros que acrescentam valor em termos de conhecimento e tecnologia: dois exemplos são o ISCTE Executive Education que é um parceiro incontornável já há alguns anos em várias frentes do nosso trabalho e a Miles in the Sky que nos garante uma resposta tecnológica e uma metodologia de educação verdadeiramente diferenciadoras para que continuemos a responder de forma muito eficaz aos desafios das “nossas” organizações.
*Entrevista publicada originalmente na edição em papel de dezembro de 2024